Taxi Driver e Vivendo no Limite / Bringing Out the Dead


Nota: ★★★★

Resenha na coluna O Melhor do DVD, no site estadao.com.br, em 2000: Quando Taxi Driver foi mostrado no Festival de Cannes de 1976, o presidente do júri, o dramaturgo Tennesse Williams, ele mesmo um especialista em situações de violência psicológica e emocional, não escondeu de ninguém que achou o filme do jovem Martin Scorsese violento demais. Dois anos atrás (em 1998, portanto), entrevistado antes de presidir o Festival de Cannes versão 1998, o veterano Scorsese, Palma de Ouro por Taxi Driver, melhor diretor no mesmo festival em 1985 por After Hours, se lembrou disso: “Ele saiu da projeção dizendo que não tinha gostado”.

Tennesse Williams tinha razão: o filme é extremamente violento. Ainda hoje, um quarto de século e tanta violência explícita nas telas e na vida depois, Taxi Driver espanta.

Pois Vivendo no Limite, o filme mais recente de Scorsese, feito com o mesmo roteirista de Taxi Driver, Paul Schrader, de novo sobre um protagonista que percorre as ruas de Nova York à noite, em meio a todo tipo de dor e miséria humana, consegue ser ainda mais violento. E, no entanto, apesar de toda a barra profundamente pesada de uma viagem ao inferno, é um filme que deixa entrever esperança. Um quarto de século mais velhos, Scorsese e seu roteirista vêem seus trágicos personagens com uma imensa compaixão. E seus trágicos personagens têm compaixão uns dos outros, e, às vezes, até de si próprios.

É fascinante ver como há pontos em comum entre os dois filmes – e como há pontos absolutamente díspares, opostos (veja o quadro abaixo). Em quase tudo, Frank Pierce, o protagonista do Scorsese 1999, é o oposto de Travis Bickle, o do Scorsese 1976.

Travis vagava insone pela noite da capital do mundo com nojo das pessoas que via – nojo, desprezo, como se ele fosse melhor do que todas elas. Quando, por conta de sua psicose, acirrada por um flerte tão equivocado quanto desapontador, resolve interferir na realidade que vê, é através de revólveres, do assassinato. E se, em vez de bandido, inimigo público número 1, ele acaba virando herói, é apenas por um capricho do destino, não por sua escolha.

Frank vaga insone pela noite da capital do mundo com pena das pessoas que vê – e de si mesmo. Seu trabalho como paramédico e motorista de ambulância é interferir na realidade, salvar vidas, no mínimo adiar a morte. E sua profunda crise espiritual vem exatamente do fato de que há tempos ele não consegue salvar ninguém; é por isso que os fantasmas o atormentam cada vez mais. 

Nicolas Cage interpreta magistralmente os monólogos de seu personagem Frank – um belíssimo texto. Depois da primeira das três noites de cão que ele enfrenta inferno adentro, Frank diz: “Salvar a vida de alguém é como se apaixonar – a melhor droga no mundo. Por dias, às vezes semanas, depois, você anda pela rua tornando infinito tudo que vê. Uma vez, por semanas, eu não conseguia sentir a Terra. Tudo em que eu encostava fica mais leve. Trompetes tocavam nos meus sapatos, flores caíam dos meus bolsos. Você imagina se não ficou imortal, como se tivesse salvado sua própria vida também. Deus passou através de você. Por que negar? Por que negar que, naquele momento, Deus foi você?”

No pequeno documentário do DVD de Vivendo no Limite, o autor do livro em que Paul Schrader se baseou para fazer o roteiro, Joe Connelly (um ex-paramédico que usou sua própria experiência de vida para criar Frank Pierce) fala dessa sensação que se tem ao salvar uma vida – e, assim como seu personagem, lembra Deus. Scorsese emenda essa fala do autor do livro com uma observação sobre o conflito interno dessas pessoas: “Elas têm que ultrapassar esse ego enorme, esse orgulho enorme, para chegar à verdadeira essência do que elas fazem, que é a compaixão”.

Numa entrevista durante as filmagens, o cineasta disse: “O filme pode parecer amargo para muita gente, mas o que eu estava tentando abordar, entre outras coisas, era o problema do auxílio ao próximo, da culpa de quem não se importa com o outro, de não fazer nada por ele”.

É como se o mundo se dividisse entre os que têm e os que não têm compaixão.

Nunca é demais lembrar: Scorsese é católico, de família (italiana) católica praticante, e, quando jovem, pensou em ser padre; e Schrader vem de uma família de calvinistas rigorosos, tão rigorosos que ele só pôde ver o primeiro filme de sua vida quando tinha cerca de 18 anos. Os dois trabalharam juntos na adaptação do livro de Nikos Kazantzakis, O Cristo Recrucificado, para o filme A Última Tentação de Cristo, que traz, seguramente, o Cristo mais dolorosamente humano jamais criado pelo cinema. E o filme imediatamente anterior do cineasta é Kundun, que, também como nenhum outro, deificou, divinizou um ser humano – no caso, o Dalai Lama. “Toda a minha vida tem sido cinema e religião”, ele já disse.

A realidade que Travis Bickle e Frank Pierce vêem é exatamente a mesma: o caos, o absurdo, o chocante desfilar de misérias e miseráveis, bêbados, drogados, prostitutas, destituídos, suicidas, baleados, enfartados, reincidentes, neuróticos, psicóticos, surtados, loucos de pedra. O olhar de um e de outro é que é diferente, faz a diferença.

 

Taxi Driver

Vivendo no Limite/Bringing out the dead
Produção EUA, 1976. EUA, 1999.
Diretor Martin Scorsese.Estava com 33 anos; fora obras iniciais, pouco conhecidas, tinha feito apenas dois filmes, Caminhos Perigosos/Mean Streets, de 1973, também com Robert De Niro e Harvey Keitel, sobre jovens vivendo no território da Máfia em Nova York, e Alice Não Mora Mais Aqui, de 1974, sensível história sobre o recomeço da vida de uma mulher descasada. Martin Scorsese.Aos 57 anos, com mais de uma dúzia de filmes dirigidos depois de Taxi Driver (fora participações como produtor executivo e ator em diversos outros), era inequivocamente reconhecido como um dos principais diretores da segunda metade do século em todo o mundo. Seu filme mais recente havia sido Kundun, de 1997. 
Roteiro e argumento Roteiro de Paul Schrader, que, até então, aos 29 anos, tinha tido carreira como crítico de cinema e assinado apenas um roteiro e um argumento. Dois anos depois de Taxi Driver, Schrader dirigiu Vivendo na Corda Bamba/Blue Collar), primeiro de uma dezena de obras, entre as quais Gigolô Americano, de 1980, a refilmagem de A Marca da Pantera/Cat People, de 1982, e Mishima, de 1985, com produção de Francis Ford Coppola e George Lucas. Roteiro de Paul Schrader, baseado em romance de Joe Connelly, ele próprio um paramédico em Nova York, como seu protagonista. Paralelamente a seu trabalho como diretor, Schrader assinou roteiros importantes para outros cineastas, inclusive duas obras-primas de Scorsese, O Touro Indomável, de 1980, e A Última Tentação de Cristo, de 1988. Schrader se casou com Mary Beth Hurt, que interpreta uma enfermeira em Vivendo no Limite.
Elenco Robert De Niro, Jodie Foster, Albert Brooks, Harvey Keitel, Cybill Shepherd, Leonard Harris, Peter Boyle.Os três primeiros, assim como o roteirista, iriam mais tarde dirigir seus próprios filmes. Nicolas Cage, Patricia Arquette, John Goodman, Ving Rhames, Tom Sizemore, Mary Beth Hurt.
Ação Nova York, 1973. Nova York, começo anos 90.
Local de filmagem Nova York, 1975. Nova York, 1999.
O “herói” Travis Bickle, 26 anos, é um veterano do Vietnã que, por não conseguir dormir, emprega-se como motorista de táxi. Solitário, desequilibrado, psicótico, primeiro deseja que Deus livre a cidade do “lixo”, da “escória”, do “esgoto”; vai, afinal, tomar para si a tarefa de limpeza; o instinto assassino o transformará em herói..  Frank Pierce, idade não falada, é um paramédico – na prática, um dublê de motorista de ambulância, enfermeiro, às vezes médico – à beira de um colapso nervoso, infernizado pelo fantasma de uma menina de rua que não conseguiu salvar; vai, afinal, tomar para si a tarefa de aliviar a dor de um homem por quem se compadece com especial carinho. 
O que ele encontra – e o que não encontra. Prostitutas, drogados, miseráveis; uma mulher belíssima que trabalha num comitê eleitoral e que ele leva para ver um filme pornô; uma garota de 12 anos que se prostitui explorada por um cafetão. Não se vê, em momento algum, uma pessoa que pense em algo que não seja egoísta, voltado para si mesmo. Moribundos, suicidas, bêbados, drogados, miseráveis, traficantes,  desajustados de todas as formas, o lumpen mais abjeto, a miséria humana mais trágica que se possa imaginar. No meio de tudo isso, no entanto, das formas mais improváveis possíveis, há solidariedade, carinho, compaixão.
A forma de dizer Travis é um narrador apenas do factual; não tece considerações sobre a loucura que o cerca e que o domina. Tudo é mostrado implicitamente; não há nada explícito, verbalizado. Frank é um narrador que abre o coração, que mostra as dúvidas, as angústias, as inquietações, a perplexidade diante da paranóia. Tudo é explícito, tudo é falado
O diretor em participação especial Scorsese faz uma ponta, em uma seqüência, como um passageiro que obriga Travis Bickle a parar seu táxi diante do apartamento onde sua mulher está com outro homem. É um dos muitos loucos que cruzam o caminho do protagonista. Scorsese faz a voz do homem que, pelo rádio, distribui o trabalho diário dos paramédicos. É um agente ativo, que orienta a ação dos paramédicos para que salvem vidas.
A música Foi o último trabalho de Bernard Herrmann, o genial compositor da trilha de Cidadão Kane e de diversos dos melhores filmes de Hitchcock (e alguns de Truffaut, nos filmes de homenagem ao mestre inglês). Os créditos finais se encerram com uma manifestação de “gratidão e respeito” por ele. A presença da música é forte em todo o filme, dá o tom de boa parte da ação. Elmer Bernstein é outro dos gigantes das trilhas de cinema; atua desde 1951, teve 12 indicações para o Oscar, trabalhou com Scorsese em Touro Indomável e A Época da Inocência, e fez para ele as orquestrações de Cabo do Medo, sobre a partitura original de Bernard Herrmann para a primeira versão do filme, Círculo do Medo, de 1961. A música, no entanto, é sutil, nunca aparece em primeiro plano – o que se destaca são canções de rock e pop que se ouvem no rádio.
Câmara e fotografia O diretor de fotografia é Michael Chapman. Há várias cenas de avenidas de Nova York molhadas pela chuva, vistas de dentro do táxi, e dos bueiros enfumaçados. Há tomadas geniais – como as da câmara colocada em uma grua que acompanha a lateral dianteira do táxi, as calçadas de Nova York ao fundo. Tomadas de dentro do táxi, muitas vezes com os vidros molhados pela chuva, e pegando o retrovisor, mostram as luzes da cidade formando um caleidoscópio. O visual é belíssimo. Mas, de maneira geral, câmara e fotografia são quase tradicionais, básicas, sem buscar inovações, invencionices. Há muitos planos longos, lentos, com a câmara parada.  O diretor de fotografia é Robert Richardson. Há várias cenas de avenidas de Nova York molhadas pela chuva, vistas de dentro da ambulância, e dos bueiros enfumaçados. A câmara em geral é nervosa, inquieta, rápida como a história que se conta. O ritmo é na maior parte do tempo febril, com cortes rápidos. Em vários momentos, há um uso chocante da iluminação dos personagens, distorcendo as cores naturais. Ao contrário de em Taxi Driver, Scorsese foge de qualquer coisa que pareça naturalismo. Nos momentos em que Frank está chapado, o ritmo fica frenético, a câmara rodopia, fica de lado, de cabeça para baixo. A seqüência em que Frank, alucinado, se vê retirando os mortos de debaixo do asfalto usa os efeitos especiais da Industrial Light and Magic de George Lucas.
Prêmios Palma de Ouro em Cannes. Quatro indicações para o Oscar – filme, ator para De Niro, atriz coadjuvante para Jodie Foster, música.  Não ganhou coisa alguma. Aliás, o Oscar não gosta de Scorsese; indicado três vezes como diretor e duas como roteirista, nunca levou. 

Um Comentário

  1. José Luís
    Postado em 16 Março 2018 às 12:55 am | Permalink

    Gosto imenso de Taxi Driver e menos de Bringing Out the Dead, embora aprecie os dois.
    Vi muitas vezes o primeiro que não me cansa; o segundo penso que não está tão bem conseguido. No Imdb votei 10 no primeiro e 7 no segundo. Mas são ambos muito bons.

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