Um Sonho de Amor / Io Sonno l’Amore

Nota: ★★★☆

Um Sonho de Amor, no original Io Sonno l’Amore, eu sou o amor, focaliza uma família da altíssima burguesia de Milão. Demora bastante para dizer a que vem. Demora exatamente 58 dos seus longos 120 minutos.

É um filme todo estiloso. Faz truques, brincadeirinhas. Tira o som em alguns momentos. Bota o som da sequência que virá em seguida na sequência anterior. Demora-se longamente em paisagens. Há muitos momentos de longo silêncio. Há tomadas enganadoras, para o espectador pensar que é realidade, quando na verdade elas mostram o desejo de um dos personagens. Há momentos em que a câmara perde o foco, e vemos as coisas flu, como num quadro impressionista.

No meio de uma seqüência em que até então não tinha havido truque algum, de repente surge uma tomada com a câmara no teto alto, mostrando lá embaixo o cocuruto da cabeça da protagonista.

Há um momento em que os personagens são vistos à distância, num plano geral, e as vozes deles estão bem altas, mais altas do que quando são mostrados em close-up.

Na sequência de sexo – uma sequência bastante longa, belíssima, extremamente sensual –, há uma série de tomadas em super close-up da pele dos atores, dos mamilos, da boca, intercaladas por tomadas da natureza igualmente em super close-ups: insetos, grama, folhas.

Como é um filme todo estiloso, fez tremendo sucesso no circuito dos festivais. Ganhou sete prêmios e teve 19 indicações, inclusive uma para o Oscar de melhor figurino, uma para o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e outra para o Bafta de melhor filme em língua não inglesa.

No palazzo da família milionária, um jantar familiar, íntimo – mas formalíssimo

Um Sonho de Amor começa num dia de inverno rigoroso, muita neve nas ruas de Milão, quando a imensa mansão, o palazzo da família Recchi está se preparando para um jantar. É aniversário do patriarca, Edoardo Recchi (interpretado por Gabrielle Ferzetti), que virá comemorar na mansão do filho único, Tancredi (Pippo Delbono).

A mulher de Tancredi, Emma (o papel da escocesa Tilda Swinton), supervisiona os preparativos para o jantar. A governanta Ida (Maria Paiato), que dirige o grande número de serviçais – copeiros, arrumadeiras, cozinheiras, auxiliares de cozinha –, informa à patroa que Eduardo, o filho mais velho, telefonou dizendo que trará uma amiga para o jantar. Emma tem que definir onde se sentará essa nova visita, que não estava na lista dos convidados.

Será um jantar familiar, íntimo, mas formal. O velho Recchi virá, claro, com sua mulher, Rori (o papel de Marisa Berenson, que andava sumida). Edoardo (Flavio Parenti), o filho mais velho, virá então com uma amiga, Eva (Diane Fleri).

Estarão também os dois outros filhos do casal, Gianluca (Mattia Zaccaro) e Elisabetta (Alba Rohrwacher, à direita na foto, a excelente atriz que foi a protagonista do belo Que Mais Posso Querer), o namorado dela, e mais alguns parentes. Um jantar familiar, íntimo, mas formal, para umas 15 pessoas.

Vemos a criadagem preparando os pratos, os copos, os talheres.

Quase ao fim do jantar, o patriarca anuncia que está na hora de se aposentar. Ele já tem o nome de quem vai substitui-lo no comando da fábrica da família, uma gigantesca tecelegam: Tancredi, seu filho, e Edoardo, seu neto. Serão necessárias duas pessoas para substituí-lo, diz ele, sem qualquer modéstia.

Nas conversas antes do jantar, e mesmo durante ele, fala-se de uma corrida de que Edoardo participou naquele dia. Chegou em segundo lugar.

Após o jantar, quando a família passa para um outro salão, para continuar a conversar, chega ao grande palazzo um jovem. Apresenta-se como Antonio Biscaglia (é interpretado por Edoardo Gabbriellini, na foto abaixo), e quer entregar um presente para Edoardo.

Antonio havia vencido a corrida em que Edoardo chegara em segundo lugar.

Edoardo parece se espantar com a presença de Antonio. Atende-o junto da porta principal do palazzo, explica que está havendo uma reunião da família, e o convida para entrar, mas Antonio se recusa.

O presente é uma torta. Antonio é um chef.

Edoardo chama a mãe, apresenta-a a Antonio. Emma também convida o rapaz para entrar, mas ele se recusa, e em seguida vai embora.

Emma não participa da conversa na salão de estar: sobe as escadas em direção à ala íntima, vai se deitar.

Neste momento, estamos com exatos 23 minutos de filme.

Longos 23 minutos para os preparativos de um jantar e um jantar. Uma cerimônia que parece viscontiana, que faz lembrar a longa seqüência do baile na mansão do príncipe de Salina em O Leopardo.

A caixinha do DVD dá um spoiler feio: revela a surpresa que só acontece no meio do filme

Há então um corte no tempo, e passamos para alguns meses após aquele dia de inverno do aniversário do patriarca dos Recchi.

Nesse intervalo de tempo, o velho Recchi havia morrido.

Sem que esse fato seja muito realçado, mostra-se que Emma é russa. Tancredi a havia conhecido em viagens à Rússia; casaram-se, estavam casados há quase 30 anos.

Por um incidente, eventualmente Emma encontrará uma carta da filha Elisabetta em que ela fala de uma paixão por outra mulher. Emma não tinha idéia alguma de que essa era a preferência sexual de sua filha.

Edoardo é amigo íntimo de Antonio – e obviamente o espectador imagina que há ali outro amor homossexual. O filme dá todos os indícios disso.

Aos 58 minutos do filme, como antecipei na abertura, há um fato inesperado, surpreendente, significativo, forte.

Bem, para mim foi absolutamente inesperado, surpreendente. Imagino que será para qualquer espectador que não tenha lido alguma resenha do filme com spoiler, ou o texto da caixinha do DVD.

A caixinha do DVD revela o acontecimento que só ocorre quando o filme está bem no meio. Um absoluto, absurdo spoiler.

O jovem diretor Luca Guadagnino tem forte ligação com Tilda Swinton

Vejo agora que o diretor Luca Guadagnino – também autor da história original e um dos quatro autores do roteiro deste Io Sonno l’Amore – é bem jovem; nasceu em 1971, em Palermo, na Sicília, filho de pai italiano e mãe argelina, e passou a infância na Etiópia.

Sua filmografia como diretor tem 18 títulos – a maior parte deles curta-metragens e documentários. Este aqui, segundo mostra o IMDb, foi seu terceiro longa-metragem de ficção.

Luca Guadagnino tem – mostra sua filmografia – um antigo relacionamento com a atriz Tilda Swinton. Ela estrelou o primeiro longa do realizador, The Protagonists, de 1999. E foi o tema de um documento que ele fez em 2002, Tilda Swinton: The Love Factory.

Essa amizade explica por que a atriz escocesa foi escolhida para interpretar uma russa radicada há décadas em Milão.

Tilda Swinton é uma grande atriz, e está muito bem no filme – ela está sempre bem. Para alguns espectadores que comentaram sobre o filme na internet, ela passou uma imagem de mulher ainda não muito bem adaptada a seu novo habitat, aquela casta de milionários na cidade mais industrial e economicamente poderosa da Itália.

Confesso que não senti isso, ao ver o filme. A meu ver, Emma, seu personagem, desempenha a contento o papel de dona de casa da alta burguesia, criou seus filhos sem maiores problemas, é amorosa e é amada por eles. O relacionamento com o marido que a trouxe da Rússia para a Itália é bom, cordial, até com expressões de afeto.

A interpretação de Tilda Swinton como Emma transmite, sim, na minha opinião, uma certa insegurança, uma certa perplexidade diante da vida. Mais ou menos como alguns dos personagens de Michelangelo Antonioni, o cineasta que mais focalizou a alta burguesia italiana, e mostrou as angústias existenciais, as dúvidas, as perplexidades daquelas pessoas. Não consegui enxergar em Emma uma absoluta falta da Mãe Rússia, um mal-estar pelo fato de viver num mundo que não é o de sua origem.

Mas tudo bem. Aí é questão de interpretação de detalhe. Cada um, cada um.

Atenção: spoiler! Quem não viu o filme não deve ler a partir daqui

O que me pareceu fascinante foi que as cenas de sexo são incrivelmente sensuais. O que a princípio pode parecer estranho, já que Tilda Swinton – excelente atriz – não chega a ser bela, e seu corpo está longe do padrão convencional das mulheres sensuais: ela é extremamente magra, uma coisa quase anoréxica, biafrenta, tábua.

Uma prova de que para ser sensual não é preciso ser Marilyn Monroe ou Juliana Paes.

E então, para concluir: Io Sonno l’Amore não é um filme ruim, de forma alguma. É exageradamente estiloso – mas é um bom filme. Sei lá se merecia tantos prêmios e indicações, mas essa coisa de prêmios não chega propriamente a ser prova de nada.

Anotação em abril de 2012

Um Sonho de Amor/Io Sonno l’Amore

De Luca Guadagnino, Itália, 2009

Com Tilda Swinton (Emma Recchi), Flavio Parenti (Edoardo Recchi, neto), Edoardo Gabbriellini (Antonio Biscaglia), Alba Rohrwacher (Elisabetta Recchi), Pippo Delbono (Tancredi Recchi), Maria Paiato (Ida Marangon), Diane Fleri (Eva Ugolini), Mattia Zaccaro (Gianluca Recchi), Gabriele Ferzetti (Edoardo Recchi, o patriarca), Marisa Berenson (Rori, a matriarca)

Roteiro Barbara Alberti, Ivan Cotroneo, Walter Fasano e Luca Guadagnino

Argumento Luca Guadagnino

Fotografia Yorick Le Saux

Música John Adams

Produção First Sun, Mikado Film, Rai Cinema. DVD Paris Filmes.

Cor, 120 min

***

Título em inglês: I am Love

4 Comentários para “Um Sonho de Amor / Io Sonno l’Amore”

  1. Sergio, esse filme foi um dos meus favoritos do ano passado! a trilha sonora, o figurino, como o diretor explora a importancia da gastronomia na vida (na minha vida tem extrema importancia rsrs). Eu tbm achei no começo do filme q o filho dela era gay. Enfim, sou apaixonada pela Tilda, acho ela mto autentica. Realmente, pq toda mulher tem q ser bronzeadona, loiriona, bundao, etc? E as ruivas pálidas, minha gente?!?!? rs…

  2. Acabei de asistir há poucos minutos.O que vou
    dizer,vai ser de forma salteada,sem seguir a ordem dos fatos.Um ótimo filme.Lindo demais.
    Eu gosto demais da Tilda Swinton. Uma atriz maravilhosa.De fato,uma mulher não bonita mas
    na minha opinião,muito sensual e,desejável.
    Família milionária,muita beleza,também muita etiqueta.De se observar o destaque que é dado a um simples talher.Fico me perguntando,
    se não houve entre Edoardo e Antonio,alguma coisa antes;as cenas entre eles deixava a pensar.A cena em que Emma faz amor no campo com Antonio,foi de uma beleza ímpar.Foi bacana por não mostrar o sexo em si,só deixando o nosso imaginário.Acho que devería ser assim tbm,em algumas cenas de beijos,nos filmes atuais.Não precisava aquela chuparada tôda,aquela batalha de linguas.Sabe-se que vai acontecer então,deixe o imaginário fazer o resto.Achei tbm que o amor proibido entre Emma e Antonio e a morte de Edoardo,lembra o filme “perdas e danos”.O filho tem uma nesga com o pai,toma um tombo e morre.Aqui,o filho tem uma nesga com a mãe,cai,bate a cabeça e morre.O amor e o casamento de Emma com o marido,era de pura “aparência”.Não gostei do final mas,ele tem seu sentido.
    Como diz a Claudia Maria,destaque especial deste filme é a culinária,a gastronomia.Nossa
    cada prato mais gostoso do que o outro.Deve ter sido uma tortura (ótima)para a Claudia.
    Maravilha de filme !

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