
(Disponível no YouTube em 4/2026.)
The Capture, no Brasil Na Solidão do Inferno, de 1950, tem a direção segura, competente, de John Sturges, dez anos antes de Sete Homens e um Destino, e a beleza suave, encantadora de Teresa Wright, sete anos depois do hitchcockiano A Sombra de uma Dúvida. Apesar disso, é um filme bem pouco conhecido – e um tanto difícil de ser encaixado, classificado em um gênero específico.
O IMDb e também a Wikipedia o classificam como western, algo que a rigor o filme não chega exatamente a ser. De western ele tem o fato de que se passa ao Sul do Oeste Distante, o Far West, que levou à palavra faroeste. A ação acontece quase toda no México – e, embora não se especifique exatamente quando, é com toda certeza já no século XX, quando as estradas – de ferro e também as de carros – já tiravam do Oeste e daquele país ao Sul do Rio Grande a característica de ser tão far away, distante, longínquo.
É verdade que em uma sequência específica, de imensa importância na história, os dois personagens usam armas no coldre amarrado à cintura, como era o costume no Far West durante as décadas da conquista do território, nos séculos anteriores ao XX.
Mas a história densa, intrincada, cheia de surpresas, imprevistos, tem um clima de filme noir – com uma boa pitada de romance. Um romance difícil, tortuoso, entre um sujeito torturado pela culpa por ter matado um homem e a viúva daquele homem. “Guilt”, culpa, foi um dos títulos-tentativa, enquanto o filme estava sendo produzido, antes que os realizadores optassem por The Capture, a captura. E a referência ao noir, gênero muito presente nos anos que antecederam seu lançamento, não é de forma alguma descabida, tanto que, como mostra o IMDb, The Capture é comentado no site alemão Der Film Noir.
Cheguei até este The Capture em uma das minhas muitas garimpagens no YouTube por filmes da época de ouro de Hollywood, entre os anos 30 e 50 – minha praia preferida.

Não é um grande filme, de forma alguma, mas tem características interessantes, a começar por Teresa Wright. É muito boa, por exemplo, a sequência em que o protagonista da história, Lin Vanner (o papel de Lew Ayres), um profissional da indústria de petróleo que se torna um fugitivo, vê pela primeira vez a viúva do homem em que ele atirou não para matar, mas apenas para imobilizar. Lin bate o olho em Ellen Tevlin-Teresa Wright numa estação de trem no interiorzão do México – e se apaixona perdidamente.
Foram o diretor John Sturges e a atriz Teresa Wright que me atraíram para o filme – e ele me apresentou Niven Busch. O nome que não me dizia nada, mas é o cara que, entre várias outras coisas, escreveu os romances que deram origem aos filmes Duelo ao Sol/Duel in the Sun (1944) e Almas em Fúria/The Furies (1950), e foi o autor, ao lado de Harry Ruskin, do roteiro de O Destino Bate à Porta/The Postman Always Rings Twice (1946).
Niven Busch é o autor do argumento e do roteiro deste The Capture, e foi também o produtor do filme. Não por coincidência, de forma alguma por coincidência, ele era casado com Teresa Wright quando o filme foi feito. A belíssima mulher deu a ele dois filhos.
O homem procurado pela polícia se refugia na casa de um padre
Bom. Passa da hora de haver um resumo da trama. Vou usar como base a sinopse de uma fonte inquestionável – o catálogo de longa-metragens do American Film Institute. Vai sem aspas para me desobrigar a ser literal e permitir que eu acrescente meus pitacos.

Perseguido pela polícia no México, com um grave ferimento no braço, o americano Linley Vanner procura refúgio em uma cabana que vem a ser de um padre, o padre Gomez (Victor Jory). Incentivado pelo religioso, um homem calmo, gentil, Lin conta sua história – e então passamos a ver um longo flashback que vai durar quase toda a narrativa.
Um ano antes, Lin trabalhava como supervisor em um campo petrolífero que teve o dinheiro destinado à folha de pagamento dos empregados roubado em um assalto. Incentivado pela sua noiva, Luana (Jacqueline White), que estava de olho na recompensa oferecida pelo dono da pequena petroleira, Earl C. Mahoney (Barry Kelley), ele passou a procurar os assaltantes. E, em um lugar montanhoso, encontrou um sujeito, americano como ele, que Lin julgou que poderia ser o ladrão (na foto abaixo). Deu ordem para que o sujeito levantasse os braços; o outro respondeu que não podia – veremos que seu braço direito estava gravemente ferido. Mas, em um movimento impensado, Lin atirou no sujeito. A bala pegou só de raspão, e Lin levou o homem ferido para a polícia da cidadezinha mais próxima do local. O homem se identificou como Sam Tevlin (Edwin Rand), disse conhecer algumas pessoas do campo de petróleo, inclusive o próprio Lin, mas garantiu que não roubou coisa alguma.
Dias depois de ser entregue à polícia, Sam morreu. Por acreditar que o homem de fato não havia roubado a folha de pagamento da empresa, e cheio de culpa por ter atirado nele, Lin se recusou a receber os US$ 2 mil oferecidos como recompensa, e pediu demissão da petroleira. Chocada com aquilo, Luana, a noiva – loura como toda femme fatale dos filmes noir – devolveu a ele a aliança de noivado. Lin só pensava em sair dali para o mais longe possível. Acabou pegando o trem que levava o caixão com o corpo de Sam para a cidade de Los Santos, onde a viúva estava à espera.
Aí acontece o relâmpago, o tremor de terra – tomado por culpa, perdido, sem emprego, o sujeito se apaixona perdidamente pela viúva.
Não é o caso de relatar o que vem a partir daí. Sem dar spoiler, é possível dizer que Lin acabará, mais uma vez sem querer, provocando a morte de um homem – e se tornando um fugitivo da polícia.

“Uma história estranha e melancólica”
Na época do lançamento do filme, o crítico Edwin Schallert, do Los Angeles Times, escreveu: “The Capture é uma história estranha e melancólica sobre uma caçada humana e a consciência de um homem, com um fascínio peculiar… Os dois personagens principais estão em conflito – e se amando –, o que os deixa com uma remota semelhança com os personagens e Gregory Peck e Jennifer Jones em Duel in the Sun. Como seu predecessor escrito por Busch, essa nova produção mistura os temas de romance e ódio de maneira estranha, poderosa e às vezes errática, ao abordar o tema vago da retribuição e seus efeitos sobre os das figuras masculinas centrais da trama.”
Também citado pela Wikipedia no verbete sobre The Capture, o crítico Howard H. Thompson, do New York Times, não gostou do filme. Escreveu que a obra tem de bom algumas paisagens mexicanas, e isso era tudo: “A primeira produção independente de Niven Busch, um homem que leva jeito com a máquina de escrever, é um pequeno western estático e pretensioso, cheio de conversa pomposa, com pouca ação e significando exatamente coisa alguma. Mas ele se esforça bastante.”
Vixe… Crítico quando resolve pegar pesado é dureza…

O filme foi distribuído pela RKO Radio Pictures, e por isso mereceu um verbete no livro The RKO Story. Mas os autores do livro torceram o nariz para ele: “Niven Busch, o autor de Duel in the Sun, escreveu e produziu The Capture para a sua empresa Showtime Properties. Passado em paisagens mexicanas, este melodrama enfadonho e verborrágico é estrelado por Lew Ayres como chefe de uma pequena companhia de petróleo americana que atira em um homem suspeito de ter roubado a folha de pagamento da empresa. Depois de descobrir que o sujeito era provavelmente inocente, Ayres se apaixona pela viúva da vítima, Teresa Wright (que acontecia de ser a mulher de Busch na época), Mas a consciência de Ayres o leva tentar resolver o quebra-cabeças – uma decisão que conduz a uma segunda morte acidental, e o transforma em um fugitivo da lei exatamente como o outro havia sido. O antigo montador da RKO John Sturges dirigiu, dotando o roteiro pretensioso com um mínimo de estilo.”
Hum… Reduzir John Sturges à condição de mero ex-montador da RKO demonstra imensa má-vontade, para não dizer leviandade.
Em seu livro Dicionário de Cinema – Os Diretores, Jean Tulard elogia vários filmes de John Sturges (1911-1992), começando pelos westerns, gênero pelo qual o realizador é mais reconhecido. “A Fera do Forte é um das melhores análises das guerras indígena; Punido Pelo Próprio Sangue conta com um excepcional roteiro de Borden Chase cheio de implicações freudianas; Sem Lei e Sem Alma compara-se à versão de Ford pela idéia constante de morte que impregna os personagens; Duelo na Cidade Fantasma tem um extraordinário final: Duelo de Titãs conta com excelentes seqüências, mesmo que o filme tenha sido demasiadamente influenciado por High Noon; enfim, só nos resta sonhar diante do extraordinário elenco de Sete Homens e um Destino (Steve McQueen, James Coburn, Charles Bronson, Robert Vaughn, Brad Dexter então pouco conhecidos), sem esquecer o nostálgico A Hora da Pistola.
Em seguida, o estudioso francês ressalta: “Mas esse cineasta teve bons resultado também com o filme noir, com uma obra de um suspense inteligente, A Um Passo do Fim, e sobretudo Conspiração do Silêncio, que contrapunha num pequeno vilarejo perdido Spencer Tracy aos habitantes solidariamente responsáveis pelo assassinato de um japonês. A luta entre Tracy (maneta em função das necessidades do filme) e Borgnine ficou nas antologias.”
John Sturges merece respeito. E Teresa Wright é um prazer para os olhos.

Anotação em abril de 2026
Na Solidão do Inferno/|The Capture
De John Sturges, EUA, 1950
Com Lew Ayres (Lin Vanner),
Teresa Wright (Ellen Tevlin),
Victor Jory (padre Gomez), Jacqueline White (Luana, a noiva de Lin Vanner), Jimmy Hunt (Mike Tevlin, o filho de Ellen), Jimmy Hunt (Mike), Barry Kelley (Earl C. Mahoney, o dono da petroleira), Duncan Renaldo (Carlos), William Bakewell (Tobin), Frank Matts (Juan), Felipe Turich (Valdez), Edwin Rand (Sam Tevlin, o marido de Ellen)
Argumento e roteiro Niven Busch
Fotografia Edward Cronjager
Música Daniele Amfitheatrof
Montagem George Amy
Produção Niven Busch, Showtime Properties, Inc.
P&B, 91 min (1h31)
**1/2
