Stranger from Venus ou The Venusian ou Immediate Disaster

2.5 out of 5.0 stars

(Disponível no YouTube em 1/2026.)

Stranger from Venus, lançado também como The Venusian e Immediate Disaster, filme B feito em co-produção Reino Unido-EUA de 1954, não é de forma alguma uma beleza. A rigor, tem diversos defeitos. Não é badalado, cult. Bem ao contrário, é bastante obscuro: sequer está comentado em nada menos de seis guias, obras de referência. Os indícios sõ de que sequer foi lançado comercialmente no Brasil – por isso uso o título em inglês.

No entanto, me pareceu interessantíssimo. Foi feito na época da Guerra Fria, a era do medo de um novo conflito entre potências que poderia simplesmente destruir a vida na face da Terra. Vê-lo agora, em 2026, quando há um permanente clima de instabilidade na geopolítica mundial, com a destruição das bases da segurança internacional promovida pelo desvairado presidente da maior potência militar do planeta, é especialmente impactante.

Com as ferramentas da ficção científica, que desde sempre permitiram a criação de histórias que dão margem a alegorias amplas, boas filosofadas, profundos papos cabeça, Stranger from Venus mostra a humanidade como uma raça de primatas presunçosos, metidos a besta, mas na verdade longe demais da civilização, da inteligência, do domínio de qualquer tipo de sabedoria. Primatas que ao longo de milhares de anos se dedicam a absurdas, inúteis lutas tribais – mas que, depois dos machadinhos, do arco e flecha, da pólvora, criaram bombas que podem não apenas destruir seu planetinha periférico, secundário, mixuruca, como provocar estragos no Sistema Solar.

E é por isso que uma civilização muitíssimo mais avançada que a nossa manda uma missão ao planeta Terra, para dar um recado, um puxão de orelhas: parem com essas besteiras, seus terráqueos. Parem com isso – porque, se insistirem em continuar como estão, a comunidade intergaláctica vai ter que intervir e acabar com vocês.

A trama é bem parecida com a de O Dia em que a Terra Parou

A base da trama é esta: um extraterrestre vem em uma missão de paz, para convencer os líderes das tribos, perdão, das nações terráqueas a parar com as guerras.

Ué, mas esse é exatamente o tema de O Dia em que a Terra Parou/The Day the Earth Stood Still, o grande clássico dirigido por Robert Wise com Patricia Neal em 1951, apenas três anos, portanto, antes deste filme B aqui!

Pois é. Exatamente o mesmo tema – e ainda por cima exatamente com a mesma atriz, a fantástica, cult, adorada por gerações de cinéfilos Patricia Neal.

Um dos dois únicos guias que conheço que falam de Stranger from Venus, o de Steven H. Scheur, crava que ele é uma refilmagem do clássico de 1951. O longo, detalhado verbete sobre o filme na Wikipedia afirma: “Feito nos estúdios da MGM em Borehamwood, Inglaterra, era uma refilmagem de baixo orçamento de The Day the Earth Stood Still (1951), que também era estrelado por Patricia Neal.”

Pois é. No entanto, o próprio filme credita a história a Desmond Leslie. Desmond Arthur Peter Leslie (1921-2001), um descendente de irlandeses nascido em Londres, foi piloto, cineasta e músico, filho de um primo primeiro de Winston Churchill. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi piloto da Royal Air Force, a RAF. É considerado um dos pioneiros da música eletrônica, e foi co-autor de um dos primeiros livros sobre OVNIs, Flying Saucers Have Landed, discos-voadores aterrissaram, de 1953.

O IMDb, o site enciclopédico que tem tudo, absolutamente tudo sobre filmes, não afirma que este Stranger from Venus seja uma refilmagem de O Dia em que a Terra Parou – nem no verbete do filme de 1951, nem no do filme de 1954. Fala das coincidências das duas histórias, é claro, e da coincidência fantástica de os dois terem a mesma atriz, mas não diz que este aqui é a refilmagem do clássico. Registra, é claro, que houve uma refilmagem de O Dia em que a Terra Parou, exatamente com o mesmo título original e o mesmo título no Brasil – foi uma produção caprichada, da mesma 20th Century Fox do classicão de Robert Wise, com Keanu Reeves e Jennifer Connelly nos papéis que no original foram de Michael Rennie e Patricia Neal, e mais Kathy Bates, John Cleese, Jon Hamm, e direção de Scott Derrickson.

Divergências, versões diferentes sobre se é refilmagem ou não. Divergências, versões diferentes sobre onde se passa a ação – há quem afirme que é na Grã-Bretanha, há quem garanta que não é. Stranger from Venus tem seus mistérios. Mas deixo para mais adiante as dúvidas sobre onde se passa a ação. É preciso relatar um pouco sobre o início da trama.

Uma luz forte faz a protagonista da história bater o carro

O filme abre com a chegada de uma nave espacial. Tomadas aéreas de um belo campo, enquanto a câmara vai descendo rumo ao solo, alternam-se com outras de pessoas vendo o objeto desconhecido que vem chegando.

Um casal de técnicos em uma torre de controle de aeroporto conversa por rádio com um piloto. – “Era um jato?”, pergunta o controlador de vôo na torre. – “Não. Mais como um cometa, ou algo assim.”

O controlador: – “Provavelmente era um cometa.”

O piloto: – “Você já ouviu falar de um cometa que faz uma curva e vira na direção contrária?”

Corta, e vemos um homem sentado à mesa de trabalho, com todo o jeito de ser uma autoridade, alguém importante, atendendo a um telefonema. Desliga, e o telefone toca de novo – pessoas informando que viram algo estranhíssimo no céu.

Corta, e vemos um carro conversível em uma estrada no meio do campo, à noite. A motorista é uma mulher – veremos que se chama Susan North (o papel de uma Patricia Neal aos 28 aninhos), e está indo até a estação ferroviária de uma cidade vizinha para pegar o noivo, que está para chegar.

Há uma luz forte sobre o rosto da motorista.

No rádio do carro, a música é interrompida por um locutor com uma notícia importante: – “As pessoas têm nos pedido para identificar um estranho fenômeno de luz no céu. Neste momento, não temos ainda uma explicação. Mas não há motivo para medo. Estamos em contato com a Força Aérea e o Observatório Nacional, que estão checando o fenômeno.”

Um ruído altíssimo perturba a motorista do carro. Ela põe uma mão no ouvido, perde o controle do veículo, que bate com violência numa árvore na beira da estrada.

A mulher desmaia e cai sobre o volante do carro.

A câmara focaliza as pernas de alguém que se aproxima do carro. A imagem fica congelada, e começam os créditos iniciais. “Princess Pictures presents a Rich & Rich Production”. Empresas pequenas, independentes dos grandes estúdios – tanto dos britânicos quanto dos norte-americanos.

Boa parte da ação se passa no bar de um pequeno hotel

A primeira sequência após os créditos iniciais se passa no bar de um pequeno hotel, uma hospedaria, pertencente, conforme veremos logo a seguir, a um senhorzinho simpático, Tom Harding (Willoughby Gray, na foto abaixo) e sua filha Gretchen (Marigold Russell), uma moça igualmente simpática (e feinha, tadinha). Gretchen, que faz de tudo no bar e na hospedaria, está naquele momento atendendo ao telefone.

_- “Não, sr. Walker, ela não esteve aqui. (Do outro lado da linha, ele fala algo que nós não ouvimos.) Claro… Tenho certeza de que nada aconteceu com ela. Espero que ela apenas tenha se atrasado um pouco…”

Depois de se despedir de Walker, Gretchen diz para o pai, que está lavando copos: – “Eu espero mesmo que nada tenha acontecido com a srta. Susan. Seu noivo, o sr. Walker, está na estação. Ela deveria ter chegado lá para pegá-lo há 20 minutos.”

Veremos que Arthur Walker (o papel de Derek Bond), o noivo de Susan North, é uma figura importante – o subsecretário do Interior.

O único freguês que está no bar dos Hardings naquele momento é o médico da pequena cidade, o dr. Meinard (Cyril Luckham), um senhorzinho simpático como os donos da hospedaria, e sempre bem-humorado. Ele terá importância na trama – e boa parte da ação do filme vai se passar exatamente dentro daquele pequeno hotel e em seu bar.

Surge um estranho que não tem nome nem pulsação

Um estranho chega ao bar. Senta-se, pede algo para beber. A câmara o mostra sempre pelas costas.

Tom Harding leva um copo de cerveja para ele e se apresenta, diz seu nome. (No trajeto entre o balcão do bar e a mesa do estranho, dá para o espectador ver claramente que ele manca.) O estranho responde ao cumprimento com um firme “boa noite”, mas não diz seu nome – ao contrário do que visivelmente Tom esperava. E pergunta se pode ficar hospedado ali. Tom dá o preço: – “Dez e meio por uma noite”. O estranho diz que não tem nenhum dinheiro, mas que poderia pagar com trabalho.

Gretchen, que parece ter ficado curiosa com o estranho, intervém para dizer que o jardim precisa de uma boa mão de obra.

Tom diz que tudo bem – e, de maneira bem inglesa, diz “Por falar nisso, não peguei seu nome”.

– “Eu não tenho nome”

Intrigado com aquilo, o dr. Meinard deixa de lado o jornal que estava lendo, levanta-se e vai até a mesa do estranho. Pergunta se ele está se sentindo bem, coloca a mão na sua testa, senta-se à mesa e começa a medir sua pulsação.

Faz uma cara de absoluta surpresa: – “Meu amigo, você não tem pulsação.” E, depois de um breve silêncio: – “Bem, temos duas possibilidades. Ou eu estou bêbado, ou você está morto.”

Corta, e vemos um carro passar na estrada por onde Susan havia passado. Nele estão dois policiais e Arthur Walker, o noivo. Eles param perto do carro da moça – bastante destroçado com a batida.

Não há ninguém no carro.

Estamos aí com apenas 8 dos 75 minutos que dura o filme.

O primeiro beijo interplanetário da História do cinema

Relatei bem detalhadamente o início do filme, como sempre gosto de fazer – acho que o jeito com que os realizadores abrem a narrativa define todo o tom, o espírito do filme. Mas agora aperto a tecla fast forward.

Veremos logo que o estranho sem nome, que tem toda a aparência de um ser humano – embora com um rosto um tanto mecânico, sem expressão, uma boa sacada do diretor Burt Balaban e do ator Helmut Dantine –, declara que veio de Vênus. Veio em uma missão precursora: pretende que os líderes do planeta se reúnam perto dali onde ele está, dentro de 48 horas terrestres, porque seus superiores virão ter uma conversa importante com eles. Virão dizer que os terráqueos precisam parar imediatamente com o aumento do estoque de bombas atômicas e de hidrogênio. Uma eventual guerra com o uso desse arsenal afetaria todo o Sistema Solar – o que seu planeta não iria tolerar, de forma alguma.

Paralelamente, o Estranho de Vênus (como diz o título do filme) conta que, sim, foi ele que cuidou Susan North. O carro dela estava muito perto de onde a nave dele pousou. Ele foi até lá, encontrou-a gravissimamente ferida, e cuidou dela.

Quando ele diz isso, alguém pergunta, é claro, se ele é médico, e ele esclarece que não. Os venusianos, portanto, sequer precisam ser médicos para operar milagres na saúde das pessoas.

Ah, sim: numa noite qualquer, o Estranho de Vênus entra no quarto de Tom Harding, pega na perna dele – e no dia seguinte o homem já não manca mais.

Há um ponto bem interessante na trama. Previsível, sim, mas bem interessante: curada, boa, as poucas marcas deixadas pelo acidente grave desparecendo bem rapidamente, Susan passa a sentir atração pelo Estranho de Vênus. E ele também, é claro, se interessa por ela – como não se interessar por uma personagem que é interpretada por Patricia Neal, meu Deus do céu e também da Terra, quero dizer, do Universo?

Naqueles anos 1950, e a partir deles, sempre houve polêmica a respeito de qual foi o primeiro beijo inter-racial do cinema de Hollywood. (É bom lembrar que, em vários Estados americanos, o casamento de pessoas com cor de pele diferente foi proibido por lei até o Civil Rights Act, assinado pelo presidente Lyndon B. Johnson em 1964.)

Algumas fontes dizem que foi Ilha Nos Trópicos/Island in the Sun (1957), mas isso é errado – simplesmente porque não há um beijo de pessoas de cores de pele diferentes no filme. Há uma história de amor entre os personagens de Harry Belafonte e Joan Fontaine, e por causa disso a atriz recebeu centenas de cartas ofensivas, mas os dois não se beijam.

Pois neste filme B e obscuro de 1954 uma mulher branca beija um venusiano. Pelo que eu saiba, foi o primeiro beijo interplanetário da História do Cinema. Mas, como o venusiano do filme era branco, ninguém chiou, ninguém achou estranho…

Há uma controvérsia sobre o país em que se passa a ação

Há uma questão na trama que também me pareceu interessante, importante. Provavelmente para evitar o pânico entre a população, as autoridades do país em que o Estranho de Vênus aterrissou tomam diversas atitudes nada democráticas, e sim autoritárias, ditatoriais. A imprensa passa a ser censurada – não pode noticiar que de fato pousou ali uma nave interplanetária. A área em que houve o pouso – inclusive a cidade nunca chamada pelo nome em que fica a hospedaria de Tom Harding, onde vivem Susan North e o dr. Meinard – é cercada e isolada por tropas. Ninguém pode entrar, ninguém pode sair. Lá pelas tantas, Susan tenta sair dali, mudar de ares, espairecer – dá para presumir que é para se afastar da tentação representada pelo estranho, para evitar que traia o noivo. E é barrada pelas forças militares.

Esse ponto – o fato de que estamos em um país pouco democrático – é um indício de que a ação não se passa na Grã-Bretanha. Há vários outros.

A questão da localização da ação é levantada na página de Trivia – informações, curiosidades – do IMDb sobre o filme. O primeiro item enumera vários itens. (Os trechos em itálico abaixo são meus, para complementar as informações.)

“O local em que se passa a ação do filme é um tanto misterioso. Parece ser a Inglaterra, mas o rádio tem vozes americanas em vez de britânicas; tanto o doutor quanto a moça do bar têm sotaques bem ingleses, mas nomes da Europa Central (Meinard e Gretchen); a polícia usa uniformes que sugerem Europa do Leste (e carregam revólveres no coldre, algo que não existe na Inglaterra); um político é descrito como (sub)secretário do Interior, um cargo que não existe no governo britânico; há uma referência ‘ao presidente’, em vez de ao primeiro-ministro; e a hospedaria em que ao parte das cenas se passa parece uma mistura de pub inglês e gasthaus austríaco.”

Um outro item da página de Trivia do IMDb afirma: “Normalmente se fala que o filme se passa na Inglaterra ou Grâ-Bretanha. Mas parece claro que se pretende dizer que é um país fictício cujo nome não é mencionado.” E acrescenta que os policiais e militares não usam uniformes britânicos, e os carros não têm placas semelhantes às britânicas.

Pois é – mas os carros todos têm a direção à direita, e as mãos nas estradas também são à inglesa, ao contrário do usual na maioria dos países, Brasil inclusive, é claro. “Até o telefone na parede do pub não é o que normalmente se vê na Grã-Bretanha”, detalha o IMDb.

Seguramente os realizadores pretenderam que os espectadores achassem que aquele é um país fictício. É o que eu acho – mas vai aí uma fraqueza do roteiro. Por que diabos aquela civilização tão avançada escolheria um país qualquer da Europa Central para pousar e ali reunir as maiores lideranças do planeta Terra? E por que no interior, no meio do campo, perto de uma cidadezinha pequena, e não em uma grande metrópole, Londres, Nova York, Paris, por exemplo?

A resposta mais provável, me parece, é que para que a ação se passasse em uma grande metrópole, a produção seria bem mais trabalhosa, mais dispendiosa. E este é um filme B, visivelmente feito com orçamento pequeno.

Bem. Sei lá.

Uma atriz marcante, de vida pessoal atribulada

Patrícia Neal… Ah,, Patricia Neal!

Os cinéfilos mais velhos se lembram dela em, entre tantos outros, Vontade Indômita/The Fountainhead (1949), ao lado de Gary Cooper, Missão Perigosa em Trieste/Diplomatic Courier (1952), ao lado de Tyrone Power, O Indomado/Hud (1963), ao lado de Paul Newman, A Primeira Vitória/In Harm’s Way (1965), ao lado de John Wayne e Kirk Douglas, além, é claro, de O Dia em que a Terra Parou.

Em 1981, a maravilhosa Glenda Jackson interpretou a atriz no filme A História de Patricia Neal, em que Dirk Bogarde fazia Roald Dahl, que foi marido dela entre 1953 e 1983.

A cinebiografia foi feita e lançada quando Patricia Neal ainda estava viva e atuante – ela morreria em 2010, aos 84 anos. Mas tinha mesmo que haver um filme sobre ela – foi uma vida densa, atribulada, desde bem o início da carreira. A partir da época em que fizeram juntos The Fountainhead, ela e Gary Cooper, então um dos maiores astros do cinema mundial, e casado, tiveram um caso amplamente noticiado nas colunas de fofocas. A intensa publicidade negativa foi seguida de um colapso nervoso da então jovem atriz – e, em meados dos anos 1960, Patricia sofreu mais de um AVC. Mas insistia em se recuperar, e voltar a filmar. Em 1999, os 73 gloriosos anos, trabalhou no delicioso A Fortuna de Cookie/Cookie’s Fortune, de Robert Altman.

Alguns cinéfilos brasileiros devem se lembrar ao menos do título do romance Eu Também Tenho Medo, Patricia Neal. O livro, lançado em 1979, foi escrito por José Carlos Abbate, veterano jornalista com quem convivi (de longe – nunca fomos próximos, infelizmente) na redação do Jornal da Tarde. Abbate, como a atriz, havia sofrido um AVC.

“As razões pelas quais Patricia Neal nunca se tornou uma estrela maior parecem ser bastante complexas, uma combinação de circunstâncias e personalidade”, diz o belo, denso livro Actors & Actresses. “Ela se tornou proeminente exatamente no momento em que o que agora pensamos ser o período ‘clássico’ de Hollywood – caracterizado pelos sistemas interligados de estrela/estúdio/gênero – estava chegando ao fim. Também parece claro, no entanto, que Hollywood nunca soube ao certo o que fazer com ela – o que, exatamente, uma ‘imagem’ de Patricia Neal poderia representar, que ‘veículos’ poderiam ser construídos ao redor dela.”

Mesmo não sendo um grande filme, merece ser visto

O filme não consta no Cinéguide (18 mil títulos), no Guide des Films de Jean Tulard (15 mil), no Cinemania da Microsoft (25.000 títulos), no Film Guide da inglesa Time Out. no Le Petit Larousse des Films, no 5001 Nights at the Movies de Pauline Kael, nem nos guias de Leonard Maltin,

O guia de Steven H. Scheur, citado no início deste comentário, dá a Stranger from Venus 2,5 estrelas em 4: “Refilmagem de The Day the Earth Stood Still. (Helmut) Dantine substitui Michael Rennie como o alien do espaço que traz uma mensagem de paz e irmandade para a humanidade, ou então… (Patricia) Neal repete seu papel no filme de 1951. Também conhecido como The Venusian.”

O guia de Mick Martin e Marsha Porter premia o filme com um peru, que equivale como bomba, abacaxi, e ataca: “A mesma trama e a mesma estrela (Patricia Neal) do clássico The Day the Earth Stood Still não garantem a mesma qualidade. Um visitante de Vênus tenta avisar a Terra sobre os perigos das armas nucleares, mas encontra suspeita e ódio. Barato e sem imaginação. Veja Day, em vez disso.”

Discordo. Acho que é um filme que merece ser visto, mesmo sendo muitíssimo inferior ao grande clássico de Robert Wise. E o que o filme diz, o alerta sobre a insanidade das guerras, é tão importante hoje, nestes terríveis tempos de Trump e Putin e Netanyahu quanto nos anos da Guerra Fria.

Por uma dessas coincidências de que são feitas as histórias dos filmes e a vida real, logo depois que vimos o filme me deparei com um artigo do jornalista e escritor Edney Silvestre no Globo de 24/1/2026 com o título “Por que o mundo voltou a treinar para a guerra”. Eis aqui trechos do artigo – tão bom quanto apavorante:

“Quando uma amiga que vive na Finlândia me contou, quase em tom casual, que os dois filhos fazem exercícios regulares para correr aos abrigos antiaéreos, tive um daqueles sobressaltos silenciosos. Não pelo ineditismo histórico — a Europa já viveu isso —, mas pela naturalidade com que o medo foi incorporado à rotina. Treinos organizados pela escola, cronometrados, repetidos. A guerra como possibilidade concreta, não como hipótese remota. (…)

“Não se trata de paranoia individual. É percepção social. O temor de uma escalada militar russa deixou de ser abstração geopolítica. Alex Younger, ex-chefe do MI6, afirmou recentemente que o Reino Unido precisa se preparar para a possibilidade real de confronto direto com a Rússia. O Parlamento britânico aprovou um aumento de £ 6 bilhões para produção de armamentos. A França anunciou que dobrará seus gastos militares até 2027, alcançando € 64 bilhões; a Alemanha projeta o mesmo patamar. A Polônia elevou seu orçamento de defesa de 2,2% para 4,7% do PIB. O Japão, aliado estratégico dos Estados Unidos e constitucionalmente pacifista desde o Pós-Guerra, deu início a um reforço militar com investimentos estimados em US$ 57 bilhões.

“Países não se rearmam nessa escala por capricho.”

O alerta do filme sobre a insanidade das guerras é tão importante hoje quanto nos anos da Guerra Fria. Ou mais ainda.

Anotação em janeiro de 2026

Stranger from Venus ou The Venusian ou Immediate Disaster

De Burt Balaban, Reino Unido-EUA, 1954

Com Patricia Neal (Susan North),

Helmut Dantine (O Estranho),

Derek Bond (Arthur Walker), Cyril Luckham (Dr. Meinard), Willoughby Gray (Tom Harding), Marigold Russell (Gretchen Harding), Arthur Young (cientista), Kenneth Edwards (Charles Dixon), David Garth (policial), Stanley Van Beers (general), Nigel Green (policial), Graham Stuart (chefe de polícia Richards)

Roteiro Hans Jacoby

Baseado em história de Desmond Leslie

Fotografia Kenneth Talbot

Música Eric Spear

Montagem Peter R. Hunt

Direção de arte John Elphick

Figurinos Laura Nightingale

No YouTube. Produção Burt Balaban, Gene Martel, Rich & Rich Ltd., Princess Pictures.

P&B, 75 min (1h15)

**1/2

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