
(Disponível na Netflix em fevereiro de 2026.)
Dele & Dela/His & Hers, minissérie de crime & mistério lançada pela Netflix em janeiro de 2026, até que promete. A trama me fisgou direitinho, no primeiro dos seis episódios: uma mulher é brutalmente assassinada em um bosque próximo a uma pequena cidade da Geórgia. Uma jornalista famosa, ex-âncora de emissora de TV, que é da cidade em que ocorreu o crime, vai cobrir o caso.
Anna Andrews (Tessa Thompson) não conta isso ao seu editor, quando se oferece para sair de Atlanta, a capital, e ir para a pequena Dahlonega acompanhar a história, mas ela tinha sido colega de escola e amiga íntima da vítima, Rachel Hopkins (Jamie Tisdale), assassinada com 40 facadas.
Mais: vai sendo revelado que Anna e Rachel faziam parte de um grupo inseparável de cinco garotas, colegas de escola – e tinha havido uma experiência traumática exatamente no dia em que as cinco foram para um bosque comemorar os 16 anos de Anna.
Mais: a jornalista Anna era casada com o detetive Jack Harper (Jon Bernthal), que vai chefiar a investigação do assassinato de Rachel. Estão separados – mas ainda são marido e mulher.
Mais ainda: Jack, o marido que havia sido abandonado por Anna, estava tendo um caso com Rachel, a vítima.
Bem, ele não era o único – Rachel dava mais que chuchu na cerca. Mas o fato é que, na noite chuvosa em que Rachel foi assassinada com 40 facadas, e deixada em cima do capô de seu carro, no meio do bosque, ela e Jack haviam trepado exatamente ali, no carro dela.
E ainda tem mais: Anna estivera exatamente ali naquele lugar, e vira – sem ser vista – o ainda marido e a amiga de adolescência trepando.
É ou não é para fisgar o espectador?
Sim. Um excelente ponto de partida para uma trama interessante, atraente.
E a trama começa de fato muito bem. Há diversos personagens cujas vidas se entrelaçam de maneira complexa, fascinante.
A questão é que a série vai caindo em uma série de exageros. Os dois atores que fazem os papéis centrais, a jornalista famosa que vai cobrir o crime e o detetive experiente que vai investigá-lo, Tessa Thompson e Jon Bernthal, estão bem na maior parte do tempo, mas em diversos momentos exageram. E o criador e principal roteirista da série, William Oldroyd, e seus co-roteiristas, cedem igualmente a essa tendência tão comum ultimamente do exagero, do abuso, da overdose.
Para, afinal, no sexto e último episódio, faltando uns 15 minutos pra o The End, os autores aparecerem com um vira-tudo-se-quiser, a pirueta de encerramento, a reviravolta para deixar todas as reviravoltas no chinelo.
E aí…
Aí periga o coitado do espectador suspirar fundo e pensar que poderia muito bem ter feito outra coisa na vida durante aquelas 4 horas e meia que dura a minissérie…
Na abertura, uma tomada impressionante – e corta!
Dele & Dela abre com uma tomada de um carro vermelho parado no meio de um bosque, os limpadores de pára-brisa acionados – e, diante deles, sobre o capô, o corpo de uma mulher.
A tomada é impressionante. A câmara vai fazendo um zoom em direção ao carro, em direção à mulher. Ela ainda não morreu – seu braço esquerdo ainda se mexe, nos estertores. Os olhos estão abertos, voltados para a esquerda dela, exatamente para o lado em que a câmara se aproxima do rosto.
Surge na tela, em cima do rosto da mulher, em letras gigantescas, o título da série, His & Hers,
Na tomada seguinte, uma mulher, usando uma capa com capuz sobre a cabeça, com uma expressão de espanto, cansaço, desolação, está chegando em casa.
Veremos rapidamente que ela é Anna Andrews, jornalista.
No apartamento dela, no que é evidente o dia seguinte ao da tomada da mulher morrendo, Anna está perdida em pensamentos. Uma voz em off diz as primeiras frases da série:
– “Há pelo menos dois lados em cada história. O seu e o meu. O nosso e o deles. Dele e dela. Ou seja, alguém está sempre mentindo.”
Corta, e uma garotinha linda, bem novinha, de uns 4 ou 5 anos (sou péssimo para calcular idade de crianças), está acordando um homem que dormia profundamente. Veremos que a garotinha é Meg (Ellie Rose Sawyer), e o homem é o tio dela, o detetive Jack Harper. Jack vive na casa da irmã, Zoe (Marin Ireland), a mãe solteira e alcoólatra de Meg.
A sequência é feita para mostrar que Jack e Meg se dão super, super bem – ele gosta de brincar com ela, sabe agradá-la, e Meg adora o tio.
Ao chegar à delegacia de polícia, Jack é recebido por sua parceira, uma jovem policial descendente de indianos que ele chama de Boston. A jovem Priya Patel (Sunita Mani) havia mandado mensagem, que Jack não lera porque seu celular estava descarregado: – “Temos um cadáver”.
Jack e Priya vão direto para o bosque em que ele havia estado na noite anterior. Claro, neste momento o espectador ainda não sabia disso, que o detetive que investigará o caso havia estado ali na noite anterior, e trepara ali mesmo com aquela mulher que agora está morta.
Corta, e vemos Anna chegando ao prédio da emissora de TV de Atlanta, a WSK TV.
O sistema de segurança não reconhece o crachá que ela coloca junto da catraca de entrada. Ela pede a ajuda de Sam, o funcionário que ela conhece bem. Sam examina o crachá, comenta que ele venceu no ano anterior; dá um jeito, o crachá volta a funcionar. – “Seja bem-vinda de volta”, diz Sam.
Várias pessoas cochicham entre si ao ver Anna Andrews entrando na redação, caminhando em direção à sala do chefe, Jim Pruss (Mike Pniewski).
Mulher flagra marido, marido flagra mulher – começa bem a trama
Aos poucos, bem aos poucos, o espectador vai sendo informado sobre o que havia acontecido na vida de Anna – e de seu marido, o detetive Jack Harper.
Tinham sido felizes. Eram muito apaixonados um pelo outro, cada um ia bem em sua profissão. Tiveram uma filhinha, Charlotte – mas a garotinha morreu antes de completar um ano. Aí Anna pirou. Saiu de casa, sumiu, não apareceu mais no emprego. Apesar de ser policial, detetive, e bom de serviço, Jack não havia conseguido encontrá-la.
Na emissora de TV, Anna havia no passado conquistado o ambicionado cargo de âncora de um dos principais noticiários. Depois que ela desapareceu, havia assumido o posto uma lourinha linda, cara de Barbie, Lexy Jones (Rebecca Rittenhouse).
No dia seguinte ao do assassinato Anna reaparece.
O chefe de redação a recebe muito bem – mas é claro que ela não poderia simplesmente reaparecer depois de um ano e exigir de volta seu lugar como âncora. Rei morto, rei posto – e a imagem da lourinha à la Barbie enfeitava os anúncios da emissora.
E então Anna pede a Jim para ir cobrir, como repórter, o caso do assassinato de uma mulher em Dahlonega, que por acaso é a sua cidade natal.
A moça era uma jornalista competente, havia sido uma boa âncora – por que o chefe poderia dizer não àquele pedido?
Anna tem mais um pedido: quer que seu cameraman em Dahlonega seja Richard Jones (Pablo Schreiber), um sujeito altão que, por acaso ou mero descaso, é marido da loura Barbie Lexy Jones, a atual âncora.
Não vai demorar muito para que, no hotel de Dahlonega em que os dois profissionais se hospedam, o cameraman grandalhão e a bela ex-âncora agora repórter trepem barulhentamente – e sejam flagrados pelo ainda marido dela.
Mulher que flagra o marido comendo sua amiga dos tempos do ginásio no meio da floresta. Marido que flagra a mulher comendo o colega de trabalho. Começa assim esta série His & Hers. Promete…
Muitos personagens, com conexões intrincadas
Além de todos os personagens citados acima, são também importantes na trama o marido de Rachel, a mulher assassinada; a mãe da jornalista Anna Andrews; e as outras mulheres que, quando adolescentes, faziam parte do grupo de amigas inseparáveis junto com Rachel, Anna e Zoe, a irmã do detetive Harper.
Um pouco sobre cada um desses personagens:
* Clyde Duffie, o marido de Rachel (o papel de Chris Bauer), é o principal suspeito do assassinato de sua mulher, segundo o detetive Jack Harper. Tinha motivo: todo mundo sabia que Rachel era uma mulher de gigantesco, insaciável apetite sexual – e, interrogado pelo detetive, o marido, um ricaço, dono de uma cadeia de pizzarias, admite que sabia das traições da mulher, que ele aceitava por estar há algum tempo impotente.
* Alice Andrews (o papel de Crystal Fox), a mãe de Anna, sogra de Jack, vive inteiramente sozinha – e demonstra que precisa de cuidados. Jack gosta dela, e a visita com alguma frequência; por colegas policiais, ele fica sabendo que a senhorinha idosa foi vista, mais de uma vez, andando inteiramente nua pela cidade, aparentando não saber o que estava acontecendo e sem ter idéia de onde fica sua casa.
A velha Alice, é claro, fica felicíssima com o reaparecimento da filha que havia andado sumida durante um ano, depois da morte da filhinha.
No passado já distante, Alice havia trabalhado como faxineira para a mãe de Rachel. A patroa gostava muito da mulher pobre, e pagou os estudos de Anna na escola secundária particular da cidade, a St. Hilary’s Girls School.
* O grupo das cinco amigas inseparáveis dos tempos da escola secundária incluía – além de Rachel, Anna e Zoe – as garotas Helen Wang e Catherine A. Kelly.
Helen – revela-se quando estamos já depois da metade da série – era lésbica, o que afinal não importa nada, e sobretudo maliciosa, maldosa. Uma garota de mau caráter – o que importa muito. A vida dá voltas e, nos “dias de hoje”, os dias em que se passa a maior parte da ação, Helen Wang havia se tornado a diretora da St. Hilary’s Girls School. (Helen adolescente é interpretada por Tiffany Ho; adulta, por Poppy Liu.)
Alguns dias depois do assassinato de Rachel – com quem eventualmente fazia sexo, desde a adolescência -, Helen Wang é também morta a facadas.
Catherine (o papel de Astrid Rotenberry) era uma adolescente bem gordinha, e por isso, alvo desse crime tão absurdo quando comum entre adolescentes, o bullying. As próprias meninas da confraria das quatro amigas – em especial Helen e Rachel (que, adolescente, é interpretada por Isabelle Kusman) – zombavam dela. A garota Anne, no entanto, convidou Catherine para entrar para a confraria – que passou então a ter cinco integrantes.
Estavam juntas sempre, e portanto estavam juntas quando resolveram comemorar o aniversário de 16 anos de Anna (interpretada então por Kristen Maxwell), no meio do bosque próximo à cidade. Foi lá que aconteceu uma tragédia que marcaria a vida das cinco – e que, naturalmente, só é revelada no final da série.
Ufa. Me estendi bastante na narrativa da trama deste His & Hers, bem mais do que eu pensei inicialmente em fazer. Até porque a trama de fato é muito bem bolada, e as conexões entre esses muitos personagens são intricadas, fascinantes. Mas posso garantir que não foi aí nenhum spoiler.
Nos dois episódios finais, há um desenvolvimento bastante surpreendente. E, bem no final, há, como já foi dito, uma reviravolta que é assim para deixar todas as reviravoltas de histórias de crime e mistério parecerem fichinha, coisa pouca.
A autora do livro tem sólida experiência como jornalista
Os nomes dos atores deste Dele & Dela não me diziam nada; me interessei pela série pela curtíssima sinopse dela no IMDb – “Uma jornalista investiga um assassinato em sua cidade natal e entra em conflito com um detetive suspeito. Toda história tem dois lados – alguém está mentindo”.
Só depois de ver a série foi que me dei conta de que Tessa Thompson, a atriz que faz a jornalista Anna Andrews, está também em Identidade/Passing (2021), o drama dirigido por Rebecca Hall, a bela estréia da ótima atriz inglesa na direção, sobre duas colegas de escola que se reencontram adultas. Uma delas, de pele muito clara, se passava por branca – Tessa Thompson interpreta a outra, a mulata que sempre havia vivido como negra, seguindo o critério americano de que uma gota de sangue negro transforma a pessoa em negra, mesmo se ela for apenas suavemente morena. Racismo é uma coisa louca, que passa a anos-luz de qualquer lógica, racionalidade, bom-senso,
É uma bela mulher e uma boa atriz essa Tessa Thompson, nascida em Los Angeles em 1983 – estava portanto com 43 anos quando esta série foi lançada. É filha de um músico panamenho de origem africana e uma mexicana, tem 74 títulos na filmografia como atriz e já recebeu 27 prêmios e 61 indicações, entre estas uma ao Bafta de melhor atriz por Identidade e ao Globo de Ouro de 2026 como melhor atriz em filme-drama por Hedda (2025).
O criador da série, William Oldroyd, e seus co-roteiristas Tori Sampson. Bill Dubuque, Dee Johnson se basearam no romance de Alice Feeney. Jamais tinha ouvido falar nela; aprendi que Alice Feeney é inglesa, nascida em 1978, criada em Essex, sudeste da Grâ-Bretanha, que teve sólida experiência como jornalista. Começou a trabalhar na BBC aos 21 anos, e ficou lá cerca de 15 anos como produtora, repórter e editora. Começou a escrever seu primeiro romance, Sometimes I Lie (de vez em quando eu minto – que belo título!) aos 30 anos de idade, ainda trabalhando como jornalista.
Depois de Sometimes I Lie, lançado em 2018, seguiram-se mais sete romances – o mais recente deles é de 2026, e tem também um belo, atraente título, My Husband’s Wife, a esposa do meu marido. Alguns de seus livros chegaram à lista dos mais vendidos do New York Times.
No início de 2026, quando foi lançado esta minissérie Dele & Dela, estavam em desenvolvimento adaptações de três outros livros de Alice Feeney – Sometimes I Lie, Beautiful Ugly e My Husband’a Wife.
Dá para imaginar que o criador da série tenha feito mudança
s ao adaptar uma história passada no interior da Inglaterra para uma série passada no Estado da Geórgia. Não fiquei sabendo se no livro Anna Andrews é uma mulata, como no filme – mas, se isso foi uma criação de William Oldroyd, merece aplauso: acho excelente quando filmes e/ou séries mostram casais de cores de pele diferentes. Acho que é uma belíssima forma de combater o preconceito, de tratar como normais, comuns, corriqueiros os casamentos que, em vários Estados norte-americanos, eram proibidos por lei até 1964.
Eis a sinopse do livro de Alice Feeney no site da Amazon, que costuma apresentar bons resumos das obras: “Quando uma mulher é assassinada em Blackdown, uma pequena cidade quintessencialmente britânica, a jornalista de TV Anna Andrews fica relutante sobre cobrir o caso. O detetive Jack Harper suspeita do envolvimento dela, até que ele vira um suspeito em sua própria investigação de assassinato. Alguém não está dizendo a verdade, e para manter alguns segredos vale a pena matar. His & Hers é um thriller psicológico inteligente, com reviravoltas. Uma história de suspense emocionante, contada por narradores bem desenhados, que manterá os leitores em suspense até o final.”
Meu Deus: “para manter alguns segredos vale a pena matar”! Que frase é essa, siô? Coisa de louco…
Dele & Dela estava no final de fevereiro de 2026 com 7,2 no IMDb, nota média de 69 mil leitores do site. No Rotten Tomatoes, tinha aprovação de 69% dos leitores e de 62% dos críticos.
Anotação em fevereiro de 2026
Dele & Dela/His & Hers
De William Oldroyd, criador, roteirista, EUA, 2026.
Direção Anja Marquardt (3 episódios), William Oldroyd (3 episódios)
Com Tessa Thompson (Anna Andrews, âncora e repórter da emissora WSK TV News),
Jon Bernthal (detetive Jack Harper, da polícia de Lumpkin County, Dahlonega, Georgia, marido de Anna)
e Pablo Schreiber (Richard Jones, cameraman, marido de Lexy), Rebecca Rittenhouse (Lexy Jones, que substituiu Anna como âncora da WSK TV), Sunita Mani (detetive Priya Patel, apelidada de Boston, parceira de Jack), Crystal Fox (Alice Andrews, a mãe de Anna), Marin Ireland (Zoe Harper, a irmã de Jack), Poppy Liu (Helen Wang, diretora da St. Hilary’s Girls School), Chris Bauer (Clyde Duffie, o marido de Rachel), Jamie Tisdale (Rachel Hopkins, a primeira vítima), Ellie Rose Sawyer (Meg Harper, a filhinha de Zoe), Mike Pniewski (Jim Pruss, o chefe de Anna e Lexy na WSK TV), Rhoda Griffis (dr. Carol Turner), Dave Maldonado (o xerife de Lumpkin County, chefe de Jack e de Priya)
e Kristen Maxwell (Anna adolescente), Leah Merritt (Zoe adolescente), Tiffany Ho (Helen adolescente), Isabelle Kusman (Rachel adolescente), Astrid Rotenberry (Catherine A. Kelly, a colega gorda das quatro adolescentes)
Roteiro William Oldroyd (criador), Tori Sampson. Bill Dubuque, Dee Johnson
Baseado no livro homônimo de Alice Feeney
Fotografia Ante Cheng, Doug Emmett (3 episódios cada um)
Música Mac Quayle
Montagem Adam Epstein. William Henry. Daniel A. Valverde (2 episódios cada)
Desenho de produção Kelly McGehee
Diretor de Arte Alex McCarroll
Casting Nicole Abellera allman, Jeanne McCarthy
Figurinos Mirren Gordon-Crozier
Produção Dee Johnson, Campou Productions, Fifth Season,
Freckle Films, Viva Maude.
Cor, cerca de 270 min (4h30)
**1/2
