Confidencial / Infamous


Nota: ★★★½

Anotação em 2007, com complemento em 2008: Um belo, ótimo filme, que teve o azar de ser lançado um pouco depois de outro exatamente sobre o mesmo tema, a mesma história, o mesmo episódio – Capote/Capote, de 2005. E que belíssima abertura.

Só me lembro de outro caso de dois filmes feitos na mesma época sobre exatamente o mesmo tema – o Ligações Perigosas/Dangerous Liasons, de 1988, de Stephen Frears e o Valmont de Milos Forman, de 1989, ambos adaptações do romance de Choderlos de Laclos.

Capote, com Philip Seymour Hoffman, esse ator extraordinário, no papel de Truman Capote, foi lançado quase um ano antes deste filme aqui, contando a mesmíssima história – como o escritor criou o livro A Sangue Frio. Seymour Hoffman fez um belo trabalho, e levou o Oscar de melhor ator; o filme teve outras cinco indicações, inclusive as de diretor e filme.

 Embora feito depois, e sem ganhar as indicações e prêmios do anterior, este filme aqui é melhor que o outro em tudo. Principalmente porque, ao contrário do outro, não é apenas uma louvação da genialidade de Capote; louva suas qualidades, sim, mas é muito mais crítico à figura do escritor, e ousa mostrar mais claramente a paixão que ele teve pelo assassino da família da fazenda do Kansas – interpretado, e muito bem, por Daniel Craig, que estava atingindo naquele momento o superestelato como o novo James Bond.

O ator que fez Capote, Toby Jones, está extraordinário – enfrenta a inevitável comparação com a atuação de Seymor Hoffman, e até a suplanta. Sandra Bullock tem o que considero a melhor interpretação da carreira como Harper Lee, a grande amiga de Capote, autora de To Kill a Mockingbird, aquele romance extraordinário, que viraria um filme igualmente extraordinário, O Sol é Para Todos/To Kill a Mockinbird. O elenco de apoio é espetacular – Jeff Daniels, Sigourney Weaver, Hope Davis, Isabella Rossellini, Gwyneth Paltrow.

 Todo o filme, na verdade, é muito mais rico, mais denso, mais cheio de nuances, muito mais sutil, e ao mesmo tempo mais explícito, do que seu primo-irmão Capote. Não que Capote seja um mau filme – não é, de forma alguma. É que este aqui é melhor.

Na introdução, um show de Gwyneth

 A abertura do filme é um brilho à parte. Funciona assim como as introduções nas canções populares – que muitas vezes são esquecidas em gravações de cantores mais jovens. A MPB tem várias músicas com introdução; várias da bossa nova têm – assim como Noel Rosa, Tom Jobim gostava de uma canção com introdução. Na GMA, a Grande Música Americana, as aberturas também eram comuns. Pois então o diretor Douglas McGrath quis fazer seu filme com uma introdução como se fosse uma canção pop.

 É assim: estamos num belo, elegante, requintado, levemente kitsch restaurante night club de Nova York (há falsos coqueiros junto ao palco – seria o famoso Copacabana? Não sei). Enquanto vai começando a apresentação, os créditos iniciais, vemos em grandes close-ups sofisticados drinques sendo preparados; depois vêm rápidas, bem rápidas tomadas do público, em roupa de gala, homens de black-tie, mulheres em longos; casa já cheia, coloca-se uma nova mesa num excelente lugar, evidentemente para VIPs bem VIPs; nela senta-se Sigourney Weaver, aquela deusa, com um sujeito gordinho, baixinho, gestos abertamente veados – Capote, evidentemente.

 Quem prestar atenção ao detalhe da mesa sendo colocada estará perdendo os nomes dos atores – aqueles diversos grandes nomes.

 Entra uma cantora no palco, apresentada como Kitty Dean. É Gwyneth Paltrow. Kitty/Gwyneth começa a cantar What is this Thing Called Love?, um dos muitos clássicos de Cole Porter – e a voz é de Gwyneth. Gwyneth está no centro da tela – ainda e sempre em tomadas curtas, que mostram os clientes, as mesas. Enquanto isso, continuamos com os letreiros – quem vê a ação não vê os nomes, quem vê os nomes não vê a ação.

Gwyneth brilha. Ela canta bem, e canta com swing – o standard de Cole Porter pode ter essa leitura, alegre, levemente debochada, irônica, gozativa.

Lá estão os letreiros, lá está Gwyneth, lá estão os clientes do night-club conversando. E, de repente, silêncio. Gwyneth pára de cantar, como se tivesse visto algo que a surpreendesse, como se estivesse à beira de um ataque de nervos, como se fosse cair dura no chão. Tomada rápida em plano americano na mesa de Truman Capote e a socialite que o acompanha na pele – e que pele – de Sigourney Weaver. Tomadas rápidas várias. Close-up do rosto de Truman Capote – o silêncio é absoluto, e ninguém fala uma palavra, todos se perguntam o que está acontecendo com a cantora, que de repente parou de cantar. Truman Capote faz uma cara de ponto de interrogação – o que houve com a cantora?

Alguns segundos depois, a cantora como que se refaz, volta a cantar baixinho, e em seguida olha para a orquestra atrás dela e retoma o refrão, alto, normal, dando ênfase ao swing, ao balanço, ao ritmo: mas que caralho afinal é esta coisa chamada amor?

Corte. Termina a apresentação, termina a introdução, estamos no apartamento imenso de Truman Capote, o escritor dândi veado rico, um tanto de ressaca da noite anterior. Ele vagueia, pega o New York Times do dia, vai para a cama de veado rico. É o dia 16 de novembro de 1959. Ele folheia o jornal e lá dentro, numa página qualquer lá bem de dentro, em uma coluninha, lê a notícia que mudaria a história do jornalismo, do texto jornalístico, da literatura: “Fazendeiro rico 3 de família assassinados”. (O título é assim mesmo, torto: “Wealthy farmer 3 of  family slain”.)

 Vai começar a história que todos nós conhecemos.

 Ah, sim. Não adianta procurar em alfarrábios por Kitty Dean, a cantora que Gwyneth finge que interpreta – Kitty Dean nunca existiu. Os alfarrábios dizem que aquela cena inspirou-se em uma apresentação da cantora Barbara Cook.

Não interessa. A performance de Gwyneth Paltrow, como atriz que até canta, é de aplaudir de pé.

Confidencial/Infamous já começa bem, com um introdução belíssima, como as melhores canções pop – e mantém o nível por duas horas seguidas.   

 Confidencial/Infamous

De Douglas McGrath, EUA, 2006.

Com Toby Jones, Sandra Bullock, Daniel Craig, Jeff Daniels, Sigourney Weaver, Hope Davis, Isabella Rossellini, Gwyneth Paltrow, Peter Bogdanovich

Roteiro Douglas McGrath

Música Rachel Portman

Produção Jack and Henry Productions. Estreou em São Paulo 1/6/2007, em Paris 4/4/2007.

Cor, 118 min

***1/2

10 Comentários para “Confidencial / Infamous”

  1. Demorei muito tempo para ver esse filme, e quando finalmente vi, me decepcionei. Não foi um filme que me prendeu, tanto que só consegui assistir depois de várias tentativas. Sempre parava no começo, e deixava pra outro dia.
    Não gostei do clima da história, das atuações, da humanização dos assassinos (isso pra mim foi o pior; o que pode haver de humano em duas criaturas que matam a sangue frio uma família inteira? As cenas são bem pesadas, acho que nem vi toda a sequência).
    Achei ridícula aquela família deslumbrada com os atores que Capote dizia conhecer. Não gostei da atuação da Sandra Bullock, de quem eu até gosto, esperava mais da personagem (por falar nisso, vem aí a polêmica continuação de “O Sol é Para Todos”). Enfim, não entrei em sintonia com o filme.
    Talvez eu compre o livro um dia, pois falam que a escrita do Capote é muito envolvente.

  2. O livro é extraordinário, Jussara. Li faz muito tempo; quero reler.
    Um abraço.
    Sérgio

  3. Bom saber, Sérgio, vou colocar na minha lista então! Uma vlogueira literária que eu sigo fala muito bem dele, mas ela é super fã de Capote, então eu a achava suspeita. Mas você falando vou levar fé. Só vou esperar aparecer uma promoção, porque acho o preço salgado para algo que foi lançado há anos.
    Abraços.

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