Dentro da Casa / Dans la Maison

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Nota: ★★★☆

Com Dentro da Casa, sua obra de 2012, François Ozon comprova mais uma vez algumas verdades. Uma: é um dos realizadores mais fascinantes em ação nos últimos tempos. Outra: é um mestre do estilo, ou melhor, de estilos – cada filme vem em um completamente diferente do anterior.

Terceira: ele é como Garrincha – a gente nunca sabe para que lado ele vai driblar o espectador. Nunca se sabe qual estilo ele adotará na sua obra seguinte – ou na sequência seguinte.

zzmaison2Dentro da Casa começa com jeito de um filme que vai discutir educação, sistema de ensino, em um país de cada vez maior diversidade cultural, étcnica. Começa parecendo que seu tema será um pouco como o de Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet (2008), ou Nosso Professor é um Herói, de Gérard Lauzier (1996).

Pouco depois, parece que estamos diante de um filme que mostra que um aluno pobre, vindo de família humilde, pode encontrar a salvação da miséria, da marginalidade, através de seu talento. Parecido como Lila Diz…, de Ziad Doueiri (2004), ou Stella, de Sylvie Verheyde (2008), para continuar lembrando apenas filmes franceses mais ou menos recentes.

Quando estamos aí com uns 20 minutos dos 105 de duração do filme, percebemos que não, não é bem isso. Dentro de Casa é em parte uma visão irônica, amarga, impiedosa, da classe média francesa, à la Claude Chabrol, em parte uma homenagem ao Pier Paolo Pasolini de Teorema, em parte um intrincado, engraçado mas atordoante, jogo de realidade x ficção, um pouco à la Ian McEwan.

Um professor de Literatura numa escola modelo, chamada Gustave Flaubert

Dentro da Casa começa dentro de uma escola. Um senhor grisalho, o diretor da escola, está apresentando para seus professores as novas diretrizes pedagógicas, agora que o liceu passou a ser considerado um modelo de ensino para os demais. (Não são só os pedagogos brasileiros que estão sempre tentando reinventar a roda; a prática, tudo indica, é mundial.)

Entre as novas diretrizes está a volta da exigência de uniforme, um símbolo ousado, audacioso, explica o diretor, porque vai deixar todos os alunos, de extratos sociais bem heterogêneos, em pé de igualdade.

Há aplausos, há reclamações. (Os pedagogos, assim como os esquerdistas e os verdes, se dividem em centenas de correntes.)

zzmaison3A câmara já nos mostrou quem será um dos protagonistas da história: o professor Germain (o papel de Patrice Luchini), que ensina Literatura. Germain nem aplaude nem vaia a explanação do diretor – mostra-se levemente entediado com tudo aquilo.

Corta, e vemos um adolescente que veste o uniforme do colégio: calça comprida cinza, camisa social branca, gravata listrada azul e vermelha, paletó. Não vemos seu rosto, por enquanto.

Plano geral do Liceu Gustave Flaubert; o nome, homenagem ao autor do clássico dos clássicos da literatura francesa Madame Bovary, obviamente é proposital, simbólico. O prédio é belo, moderno – um prédio em que o Estado francês botou bom dinheiro. Não é uma escolinha de periferia – é um senhor colégio.

Então François Ozon solta belíssimos fogos de artifício: vemos dezenas de fotinhas como se fossem 3 x 4 de alunos do Liceu Gustave Flaubert, e os rostos mostram como são de fato heterogêneos os alunos de uma escola pública francesa hoje: negros, mulatos, árabes, louros, morenos, aquele mosaico felizmente multicolorido que compõe a sociedade.

Nesse show de bola, terminam os créditos iniciais.

E então vamos conhecer o apartamento – bom, confortável, agradável – do professor Germain e de sua mulher Jeanne (interpretada por Kristin Scott Thomas, a mais francesa de todas as atrizes de língua inglesa hoje).

Jeanne gerencia uma galeria de arte moderna; o dono da galeria acaba de morrer, e suas filhas, duas gêmeas, que não têm qualquer tipo de ligação com arte, vão assumir. Jeanne passará boa parte da narrativa temerosa do que poderá acontecer com a galeria – e com seu emprego.

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No meio de redações horrorosas, surge uma muito bem escrita

Germain está em casa corrigindo as redações dos alunos. Naquele começo de ano letivo, havia encomendado a eles uma redação em que eles descrevessem como havia sido seu fim de semana.

Como aparentemente já havia feito ao longo de muitos anos, Germain lê para a mulher algumas das redações. Uma delas: “Sábado eu comi uma pizza vi e vi televisão. No domingo estava cansado e não fiz nada”.

Outra: “Não gosto de domingo, mas gosto dos sábados. Mas sábado meu pai me pôs de castigo, não pude sair, e ele tomou meu celular”.

Germain comenta para a mulher que é a pior classe que ele já teve na vida. Jeanne lembra que tinha ouvido a mesma frase um ano antes, e dois anos antes, mas Germain está furioso. “Dizem que os bárbaros estão chegando. Eles estão aqui, dentro das nossas salas de aula!”

Pega outra redação qualquer, e começa a ler.

É completamente diferente das demais. Não tem apenas duas linhas – ocupa os dois lados da folha de papel.

zzmaison5Em um texto correto, articulado, seguro, bem escrito, um garoto conta como finalmente conseguiu se aproximar de um colega, Rapha (Bastien Ughetto); Rapha é muito fraco em matemática, e então o autor da bela redação se ofereceu para ajudá-lo nas lições de casa, e pôde, finalmente, entrar na casa dele, que por muito tempo, no passado, havia observado.

E o texto do garoto descreve a casa, a casa de uma família classe média típica, e como ele ficou conhecendo a mãe de Rapha, Esther (interpretada por Emmanuelle Seigner, há mais de duas décadas Madame Roman Polanski), e sentiu seu cheiro de mulher de classe média.

Tanto o professor Germain quanto Jeanne ficam impressionados com a redação do garoto.

E ela termina com a expressão à suivre – segue –, bem colocada entre parênteses.

Chama-se Claude Garcia (interpretado por Ernst Umhauer, na foto acima) o aluno que sabe escrever. No dia seguinte, Germain irá à secretaria da escola, à procura de informações sobre Claude Garcia. Mora sozinho com o pai, desempregado e inválido; a mãe os abandonou.

Germain vai se aproximar do único aluno de sua classe que tem o dom da escrita.

Estamos aí com menos de dez minutos do filme. Muita surpresa virá pela frente, e eu, que cada vez tenho mais desprezo por spoilers, não pretendo apresentar spoiler algum.

Dá para registrar, no entanto, que Ozon fez um trabalho tão brilhante ao construir o roteiro que ele deixa o espectador em suspense, como se o filme fosse um thriller.

Eu me peguei várias vezes aflito com as situações que iam surgindo – aflito, temoroso do que poderia vir a seguir.

Pasolini é citado no filme, e não é à toa. O garoto faz lembrar o personagem de Teorema

François Ozon baseou o roteiro de Dans la Maison na peça El chico de la última fila, de Juan Mayorga. É uma adaptação livre, dizem os créditos iniciais.

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Aprendo com a Wikipedia que Juan Antonio Mayorga Ruano, nascido em Madri em 1965, “es uno de los dramaturgos españoles contemporáneos más representados”. “Su dramaturgia, profunda, comprometida y metódica, ha traspasado las barreras nacionales para ser traducido y representado en los principales teatros europeos. Es colaborador asiduo de compañías como Animalario y ha trabajado como adaptador y dramaturgista para el Centro Dramático Nacional y la Compañía Nacional de Teatro Clásico.”

François Ozon, em entrevista citada no AlloCine, beleza de site sobre o cinema francês, diz que, no momento em que leu a peça, sentiu o potencial de falar indiretamente de seu trabalho, do cinema, de onde vem a inspiração, do que é ser um criador, um espectador. Mas resolveu trocar o título porque o original, segundo ele, focalizava apenas um aspecto da trama.

Citei Teorema de Pasolini mais acima. Não foi à toa. Num dos diálogos entre professor e aluno, Germain diz para Claude: “O que isso? Pasolini?”

Achei isso fantástico, porque, momentos antes desse diálogo, tinha me ocorrido a lembrança do filme que o realizador italiano fez em 1968 – uma fábula, uma parábola, em que um visitante (interpretado pelo então jovem Terence Stamp, com aquela sua bela estampa), um desconhecido, chega a uma casa burguesa e, ao ir embora, algum tempo depois, tão misteriosamente quanto havia chegado, deixa a terra arrasada, a família inteiramente destroçada.

O AlloCine faz referência a Teorema, e também a Ingmar Bergman – a belíssima sacada do mestre sueco, em Morangos Silvestres, em que o veterano doutor Isak Borg (Victor Sjöström) invade as cenas da sua infância e juventude, suas recordações, e aparece na tela, velhinho, ao lado dos personagens de sua vida tantas e tantas décadas antes. Woody Allen copiaria essa sacada do mestre em alguns de seus filmes, e, de uma certa forma, Ozon também as copia aqui: o professor Germain intervém em sequências que mostram fatos ocorridos com Claude Garcia na casa de seu colega Rapha.

A única característica desagradável de Dentro da Casa, para mim, é aquele lado Chabrol, do desprezo por todo mundo que é o que os esquerdistas de matiz infantil gostam de chamar de burgueses ou pequenos burgueses. Boa parte dos realizadores italianos do pós-guerra e muitos dos franceses têm essa doença infantil, de que Chabrol é o líder supremo. Há um olhar superior, de quem é melhor – porque se julga artista, boêmio, ou revolucionário, ou rebelde –, um olhar de desprezo para quem é classe média para cima, e não passa por nenhuma necessidade básica. É com esse tom que o garoto Claude Garcia trata a família de seu colega Rapha, e também o casal Germain-Jeanne. Coisa boba, menor. Infantil.

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Um filme que causa surpresa, desconforto, ansiedade, perplexidade

Nas entrevistas citadas no site francês, Ozon lembra que tanto seu pai quanto sua mãe eram professores. “Eu conheço aquele trabalho de correção de redações durante o fim de semana, os alunos preferidos, as tensões com a direção da escola. Domino esse assunto, sei como falar do estado de espírito dos professores, de suas depressões, as palavras de ordem às vezes absurdas da educação nacional.”

No elenco de grandes atores veteranos – Fabrice Luchini, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner –, estão muito bem os dois jovens, Bastien Ughetto, que faz Rapha, e, em especial, Ernst Umhauer, que faz Claude Garcia. A interpretação dele é extraordinária. Como Mary reparou, há momentos em que sua expressão é simplesmente diabólica. Embora seu personagem tenha 16 anos, Ernst Umhauer tinha 21 durante as filmagens. Segundo Ozon, os atores mais jovens não teriam maturidade suficiente para interpretar o papel.

Deu certo – até porque o rapaz não parece ter 21 anos. Tem a aparência de bem mais jovem.

Ernst Umhauer foi indicado para o César de melhor ator iniciante – ou melhor esperança, como os franceses chamam o prêmio. Foi uma das seis indicações do filme ao César, além de melhor filme, melhor diretor, melhor ator para Fabrice Luchini, melhor roteiro adaptado e melhor música original. Não levou nenhum desses prêmios.

É um belo, impressionante filme, este Dentro da Casa. Causa surpresa, desconforto, ansiedade, perplexidade. O cinema de Ozon não é divertido – mas é muito bom.

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Anotação em setembro de 2013

Dentro da Casa/Dans la Maison

De François Ozon, França, 2012

Fabrice Luchini (professor Germain), Ernst Umhauer (Claude Garcia), Kristin Scott Thomas (Jeanne Germain), Emmanuelle Seigner (Esther Artole), Denis Ménochet (Rapha Artole pai), Bastien Ughetto (Rapha Artole filho), Jean-François Balmer (o diretor do colégio)

Roteiro François Ozon

Baseado na peça El chico de la última fila, de Juan Mayorga

Fotografia Jérôme Alméras

Música Phlippe Rombi

Montagem Laure Gardette

Produção Mandarin Films, Mars Distribution, France 2 Cinéma, FOZ, Canal+. DVD Califórnia Filmes.

Cor, 105 min

***

5 Comentários para “Dentro da Casa / Dans la Maison”

  1. Bom dia !!

    Vi este filme em 27 de abril deste ano.
    Muito bom, muito bom mesmo. François Ozon faz parte da minha lista de meus 6 cineastas preferidos.
    É aquele tipo de filme que nos prende o tempo todo. E só a presença do Fabrice, da Kristin, e da Emmanuelle, já valeria o filme.
    E como voce disse, esse rapaz o Ernst Unhauer, muito bom mesmo.
    Um filme que me vem logo na lembrança com o Fabrice é aquela maravilha “As Mulheres do Sexto Andar” .

    Este, é um filme sem clichês e com um final . . .
    ” E sentiu seu cheiro de mulher de classe média ” .
    Sergio, desculpe, no finalzinho do texto acima da última foto, quando voce fala das indicações do filme ao César, voce teria se confundido com o nome do Luchini ?
    Um abraço !!

  2. Oi, Sérgio! Sou grande fã do Ozon tbm, desde que Swimming Pool. Há duas semanas vi Jovem e Bela no cinema, tbm do do Ozon. Que direor produtivo, hein?
    Mas voltando ao Dans La Maison, eu tive outra impressão sobre o filme: ele fala sobre a arte de ser voyeur, de imaginar as histórias, de criar situações, de observar e não ser notado… ou seja, o cinema em si. Todo cinéfilo é, por tabela, voyeur tbm… não? Isso ficou bem claro pra mim na última cena do filme…
    abraço!

  3. Não percebi o personagem principal apenas nem principalmente como um voyeur, da mesma forma como a Claudia Maria. Claude quer e tem uma vocação que se sobressai entre os demais alunos quanto à arte de escrever, tão rara em nossos dias em que predominam a TV e a informática como meios de comunicação. O fato de ele querer ascender socialmente por meio do dom que tem é perfeitamente compreensível, apesar de ele usá-lo de forma um pouco escusa, o que explica o que você chama de “expressão diabólica”.
    Guenia Bunchaft
    http://www.sospesquisaerorschach.com.br

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