Por Causa de uma Mulher / Whistle Stop

(Disponível no YouTube em 1/2024.)

O título original, Whistle Stop, literalmente parada de apito, é uma expressão americana. Significa uma cidade pequena em que os trens só param se houver um pedido, segundo o Dictionary of English Language and Culture. Uma cidade pequena em que na maioria das vezes os trens passam apitando, mas não param, porque o movimento é pequeno.

A estação de trem da fictícia cidade de Ashbury tem grande importância na trama. É nela que desembarca, na primeira sequência, a mulher de que fala o título brasileiro do filme, Por Causa de uma Mulher. E é nela que deveria acontecer o planejado assassinato, por Kenny Veech (o papel de George Raft), do ricaço Lew Lentz (Tom Conway).

O plano do latrocínio foi bolado por Gitlo (o papel do grandalhão fordiano Victor McLaglen), grande amigo de Kenny e empregado de Lew. Gitlo sabia que, ao final da feira anual na cidadezinha, organizada por Lew, ele pegaria o trem ali na estação rumo a Detroit, carregando em uma maleta todo o dinheiro obtido na festa. Tinha sido assim no ano anterior, e seria assim de novo naquele ano; bastaria então que Kenny o surpreendesse na estação, desse um tiro nele e ficasse com a maleta cheia de bufunfa.

A mulher do título brasileiro, Mary, a mais bela de Ashbury, do Estado inteiro, balançava entre esses dois homens, Kenny e Lew.

Mary é interpretada por Ava Gardner, o Animal Mais Belo do Mundo, segundo a famosa definição criada pelo poeta e cineasta Jean Cocteau. No ano de lançamento do filme, 1946, Ava ainda não era uma estrela. Estava com 24 aninhos – e este filme foi a rigor o primeiro em que ela teve um papel importante, que abriu para ela as portas do estrelato.

O Guide de Tulard vê qualidades no filme

Recorro a uma sinopse publicada no IMDb, assinada por Gabe Taverney. Vai sem aspas, para me desobrigar a ser literal:

A bela Mary volta de Chicago para sua pequena cidade natal depois de alguns anos, usando um casaco de pele e com uma cigarreira caríssima. Sua chegada traz de volta à tona uma antiga inimizade entre dois de seus ex-namorados, Kenny Veech (George Raft, repito), que não trabalha, não faz coisa alguma na vida a não ser jogar, e o aparentemente afável Lew Lewntz (tom Conway), dono de um nightclub local. Sua profunda animosidade resulta em antagonismos e lutas, enquanto competem pelas atenções de Mary. Gitlo, bartender no nightclub de Lew e amigo de Kenny, envolve o companheiro em um plano para roubar uma fortuna de Lew.

Leonard Maltin devia estar de bem com a vida quando tratou deste Whistle Stop nos seus guias, porque deu a ele 2 estrelas em 4: “Drama menor de Philip Yordan sobre boa moça Ava dividida entre o inquieto Raft e o corrupto dono de nightclub Conway. Tem seus momentos, mas em última análise é esquecível”.

Duas estrelas é muita coisa e esquecível é elogio para este filme que, na minha opinião, é uma das piores coisas de toda a História do cinema –  mas vamos em frente.

No site agregador Rotten Tomatoes, não há percentagem de aprovação dos críticos, apenas dos leitores – e a aprovação é a menor que já vi no site: apenas 24%.

Ulalá! O Guide des Films de Jean Tulard elogia o filme!

“Por uma vez Moguy teve talento”, diz o Guide sobre Tragique Rende-vous, trágico encontro, como o filme foi chamado na França. O diretor do filme, Léonide Moguy, russo de nascimento, fez filmes também na França. Imagino que seja por isso que o guia do mestre Tulard o trate assim como velho conhecido de todos. “Este filme injustamente esquecido e ressuscitado pelo videocassete não é sem qualidades. Tom Conway compõe um malvado cheio de sedução e Ava Gardner está verdadeiramente bela.”

Bem, quanto à última frase, não há quem possa discordar. Mas eu diria que qualquer foto de Ava tem mais arte do que este filme.

Ah, o guia de Mick Martin & Marsha Porter concorda comigo! Diferentemente dos guias de Jean Tulard e de Leonard Maltin, e também de Roger Ebert, que usam a cotação máxima de 4 estrelas, o de Martin & Porter usa cinco diferentes notas, variando de 5 estrelas, excelente, até a figurinha de um peru, turkey, porcaria, abacaxi azedo. E esta porcaria aqui, este abacaxi azedo, é premiado com um turkey. O guia sequer se dá ao trabalho de explicar por que considera a porcaria um abacaxi. Apenas resume a trama. Assim: “Moça de cidade pequena Ava Gardner volta da cidade grande. Ela ama o bêbado Raft mas opta pelo suave jogador Conway”. Suave, assim, literalmente – que, em inglês, tem um tom crítico, negativo, para pessoa que exibe maneiras educadas demais da conta.

A síntese da trama feita pelo guia de Mick Martin & Marsha Porter é ótima, com seu tom de gozação – mas acho que dizer que Mary opta pelo suave personagem interpretado por Tom Conway não é exato. Sim, ela opta pelo ricaço Lew algumas vezes – mas também opta pelo não-faz-nada-na-vida Kenny outras tantas…

O importante Philip Yordan fez um roteiro horroroso

Léonide Moguy nasceu em São Petersburgo, na Rússia dos czares, em 1899, e morreu em Paris em 1976. Fez seis filmes em Hollywood, entre 1941 e 1946 – este Whistle Stop foi o último deles –, e depois voltou para a Europa. Diz dele o Dicionário de Cinema – Os Diretores de Jean Tulard:

“Operador de atualidades na Rússia, refugiado na França, construiu uma carreira internacional pontilhada de filmes medíocres, consagrados, a partir de 1949, ao despertar da sexualidade dos adolescentes, comprazendo-se com atmosferas pesadas.”

Em sua avaliação sobre o filme, Leonard Maltin ignorou solenemente o diretor Moguy e o tratou como uma obra do roteirista Philip Yordan. É natural, compreensível: Philip Yordan (1914-2003) era muitíssimo mais conhecido pelo público americano. Sua filmografia como roteirista tem 69 títulos, inclusive vários importantes, como o grande clássico policial Chaga de Fogo/Detective Story (I951), de William Wyler, e o também clássico western A Lança Partida/Broken Lance (1954), de Edward Dmytryk, que deu a ele o Oscar de melhor história original. Yordan teve duas outras indicações ao Oscar de roteiro, por Chaga de Fogo e pelo policial Dillinger (1946), de um diretor pouco conhecido, Max Nosseck.

No passado, sempre tive boas referências sobre Philip Yordan, e não apenas por ser um bom roteirista, mas também pelas posições políticas. Na época apavorante do macarthismo, da caça às bruxas aos comunistas no setor cultural, no início dos anos 1950, ele ajudou diversos escritores que foram colocados na lista negra e não podiam assinar seus trabalhos. Foi “front”, “testa de ferro” – assinava os roteiros de quem estava proibido de trabalhar. O IMDb conta que ele morava em Paris, na era da lista negra, e “seu porão estava muitas vezes cheio de escritores blacklisted trabalhando em cubículos, produzindo roteiros.”

O fato é que, na minha opinião, ao escrever o roteiro deste Por Causa de uma Mulher/Whistle Stop, Philip Yordan produziu um horror.

Os personagens não são bem construídos – muitíssimo, muitíssimo ao contrário. O espectador não consegue compreender o que eles são, o que pensam, o que querem da vida.

Todas as situações são forçadas, ou sem sentido, ou ridículas – ou tudo isso ao mesmo tempo.

O que a bela Mary fez durante o seu tempo em Chicago? Não ficamos sabendo. Sim, veio com casaco de pele, cigarreira milionária. Foi puta? Não ficamos sabendo. Ela diz que desistiu do emprego. Que emprego? E diz que voltou para vender sua casa – onde estão morando os quatro membros da família Veech: o pai, Sam (Charles Judels), que é o encarregado da estação ferroviária, a mãe, Molly (Florence Bates), uma alegre, sempre bem disposta matrona, cozinheira de mão cheia, a caçula Josie (Jane Nigh) e o primogênito, Kenny, sujeito aí com a aparência de uns 40 anos e que não trabalha, não faz nada na vida a não ser jogar e beber.

Por que a família Veech mora na casa? Que tipo de arranjo havia entre eles e a bela Mary? A gente não fica sabendo. O que a família eventualmente faria, caso Mary conseguisse vender a casa, disso também não se fala. Na verdade, depois da afirmação de Mary de que voltou para a cidadezinha para vender a casa, não se fala mais do assunto.

Haverá ainda um gigantesco furo mais adiante na trama, um furo maior do que todos os queijos da Suíça. O ricaço Lew Lentz vai fingir que está morto, para incriminar seu inimigo e rival Kenny. Mas como ele fará para depois reaparecer vivinho da silva telles, isso o grande Philip Yordan não soube dizer.

Parece que o filme destruiu a trama do livro

O filme foi produzido por Seymour Nebenzal, de uma empresa pequena, Nero Films; a distribuição ficou a cargo da United Artists, razão pela qual há um verbete sobre ele no livro The United Artists Story. O verbete não explica que Ava Gardner fez o filme por empréstimo da MGM, o estúdio que a tinha sob contrato e não sabia aproveitá-la, mas afirma que “ela chegou como estrela”. “Ela interpretava uma moça de cidade pequena cujos gostos haviam ficado caros depois de dois anos na cidade grande. Ao voltar para casa, ela hesita entre dois admiradores – George Raft, o vagabundo bêbado local, que ela realmente ama, e o macio Tom Conway, dono de um próspero lugar de jogatina.”

Mais adiante, o livro comete duas frases excelentes: “O final feliz no roteiro de Philip Yordan, adaptado do romance de Maritta M. Wolff, era tão falso quanto tudo que o precedera. Raft permanecia sombriamente impassível durante todo o tempo, ao lado da extraordinariamente atraente Miss Gardner.”

Perfeito!

Sim, o roteiro de Philip Yordan não é original, ou seja, não é uma história criada diretamente para o cinema. Baseia-se no romance que Maritta M. Wolff (1918-2002) escreveu como trabalho de redação quando cursava a Universidade de Michigan, em 1940, com apenas 22 anos de idade. O trabalho ganhou o Avery Hopwood Award, um prêmio universitário para excelente escrita.

As indicações são de que há diferenças imensas entre o romance e a adaptação feita por Philip Yordan para o filme. Diz a Wikipedia: “Whistle Stop é a história pesada sobre os Veechesd, uma família indolente que vive em uma pequena cidade whistle-stop perto de Detroit. O romance, retratando incesto, violência, e contendo linguagem mais vulgar do que era comum naquele tempo, foi publicado no ano seguinte (1941), pela Random House (uma das mais respeitadas editoras dos Estados Unidos, que publicou, entre dezenas de outros, William Faulkner e Truman Capote).  Que Wolff, com apenas 22 anos, fosse a autora de um romance tão hard-boiled deu a ela uma notoriedade instantânea, e Whistle Stop se transformou em best-seller rapidamente. (…) Sinclair Lewis o chamou de ‘o mais importante romance do ano’. (…) O segundo romance de Wolff, Night Shift, atraiu ainda mais aplauso da crítica, especialmente por seus diálogos. Ele foi levado ao cinema em 1947, com Ida Lupino e Robert Alda, com o título mudado para The Man I Love.”

The Man I Love, no Brasil Meu Único Amor, muito diferentemente deste Por Causa de Uma Mulher/Whistle Stop, é um belo filme.

Dá curiosidade de saber mais sobre o livro em que o roteirista Philip Yordan se baseou.

Aparentemente, o livro esteve fora de catálogo nos Estados Unidos, e foi relançado em 2005. Dele diz o site da Amazon, que costuma fazer boas resenhas de livros:

“A obra-prima de Maritta Wolff de 1941 sobre a vida em cidade pequena no Meio Oeste na América pós-Depressão, Whistle Stop, publicada com ótimas críticas e surpreendente sucesso comercial, é a história da família Veech, uma tribo imensa, pobre, tentando fazer o certo em um mundo cruel. Ao longo de um verão terrivelmente quente, observamos a vida com as seis crianças e três adultos da família, enquanto eles brigam, lutam, fazem as pazes e fornecem pedaços excitantes de escândalo para a vizinhança.”

Bem. Parece então que Por Causa de Uma Mulher/Whistle Stop não é apenas um filme horroroso. É também um caso exemplar de filme que destrói o livro em que foi baseado!

Foi a primeira boa chance na carreira de Ava Gardner

Já investi tempo demais da conta neste filme apavorantemente ruim, mas não dá para deixar de fazer um registro, ainda que pequeno, sobre a única coisa bela que há nele.

Ava Gardner foi contratada pela MGM bem no início dos anos 1940, quando ainda não tinha sequer 20 anos de idade – mas, ao que tudo indica, o estúdio não sabia o que fazer com aquela jovem de beleza extraordinária. O chefão Louis B. Mayer disse, depois de ver um teste dela: – “Ela não consegue atuar, ela não consegue falar. Ela é sensacional”. A partir de 1941, e até 1944, Ava Gardner apareceu em 17 – de-zes-se-te! – filmes como uma pouco mais que figurante, uma personagem que sequer tinha nome. Bem, posso ter errado a conta, podem ser 16 ou 18 – mas foi um monte grande de filmes em que o nome dela sequer apareceu nos créditos!

Naquela era dos estúdios, os atores eram empregados das empresas. Que faziam com seus empregados o que bem entendiam. Era costume um estúdio emprestar um empregado seu para um concorrente, para fazer um determinado filme – e a Metro emprestou a jovenzinha algumas vezes. Em 1944, a emprestou para a pequenina produtora Nero Films – e o nome dela apareceu logo após o título do filme, Whistle Stop. Só o nome de George Raft, à época um grande astro, aparecia antes do título.

Público e crítica repararam nela. Os dois

No mesmo ano, a Metro a emprestou para a Universal – e ela fez o papel de Kitty Collins, ao lado de Burt Lancaster, no filme Assassinos/The Killers, de Robert Siodmak, com roteiro baseado em história de Ernest Hemingway, e que teve como colaboradores John Huston e Richard Brooks.

O resto, como se costuma dizer, é História.

Os dois cartazes atestam a mudança. O primeiro, com o nome de George Raft no alto, é da época do lançamento do filme. No segundo, Ava já era estrela maior que o ator de tantos filmes de gângster.

Anotação em janeiro de 2024

Por Causa de uma Mulher/Whistle Stop

De Léonide Moguy, EUA, 1946

Com George Raft (Kenny Veech),

Ava Gardner (Mary),

Victor McLaglen (Gitlo),

Tom Conway (Lew Lentz, o ricaço), Jorja Curtright (Fran, a moça apaixonada por Kenny), Jane Nigh (Josie Veech, a irmã de Kenny), Florence Bates (Molly Veech, a mãe de Kenny e Josie), Charles Judels (Sam Veech, o pai), Charles Drake (Ernie), Carmel Myers (Estelle), Jimmy Conlin (Al, o barbeiro, Jimmy Ames (Mr. Barker), Mack Gray (o bartender)

Roteiro Philip Yordan

Baseado em romance de Maritta M. Wolff

Fotografia Russell Metty

Música Dimitri Tiomkin

Montagem Gregg G. Tallas

Direção de arte Rudi Feld

Produção Seymour Nebenzal, Nero Films. Distribuição United Artists.

P&B, 85 min (1h25)

½, na falta de bola preta.

Título na França: “Tragique Rende-vous”. Em Portugal: “O Que Matou por Amor”.

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