Os Inocentes / The Innocents

4.0 out of 5.0 stars

Os Inocentes, produzido e dirigido pelo inglês Jack Clayton, é tão apavorante hoje – depois de tantas dezenas, centenas, talvez milhares de filmes aterrorizantes – quanto deve ter sido na época do lançamento, 1961, já lá se vai bem mais de meio século.

Apavorante – e atordoante.

O filme me atordoou quando o vi pela primeira vez, já muito depois de sua época, em 1998. Não me lembrava disso ao revê-lo agora. Mas, quando a gente anota, fica, permanece – e então li agora que na época anotei:

“Vi pela primeira vez o filme tão elogiado e simplesmente não entendi qual era a dele. E eu não estava bêbado. E Mary também não entendeu – e ela nunca está bêbada. Na verdade, foi burrice minha. É que eu me recusei a achar que se tratava do sobrenatural. Resquício da minha velha implicância com isso, meu apego ao mundo material. E se trata apenas disso: o sobrenatural… (e aqui corto fora uma frase que neste momento seria um spoiler). No mais, é de fato um filme bem feito, com excelente fotografia. Deborah Kerr está brilhante, soberba, extraordinária.”

Constato hoje que não fiz jus ao filme na minha rápida, curta anotação de 1998. Os Inocentes é muitíssimo mais do que bem feito – é uma obra-prima do gênero, um brilho, uma maravilha. Sim, claro, a fotografia, em magnífico preto-e-branco, de Freddie Francis, 16 prêmios, inclusive dois Oscars, é extraordinária – assim como a montagem, toda a direção de arte, os figurinos, a trilha sonora de Georges Auric, nada tonitroante, muito ao contrário, sutil – mas insinuante, suavemente adicionando uma dose a mais de gelo na espinha do espectador.

Quando revi em 2009 O Inquilino (1976), de Roman Polanski, escrevi que para mim ele é um dos filmes mais apavorantes da história – ao lado de O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, Repulsa ao Sexo (1965) e O Bebê de Rosemary (1968), ambos também de Polanski, e mais A Mão que Balança o Berço (1992), de Curtis Hanson, e as duas versões de Água Negra, a original de Hideo Nakata, de 2002, e a refilmagem americana feita por Walter Salles em 2005.

São, todos eles, obras que transcendem o gênero filme de terror. Vão muito além dele. São, todos, filmes que passam longe do terror para adolescentes verem se divertindo e comendo pipoca. Fazem um terror para adultos, um terror psicológico; vão fundo nos nossos medos mais escondidos, os medos que aparecem nos piores pesadelos. São, todos eles, filmes passados na sua maior parte em ambientes fechados, claustrofóbicos.

Os Inocentes tem que estar nessa lista. Sem dúvida alguma.

Peço desculpas por estar fazendo tantas referências a minhas próprias opiniões – está demais até para os meus padrões, que já são mesmo de textos extremamente pessoais e intransferíveis. Mas é absolutamente necessário fazer mais uma referência às minhas visões pessoais.

Diferentemente do que achei depois de vê-lo pela primeira vez – “trata-se apenas disso: o sobrenatural” –, Os Inocentes não é isso, não.

A grande sacada do filme, me pareceu agora, é a dubiedade. Pode ser o sobrenatural, sim. Ou não.

Posso estar errado de novo, mas, ao rever o filme, o que me pareceu foi isso: pode ser o sobrenatural. Mas também pode não ser.

Os Inocentes é um filme brilhante, apavorante, dos mais apavorantes que já foram feitos – e atordoante. Ao ponto de deixar para o espectador decidir o que de fato aconteceu diante de seus olhos, durante 100 minutos de grande cinema.

Nos créditos, uma porção de nomes respeitabilíssimos

Os créditos iniciais de Os Inocentes – caprichadíssimos – nos apresentam vários, diversos nomes respeitabilíssimos. Dois dos melhores atores das Ilhas Britânicas, aquele que é o maior celeiro de grandes atores que há no mundo – Deborah Kerr e Michael Redgrave. O diretor de fotografia Freddie Francis, o compositor Georges Auric. O diretor e produtor Jack Clayton. E dois dos maiores nomes da literatura de língua inglesa, Henry James e Truman Capote.

Truman Capote assina o roteiro, ao lado de William Archibald, escrito com base no romance The Turn of the Screw, no Brasil Outra Volta do Parafuso.

Ainda antes dos créditos iniciais, com a tela toda preta, começamos a ouvir uma voz de criança cantar, em uma melodia suave, como um acalanto, as seguintes palavras nada infantis, nada acalentadoras:

“Nós deitamos, meu amor e eu, debaixo do salgueiro chorão. Mas agora eu deito sozinha e choro ao lado da árvore, cantando ‘ó chorão de choro’ perto da árvore que chora comigo. Cantando ‘ó chorão de choro’ até que meu amor volte para mim. Nós deitamos, meu amor e eu, debaixo do salgueiro chorão. Mas agora eu deito sozinha. Ó chorão, eu morro, ó chorão, eu morro…”

Enquanto vão rolando os nomes dos artistas e técnicos, vemos primeiro as mãos de uma mulher, entrelaçadas como numa oração, mas tensas, apertando uma à outra nervosamente, e em seguida, em perfil e close-up, o rosto dela – o rosto de Deborah Kerr, com uma expressão de profunda, profunda angústia. E a voz de Deborah Kerr fala pela protagonista da história, Miss Giddens:

– “Tudo o que eu quero é salvar as crianças, não destruí-las. Mais do que tudo, eu amo crianças. Mais do que tudo. Elas precisam de afeto. Amor. Alguém que se apegue a elas, e a quem elas apeguem.”

Na primeira sequência logo após o fim dos créditos, um homem evidentissimamente muito rico está entrevistando em seu escritório de trabalho a senhora que, o espectador percebe imediatamente, havia se candidatado ao emprego de governanta anunciado no jornal.

Nos créditos, havia aparecido “e Michael Redgrave como O Tio”.

Duas crianças órfãs sem um parente que as ame

O primeiro diálogo do filme, entre o Tio e Miss Giddens, é tão apavorante quanto a canção de ninar, digo, de assustar, em que a voz infantil fala de fim, de morte.

O rosto angustiado de Miss Giddens-Deborah Kerr do final dos créditos se funde com o rosto belo, suave de Miss Giddens-Deborah Kerr diante do homem rico que procura uma governanta.

O Tio: – “Miss Giddens, posso fazer uma pergunta um tanto pessoal? A srta. tem imaginação?”

Miss Giddens: – “Oh! (Ela sorri.) Ah, sim, eu posso responder. Sim.”

O Tio: – “Ótimo. A verdade raramente é compreendida a não ser por pessoas com imaginação, e eu quero ser bem verdadeiro. Sou solteiro, mas não uma pessoa solitária. Passo grande parte do tempo no exterior, e, quanto à minha vida em Londres, bem, ela me diverte, mas não é o tipo de diversão que alguém poderia dividir com crianças. Em resumo, Miss Giddens, sou um sujeito muito egoísta, e a última pessoa a ser tão repentina e desajeitadamente encarregada de duas crianças órfãs. É muito lamentável, mas não tenho espaço para eles mentalmente nem emocionalmente. Isso parece muito cruel?”

Miss Giddens (depois de uma rápida pausa): – Sincero, mas não cruel. (Nova pausa.) As crianças vivem com o senhor?”

O Tio: – “Não. Estão na casa de campo, em Bly. Um lugar bem grande e solitário. A srta. há de concordar que o campo é um lugar apropriado para crianças. Soube pela sua carta que a srta. mesma é filha de um homem do campo, e que… (Pega a carta que ela havia enviado para ele.) Aqui está: ‘Amo crianças mais que tudo’.

Miss Giddens: – “Sim.”

O Tio: – “Extraordinário. (Pausa.) Há vários anos, os pequenos Miles e Flora – nomes encantadores, não acha? – têm apenas a mim. Pobres pirralhos… Eles precisam mais do que um tio distante. Mas, claro, precisam mais que uma governanta. Precisam de afeto e amor. De alguém que se apegue a eles, e a quem eles se apeguem. Sinto que a srta. é a pessoa certa.”

Miss Giddens: – “O senhor está ciente de que esse seria meu primeiro emprego.”

(Ela usa a palavra “position”, mais britanicamente elegante do que “job”.)

O Tio: – “Ora, que importância tem isso, se eu confio na srta. e a srta. em mim? Miss Giddens, a pessoa que eu contratar deve prometer solenemente aceitar responsabilidade total e absoluta. Ela nunca deve me incomodar. Nunca, nunca. Nem se queixar, pedir auxílio ou enviar carta. Simplesmente assumir tudo e me deixar em paz. O que me diz, Miss Giddens?”

Miss Giddens: – “As crianças… elas já tiveram uma governanta?”

O Tio: – “Sim, infelizmente. Não que houvesse qualquer coisa errada com Miss Jessel. Ela era uma excelente governanta, uma mulher muito respeitável. As crianças gostavam muito dela, especialmente a pequena Flora. Ah, o que me faz lembrar: tenha cuidado para não falar desse assunto com Flora, a menos, é claro, que ela fale primeiro, o que duvido que vá acontecer, porque ela gostava tanto de Miss Jessel, e o que aconteceu foi um terrível choque.”

Miss Giddens: – “Não estou certa de que compreendi, senhor.”

O Tio: – “Ela morreu.”

Deborah Kerr nasceu para interpretar Miss Giddens

Ficou um tanto longo, mas acho que esse primeiro diálogo do filme – a única sequência, diga-se, em que O Tio-Michael Redgrave aparece – é fundamental para compreender a história que virá a seguir. E também porque, como sempre, acho que o tom que o diretor dá aos primeiros momentos de um filme já definem muito de toda a obra.

Não há qualquer referência à época em que se passa a história. Qualquer. Há indícios claros de que não é nos dias de hoje – o “hoje” sendo, é claro, a época em que o filme foi feito, 1961. Mas dá para o espectador inferir, ou deduzir, que é algo por ali em torno da passagem do século XIX para o XX. Teria todo sentido. The Turn of the Screw, o romance de Henry James, é de 1898.

Não se faz, hora alguma, qualquer referência aos pais dos garotos Miles e Flora – sequer ficamos sabendo se O Tio é irmão do pai ou da mãe. Nem como morreram. Nem que tipo de atividade tem o Tio, que o ocupa tanto e o faz viajar tanto ao exterior. Os realizadores demonstram claramente que isso não interessa. Importante é isto: os dois garotos ficaram órfãos de pai e mãe bem cedo e caíram nas mãos de um tio que não tem espaço para eles.

De maneira semelhante, o roteiro não se preocupa de forma alguma em nos contar sobre o passado dessa Miss Giddens. As únicas informações sobre ela que recebemos são de que vivia – até ser contratada como governanta das crianças naquela gigantesca mansão do campo inglês do Tio – em uma casa bem pequena, e de que seu pai era um ministro religioso do interior.

Não é dito expressamente, mas fica bastante claro que Miss Giddens é uma solteirona. Nunca se casou. Também não é dito, mas o espectador tem todo o direito – mas todo o direito do mundo – de imaginar que Miss Giddens sequer teve algum namoro mais íntimo. Que nunca, jamais, em tempo algum, chegou perto de alguma coisa sexual.

Deborah Kerr estava com 40 anos em 1961, o ano de lançamento do filme. Linda, com aquela beleza suave, um jeito um tanto distante – uma bela mulher um tanto diáfana. Mas, como todas as pessoas daquela época, homens e mulheres, ela parecia um tanto mais velha que as pessoas que têm 40 anos hoje.

Deborah Kerr fez vários, diversos bons filmes, teve grandes interpretações ao longo da excelsa carreira. Mas – fiquei pensando – parece que ela nasceu e viveu até os 40 anos exatamente para fazer aquele papel. Para ser Miss Giddens.

As idades. Acho importante a coisa das idades. Não é dito em momento algum do filme a idade dos dois órfãos. O garoto que faz Miles, Martin Stephens, é de 1949, e estava portanto com 12 anos. A garota que faz Flora, Pamela Franklin, é de 1950 – tinha 11.

Estão, os dois garotos, Pamela Franklin e Martin Stephens – os dois “brats”,  fedelhos, pirralhos, como diz o Tio – não menos que excepcionais. Atuações maravilhosas, impressionantes, de deixar o espectador boquiaberto, de queixo caído.

A governanta é bem recebida – mas surgem coisas estranhas

A propriedade de campo do Tio é imensa, a perder de vista – como costumam ser as propriedades dos muito ricos nas histórias inglesas. Tem um belo lago, jardins que não acabam mais. E o casarão, a mansão, é absolutamente gigantesca, com diversos aposentos fechados, por não terem qualquer utilidade. Há uns quatro ou cinco serviçais, sob a direção de Mrs. Grose, a criada do Tio (o papel de Megs Jenkins, também excelente).

Mrs. Grose e Flora, e depois também Miles, que volta para casa depois de ser expulso do colégio para onde havia sido enviado, recebem a nova governanta de braços abertos.

Mas já me alonguei muito no relato – embora o filme não esteja sequer com 10 dos seus 100 minutos de duração quando Miss Giddens chega à propriedade. Então vou apertar a tecla de fast forward.

Miles e Flora tratam muitíssimo bem a recém-chegada – mas coisas muito estranhas logo começam a acontecer. Há muita coisa estranha no comportamento dos garotos. Miss Giddens vai ficando tensa naquela casa gigantesca demais, com tantos corredores imensos vazios – um lugar soturno, tenebroso.

Miss Giddens começa a ver figuras fantasmagóricas, uma mulher, um homem. Fica sabendo que a governanta anterior, Miss Jessel, havia se matado, afogara-se naquele belo lago. Que tinha havido ali um criado do Tio, muito querido pelas crianças, Peter Quint. Os dois, Peter Quint e Miss Jessel, haviam sido muito próximos. Provavelmente amantes. Peter Quint morrera, e foi depois da morte dele que Miss Jessel preferiu a morte.

Atenção: a partir de agora, há spoilers.

Acelero ainda mais agora a tecla de fast forward – e, a rigor, o que vem a seguir é spoiler para quem ainda não viu o filme.

Miss Giddens passa a ver os fantasmas de Peter Quint e Miss Jessel vagando pela propriedade.

O espectador também os vê – Peter Quint é o papel de Peter Wyngarde, e Miss Jessel, o de Clytie Jessop.

Miss Giddens passa a acreditar que Miles e Flora estão possuídos pelos espíritos dos dois mortos.

E aí é que está. Quando vi Os Inocentes pela primeira vez, em 1998, primeiro fiquei sem entender. Depois me convenci de que o filme mostra que Miles e Flora estão possuídos pelos espíritos dos dois mortos.

Ao rever o filme agora, entendi que eu estava errado. O filme não mostra que a coisa sobrenatural existe. O filme mostra que Miss Giddens fica absolutamente convencida disso.

Claro que posso ter entendido errado de novo… Mas minha sensação agora foi de que, ao final deste belo, apavorante e atordoante filme, o atordoado espectador pode perfeitamente no creer em brujas, pero que las hay, las hay…

Ou então o espectador pode perfeitamente entender que aquilo tudo foi invenção da cabeça desvairada, nervosa, amedrontada, apavorada, quase – ou absolutamente – histérica da solteirona.

Só que, nesse caso, como explicar o comportamento dos garotos Miles e Flora? Como explicar que eles sejam tão absolutamente nada, mas nada, nada inocentes, e tenham atitudes de quem já viveu muitos e muitos anos?

É… A verdade mesmo é que ficar em dúvida sobre o que de fato aconteceu naquela mansão que parece mesmo assombrada é pior ainda do que não saber se Capitu traiu Bentinho ou não traiu…

Dá vontade de ler o romance de Henry James.

O livro deu origem a 28 adaptações!       

Henry James (1843–1916). “Sua novella The Turn of the Screw ganhou a reputação de a mais analisada e mais ambígua história de fantasmas da língua inglesa, e permanece sendo seu trabalho mais largamente adaptado para outros meios”, diz a Wikipedia.

Novella. O termo mais conhecido é novel, romance. Acho que não temos em português uma tradução perfeita de novella, a palavra para designar um romance curto, menor que o padrão dos romances, porém maior que o conto; “uma história entre a extensão de novel e de short story”, como define o Dictionary da Longman.

Vou à Britannica, a de papel. (É sempre um prazer…)

“James, Henry, 15 de abril de 1843, Nova York, 28 de fevereiro de 1916, Rye, Sussex, mestre da ficção, uma formidável figura da cultura transatlântica, cujo tema fundamental era a inocência e a exuberância do Novo Mundo em choque com a corrupção – e a sabedoria – do Velho. Educado nos Estados Unidos e na Europa, James publicou sua primeira história aos 21 anos. Durante a primeira fase significativa de sua carreira, explorou temas de relações pessoais; essa fase terminou efetivamente com a publicação de Portrait of a Lady (1881). Moveu-se para temas de reforma social, notavelmente em The Bostonians (1886) e The Princess Casamassima (1886), antes de tentar (sem sucesso) uma carreira de dramaturgo – a tentativa, no entanto, afetou sua maneira de narrar histórias em romances como The Spoils of Poynton (1897) e What Maisie Knew (1897), O estilo ‘denso’, simbólico deste último e mais maduro trabalho é visto em The Ambassadors (1902) e The Golden Bowl”.

Nada menos de 15 obras de Henry James já foram adaptadas para o cinema e/ou para a TV – em geral mais de uma vez cada uma delas.

Só aqui neste + de 50 Anos de Filme já estão Tarde Demais/The Heiress (1949), Daisy Miller (1974), Asas do Amor/The Wings of Dove (1997), A Taça de Ouro/The Golden Bowl (2000) e ainda O Quarto Verde/La Chambre Verte (1978), que diz, nos créditos, que o roteiro de François Truffaut e Jean Gruault é “sobre temas de Henry James”.

A Wikipedia registra que The Turn of the Screw, a novella de 1898 que deu origem a este Os Inocentes, teve 28 adaptações! Passei os olhos rapidamente pelos filmes com o título no livro no IMDb; lá estão 24 filmes – mas não reconheci nomes de grandes atores, e deixei isso de lado.

“Espectros que podem ou não ser reais”

Antes de passar para outras opiniões sobre o filme, gostaria de fazer um registro sobre os dois garotos que interpretam tão brilhantemente os irmãos Miles e Flora. Tiveram caminhos bem diferentes um do outro, estes Martin Stephens e Pamela Franklin.

No ano de lançamento do filme, 1961, Martin Stephens, aos 12 anos, já era um veterano. Havia estreado aos 5 anos, e tinha já 14 títulos na filmografia. Só faria mais três filmes depois de Os Inocentes. Cansou do troço, abandonou a carreira. Estudou Arquitetura, teve segura carreira como arquiteto e, na maturidade, radicou-se em Portugal.

Bem ao contrário, Pamela Franklin, aos 11 anos, teve aqui sua primeira experiência como atriz – e gostou da coisa, e a coisa gostou dela. Sua filmografia tem 58 títulos. Só abandonou a carreira em 1981, ainda muito jovem, com apenas 31 anos de idade.

O CineBooks’ Motion Picture Guide Review dá 4 estrelas em 5 e começa seu verbete assim: “Baseado em The Turn of the Screw de Henry James, The Innocents é um ótimo filme de horror que constrói o suspense devagar, sutilmente e inexoravelmente.” E, depois de uma longa, detalhada sinopse, faz esta avaliação: “Filmado em Sheffield Park, em Sussex, este filme gótico de horror, co-roteirizado por Truman Capote, é bastante fiel ao original de Henry James, Infelizmente, o filme não obteve grande audiência, um destino não merecido para essa gema exótica do cinema.”

Eis o que diz Pauline Kael, na edição brasileira do livro 1001 Noites no Cinema organizada por Sérgio Augusto:

“Dirigido por Jack Clayton e fotografado por Freddie Francis (em Cinemascope e preto-e-branco), esta versão de A Outra Volta do Parafuso, de Henry James, é um dos filmes de fantasmas mais elegantemente belos já feitos. Traz uma atuação assustada e intensa de Deborah Kerr, como a governanta que vê espectros demoníacos e obriga um de seus dois alunos, o menino Miles (Martin Stephens), a enfrentá-los. Kerr e Michael Redgrave, fazendo o cavalheiro que a contrata, têm o tom exato de histeria contida na voz. Os cenários – a casa, o parque, o lago – são magníficos, e o roteiro de William Archibald, Truman Capote e John Mortimer é um prazer literário. Os realizadores do filme se concentram nas possibilidades virtuosísticas do material, e a beleza das imagens eleva nosso terror a um nível mais alto que os simples medos da maioria das histórias de fantasmas. Há grandes seqüências (como uma na sala de aula) que atuam sobre a imaginação do espectador e permanecem provocantemente ambíguas. Com Pamela Franklin, Megs Jenkins, Peter Wyngarde e Clytie Jessop. Música de Georges Auric. Distribuído nos EUA pela 20th Century- Fox. (Ver I Llost it at the Movies.)

Esta última frase (no original é “For a more extended discussion, see Pauline Kael’s book I Lost it at the Movies”) indica que Os Inocentes foi um dos filmes que a prima donna da crítica americana escolheu para analisar mais amplamente nesse outro livro dela – que eu não tenho…

Leonard Maltin deu 3.5 estrelas em 4 para o filme: “Thriller de primeira classe baseado em The Turn of the Screw de Henry James, com Kerr como governanta assombrada por espectros que podem ou não ser reais. Roteiro de William Archibald e Truman Capote, brilhantemente realizado. Fotografado por Freddie Francis. CinemaScope.”

“Espectros que podem ou não ser reais.” Leonard Maltin resumiu perfeitamente o que foi o meu entendimento ao rever o filme agora. Podem ou não ser reais – mas, diabo, se não forem reais, eta dupla de pirralhos menos inocente do mundo…

É isso. Um filmaço.

Anotação em agosto de 2025

Os Inocentes/The Innocents

De Jack Clayton, Reino Unido, 1961

Com Deborah Kerr (Miss Giddens, a nova governanta),

Martin Stephens (o garoto Miles),

Pamela Franklin (a garota Flora),

Megs Jenkins (Mrs. Grose, a criada do Tio), Isla Cameron (Anna, serviçal), Eric Woodburn (o cocheiro), Peter Wyngarde (Peter Quint, o criado morto), Clytie Jessop (Miss Jessel, a governanta morta),

e, em participação especial, Michael Redgrave (O Tio)

Roteiro William Archibald, Truman Capote

Sequências adicionais e diálogos John Mortimer

Baseado no romance “Outra Volta do Parafuso/ The Turn of the Screw”, de Henry James

Fotografia Freddie Francis

Música Georges Auric

Direção musical Lambert Williamson

Montagem James B. Clark

Desenho de produção Wilfred Shingleton

Figurinos Sophie Devine Motley

Produção Jack Clayton,

P&B, 100 min (1h40).

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Um comentário para “Os Inocentes / The Innocents”

  1. É um grande filme e bastante inquietante mas por alguma razão encontrei-o um bocado enfadonho. Provavelmente o problema foi meu, devia estar num dia mau, mais impaciente. Deborah Keer está maravilhosa. Só ela e Olivia de Havilland podiam representar esse papel tão bem

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