Glória

Nota: ★★★★

(Disponível na Netflix em 4/2022.)

Glória, de 2021, a primeira série portuguesa feita para exibição pela Netflix, é uma absoluta maravilha. É magnificamente, escandalosamente bem escrita e bem realizada em todos os quesitos. De babar.

Mistura política, guerra fria, guerra quente, espionagem, atentados, tortura, romance, paixão, machismo, relações familiares, casamento – com competência e talento saindo pelo ladrão.

A trama parte de dados e fatos reais para criar uma ficção esplêndida, envolvente, fascinante.

Toda a ação se passa em 1968, a partir de pouco antes da invasão da Checoslováquia pelos tanques do Pacto de Varsóvia para acabar com a Primavera de Praga. Assim como jovens americanos eram obrigados a ir lutar no Vietnã, os jovens portugueses eram enviados para enfrentar os movimentos guerrilheiros financiados pela União Soviética que lutavam pela libertação das colônias na África – Angola, Moçambique, Guiné. A PIDE – a polícia política da ditadura salazarista – prendia e torturava brutalmente os suspeitos de lutar contra o regime. Perto da pequenina vila de Glória do Ribatejo funcionava a RARET, Radio Retransmissora – um complexo construído pelos americanos, com poderosíssimas, gigantescas antenas, para irradiar propaganda anticomunista para os países da então chamada Cortina de Ferro.

A imensa maior parte da ação se passa em Glória do Ribatejo, no vilarejo e no complexo da RARET que fica junto dele – daí o nome da obra. Há muitas sequências passadas em Lisboa – a distância entre Glória e a capital é pequena, 80 km apenas, e os personagens fazem frequentes viagens a Lisboa.

Há também, ao longo de todos os episódios, um bom número de tomadas na África – ou em África, como se diz em Português de Portugal –, no meio da selva, no front de batalha.

Apenas algumas poucas sequências no primeiro dos dez episódios (cada um com cerca de 40 minutos) se passa fora de Glória, de Lisboa e do front da guerra nas então colônias da África.  A série abre na Alemanha Ocidental, onde um general russo que havia se tornado um dissidente do regime dá uma entrevista a uma emissora de rádio pedindo aos soldados soviéticos e dos países satélites da Europa do Leste que não participem de uma eventual invasão da Checoslováquia.

A fita (ou bobine, como se diz no original) com essa entrevista do general Dassaev (Albano Jerónimo), que será levada para a RARET para ser amplamente divulgada para os países comunistas, é um elemento importantíssimo nos dois primeiros episódios. Enquanto isso, na Alemanha, uma bela agente da KGB chamada Irina (o papel de Ana Neborac) vai assassinar o general Dassev.

Mais tarde, Irina aparecerá em Glória, travestida como uma imigrante à procura de trabalho como camareira/copeira. E acabará sendo contratada pelo casal americano James e Anne Wilson (os papéis de Matt Rippy e Stephanie Vogt). James é o diretor geral da RARET. Anne – o espectador só fica sabendo disso lá pelo terceiro ou quarto episódio – é na verdade a chefe de operações da CIA em Portugal.

Agentes da KGB, a chefe da CIA em Portugal, espiões da PIDE salazarista. A guerra fria está espalhada pelo mundo todo – mas ali, naquele aparentemente pacato vilarejo do interior de Portugal, trava-se uma dura, encarniçada batalha dessa guerra.

Uma vasta galeria de personagens interessantes

Há toda uma vasta galeria de personagens que têm grande ou ao menos alguma importância na trama. Umas duas dezenas, eu diria. E são pessoas interessantes, bem construídas – prova do grande talento de Pedro Lopes, o criador da série, autor da trama e principal roteirista. Sim, porque Pedro Lopes não trabalhou sozinho: coordenou um grupo grande de roteiristas, nove, segundo mostram os créditos ao final dos episódios.

Foi um trabalho magnífico. Impressionante.

Assim como magnífico, impressionante, foi o trabalho de direção de atores pelo diretor de todos os dez episódios, Tiago Guedes. Todo o elenco está uniformemente muito, mas muito bem.

Duas dúzias de personagens bem construídos e bem interpretados – mas o protagonista da trama é um jovem engenheiro de família rica e importante chamado João Vidal. É o papel de Miguel Nunes (na foto acima), o ator que, por coincidência ou não, interpretou o protagonista de outra obra excelente e importante sobre o período salazarista e as guerras nas então colônias do ultramar, Cartas de Guerra (2016), de Ivo M. Ferreira, 30 prêmios e outras 27 indicações.

(Sobre Cartas da Guerra, escrevi, emocionado: “Duro, cru, brutal, é um dos mais belos – e mais lancinantes, dolorosos – retratos da angústia de um homem no meio de uma guerra que o cinema já fez.”)

Exatamente como Antônio, seu personagem no grande filme de Ivo M. Ferreira, esse João Vidal interpretado agora por Miguel Nunes esteve no campo de batalha contra os guerrilheiros nas selvas de Angola. – “Em Cabinda”, especifica ele, quando alguém o pergunta sobre onde ele lutou em África. E João diz “Em Cabinda” como se tivesse plena consciência de que o interlocutor seguramente sabia que ali, naquela província no Norte de Angola, a guerra tinha sido, e continuava sendo, especialmente dura.

Ficamos sabendo que João havia se alistado e ido para a linha de frente por vontade própria; sua mãe, Madalena (Leonor Silveira), mulher rica, fina e chique, era terminantemente contra, e seu pai poderia perfeitamente ter mexido alguns pauzinhos e conseguido fazer com que ele não fosse convocado. O pai, Henrique Vidal (Marcello Urgeghe), era um importante ministro do governo, pessoa de confiança do próprio professor Antônio de Oliveira Salazar, o ditador que chefiou o governo de Portugal de 1932 até exatamente 1968, o ano em que se passa a ação da série.

Para o eventual leitor que não se lembre dos fatos históricos, é bom registrar que Salazar deixou o governo por motivo de saúde; foi substituído por Marcelo Caetano, este, sim, deposto – na Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974, que levou o país à redemocratização.

A maravilha que é misturar ficção e pessoas reais

E aqui faço um registro, mais que uma digressão.

Uma das grandes maravilhas da ficção é contar histórias de um grupo de pessoas e, ao mesmo tempo, mostrar a Grande História que está se desenrolando por trás delas. Ettore Scola é mestre nisso: como pano de fundo para as vidas de seus belos personagens há sempre a Grande História, em filmes como O Baile (1983), Nós Que Nos Amávamos Tanto (1974), Um Dia Muito Especial (1977), Splendor (1989).

Outra das grandes maravilhas da ficção é juntar essas duas coisas, os personagens vivendo suas histórias pessoais e a Grande História sendo mostrada como pano de fundo, e, além disso, misturar, mixar os personagens da ficção com as personalidades da vida real. Como Liev Tolstói fez em Guerra e Paz, em que suas criaturas, seus personagens fictícios, convivem de perto com personalidades históricas. O príncipe Andrei Bolkonski, por exemplo, servia no Exército como auxiliar de ordens do comandante geral das forças russas que enfrentaram os invasores franceses de Napoleão Bonaparte, o grande general Kutuzov. E o amigo de Andrei e protagonista central do romance Piotr Bezukov em um momento climático se vê com uma arma na mão a uma distância que daria para atingir o peito do ditador francês.

O diretor Robert Zemeckis fez esse tipo de junção personagem fictício/personalidades históricas com brilho em Forrest Gump, O Contador de Histórias. O personagem-título interpretado por Tom Hanks participa de vários momentos importantes da História americana, como a grande manifestação pelos direitos humanos em Washington, aquela em que o reverendo Martin Luther King Jr. disse ter um sonho, e a guerra do Vietnã. Ele visita o gabinete oval da Casa Branca mais de uma vez, e posa ao lado de John F. Kennedy, depois de Lyndon B. Johnson e depois de Ronald Reagan.

Glória, essa beleza de série do roteirista Pedro Lopes e do diretor Tiago Guedes, faz também com brilhantismo essa mixagem, essa misturação entre ficção e a Grande História.

Um agente da KGB no território da CIA

Pois então temos que o ministro Henrique Vidal, homem de confiança do próprio Salazar, tem excelentes relações com James Wilson, o já citado diretor-geral da RARET. E, quando o filho do ministro pede para trabalhar na retransmissora, James o recebe muitíssimo bem. Ele é instalado em uma ótima casa na vila construída pelos americanos para os funcionários da retransmissora – bem melhor do que aquela em moram outros graduados, como o também engenheiro Gonçalo (Afonso Pimental), que havia sido colega de faculdade do próprio João, e o médico Miguel (Augusto Madeira), um brasileiro que havia preferido a ditadura de Salazar à ditadura dos militares do golpe de 1º de abril de 1964. (Na foto acima, Matt Rippy e Stephanie Vogt, que fazem James e Anne.)

Já Anne, a mulher de James, não simpatiza com o recém-chegado. Certamente por seu treinamento na CIA, desconfia de todo mundo – e desconfia inclusive daquele jovem engenheiro boa pinta filho de ministro. Nas conversas com James, refere-se a João como “seu protégé”. Lá pela metade da série, James, talvez instigado pelas dúvidas da mulher, submete João a um questionamento. Na boa, de maneira simpática – mas um questionamento. Tipo assim: Você é uma pessoa difícil de se entender, João. Fez questão de ir lutar na África, mesmo podendo ter evitado a convocação.. Poderia estar confortavelmente trabalhando na Emissora Nacional, em Lisboa; em vez disso, preferiu vir trabalhar aqui neste fim de mundo…

O espectador, no entanto, não tem dúvida. O espectador sabe que João Vidal, jovem engenheiro de família importante e rica, trabalha para os comunistas. É um agente infiltrado dos comunistas, um agente da soviética KGB, ali na RARET, a retransmissora ligada à CIA que transmite propaganda anticomunista.

Uma das primeiras missões de João ali na RARET é fazer desaparecer a gravação da entrevista dada na Alemanha pelo general Dassaev, aquele contra-revolucionário filho da mãe, em que ele incita os soldados do bloco comunista a não participar de uma invasão da Checoslováquia, o país que tentava a experiência até então nunca realizada de um socialismo de face humana.

Para obter sucesso na missão de sumir com a fita da entrevista do general tornado dissidente, João acaba expondo e comprometendo exatamente a belíssima mulher com quem está tendo um tórrido caso – Úrsula, que é contratada pela RARET como tradutora de russo (o papel de Joana Ribeiro, uma das várias atrizes belíssimas da série). Úrsula será eventualmente torturada por gente do braço português da KGB – e seu marido, um médico que não tem nada a ver com a política, torturado pela PIDE salazarista.

Creio ser necessária uma breve explicação de por que há tanto engenheiro nessa RARET. É que ali não funciona propriamente uma estação de rádio – como diz o nome, aquilo é uma Rádio Retransmissora. É o local em que foram construídas gigantescas, fenomenais antenas para retransmitir programação feita em outros locais. Um enorme conjunto de antenas, capazes de mandar o sinal para Polônia, Checoslováquia, Hungria – os países do Leste Europeu tornados satélites da União Soviética após o final da Segunda Guerra Mundial.

Por isso são necessários engenheiros – para a manutenção e operação das antenas. (Mais adiante transcrevo trechos de bela reportagem portuguesa sobre o que foi de fato a RARET.)

Bom agente, dedicado – e de bem com as mulheres

João Vidal é um bom agente – é dedicado, competente, multitalentoso. Conta com a aura de pessoa de confiança dos americanos por ser filho de um ministro da ditadura salazarista, que era profundamente anticomunista. E tem uma sorte danada – nós o vemos, ao longo da série, em vários momentos perigosos, e o camarada sempre dá um jeito de não ser visto, não ser percebido, e executar a tarefa.

Além de tudo isso, o tal do João Vidal se dá bem com as mulheres. Fatura todas as mulheres que quer – é impressionante. A única beldade que ele deixa passar incólume é a já citada Irina. Que até acusa o golpe: – “Normalmente os homens adoram me ver”, ela diz para João, lá pelas tantas, ao notar que ele não se engraça por ela.

João namorava a tradutora Úrsula, como já foi dito. Tinha uma imensa atração por Mia Orloff (Victoria Guerra, na foto acima), mulher importante no esquema português da KGB, que havia participado do treinamento e formação do próprio João, depois que ele, tendo se aproximado da ideologia comunista ao combater os guerrilheiros em Angola, foi recrutado por outra figura importante da espionagem soviética em Portugal, Alexandre Petrovsky (o papel de Adriano Luz).

Mia havia conseguido se infiltrar na RARET antes da chegada de João – apresentara-se como telegrafista, e fora admitida. Quando João chegou para trabalhar na retransmissora, no entanto, Mia havia desaparecido misteriosamente, sem deixar rastros. Uma idéia fixa de João é tentar saber informações sobre ela, tentar rastrear seus passos, descobrir o que aconteceu a ela.

Mia era uma fixação na cabeça dele – mas, enquanto ela não aparecia, ele traçava quem passasse à sua frente. Para obter uma informação sobre Mia, por exemplo, ele consegue seduzir uma enfermeira em um hospital de Santarém, a cidade mais próxima do vilarejo Glória. A moça fica doidinha por ele, não pára de telefonar para a RARET atrás dele, mas a essa altura João não queria saber mais dela.

A conquista de João que mais mexe com o espectador é a pobre jovem Carolina (o papel de Carolina Amaral, na foto abaixo).

Quando ficamos conhecendo Carolina, ela trabalha como garçonete na cafeteria dentro da RARET. É uma moça de família bem simples, bem humilde – e é fantástico como a atriz Carolina Amaral compõe uma moça exatamente assim, bem simples, bem humilde, bem interiorana.

Carolina namora Fernando (João Arrais, também na foto abaixo), garoto bem jovem como ela, também de família simples, humilde, ali do lugar. Gente pobre de vilarejo do interior de Portugal. Carolina contará para o engenheiro recém-chegado da capital que nunca saiu ali de Glória – jamais sequer viu o mar.

Fernando é convocado pelo Exército e vai lutar na/em África. Acabam se casando por procuração – e temos ali uma jovem desamparada de tudo, casada e virgem, o marido morrendo de medo no front de batalha, tendo como uma esperança na vida a hora de voltar pra casa e ficar com ela.

João ataca.

Nem chega a ser propriamente assim um ataque. Não, não é nada agressivo, violento. De forma alguma. Simplesmente rola. A coisa rola.

Antes mesmo que a coisa com João rolasse, só por ter imaginado que talvez eventualmente Carolina pudesse querer namorar alguém da RARET, o pai dela, português pobre, bronco, interiorano, instigado pelo chefe de João,, manda a filha sair do emprego e trabalhar no campo com a mãe. Por via das dúvidas, já a enche de porrada.

Machismo estrutural. E casamentos com problemas

Homens que enchem mulheres de porrada. O machismo estrutural que permite esse crime absurdo, inominável, hediondo. A série mostra isso, denuncia isso com vigor.

Há uma figura na série que consegue ser ainda mais calhorda do que o pai da pobre Carolina. Chama-se Ramiro (João Pedro Vaz), e é o engenheiro-chefe da RARET – o superior imediato de João. É casado com Sofia (Maria João Pinho), uma mulher doce, mansa, com todo jeito de boa pessoa – que sofre os diabos por ter tido a infelicidade de se unir àquele tipo grosseiro, estúpido, idiota.

Ramiro cerceia todos os movimentos da mulher, não permite que ela faça coisa alguma que não seja sob as vistas dele. Irrita-se, por exemplo, pelo fato de Sofia ter começado a ficar amiga de Anne, a americana mulher do diretor-geral.

E, de vez em quando, tranca a mulher no banheiro. Ou, às vezes, depois de beber muito, ou não, bate nela.

Um criminoso.

Essa pobre Sofia e seu marido brutal têm grande importância na trama.

A bebida também é presença constante ao longo de todos os dez episódios. Meu, como bebe aquele povo! – e olhe que a exclamação foi feita por um profissa nessa coisa de álcool, não por um amador. Eu achava que os jornalistas brasileiros bebêssemos bastante, mas, comparados àqueles portugueses da série Glória, somos aprendizes, amadores.

João é o que mais bebe, entre todos, seguramente – privilégio do protagonista, claro. Mas todos bebem muito. E bebem durante o trabalho. Como disse a Mary: o que aqui a gente no trabalho oferece cafezinho para as visitas, na série eles oferecem uísque. James Wilson oferece uísque para quem entra em sua bela sala de trabalho. O embaixador americano em Portugal oferece uísque para Anne Wilson quando a chefe da missão portuguesa da CIA o visita.

O que me leva a outro subtema da série – os casamentos. São interessantes os casamentos na história criada por esse talentoso Pedro Lopes. O roteirista segue à risca o que Liev Tolstói escreveu no mais fantástico e mais reverenciado primeiro parágrafo de romance da História, aquele de Anna Kariênina que diz…

“Todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz é infeliz à sua maneira”.

O casamento de James e Anne Wilson esconde segredos. Um deles, o de que na verdade é Anne que manda na relação, que é a superior hierárquica, vai se revelando até que rapidamente. Há outro, no entanto. Acho que falar dele seria sério spoiler.

O casamento do engenheiro-chefe Ramiro com a doce, pobre Sofia é uma tragédia, como a série escancara rapidamente. Mas há um segredo ainda mais escondido, que é muitíssimo importante na trama. Falar dele, evidentemente, seria um spoiler intolerável.

O casamento dos muitíssimo ricos Henrique e Madalena Vidal tem seu segredo também. A rigor, a rigor, é um segredo até um tanto comum – mas a série consegue nos surpreender quando ele é revelado, ali pelo sétimo ou oitavo episódio. Motivo pelo qual, obviamente, também não vou falar sobre ele aqui.

Mas o mais infeliz de todos os casamentos mostrados na série é seguramente o dos jovens Carolina e Fernando. Meu Deus, quanta tristeza naquele casamento de duas criaturas tão jovens…

Nesta série maravilhosa, não se faz a elegia de um lado

Tudo é impressionante nesta série Glória. A trama, os personagens, os atores. A quantidade de subtramas importantes que discutem coisas importantes, como essa questão do machismo, essa coisa do casamento.

A encenação, a realização. Meu, quanto talento! Fotografia, direção de arte, trilha sonora, montagem, figurinos – é tudo uma beleza, uma perfeição. Um troço que não deixa nada a dever a uma série inglesa sensacional, tipo Downton Abbey – e uso logo essa série superlativa feita no país do melhor cinema do mundo propositadamente, para deixar o eventual leitor surpreso.

Costuma-se dizer que não há mais bobo no futebol: seleções de países sem tradição se tornam competitivas. A verdade é que, no cinema de hoje (porque as séries são puro cinema), não há mais diferenciação entre cinematografias de grande tradição e outras nem tanto. Na terra de Manoel de Oliveira, Teresa Villaverde, Leonor Teles, Ivo M. Ferreira, Fernando Fragata. se faz um cinema que técnica e artisticamente não deve nada a ninguém.

O diretor de fotografia André Szankowski ainda nos dá de presente, como cereja em cima do bolo, tomadas de beleza de tirar o fôlego feitas com drones. A câmara voltada diretamente para baixo. Super hiper plongées de deixar cinéfilo abestalhado.

Mas o melhor de absolutamente tudo, nessa série extraordinária, me pareceu o fato de que ela não toma partido radicalmente de nenhum dos lados. Não se faz a elegia de nenhum dos lados.

É claro, é óbvio que a série é anti-salazarismo, antiditadura de direita. Também é claro, é obvio que não se faz ali uma defesa do capitalismo, ou dos Estados Unidos. Muito provavelmente as simpatias dos realizadores – do diretor Tiago Guedes, do autor Pedro Lopes e sua equipe de nove outros roteiristas, dos atores principais – é com a esquerda, o socialismo. Mas não se faz ali uma defesa da União Soviética, da ação dos agentes que trabalhavam para a União Soviética.

De forma alguma.

O que Glória mostra é que todos os lados praticavam crimes – e crimes brutais.

O IMDb costuma contar os mortos nos filmes e/ou séries em que há muitos crimes. Infelizmente não fez ainda a death toll de Glória. Mary e eu tentamos fazer; podemos ter omitido alguma coisa, é claro, mas, pela nossa conta, a série mostra a morte de dez pessoas. Duas são mortas pela CIA, e oito pela KGB.

Aparecem cenas de cinco pessoas sendo torturadas. Duas pela famigerada PIDE. Três pelos agentes da KGB.

Se fosse o Sérgio Vaz comunista dos 30 anos de idade, talvez até o dos 40, poderia achar que, a rigor, a rigor, Glória acaba sendo uma série anticomunista, reacionária. Hoje, fico feliz em ver que é uma série que não defende os crimes nem de um lado nem do outro.

Se a ideologia defende tortura e assassinato, então não é uma boa ideologia. E, sobretudo, sobretudo – é o que penso hoje, velho, vivido, experiente –, entre o que diz uma ideologia e o que faz bem às pessoas, ao ser humano, o certo é sempre a segunda opção.

Uma reportagem portuguesa sobre a RARET

Este texto fica melhor agora, com a transcrição de boa parte da reportagem  “A história real da RARET que inspirou a primeira série portuguesa da Netflix”, publicada em um site chamado NIT, em 6 de novembro de 2021, na época do lançamento da série. O autor é Ricardo Farinha. Não tenho informações sobre ele, mas me pareceu que é uma bela reportagem.

Aqui vai:

A história real da RARET que inspirou a primeira série portuguesa da Netflix

Por Ricardo Farinha

A narrativa pode ser fictícia, mas o contexto histórico é completamente real. Entre 1951 e 1996, a Rádio Retransmissão (RARET) funcionou na Glória do Ribatejo — emitia propaganda ocidental para os países do bloco de leste. Era uma das muitas vertentes da Guerra Fria.

Realizada por Tiago Guedes, Glória foi criada a partir de uma ideia do argumentista Pedro Lopes. “Acho que qualquer autor vai colecionando histórias que depois nunca tem oportunidade de virem a ser produzidas. E outras ficam à espera do momento certo. Quando surgiu a possibilidade de fazer um pitch à Netflix, achámos que esta era a história certa”, explica o guionista, que também é diretor de conteúdos da SP Televisão, à NiT.

“Porque era pouco conhecida em Portugal, mas ao mesmo tempo podia revelar muito sobre o País e sobre o mundo. Estamos a falar do período da Guerra Fria, da importância que este complexo [RARET] teve em Portugal, nessa estrutura de propaganda entre a União Soviética e os Estados Unidos. Fazia sentido pegar neste pedaço da nossa história para revelar uma série de personagens e a forma como o regime estava organizado.”

Pedro Lopes diz que, como parte da sua família trabalhava na rádio, estava habituado a ouvir histórias sobre a RARET e a Rádio Moscovo desde miúdo. “Todo um confronto de propaganda que havia e que fazia parte da estratégia da Guerra Fria. O medo de uma guerra nuclear que depois se desenrolava de uma outra forma que envolvia gestão de informação, de contra-informação, de espionagem. Aquele complexo de 200 hectares com as 500 pessoas que ali trabalhavam, uma cidade da CIA no meio do Ribatejo, é uma espécie de OVNI que seria sempre muito interessante de explorar enquanto objeto ficcional.”

É no seguimento da Segunda Guerra Mundial que espoleta a Guerra Fria entre os Estados Unidos da América e a União Soviética — e os seus respetivos aliados. Nos anos 40, surge a ideia de se fundar uma rádio que emita propaganda ocidental para o bloco de leste, com o objetivo de fazer levar os povos locais a rebelarem-se contra os regimes comunistas.

Assim, em 1950 começam as emissões na parte ocidental da Alemanha, especificamente a partir de Munique. Só que a localização não era perfeita: estava demasiado próxima do leste e os soviéticos podiam conseguir interferir nas comunicações. Quando estudaram locais complementares alternativos, os americanos terão ponderado entre Espanha, Marrocos e Portugal. Acabaram por escolher o nosso País.

Portugal era membro fundador da NATO e a base aérea das Lajes, nos Açores, já existira desde 1930. Salazar não defendia um regime capitalista nem era, como sabemos, um defensor da liberdade. Mas era um anti-comunista convicto. Assim, mesmo de forma pouco pública, deu a mão aos americanos para combater os comunistas a partir do Ribatejo.

As negociações duraram algum tempo. O americano responsável pelo processo, Gregory Thomas, estabeleceu até contactos com a elite portuguesa. Ricardo Espírito Santo, o avô de Ricardo Salgado, foi um dos nomes envolvidos para facilitar a operação. Acabariam por encontrar o local ideal quando descobriram que o Conde de Monte Real estava a vender a Herdade de Nossa Senhora da Glória, de quase 200 hectares.

A zona de Glória do Ribatejo, concelho de Salvaterra de Magos, cumpria todos os requisitos necessários para ali instalar um centro de retransmissão. Era uma zona pacata, plana e próxima de Lisboa.

Os conteúdos eram produzidos nos EUA ou na Alemanha, eram enviados para o centro recetor da Maxoqueira, passavam pela sede da RARET em Lisboa, e seguiam para Glória do Ribatejo até chegarem aos países de leste através das ondas hertzianas. A Polónia, Checoslováquia, Bulgária, Roménia e a Hungria foram alguns dos territórios que receberam comunicações da RARET.

Ao longo dos anos, a relação entre o centro de comunicação e o regime português passou por várias fases e níveis de profundidade. Mas a RARET emitiu sempre, mesmo após a revolução do 25 de abril de 1974. Os americanos tinham construído instalações naquela região, geravam emprego e a população, mesmo que desconfiada, estava sobretudo do seu lado. Tinham criado uma escola, uma maternidade, uma zona residencial para funcionários, campos de desporto e até uma piscina

Na altura da revolução, o Movimento das Forças Armadas também não interferiu, e o centro de retransmissões continuou sempre a funcionar. No ano de 1985, houve um pequeno atentado à bomba nas instalações. Os autores nunca foram identificados, mas o golpe foi reinvindicado por um grupo anti-capitalista. O ataque, que não provocou quaisquer vítimas, aconteceu nas vésperas da visita a Portugal do presidente americano Ronald Reagan.

A RARET continuou a operar durante toda a Guerra Fria. Aliás, apesar de o fim da União Soviética ter acontecido em 1991, as instalações continuam a funcionar até 1996. É durante a presidência de Bill Clinton que este tipo de operações foi relocalizado para zonas do globo consideradas geo-estrategicamente mais prioritárias. E, da forma discreta como começou a emitir, a RARET foi silenciada. As instalações continuam abandonadas desde então. Nunca se confirmou a existência de qualquer espião soviético nas instalações portuguesas — mas houve infiltrados na rádio na Alemanha.

O material de rádio, que tinha vindo dos EUA, foi oferecido à junta de freguesia local, que o vendeu como sucata. Já as cerca de 60 mil bobines com as gravações feitas na RARET, ficaram em Lisboa até 2001, altura em que foram enviadas para a Instituição Hoover, na Universidade de Stanford.

Gostaria de ver mais filmes e séries portuguesas

É isso aí. Boas informações, especialmente para nós, brasileiros – que, infelizmente, vergonhosamente – conhecemos tão pouco de Portugal.

Uma beleza de série. Gostaria muito de ver outros trabalhos desse diretor e desse roteirista competenhtíssimos, esses gajos Tiago Guedes e Pedro Lopes. Ah, sim, e ver também essas raparigas lindas e talentosas, Carolina Amaral, Victoria Guerra, Ana Neborac, Joana Ribeiro (na foto acima), e as senhoras Maria João Pinho e Leonor Silveira.

Anotação em abril de 2022

Glória

De Pedro Lopes, criador, roteirista, Portugal, 2021

Direção Tiago Guedes

Com Miguel Nunes (João Vidal)

e Matt Rippy (James Wilson, o diretor da Raret), Stephanie Vogt (Anne O’Brien Wilson, a mulher de James), Carolina Amaral (Carolina),

Afonso Pimentel (Gonçalo, o colega de João), Victoria Guerra (Mia, agente da KGB), Adriano Luz (Alexandre Petrovsky, o recrutador da KGB), Augusto Madeira (Miguel, o médico brasileiro), Marcello Urgeghe (ministro Henrique Vidal, o pai de João), Leonor Silveira (Madalena Vidal, a mãe de João), Ana Neborac (Irina, agente da KGB), João Pedro Vaz (Ramiro, o engenheiro chefe), Maria João Pinho (Sofia, a mulher de Ramiro), João Arrais (Fernando, o namorado de Carolina), Jimmy Taenaka (Bill, o segurança da CIA), Joana Ribeiro (Úrsula, a tradutora de russo), 

Adriano Carvalho (Tomé), Fernando Pires (Hernâni), João Estima (Bernardino), Sílvia Filipe (Vitalina), Luís Araújo (Elias), Rita Durão (Nazaré), Rodrigo Tomás (Mário), Sandra Faleiro (Ermelinda), Carloto Cotta (Brito), Tónan Quito (Luís), Rafael Morais (Domingos), Ana Sofia Martins (Theresa), Cláudio da Silva (Horácio), Álvaro Correia (Padre Martinho), Jorge Andrade (Jaime Ramos), João Pedro Mamede (Zé Mudo, frentista do posto de gasolina), Gonçalo Waddington (César), Jim Sturgeon (Ronald Parker, o engenheiro republicano), Vicente Gil (Roberto), Rita Cabaço (Otília, a empregada que tem o filho aleijado), Teresa Madruga (Alcina), Stewart Alexander (embaixador Ryan Marshal), João Pedro Coelho (pianista), Sara Correia (a fadista), Albano Jerónimo (general Dassaev)

Roteiro Pedro Lopes, Inês Gomes, Rita Roberto, Filipa Poppe, Miguel Simal, André Tenente, Manuel Mora Marques, Mafalda Cordeiro, Mário Cunha, Marina Ribeiro  

Fotografia André Szankowski

Música Bruno Pernadas

Montagem Marcos Castiel      

Casting Maria José Monteiro

Direção de arte Isabel Branco

Figurinos Inês Mata

Produção Jose Amaral, João Pedro Lopes, RTP 2,

Radiotelevisão Portuguesa (RTP), SP Televisão, SPi.    

Cor, cerca de 400 min (6h40)

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