De Caso com o Acaso / Sliding Doors


Nota: ★★★★

Anotação em 1999: Eis aí um pequeno grande filme. Um pequeno extraordinário filme. Talvez parte do meu encantamento com ele até tenha vindo do fato de que eu não esperava nada dele; não teve campanha de marketing, não me lembro ter visto nada sobre ele nas revistas estrangeiras, sequer saiu em vídeo e não sei se chegou a ser lançado nos cinemas no Brasil.

O lead é assim:

Londres, dias atuais. Moça sai correndo para o serviço, atrasada, marido fica em casa. Ela pega o metrô, entra correndo na firma grande (estamos nos letreiros), chega para reunião onde só há ela de mulher, está demitida. Faz uma brincadeira sobre o fato de que todos estavam esperando um pretexto para demiti-la, goza que era testosterona demais, que só faltava crescer-lhe um pinto. Corte (estamos ainda na apresentação), e vemos uma mulher tirando a roupa na frente do marido da moça. Novo corte, e vemos a moça entrando no metrô (termina apresentação), descendo as escadas. Menininha brincando no corrimão a faz atrasar-se uma fração de segundos; chega na plataforma no momento exato em que as portas estão se fechando (sliding doors, o título original; simples, tranquilo). Metrô parte sem ela. Tela fica branca como se houvesse um relâmpago muito perto, som de tzzzzz. E há rápida cena em rewind, a imagem correndo para trás, ela subindo a escada do metrô, de trás pra frente; e aí a imagem volta a ir pra frente, ela descendo a escada, menininha brincando no corrimão, a mãe a puxa para o lado, a moça então desce correndo, chega diante da porta do metrô ainda fechando, consegue segurar a porta, e entra. Tomada dela dentro do metrô, tomada dela fora do metrô com o metrô indo embora com ela dentro. 

Bingo: aí temos, com cinco minutos de filme, sem nenhuma pretensão de se ser genial, de se estar reinventado a roda, com uma clareza pra qualquer adolescente americano entender, uma premissa inteligente, uma grande sacada, um belo recurso dramático, uma narrativa atípica; vamos ver, daqui pra frente, em ação paralela contínua, duas histórias sobre a vida de Helen, a personagem de Gwineth Paltrow. A história A, ao que teria acontecido se ela tivesse perdido aquele trem de metrô no belo dia em que foi demitida. E a história B, o que teria acontecido se ela tivesse conseguido entrar naquele trem de metrô. 

Temos aí algo de Kieslowski em A Dupla Vida de Veronique (ele vai exacerbar a citação de A Dupla Vida em uma cena, lá pelo meio do filme, em que Helen A e Helen B, ao mesmo tempo, em ação paralela, têm um momento de tontura, um quase desmaio. Sim, temos aí algo de Kieslowski, e muito de Lelouch, de Demy, as coincidências da vida, por que as coisas se deram assim e não assado naquele determinado momento, o que teria acontecido se o destino tivesse decidido que, em vez de virar à direita, se tivesse virado à esquerda. Um breve momento pode definir tudo o que acontecerá na sua vida dali pra diante. E temos – já que é um pequeno extraordinário filme, que não se pretende pretensioso, genial – algo de De Volta para o Futuro II: em um determinado ponto, a história poderia ter tomado um caminho totalmente, mas totalmente diferente. Com toques de Woody Allen (citado especificamente) e de Nora Ephron.

A idéia, a sacada, a premissa, ela é bárbara, ela é inteligente, esperta, desafiadora, gostosa. Esse garoto Howitt, de quem nunca tinha ouvido falar, poderia ter tido uma boa idéia e se perdido a partir daí. Não. Ele consegue, com habilidade fascinante, mas absolutamente fascinante, ir em frente, contar toda a sua história – as suas histórias, a A e a B – de forma madura, sem deixar cair a peteca um minuto sequer.

sliding1Na história A, temos que, perdido o trem de metrô, Helen é avisada pelos alto-falantes de que houve um descarrilamento na Victoria Station, e poderá haver demora muito grande. Então ela sai do metrô à procura de um táxi; sofre tentativa de assalto, durante a qual fica ferida no rosto, e tem que passar por um hospital. Chega em casa pelas 4 da tarde, e encontra o marido, Gerry, tomando banho, e em seguida tentando esconder os vestígios da recentíssima passagem da amante, inclusive o fato de que havia dois copos de conhaque junto à cama. A desconfiança vai perseguir Helen A por muito tempo, enquanto ela, para prover o sustento da casa e do marido que escreve sua primeira novela, dedica-se a trabalhos part time, inferiores à sua capacidade.

A história A e a história B vão-se desenrolando, repito, em ação paralela o tempo todo, algumas vezes as duas interferindo-se a si próprias nas mesmas seqüências – com um domínio de narração invejável até para um veterano, coisa que esse menino Howitt seguramente não é.

Pois bem. Na história B, temos que, tendo conseguido entrar no trem de metrô no último momento, Helen conhece James, a quem vai, claro, rever mais tarde. Só que, tendo tomado o trem, chega em casa rapidamente, a tempo de ver a amante do marido, Lydia, em cima dele, quase no momento de gozar. Helen B sai de casa imediatamente, vai para a casa da amiga Anna e, claro, reencontra James.

E lá vão as duas tramas, lado a lado, com um brilho de narrativa de fazer o Tarantino roer as unhas. Tadinho, ele achava que tinha reinventado a narrativa, e todo o mundo babou em cima daquela bobagem que é Pulp Fiction. O que ele fez achando que era genial e mudaria a história do cinema, esse menino inglês fez sem qualquer alarde, de mansinho, com um puta talento.

E eis aí: temos no final do filme o final de Toda Uma Vida/Tout Une Vie, de Lelouch, de A Fraternidade é Vermelha/Trois Couleur: Rouge, de Kieslowski, de Sintonia de Amor/Sleepless in Seattle, de Nora Ephron. 

A Premiere americana de março 1998 (pag 20) informa que Peter Howitt é um veteano ator inglês que se transformou em escritor-diretor. Nem tão veterano assim – nasceu em 1957. Este foi o primeiro filme dirigido por ele.

Para registrar: a menina Paltrow está corretinha fazendo o papel duplo da mesma pessoa. Me pareceu que seu inglês estava bem inglês; não sei o que os ingleses terão achado, mas é bom lembrar que ela também fez Emma, falando como inglesa. (Vi depois que a Premiere americana critica o sotaque dela. Diz que é o sotaque de uma atriz americana falando mal o inglês da Inglaterra.)

Nossa, como trabalha essa moça. Nos últimos cinco meses, vi quatro filmes dela, todos eles produções de um único ano, 1998:

Segredo de Sangue/Hush

Grande Esperanças

Um Crime Perfeito/A Perfect Murder

Este Sliding Doors

E, antes destes, teve Emma (1996).

Complemento em 2008: Claro que este não foi o primeiro filme que usou essa coisa de duas versões simultâneas e diferentes da mesma história. Mas o que sei é que, depois deste, vieram vários filmes – especialmente comédias românticas – do que eu chamo de o subgênero E se a história tivesse sido outra?

De Caso com o Acaso/Sliding Doors

De Peter Howitt, Inglaterra-EUA, 1997.

Com Gwyneth Paltrow (Helen), John Hannah (James), John Lynch (Gerry), Jeanne Tripplehorn (Lydia)

Escrito por Peter Howitt

Produção Paramount e Miramax

Cor, 99 min.

3 Comentários para “De Caso com o Acaso / Sliding Doors”

  1. […] recentemente, o inglês Peter Howitt usou o recurso como a base de seu filme De Caso com o Acaso/Sliding Doors, de 1997. Ali, a porta de um trem de metrô que se fechava (mas poderia não ter se fechado; ou […]
    msn bruxo_do_mau@hotmail.com

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