A Cor da Noite / Color of Night

Nota: ★☆☆☆

A Cor da Noite (1994), um thriller cheio de cenas de sexo e furos na trama, é um recordista no universo dos filmes ruins. Teve nove indicações ao Framboesa de Ouro, o prêmio humorístico, sarcástico, atribuído aos piores filmes do ano em Los Angeles, em geral no mesmo dia dos Oscars, fora outras indicações e premiações em categorias de “pior” por duas outras instituições.

Foi um fracasso de bilheteria: custou US$ 40 milhões, e rendeu nas bilheterias americanas e canadenses menos da metade, US$ 19,7 milhões. (Para se pagar e dar lucro, um filme do cinemão comercial americano tem que render mais do que duas vezes o seu custo de produção.) No entanto, até que teve algum sucesso no mercado americano de vídeo, que estava em meteórica expansão em meados dos anos 90: segundo a revista Billboard, citada pelo IMDB, foi um dos 20 filmes mais alugados de 1995.

Os críticos meteram o pau. E não foram suaves, não: meteram o pau com virulência, com ênfase, com empenho.

Claro que eu não sabia de nada disso quando dei com o filme, bem no início, ao zapear na madrugada.

E não é que o filme me fisgou? E mais ainda: não é que, até bem mais para o final, quando aí tudo degringola loucamente, eu estava achando interessante?

Perdi as duas sequências iniciais, que só fui ver depois na internet. Quando a zapeada me deixou no canal que passava o filme, ele já estava com uns dez minutos, e o personagem central, interpretado por Bruce Willis, estava assistindo, como convidado, a uma sessão de terapia de grupo.

Bruce Willis faz um psicanalista de Nova York que vai para Los Angeles

Bruce Willis. Há quem o deteste, há quem goste dele. Sou do segundo time, desde os tempos de A Gata e o Rato, Moonlighting, a série estrela por ele e pela belíssima, belíssima, belíssima Cybill Shepherd, cinco temporadas entre 1985 e 1989.

Ele interpreta (horrorosamente, segundo o povo do Framboesa de Ouro) o dr. Bill Capa, um psicanalista de Nova York que, quando o filme está aí com uns dez minutos, chegou a Los Angeles para visitar um grande amigo, colega de faculdade, Bob Moore (Scott Bakula). Bob Moore havia se dado maravilhosamente bem na profissão de psicanalista. Não só tinha um excelente consultório num prédio chiquetérrimo de Los Angeles e uma clientela de pacientes cheios da grana, como tinha lançado um livro de auto-ajuda que virou tremendo best-seller.

Bill Capa vai então ao consultório do colega – e Bob o convida para assistir a uma sessão de um grupo que estava para começar naquele momento. Os pacientes concordam com a presença do psicanalista de Nova York, e cada um faz uma rápida apresentação de si mesmo para o visitante.

Um bando de pirados.

Há Sondra, a ninfomaníaca rica (Lesley Ann Warren). Clark (Brad Dourif), o advogado bem de vida mas maníaco compulsivo (creio ainda não se usava o equivalente ao que aqui chamamos de TOC). O depressivo que perdeu a mulher e a filha, Buck (Lance Henriksen). Um pintor loucaço de pedra, que goza e agride os colegas de grupo o tempo todo,  Casey (Kevin J. O’Connor). E um menino que é o mais piradão de todos, Richie, herdeiro de grande fortuna, drogado, com terrível dificuldade de fala, auto-destrutivo, depressivo, violento.

Depois da sessão, os dois amigos vão para a casa de Bob Moore – uma casa toda moderna, estilosa, coisa de arquiteto à procura do inusitado. Bill Capa se mostra espantado com o tamanho do sucesso financeiro do colega.

Uma paciente do psicanalista se mata diante dele

Bill Capa tinha ido para Los Angeles visitar o amigo numa tentativa de espairecer, descansar. Uma tentativa de se recuperar de um trauma violento: uma paciente dele havia se matado no meio de uma sessão de análise.

O filme mostra a cena pavorosa.

A Cor da Noite abre mostrando essa paciente, Michelle (Kathleen Wilhoite), na casa dela, mexendo com um revólver, enfiando o revólver na boca – mas ela não consegue disparar. Corta, e vemos Michelle falando com seu psicanalista no belíssimo consultório dele, no alto de um prédio gigantesco em Manhattan, bem perto da famosíssima torre da Chrysler.

Michelle fala caminhando pelo amplo consultório do analista, enquanto ele fica sentado, ouvindo, rebatendo coisas que ela fala.

De repente, Michelle toma impulso, começa a correr e avança celeremente para a grande janela do consultório.

A câmara mostra um boneco que faz as vezes do corpo de Michelle em seu vôo em direção ao asfalto da rua, dezenas de andares abaixo.

Em torno do corpo sem vida de Michelle, vai se ampliando uma piscina de sangue.

Aí o sangue perde a cor, fica cinza escuro. O dr. Bill Capa está lá no alto, olhando para a mulher que ele não conseguiu tratar e que se matou diante dele, e ele agora é incapaz de ver a cor vermelha. O choque o tornou daltônico.

O filme tem muitas, mas muitas cenas de sexo, bem ousadas. Quasepornô

Poucos dias depois que o pobre Bill Capa está em Los Angeles, seu amigo Bob Moore aparece morto em seu próprio consultório, apunhalado umas 40 vezes.

O detetive Martinez (Ruben Blades), um chicano estouvado, esquisitão, é o encarregado do caso. Suspeita do consertador de cabeças de Nova York, e de todos aqueles pacientes daquele grupo específico.

Por que ele não desconfia que pode ser qualquer um dos diversos outros pacientes de Bob Moore, isso não se sabe. É apenas um pequeno furo numa trama que tem mais buracos que as ruas de São Paulo após quatro anos de Fernando Nuliddad na prefeitura.

Bill Capa está no Mercedes do amigo recém-assassinado, numa rua de Los Angeles, quando batem na traseira do carrão. Ele vai lá ver quem é – e é uma bela mulher, pequenina, mignonzinha, mas toda perfeitinha, um tesão. Chama-se Rose, é interpretada por Jane March, e dali a muito pouco veremos Bill Capa e Rose trepando na piscina da mansão modernosa do falecido Bob Moore.

Haverá diversas cenas de sexo com Bruce Willis e Jane March. Várias, variegadas, ousadas. Bastante ousadas. Quasepornô.

Um sujeito que gasta tantas linhas para falar de um filme tão premiado com Framboesas de Ouro é doido que nem os pacientes do dr. Bob Moore, não é não?

Mas o que eu posso fazer? Gosto de escrever sobre os filmes dos outros, e até tenho um site sobre filmes…

Um thriller “ludicrous”, diz Maltin: absurdo, ridículo, risível, bizarro

Leonard Maltin deu 1 estrela em 4, e começa sua apreciação definindo o filme como um “ludicrous thriller”. Palavrinha interessante, essa ludicrous: absurdo, ridículo, risível, bizarro. É. O filme de fato é um thriller ludicrous.

“Thriller absurdo em que o terapeuta Willis (cuja paciente acabou de cometer suicídio diante dele) vai para Los Angeles para se recuperar; ele imediatamente se descobre imerso num mistério de assassinato, e envolvido com a misteriosa March. As muito faladas cenas de sexo não são muito sexy; falou-se muito na montagem de cenas da nudez frontal de Willis para ganhar uma classificação de R (de restricted – menores de 17 anos, só acompanhados de pais). Poderiam ter se lembrado de fazer um filme interessante! Também disponível em vídeo em um ‘director’s cut’ com classificação de R, com 17 minutos a mais que a versão exibida nos cinemas, que inclui mais Bruce e algumas cenas sensuais com Warren e March, mas o filme permanece sem qualquer lógica. Um grande desapontamento do diretor Rush; foi seu primeiro filme desde The Stuntman (1980).

Richard Rush é o diretor da porcaria. Nasceu em 1929, fez 14 filmes como diretor, nenhum de maior importância, que eu saiba. O Substituto/The Stuntman, citado por Leonard Maltin, tinha o grande Peter O’Toole no papel título, e mereceu três indicações ao Oscar – melhor ator para O’Toole, melhor direção e melhor roteiro adaptado. Depois deste A Cor da Noite, não voltou a fazer outro filme. Também, depois de tanta paulada que levou…

O filme joga fora desde cedo qualquer resquício de credibilidade, diz Ebert

Roger Ebert deu 1.5 estrelas em 4 – e foi incisivo, duríssimo em sua crítica, como poucas vezes vi. Começa assim seu longo texto: “Color of Night se aproxima da ruindade vindo de tantas direções que a gente deve admirar sua imaginação. Combinando todos os piores ingredientes de um whodunit (quem fez, quem cometeu) de Agatha Christie e um slasher louco por sexo, ele termina num frenesi de elementos reciclados do thriller, com uma sequência de perseguição de carros, uma confrontação final num grande armazém, e não apenas um, mas dois clichés do Pequeno Glossário de Filmes de Ebert: o Assassino Falastrão e o Vilão Alpinista.”

Creio que Ebert se divertia quando desancava com os filmes que achava de fato profundamente ruins. (Eu também me divirto um pouco com isso.)

Lá pelas tantas, ele diz:

“Enquanto isso, uma bela mulher se materializa na vida de Willis. Ela é Rose (Jane March, de The Lover – O Amante, baseado na novela de Marguerite Duras), que parece ter chegado do nada, que é uma gracinha, que o adora, e que rapidamente se une a ele numa cena de sexo na piscina que continha nudez frontal de Willis antes que o filme fosse cortado para satisfazer aos censores da MPAA (Associação dos Produtores de Filmes da América). (…) Leitores do Pequeno Glossário de Filmes de Ebert poderão perceber que Rose é explicada pela Lei da Economia de Personagens, que ensina que não há personagens desnecessários em um filme. Ou ela está lá simplesmente para provê-lo de uma parceira nas cenas de sexo, ou então ela está de alguma maneira envolvida no mistério que cerca o assassinato. Como e por que e se isso é verdade, não vou revelar.”

Mais adiante, depois de demonstrar que as sequências da perseguição de carro são absolutamente implausíveis, ridículas, Roger Ebert escreve:

“Este filme faz qualquer coisa para obter uma cena de ação barata. (…) Lá pelo fim de Color of Night eu estava, francamente, estupefato. Chamar o filme de absurdo não atingiria o alvo, já que qualquer resquício de credibilidade já havia sido obviamente a primeira coisa a ser lançada fora. O filme tem ambições de pertencer ao gênero de Jagged Edge, Fatal Atraction, Basic Instinct, Single White Female e outros thrillers cheios de reviravoltas, mas por que ele mirou tão baixo? O filme é tão inacreditável em seu melodrama e tão pateta na armação de sua trama que com um pouquinho mais de trabalho poderia ter sido uma comédia.”

É. Raras vezes vi Roger Ebert tão enfurecido com a ruindade de um filme.

Um legítimo representante do subgênero thriller quase pornô

A menção, neste parágrafo final, a O Fio da Suspeita/Jagged Edge (1985), Atração Fatal/Fatal Atraction (1987), Instinto Selvagem/Basic Instinct (1992) e Mulher Solteira Procura/Single White Female (1992), é extremamente interessante. São de fato thrillers realizados no mesmo período de tempo, cheios de surpresas, reviravoltas.

Dois deles, Atração Fatal e Instinto Selvagem, são, na minha opinião, representantes de um subgênero que eu, se tivesse um Pequeno Glossário de Filmes como o grande Roger Ebert tem, chamaria de thriller-quase pornô. Foi um subgênero que floresceu exatamente aí, final dos anos 80 e início dos anos 90, numa espécie de reação ao sepultamento definitivo das regras de censura estabelecidas pelo Código Hays, que vigoraram entre os anos 30 e os 70, e também ao enxame de filmes abertamente pornográficos que proliferavam nos Estados Unidos fora das grandes salas de cinema.

O subgênero teve até um patrono, Joe Eszterhas, roteirista de vários grandes sucessos, inclusive Atração Fatal e Instinto Selvagem.

Além desses dois títulos, dá para lembrar também destes outros thrillers quasepornôs:

Corpo em Evidência/Body of Evidence (1993), de Uli Edel;

O Poder da Sedução/The Last Seduction (1994), de John Dahl;

Ligadas pelo Desejo/Bound (1996), de Larry e Andy Wachowski;

Garotas Selvagens/Wild Things (1998), de John McNaughton.

Este A Cor da Noite aqui é sem dúvida um dos exemplares do subgênero. Dos piores, é claro.

Anotação em outubro de 2016

A Cor da Noite/Color of Night

De Richard Rush, EUA, 1994

Com Bruce Willis (Dr. Bill Capa)

e Jane March (Rose), Ruben Blades (detetive Martinez), Lesley Ann Warren (Sondra), Scott Bakula (Dr. Bob Moore), Brad Dourif (Clark), Lance Henriksen (Buck), Kevin J. O’Connor (Casey), Andrew Lowery (Dale), Eriq LaSalle (Anderson), Jeff Corey (Ashland), Kathleen Wilhoite (Michelle), Shirley Knight (Edith Niedelmeyer)

Roteiro Matthew Chapman e Billy Ray

Baseado em história de Billy Ray

Fotografia Dietrich Lohmann

Música Dominic Frontiere

Montagem Jack Hofstra

Produção David Matalon, Buzz Feitshans, Cinergi Pictures Entertainment, Hollywood Pictures

Cor, 125 min

*

3 Comentários

  1. Senhorita
    Postado em 14 Fevereiro 2017 às 9:51 pm | Permalink

    Não basta assistir esse filme apenas para ver Scott Bakula. Ele ainda tem que morrer no começo do filme levando 1815 facadas.

  2. Heitor
    Postado em 15 Fevereiro 2017 às 10:18 am | Permalink

    Quanto será que o roteirista levou nessa?

    Isso é minha curiosidade vendo esses assim.

    Mais: alguém no Brasil devia dar um curso (PTH, porcaria típica de Hollywood, por exemplo)ensinando a fazer a parada. Depois entraria um tradutor. Depois um agente p/ tentar vender a coisa. Com o dólar a 3 e meio, já pensou?

  3. Jussara
    Postado em 15 Fevereiro 2017 às 9:52 pm | Permalink

    Quando vi o título do filme, pensei, antes de ver a nota “Ele deu uma estrela.” Rolei a página e tcharan! Acertei! LoL

    Eu assisti a essa pérola em VHS, e não me lembro de quase nada, tanto que nem recordava das cenas de sexo (e eu vi esse filme com a minha mãe). Só me lembrava mesmo da perseguição de carros, e da mulher falando ao celular (acho que era um celular) que estava num carro vermelho. E daí vem o suspense, pois o personagem de Willis é daltônico.
    Também não me lembro do que achei da trama, não fiquei com nenhuma impressão. Pode até ser que eu tenha gostado. hahaha
    E por que nos privaram do nu frontal do Bruce Willis, hein?! Isso não é justo. Também gosto dele desde “A Gata e o Rato”.

    Falando em nu frontal, esses dias vi um filme com o maravilhoso Matthias Schoenaerts e a Marion Cotillard, e o roteiro é tão ruim quanto o desse “A Cor da Noite”. O próprio diretor o classificou de “melo-trash”. Mas não é que o ator aparece como veio ao mundo, algumas vezes, não só de costas mas também de frente? Foi a única coisa que fez valer o tempo perdido vendo aquela porcaria. Pense num filme ruim, com um diretor que ficou fazendo invencionices com a câmera e esqueceu da história. Pois então.
    Nu frontal masculino parece que virou moda. Mês passado vi “Capitão Fantástico”, com Viggo Mortensen, e ele também aparece pelado. E olha que já está com quase 60. (Mas inteiraço, verdade seja dita, e aparentando pelo menos 10 anos a menos).

    Voltando à vaca fria, esses filmes apelativos dos anos 1990 são ridículos, mas o motivo está muito bem explicado no último parágrafo.
    Acredita que nunca vi “Instinto Selvagem”? Eu era menor de idade, e na minha casa não era permitido. Na época foi muitooo falado, principalmente (ou somente?) por causa da cruzada de pernas da Sharon Stone. Depois acabou perdendo a graça, se é que um dia teve, e nunca me despertou curiosidade suficiente para assistir. “Atração Fatal” eu vi uns poucos pedaços, nunca inteiro. Não sei quanto tempo demorou pra chegar à TV, mas eu era criança, não tinha como assistir nem se quisesse. Uma vez minha mãe estava comigo, eu já era adolescente, e ela não me deixou ver até o fim. Sem falar que eu morria de medo daquela personagem da Glenn Close. Acho que dormi no começo, e acordei logo após a cena do coelho, o que me causou um pavor ainda maior. haha
    E quanto a “9 1/2 Semanas de Amor”? Não é dos anos 1990, mas acho que também se encaixa nesse subgênero (estou chutando, nunca vi).

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*