A Festa de Babette / Babettes Gaestebud


Nota: ★★★☆

Anotação em 1996: Filme estranho e fascinante. Permite várias leituras. Levei tempos para vê-lo; perdi no cinema, e nunca tinha me animado a ver, até agora – e acabei vendo pra resenhar na revista Barbara. Como seria uma resenha da história?

Na Jutlândia, península da Dinamarca, no século XIX, um pastor abnegado cria suas duas lindas filhas dentro de rígidos padrões religiosos e de desapego aos bens materiais. Uma delas atrai um oficial vaidoso e ambicioso, que abre mão dela em busca das glórias materiais. A outra encanta um cantor francês, que quer fazê-la uma grande cantora no circuito lírico; mas ela abre mão disso para se manter no seu vilarejo pobre e perdido naquele fim de mundo.

Reencontramos as duas muitos anos mais tarde, o pastor já morto, duas velhinhas solteiras, bondosas, caridosas, que acolhem em sua casa – a pedido do cantor – Babette, uma refugiada francesa que tinha perdido o marido e o filho na guerra.

Durante 14 anos, Babette trabalha esforçadamente para as duas, em troca de nada. Quando ganha 12 mil francos na loteria, faz um pedido: que as patroas permitam que ela prepare um verdadeiro jantar francês para a comemoração dos cem anos do nascimento do pastor.

Ao jantar – para 12 pessoas, como na Santa Ceia – comparecem os velhinhos seguidores do pastor e mais o oficial, agora um general. O jantar é um banquete esplendoroso. Só ao final Babette revela o segredo que guardara durante os 14 anos de exílio: ela havia sido a cozinheira-chefe em um dos mais finos restaurantes de Paris, e para preparar o banquete gastou tudo o que ganhou na loteria. E explica que fez isso seguindo um ensinamento do cantor: a de que, quando damos o melhor de nós, podemos fazer uma obra de arte.

Pode ser entendido – e foi como eu inicialmente entendi – como uma celebração aos valores espirituais e religiosos, capazes de vencer os valores menores, como a vaidade, o orgulho, a ambição, o apego aos bens materiais.

Pode ser entendido como um compêndio de oportunidades desperdiçadas – a filha do pastor que abre mão da possibilidade de amar e de uma carreira internacional como artista, a outra filha que só teve o amor platônico à distância do jovem oficial que a atraiu, o próprio oficial que colocado na encruzilhada vacilou mas acabou escolhendo a carreira, a ambição, mas sem o amor, a própria Babette que abre mão de sua arte para mostrá-la uma única vez.

Pode até, conforme o gosto do freguês, ser entendido como uma ode aos prazeres dos sentidos que na verdade seriam melhores que os do espírito. Pode ser entendido como uma defesa da união entre as duas coisas, espírito e carne, que é afinal o resultado banquete de Babette.

Ao fim do jantar, o general faz um interessante discurso sobre as oportunidades que se apresentam diante de nós, a encruzilhada, as duas estradas que se abrem como no poema de Robert Frosg, o momento de decidir entre um caminho e outro.

Copiei o trecho mais interessante:

 “Na sua fraqueza e miopia, o homem acha que tem que fazer uma escolha na vida, e teme o risco que corre. Nós conhecemos o medo. Mas não, toda escolha é sem importância. Chegará a hora em que nossos olhos se abrirão e finalmente reconheceremos que a Graça não tem fim. É só esperar confiante para receber a gratidão. A Graça não exige nada. E tudo que escolhemos nos foi dado, e tudo de que desistimos nos foi concedido. Sim, teremos ainda de volta o que jogamos fora.”

 O Maltin, que deu quatro estrelas, fez uma resenha que me pareceu correta, exceto, talvez, quando diz que as duas irmãs usam a religião como um substituto para viver a vida:

Exquisite, delicately told tale of two beautiful young minister’s daughters who pass up love and fame to remain in their small Danish village. They grow old, using religion as a substitute for living life … and then take in Parisian refugee Audran, a woman with a very special secret. Subtle, funny and deeply felt, with several wonderful surprises: an instant masterpiece that deservedly earned a Best Foreign Film Academy Award. Axel wrote the screenplay, from an Isak Dinesen short story originally published in the Ladies Home Journal. Don’t miss this one.

A Festa de Babette/Babettes Gaestebud

De Gabriel Axel, Dinamarca, 1987.

Com Stéphane Audran, Birgitte Federspiel, Bodil Kjer, Vibeke Hastrup, Hanne Stensgard, Bibi Andersson (pequena participação especial), Jean-Philippe Lafont, Gudmar Wivesson, Jarl Kulle

Roteiro Gabriel Axel

Bas em conto de Karen Blixen

Cor, 102 min.

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