Ao Mestre, Com Carinho

3.5 out of 5.0 stars

(Disponível no Amazon Prime Vídeo e na Apple TV em 11/2025.)

Quase 60 anos depois de seu lançamento, em 1967, To Sir, With Love, no Brasil Ao Mestre, Com Carinho, permanece atraente, envolvente – um bom filme, e um filme importante. Põe em discussão um tema fundamental, dos mais sérios e difíceis que há: a educação de jovens das classes mais baixas, dos destituídos, dos sem perspectiva, dos que são – na imensa maioria das vezes – condenados a continuar na pobreza de seus pais e avós.

Como educar quem se recusa a aprender? O que fazer quando as crianças, os adolescentes, não conseguem perceber que a educação (como insistia um professor de Filosofia na ótima escola – pública – que tive a sorte de frequentar) é a única maneira de ter a possibilidade de melhorar de vida?

Tudo bem: é uma obra believer. Os cínicos poderão chamá-lo de otimista demais, róseo, sentimental, Pollyanna.

Anos e anos atrás, a cri-crítica Pauline Kael o chamou de desajeitado e ingênuo, e neste ano da graça (ou seria da desgraça?) de 2025 o “consenso da crítica”, segundo Rotten Tomatoes, é de que o filme é um tanto datado e abertamente schmaltzy, um sinônimo engraçadinho de sentimental – mas…

Ah, pois é, tem um mas. “Mas permanece atraente por causa da atuação extraordinária de Sidney Poitier” – e a cativante canção-tema é um clássico.”

Não me parece ruim, não, o “consenso da crítica” do grande site agregador de opiniões. “Embora seja um pouco datada e abertamente sentimental, To Sir, With Love permanece atraente”…

Só que, na minha opinião, não é apenas pela atuação extraordinária de Sidney Poitier e pela canção-tema que o filme é bom, se mantém bom. Ele tem várias outras qualidades.

A primeira delas é o fato de o filme ter sido feito – apesar de toda a má vontade do estúdio, a Columbia Pictures.

O filme foi praticamente enfiado na goela da Columbia

O diretor James Clavell e Sidney Poitier, à época já um ator consagrado, admirado, respeitado, tinham interesse em fazer o filme. O roteiro, escrito pelo próprio Clavell, se baseava no romance parcialmente autobiogáfico To Sir, With Love, de E.R. Braithwaite, publicado em 1959. Braithwaite, um homem negro, tinha sido – como o protagonista da história – professor em uma escola secundária em uma área pobre de East London. Uma escola dura, barra pesada, que recebia alunos que haviam sido expulsos de outros lugares por mau comportamento.

A Columbia não demonstrava interesse algum naquilo. Diretor-roteirista e ator se dispuseram a fazer o filme por um salário reduzido, em troca de um percentual sobre o que viesse a ser arrecadado nas bilheterias. O salário de Sidney Poitier foi de US$ 30 mil. (Para comparar: em 1962-1963, Elizabeth Taylor havia ganhado US$ 1 milhão para fazer Cleópatra.)

– “Quando estávamos prontos para começar a filmar, a Columbia queria que houvesse ou um estupro ou uma grande briga no filme”, contaria Martin Baum, o agente de Sidney Poitier. “Nós ficamos firmes, dizendo que aquele era um filme delicado, e vencemos.”

O filme foi rodado em Londres – na região do East End retratada na história, e em parte nos famosos Pinewood Studios – com o orçamento pequeníssimo de US$ 600 mil.

A má vontade da Columbia era tão grande que as filmagens terminaram em 31 de maio de 1966, mas o filme só foi lançado nos Estados Unidos em 14 de junho de 1967.

E aí aconteceu um fenômeno – uma dessas coisas absolutamente inesperadas, imprevistas, malucas: o filme estourou nas bilheterias dos Estados Unidos. Ficou entre os dez maiores sucessos de 1967, aquele ano em que os primeiros lugares foram, pela ordem, A Primeira Noite de um Homem/The Graduate, a animação disneyesca  Mogli: O Menino Lobo/The Jungle Book, e Adivinhe Quem Vem Para Jantar/Guess Who’s Coming to Dinner, o excelente filme sobre racismo não no Sul Profundo, mas na progressista Califórnia, entre gente rica, liberal, com a dupla Spencer Tracy & Katharine Hepburn e… Sidney Poitier, aquele deus Apolo com a pele cor de ébano.

To Sir, With Love, que havia sido praticamente forçado goela abaixo do estúdio e custado US$ 600 mil. rendeu US$ 42,4 milhões!

Aos US$ 30 mil de salário de Sidney Poitier e James Clavell, somaram-se, portanto, os 10% da renda – só US$ 4,24 milhõezinhos…

Segundo o IMDb, a Columbia ficou tão assustada com o sucesso do filme que encomendou uma pesquisa para saber por que as pessoas tinham ido comprar entrada. A resposta: Sidney Poitier.

1967 não foi um mau ano para o ator. Além deste Ao Mestre, Com Carinho e de Adivinhe Quem Vem Para Jantar, foi lançado ainda No Calor da Noite/In the Heat of the Night, aquela beleza de filme de Norman Jewison em que um policial negro é encarregado de investigar um crime em uma cidade do sul racista, apenas recentissimamente proibido de manter suas leis segregacionistas, idênticas às do apartheid.

A canção título foi um extraordinário sucesso em todo o mundo

E não foi só o filme que estourou a boca do balão. A canção-tema, “To Sir, With Love”, composta por Don Black, letra, e Mark London, música, e cantada por Lulu, foi um sucesso incrível mundo afora.

No original, o que o tal “critics consensus” do Rotten Tomatoes diz: “the catchy theme song is a classic”. Lá em cima, usei “cativante”, que é um dos sinônimos de catchy. Mas catchy é também algo como que pega, grudento. “To Sir, With Love” é uma verdadeira canção-chiclete. Mary e eu nos lembrávamos dela como se ela tocasse aqui em casa pelo menos uma vez por semana.

Ficou nada menos de 15 semanas na lista da Billboard Hot 100 no outono de 1967 – e, durante cinco semanas, no número 1! Terminou o ano como o single mais vendido nos Estados Unidos. Isso no ano de “Penny Lane”, “All You Need is Love” e “Hello Goodbye”, daquele conjuntinho que a Decca dispensou, quase do mesmo jeito com que a Columbia ia dispensando o filme, e também “Ruby Tuesday” dos Stones e “Light My Fire” dos Doors.

Ah, sim: aquele tal conjuntinho que a Decca dispensou é citado lá pelas tantas nas conversas entre o professor Mark Thackeray e seus endiabrados, cabeludos alunos e minissaiúdas alunas.

Alunos grosseiros, desrespeitosos, muitas vezes agressivos

A narrativa começa no primeiro dia em que Mark Thackeray se apresenta na North Quay Secondary School, numa região pobre do East End de Londres, para ocupar a vaga deixada por um professor chamado Hackman, que não havia aguentado a barra de enfrentar a Classe 12 – o último ano do ensino secundário, com jovens em torno de 17 anos.

Veremos que Thackeray não tem experiência prévia como professor. Nascido na Guiana Inglesa, radicado por um tempo na Califórnia, ele havia se formado em Engenharia. Depois de algum tempo em Londres sem encontrar emprego como engenheiro, tinha se candidatato a uma vaga naquela escola mal afamada.

As professoras da escola o recebem com simpatia., em especial Miss Gillian (o papel de Suzy Kendall, na foto acima), uma loura simpática, atenciosa – que depois irá demonstrar especial interesse por aquela bela espécime de macho. O único outro professor homem, Mr. Weston (Geoffrey Bayldon), no entanto, pinta para ele o quadro mais pavoroso que se poderia imaginar. Ao vê-lo pela primeira vez, Weston diz: – “Então você é o novo cordeiro no matadouro? Ou eu deveria dizer… ovelha negra?” Pouco depois, na sala dos professores, onde estão as novas colegas de Thackeray que tentam encorajá-lo, Weston ataca de novo: – “Se eu fosse você, não ficaria, meu velho. Voltaria para casa enquanto dá. (…) O passatempo predileto deles é atormentar os professores.”

E mais adiante: – “Os danados sabem muitos truques. (…) Eles precisam é de uma boa surra. (…) Daqui a pouco eles farão parte dos londrinos sujos, iletrados, fedorentos e bastante felizes. Educação é uma desvantagem nos dias de hoje.”

O que Thackeray encontra na sala de aula é de fato apavorante. É o horror, o inferno. Alguns dos alunos mal sabem ler ou fazer contas – no último ano do ensino secundário! Não demonstram o menor interesse por nenhuma das matérias que Thackeray tenta abordar, seguindo os livros escolhidos pelo sistema de ensino público. E são grosseiros, desrespeitosos, muitas vezes francamente agressivos com o novo professor.

Três alunos se destacam no meio daquela zorra

No meio daqueles 20 e tantos rapazes e moças de mau comportamento, três se destacam em especial.

* Bert Denham (o papel de Christian Roberts) é o mais insolente, o mais desrespeitoso de todos. Não pára de fazer provocações, pequenas ou nem tanto, ao professor – e a instigar os colegas a se rebelar contra a autoridade dele.

* Pamela Denham é assim uma espécie de líder entre as garotas. É atraente, loura, olhos verdes, em alguns momentos bem bonita. (Judy Geeson, na foto acima, 18 anos de idade em 1966, ano das filmagens, me pareceu uma cópiade Julie Christie, aquela deusa que, entre 1965 e 1967, brindava o mundo com sua beleza e talento em Doutor Jivago, Fahrenheit 451 e Longe Deste Insensato Mundo.)

É filha de pais divorciados, algo que, segundo o filme insinua, não era muito comum na classe trabalhadora, pobre, naquela época. E, diferentemente de outras pessoas da classe, lê muito bem – a pedido do professor, por duas vezes lê alto poemas de – depois fiquei sabendo – Lord Byron. Um luxo.

Pamela vai desenvolver uma paixonite pelo professor – o que deixará Thackeray, é claro, completamente sem jeito.

* Creio que dá para dizer que Barbara Pegg, a Babs, como todos a chamam, disputa com Pamela o título de líder entre as moças da classe. É esperta, falante, desinibida, abusa das gírias. Babs terá destaque em uma sequência que considero especialmente importante do filme, sobre a qual falo logo adiante.

Babs é o papel de Lulu (na foto abaixo), cujo nome nos créditos no filme vem junto com a palavra “introducing”. Nascida na Escócia, em 1948 (o mesmo ano de Judy Geeson), estava portanto com 18 anos no ano das filmagens, 1966 – e, se como atriz estava estreando, já era uma cantora famosa. Seu single de estréia, ainda em 1964, com a canção “Shout”, dos Isley Brothers, chegou aos dez mais vendidos nas paradas do Reino Unido.

Como já foi dito, sua gravação da canção tema do filme, “To Sir, With Love”, foi um arrasador sucesso. Mais tarde, em 1974, pôs sua voz poderosa em um filme de James Bond, uma honraria para qualquer cantor, em 007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro/The Man with the Golden Gun. Em 2021, recebeu da Rainha Elizabeth II o título de CBE (Commander of the Order of the British Empire) “por seus serviços pela música, entretenimento e caridade.”

Depois de algum tempo, o professor perde a calma

É uma barra muito pesada a que o engenheiro que vira professor por não encontrar emprego na sua profissão enfrenta naquela North Quay Secondary School. Como tantos e tantos e tantos professores idealistas, bem intencionados, de bom caráter mundo afora.

Mas, como escrevi lá no início, Ao Mestre, Com Carinho, é um filme believer, que acredita na humanidade. E então acontece com esse Mark Thackeray o que certamente não acontece com boa parte dos professores de escolas barra pesadas na vida real: ele ganha o respeito daquele bando de moleques atrevidos, encrenqueiros, ignorantes.

Thackeray consegue suportar a bagunça, a insolência, a agressividade dos alunos por um bom tempo – mas chega um momento em que eles exageram, e o sujeito perde o controle.

Acontece quando o filme está chegando aos 30 minutos. Thacheray entra na sala e percebe que há um cheiro horroroso ali; os vidros das janelas estão fechados, e há algo queimando no forno de calefação.

Ele explode. Manda os homens saírem da sala, e grita com as mulheres: – “Eu estou farto da sua linguagem chula, do seu comportamento grosseiro e das suas atitudes vulgares. Há certas coisas que uma mulher decente mantém privado, e apenas uma vagabunda suja poderia fazer isso – e aquelas que aprovaram isso são ruins do mesmo jeito. Não me interessa quem é a responsável – a culpa é todas vocês. (…) Se vocês quiserem fazer essas brincadeiras sujas, façam nas suas casas, não na minha sala de aula.”

O filme não explicita o que estava queimando no forno. O IMDb diz que, no livro de E.R. Braithwaite que deu origem ao roteiro é dito com todas as letras: era um absorvente íntimo.

Thacheray sai da classe, vai para a sala dos professores – e se culpa por ter perdido a paciência, o autocontrole. Mas exatamente aí toma uma decisão, que logo em seguida comunica à classe, depois de jogar na lata de lixo ao lado de sua mesa todos os livros didáticos:

– “Isto está fora. Eles são inúteis para vocês. De repente percebi que vocês não são crianças – vocês serão adultos daqui a algumas semanas, com todas as responsabilidades que isso implica. Assim, de agora em diante vocês serão tratados como tal por mim e pelos outros. Como adultos, adultos responsáveis. Em seguida, vamos ser razoáveis uns com os outros. Vamos apenas conversar, vocês e eu.”

Ele exige ser tratado como “sir” – o que para nós seria “o senhor”, e não “você”. E que as moças sejam chamadas – como é a maneira educada no Reino Unido – por Miss + sobrenome.

Juntos e ao vivo, o conflito de gerações e o conflito de classes

Creio que é a partir desse momento – quando o professor perde a calma e muda de atitude, deixa de lado as matérias que não interessavam mesmo àquele bando de moleques – que os alunos começam a respeitá-lo.

Há, depois desse momento de grande tensão, uma conversa interessantíssima entre Thackeray e os alunos. É um dos grandes momentos do filme.

Começa com uma pergunta de Barbara Pegg, a Babs interpretada por Lulu: – “O senhor já esteve quebrado, sir? Sem grana nenhuma? Duro?”

Ele responde que sim, muitas, muitas vezes.

Um rapaz chamado Ingham (Peter Attard) diz que não compreende o professor: – “O que eu quero dizer é que o senhor é toff (gíria para autoridade, figura respeitável), e ao mesmo tempo não é.”

Thackeray indica que não entendeu, e Moira (Adrienne Posta) tenta explicar: – “Sir, o que ele quer dizer é, caramba, não consigo achar as palavras nem nada, mas…”

E aí Babs entra de novo: – “Bem, sir, o senhor é como nós, mas não é. É meio assustador, mas bom. O senhor entende o que eu quero dizer, não?”

E Thackeray: – “Bem, não sei como responder a vocês, a não ser que eu ensino verdades. Minhas verdades. Sim, e é meio assustador lidar com a verdade. Assustador, e perigoso.”

Que beleza de diálogo!

Há duas coisas entrelaçadas aí, creio – o conflito de gerações, que era algo fortíssimo naqueles anos 60, e o conflito de classes, sempre gigantesco na Inglaterra, talvez mais que em qualquer outro lugar do mundo.

Aquela rapaziada pobre, ignorante, sempre rejeitara os professores porque eram adultos, eram como seus pais – e além disso eram da classe média, tinham mais dinheiro, tinham tudo mais do que eles. Aquele homem sempre bem vestido, gravata no lugar, paletó irrepreensível, professor, autoridade, era, ao mesmo tempo, negro, e estrangeiro, e diferente dos outros adultos, e tinha sido duro, quebrado, sem grana…

Uma sequência antológica: jovens pobres no belo museu

Creio também que Thackeray acaba de conquistar a simpatia dos alunos quando os convida para visitar os museus onde eles jamais haviam sonhado botar os pés. E o convite é feito não para que eles observem exemplos da Grande Cultura, da Arte, da Erudição – mas porque Thackeray quer mostrar aos garotos que muito da moda moderna, inclusive o cabelo grande para os homens, que eles como arma de rebeldia, já havia sido usado séculos e séculos antes. Não era novidade alguma.

E é uma maravilha toda a sequência da visita dos garotos, com a supervisão de Thackeray e da sempre simpática e disponível Miss Gillian, ao Museu de História Natural e ao Victoria and Albert Museum.

No que eu entendi como sendo uma decisão do diretor e roteirista James Clavell de soltar uns fogos de artifício, lançar uns criativóis, toda a sequência dos garotos da periferia aos museus na elegante South Kensington aparece em fotos – dezenas e dezenas e dezenas de fotos, mostradas em montagem esperta, rápida mas não demais. Fotos dos garotos imitando as estátuas, fotos dos garotos extasiados diante de objetos que jamais supunham que pudessem existir.

Uma beleza de sequência. Um belo critivol, uma boa explosão de fogos de artifício.

Pois é… Na página de Trivia do IMDb sobre o filme, há um item que me deixou de queixo caído: os produtores haviam pedido permissão para filmar no British Museum, mas, pouco antes do dia marcado, foram informados de que não poderiam filmar lá dentro. No entanto, seriam permitidas fotos. E então os fotógrafos Laurie Ridley e Dennis C. Stone trabalharam com o elenco por todo o museu.

A sequência, como diz o IMDb, é icônica. Como eu disse, é maravilhosa – mas não foi um criativol de James Clavell – foi o resultado de uma decisão dos diretores do museu!

Na vida real, aquele professor não era tão simpático, tão doce

James Clavell. Quando vi o nome nos créditos iniciais, tocou um sininho na minha cabeça – mas muito, muito baixinho. Só depois que terminamos de ver o filme, e comecei a dar uma primeira pesquisada rápida sobre ele foi que me caiu a ficha. Claro, óbvio: Shogun, ou mais exatamente Shōgun, o famosérrimo romance histórico sobre o Japão de séculos e séculos atrás, ou mais exatamente o final do período Azuchi-Momoyama (1568–1600) e o início do período Edo (1603–1868). Tenho ali na estante uma das milhões de cópias do livro – sendo que seis milhões foram vendidos apenas entre o lançamento em 1975 e 1980… Nunca li, mas está ali na estante, o livro que virou não uma, mas duas séries de TV, uma em 1980, com Richard Chamberlain e Toshiro Mifune, e outra agora há pouco, 2024, falada na maior parte em japonês, com elenco majoritariamente japonês.

Eu não tinha a menor idéia de que James Clavell (1921-1994), o autor de Shōgun e de outros cinco romances passados na Ásia, foi também diretor e roteirista. Foi: dirigiu seis filmes e escreveu dez roteiros, entre 1959 e 1971.

As indicações são de que a visão otimista, believer de Ao Mestre, Com Carinho – a crença de que é possível mudar, melhorar, mesmo nas condições mais duras, entre adolescentes de famílias pobres, sem perspectivas – é obra de James Clavell, e não do livro em que o filme se baseia.

Segundo o IMDb, essa fonte inesgotável de informações, depois que o filme foi lançado, diversas pessoas que haviam sido alunas E.R. Braithwaite, o autor do romance semi-autobiográfico, testemunharam que, na vida real, ele não era um professor tão educado, suave, respeitoso quanto o mostrado no filme. Na vida real, disseram eles, o professor era rígido, duro – exigia uma disciplina severa dos alunos, usava castigos corporais (eram os anos 1950, é preciso lembrar) e tinha pouco daquela figura simpática, amável, que Sidney Poitier interpretou.

E mais: o próprio E.R. Braithwaite disse em entrevistas não ter gostado do filme, que contou sua história de uma maneira super sentimental.

Um monte de fatos muito interessantes cerca o filme

Há trocentos fatos interessantes acerca do filme, de sua produção, de suas repercussões. A página de Trivia do IMDb sobre ele tem 42 itens com curiosidades, coincidências, fatos. Vou tentar ser bem seletivo e registrar aqui apenas alguns deles.

* Trinta anos depois, foi feita uma continuação do filme, uma produção para a televisão, Ao Mestre, Com Carinho – Parte 2. O diretor foi o grande Peter Bogdanovich, e o elenco tinha, além de Sidney Poitier, Judy Gesson e Lulu, já então beirando os cinquentinha.

* Há no protagonista da história um tanto de a arte imita a vida. Assim como Mark Thackeray nasceu na Guiana Inglesa, Sidney Poitier nasceu nas Bahamas e depois se radicou nos Estados Unidos. Assim como seu personagem, que aprendeu a falar num patois, um inglês cheio de expressões locais, o ator também foi uma criança e um adolescente que falava um inglês patois. Assim como o personagem, o ator foi um adolescente muito, muito pobre, pouco educado, e trabalhou como lavador de pratos e zelador.

* O órgão de controle e censura de publicações e filmes da África do Sul, naqueles tempos de apartheid, proibiu a exibição de To Sir, With Love no país, já que era “ofensivo ver um homem preto ensinado uma classe de alunos brancos”.

* Apesar do inesperado mas imenso sucesso de To Sir, With Love nas bilheterias, a vetusta Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood esnobou solenemente o filme, que não teve uma única indicação ao Oscar. Nem mesmo a canção grudenta, que venceu feito água, foi sequer indicada – nem para o Oscar, nem para o Globo de Ouro.

Nenhuma das cinco canções indicadas ao Oscar naquele ano chegou à lista das 100 mais vendidas da Billboard – enquanto “To Sir, With Love”, como já foi dito, ficou 15 semanas, cinco delas no número 1.

* Parece ter havido alguma controvérsia sobre uma frase dita por Weston, o professor mal-humorado e lamuriento, que está sempre falando mal dos alunos da escola em que ganha a vida. Lá pelas tantas, na sala dos professores, um jornal no colo, Weston critica o fato de o presidente dos Estados Unidos não ter estado presente nas cerimônias fúnebres de Winston Churchill.

O IMDb dedica dois itens de sua página de curiosidades sobre o filme a esta questão. O site enciclopédico lembra que Churchill morreu no dia 24 de janeiro de 1965; um dia antes, Johnson havia sido hospitalizado com uma gripe forte, e os médicos recomendaram que ele não fizesse a viagem até Londres. Johnson quis que seu vice, Hubert Humphrey, permanecesse em Washington, por temer uma piora de seu estado de saúde.

Mas o fato é que a puxada de orelha que o chato do professor Weston dá nos americanos no filme deve ter causado descontentamento nos círculos políticos dos Estados Unidos…

Uma cepa de grandes filmes sobre o mesmo tema

Na época em que Ao Mestre, Com Carinho foi lançado – e até mesmo hoje, para os cinéfilos mais veteranos –, era quase impossível não lembrar de outro filme com exatamente o mesmo tema, Blackboard Jungle, no Brasil Sementes da Violência, do grande Richard Brooks, de 1955. Nele, o professor de Inglês Richard Dadier – interpretado por Glenn Ford – chega à North Manual High School, uma escola de alunos violentos, rebeldes, indisciplinados. A barra que ele enfrenta é pesadíssima – mas ele precisa desesperadamente do emprego, para botar comida na mesa para ele e para sua mulher grávida (interpretada por Anne Francis).

A lembrança do filme lançado 12 anos antes era obrigatória até mesmo por uma dessas coincidências incríveis de que é feita a vida: um dos alunos violentos da High School onde o professor Richard Dadier foi parar era interpretado por um ator nem iniciante nem tão jovem, de 28 anos de idade, chamado Sidney Poitier.

O cinema nos brindaria com outros bons filmes sobre professores corajosos, abnegados, como o Richard Dadier de Glenn Ford e o Mark Thackeray de Sidney Poitier. Michelle Pfeiffer interpretou Louanne Johnson, uma ex-fuzileira naval que vai trabalhar como professora em uma escola secundária em uma área pobre e tem uma recepção horripilante por parte dos alunos em Mentes Perigosas/Dangerous Minds, de 1995.

Apenas um ano depois, em 1996, Gérard Depardieu interpretou Laurent Monier, um professor de História que vai dar aula em uma escola de um bairro pobre da periferia de Paris, habitado por milhares de imigrantes africanos. O título original do filme de Gérard Lauzier é ao mesmo tempo verdadeiro e de uma ironia triste – Le Plus Beau Métier du Monde, a mais bela profissão do mundo. No Brasil, o título foi Nosso Professor é um Herói.

A mesma dura realidade de uma escola pública na periferia de Paris, nos dias de hoje, e portanto com uma forte presença de imigrantes e/ou filhos de imigrantes africanos, muçulmanos, orientais, antilhanos, é mostrada no excelente, belíssimo Entre os Muros da Escola/Entre les Murs, de Laurent Cantet, de 2008.

Em 2007, Richard LaGravenese havia lançado Escritores da Liberdade/Freedom Writers, baseado em uma história real, a luta de uma professora idealista, Erin Grunwell – interpretada maravilhosamente por Hilary Swank – em uma boa escola de Los Angeles pós-distúrbios raciais do início dos anos 90 forçada a admitir alunos pobres, miseráveis, dos guetos de chicanos, chineses e negros.

Pauline Kael diz que o filme é desajeitado e ingênuo

Leonard Maltin deu 3.5 estrelas em 4 a To Sir, With Love: “Excelente filme sobre o professor novato Poitier em escola briguenta de Londres que vai gradualmente ganhando o respeito dos estudantes. Boas interpretações, com bom trabalho de novatos britânicos; Lulu canta a canção título de sucesso. Escrito e produzido por Clavell, a partir do romance de E.R. Braithwaite.”

Eis a avaliação de Pauline Kael: “James Clavell escreveu e dirigiu este filme fracamente bem intencionado. É Blackboard Jungle remodelado para levar névoa a seus olhos. Desta vez Sidney Poitier é o professor – um originário das Índias Ocidentais – e ele inspira e reforma todo o bando de adolescentes durões do East End (e os professores também). A falta de jeito e a ingenuidade do filme parece que foram as responsáveis por fazer dele um favorito das bilheterias. Em filmes como este, o estereótipo de bondade que Poitier se infligiu cancela sua atuação. Adaptado de um romance de E.R. Braithwaite; com Judy Geeson, Suzy Kendall e Christian Roberts. Columbia.”

De Geografia Dame Kael não era muito boa. É dito claramente, mais de uma vez, no filme que o protagonista é da Guiana Inglesa. Que, segundo todos os mapas que eu já vi na vida, fica na América do Sul, e não nas Antilhas.

No Rotten Tomatoes, o filme tem 90% da aprovação dos críticos e 88% entre os leitores.

No IMDb, tem a nota 7,6, média da avaliação de 22 mil leitores.

Anotação em novembro de 2025

Ao Mestre, Com Carinho/To Sir, With Love

De James Clavell, Reino Unido, 1967

Com Sidney Poitier (Mark Thackeray)

(e os alunos) Judy Geeson (Pamela Dare), Christian Roberts (Bert Denham), Lulu (Barbara Pegg, a Babs), Patricia Routledge (Clinty Clintridge), Christopher Chittell (Potter), Peter Attard (Ingham), Adrienne Posta (Moira Joseph), Gareth Robinson (Tich Jackson), Lynne Sue Moon (Miss Wong), Anthony Villaroel (Seales), Richard Willson (Curly), Michael Des Barres (Williams), Marianne Stone (Gert),

e Suzy Kendall (Miss Gillian Blanchard), Faith Brook (Miss Grace Evans), Geoffrey Bayldon (Mr. Theo Weston), Ann Bell (Mrs. Dare, a mãe de Pamela), Edward Burnham (Mr. Florian, o diretor), Rita Webb (Mrs Joseph). Fred Griffiths (o homem do mercado), Dervis Ward (Mr. Bell, o professor de educação física), Fiona Duncan (Euphemia Phillips). Mona Bruce (Josie Dawes), Margaret Heald (Osgood), The Mindbenders (eles mesmos)

Roteiro James Clavell

Baseado em romance de E.R. Braithwaite

Fotografia Paul Beeson

Música Ron Grainer

Direção musical Philip Martell

Canção “To Sir, With Love” por Don Black, letra, e Mark London, música, cantada por Lulu

Montagem Peter Thornton

Direção de arte Tony Woollard

Maquiagem Jill Carpenter

Produção James Clavell, Columbia Pictures

Cor, 105 min (1h45)

***1/2

5 Comentários para “Ao Mestre, Com Carinho”

  1. Boa noite, caro Vaz.

    Puxa, que coincidência feliz: aluguei hoje à noite este filme no YouTube para assistir e, após terminá-lo, entro no seu site e eis um texto inédito sobre ele publicado aqui! Uma coincidência muito feliz.

    O que me motivou a assistir a este filme foi a atuação magistral e elegante de Sidney Poitier em “Adivinhe Quem Vem para Jantar”, o qual assisti semana passada motivado, por sua vez, pelo texto (muito belo) que você já havia escrito sobre ele aqui no site. “Adivinhe…” foi o primeiro filme a que assisti com Poitier — e que filme extraordinário: grandes lições, uma miríade de reflexões que ele nos leva a ter. O derradeiro discurso de Spencer Tracy ao final é memorável.

    Em “Ao Mestre, com Carinho”, Poitier exala a mesma elegância demonstrada naquele filme, e de modo semelhante modifica reflexivamente a forma como os outros ao redor o percebem (lá, a família da amada e os próprios pais; aqui, estudantes e corpo docente), sempre com decência, cortesia e sabedoria. A cena em que ele leva as flores para a mãe recém-falecida de um dos alunos e se depara inesperadamente com os outros estudantes da sua classe fazendo o mesmo é profundamente tocante.

    Você elencou alguns filmes com a temática parecida com a de “Ao Mestre…”, e, se me permite, gostaria de mencionar um outro (sobre o qual você também já escreveu aqui): “O Clube do Imperador”, com o grande Kevin Kline, outro filme maravilhoso, mais centrado nos valores éticos que assimilamos ao longo da vida, mas também abordando os atos de reconsiderar e perdoar.

    Muito obrigado, caro Vaz, por trazer em seu texto informações tão interessantes sobre a realização deste filme, fiquei feliz em saber mais dele. Vou buscar assistir a mais filmes de Poitier, somente esses dois filmes que já vi com ele me revelaram o ator notável.

    Um grande abraço, Sérgio.

  2. Qual o problema de um filme ser datado? Acho tão charmoso quanto se manter atual… Cada filme tem seu charme em seu objetivo.
    Quem quer realidade pode assistir documentário, ler a Barsa ou andar de metrô no horário de pico. Eu quero é ver o Sidney Poitier.

  3. Olá, Filipe!
    Nossa, isso é que é coincidência, não?
    Excelente, excelente seu comentário. Agradeço muito a você por enviar.
    Um abraço, bom fim de semana!
    Sérgio

  4. Senhorita, eu adoro quando você manda comentários! Seus textos são absolutamente delicioosos. Pena que voc|ê comenta poucas vezes.
    Um grande abraço!
    Sérgio

  5. Descobri este filme graças ao Sérgio. Obrigado! Gostei bastante. Londres nos anos 60 devia ser uma cidade particularmente fascinante

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