Momento Inesquecível / Local Hero

Nota: ★★★½

Momento Inesquecível, no original Local Hero, de 1983, é uma pequena pérola. Uma ode à alegria de viver, aos pequenos prazeres da vida, uma fábula para defender a moral de que o dinheiro é pouco importante, que há muitos valores mais fundamentais, que é imbecilidade centrar a vida na busca de ganhar e juntar bens materiais.

Numa definição bem simplista, é um filme pró-hippismo, anti-yuppismo.

A vilã é uma gigantesca corporação, a Knox Industries, com escritório central em Houston, Texas. Os heróis são um grupo de alegres pessoas simples de um vilarejozinho mínimo, no norte da Escócia, de frente para o mar, em meio a uma paisagem de sonho.

E assim Local Hero é também uma ode à vida simples nos lugares pequenos, em contraposição à correria insana das grandes metrópoles. E ainda uma elegia aos escoceses, em contraposição aos metidos, emproados ianques, que acham que podem comprar tudo.

A ação começa em Houston. Enquanto vão passando os créditos iniciais, a câmara acompanha um Porsche no meio do trânsito. O rádio do Porsche está ligado, e um locutor dá notícias. Diz, com uma pontada de bom humor, que o furacão Eleonor está se distanciando para o Leste, “talvez para fugir do trânsito”. Veremos que o rapaz que dirige o carrão milionário, Macintyre (Peter Riegert, à esquerda na foto abaixo), é funcionário da Knox Oil, uma das empresas da corporação.

Na reunião da diretoria da corporação, comentários supremacistas sobre o Terceiro Mundo

A diretoria do conglomerado está reunida – e a situação é suavemente hilariante: o chefão, o CEO, o presidente, Felix Happer (Burt Lancaster, o único astro do elenco), dorme profundamente, ronca alto. Assim, os diretores da Knox Industries têm que falar baixinho, para não acordar o patrão.

O tema é a implementação de um terminal para refinar e armazenar petróleo em um determinado local do Norte da Escócia, a Baía Ferness. O local já está escolhido, e foi profundamente estudado. É um negócio imenso – a corporação vai investir ali US$ 600 milhões, ao longo de três anos; US$ 60 milhões estão à disposição para a compra das casas e dos terrenos do vilarejo localizado ali junto da baía. (Na foto abaixo, o vilarejo de Pennan, na Escócia, onde o filme foi rodado.)

O diretor que faz a explanação realça que o novo empreendimento será num país estável e amigo; não é um país do Terceiro Mundo

Um negociador será enviado para lá, para efetivar a compra das propriedades. E o negociador escolhido será exatamente o protagonista da história, Mac, o rapaz do Porsche.

Mac não gosta muito da idéia de viajar. Acha que pode resolver as coisas por telefone e telex, como fez recentemente com os mexicanos. E aí o chefe de Mac faz a segunda observação supremacista, racista, em menos de cinco minutos de filme: diz a Mac que nesse caso não se trata de mexicanos – “são gente como nós”. E reforça que Mac foi escolhido pelo fato de ser, ele mesmo, descendente de escoceses.

E aí Mac faz uma confissão: não descende de escoceses coisa nenhuma. Seus pais vieram da Hungria; adotaram o nome escocês Macintyre por acharem que era um nome bem americano.

Mas não tem jeito: a missão de negociar com os escoceses e comprar todas as propriedades do vilarejo é dele mesmo.

Para piorar ainda mais a situação, Mac é chamado para uma conversa com o patrão, o sr. Happer. E o sr. Happer é uma figuraça. Herdou do pai aquele monte de empresas, que o pai, por sua vez, havia comprado de um escocês, de sobrenome Knox. Mas não tem o menor interesse pelos negócios de suas empresas. Gosta mesmo é de astronomia; tem telescópios gigantescos, fica o tempo todo estudando o céu. Quer descobrir e identificar um novo cometa, para dar seu nome a ele.

E então o que Happer conversa com o pobre Mac não tem nada a ver com petróleo, e sim com estrelas. O patrão quer que Mac observe o céu, que, naquele período do ano, na Escócia, estará sobre a influência de Virgem.

Um ianque na Escócia, com autorização para gastar US$ 60 milhões

Lá vai Mac para a Escócia. É recebido lá por um funcionário da subsidiária escocesa das Knox Industries, Oldsen (Peter Capaldim, à direita na foto abaixo), um rapaz um tanto desajeitado, meio inocente, meio bobo, meio alheio ao mundo. Rumam os dois, de carro, através de uma paisagem espetacular, para o extremo norte, até o vilarejozinho junto da Baía Ferness.

Aliás, há paisagens estonteantemente belas ao longo de todo o filme, e a fotografia, deslumbrante, é de um mestre, Chris Menges.

Estamos aí com 16 minutos de filme, e as desventuras de Mac, o ianque com autorização para gastar US$ 60 milhões na aquisição de um punhado de casas e terrenos, vão começar.

Em parte, é previsível o que vai acontecer daí para frente. Há vários filmes sobre forasteiros emproados, de narizinho e ego arrebitados, que chegam a lugares simples, em geral no interiorzão, longe das grandes metrópoles, julgando-se muito superiores às pessoas que vivem ali. E, depois de um período de adaptação, acabam descobrindo que a vida que levavam antes, nas grandes cidades, era uma porcaria, e ali, sim, é que as pessoas sabem viver.

Enquanto via este delicioso filme, e pensava nessa coisa de que ele é um panfletinho pró-hippismo e anti-yuppismo, me lembrei de um desses filmes – Presente de Grego/Baby Boom, de Charles Shyer, de 1987, em que a personagem central, interpretada por Diane Keaton, uma executiva workaholic de Manhattan, vai parar numa cidadezinha interiorana.

Há muitos outros, como, por exemplo, os bem recentes Recém-Chegada/New in Town, com Renné Zellweger como uma executiva de grande corporação de Miami que vai para uma cidadezinha gelada de Minnesota, e A Proposta/The Proposal, em que a personagem de Sandra Bullock, executiva de Manhattan, vai para uma cidadezinha do Alasca.

Em parte, é previsível, sim – mas só em parte. Há muitas surpresas, todas deliciosas, engraçadas, bem-humoradas, ao longo da trama de Local Hero – inclusive um suave toque de realismo fantástico. Se o espectador prestar bem atenção, verá, por exemplo, que a personagem de Marina, a cientista especialista em biologia marinha (Jenny Seagrove, uma gracinha), é quase uma sereia. Ou talvez uma sereia mesmo, sem o quase.

Também é absolutamente imprevisível o que boa parte dos moradores vai se revelar de fato ser, quando a narrativa vai se encaminhando para o final: não tão doces, não tão desapegados assim das coisas materiais.

Uma belíssima trilha sonora de Mark Knopfler, o puro som da Escócia

Nunca tinha tido a oportunidade de ver este filme antes – não sei por quê. Perdi na época do lançamento, e nunca tinha visto na locadora, embora ele tenha sido lançado em VHS, conforme chequei depois de vê-lo. Mary o viu na locadora entre os lançamentos – na seção de Dramas, embora seja uma comédia.

Já tinha ouvido falar no filme porque tenho o disco com a trilha sonora desde que ele foi lançado, em 1983. A trilha – maravilhosa, excepcional, Escócia pura – é de autoria de Mark Knopfler. Foi a primeira trilha que o compositor, cantor e guitarrista escocês de Glasgow compôs, ainda na época do Dire Straits. Knopfler – um dos músicos pop que mais admiro – faria depois outras belas trilhas sonoras: as de A Princesa Prometida, de 1987, Noites Violentas no Brooklyn/Last Exit to Brooklyn, de 1989, e A Um Passo da Glória/A Shot at Glory, de 2000, são, todas as três, excelentes.

O filme é menos conhecido do que mereceria – mas teve o aplauso dos críticos

Me encantou ver que, embora não tenha sido muito badalado, não seja muito conhecido, não passe de vez em quando na TV, o filme teve ótimo reconhecimento nos guias. Leonard Maltin dá 3.5 estrelas em 4, e diz que é uma comédia encantadora, uma pequena gema.

Roger Ebert deu a cotação máxima, 4 estrelas: “Eis aqui um pequeno filme para guardar como um tesouro; um gostoso, engraçado, subestimado retrato de uma pequena cidade da Escócia e seu encontro com uma gigantesca empresa de petróleo. A cidade fica junto de uma belíssima pequena baía, e é tão pequena que todos sabem o ponto fraco de cada um. A empresa de petróleo é dirigida por um bilionário excêntrico (Burt Lancaster), que preferiria dar seu nome a um cometa do que possuir todo o petróleo do mundo. E o que poderia ter sido uma trama convencional sobre conglomerados e ecologia, etc, se transforma num terrível estudo na natureza humana”.

O CineBooks’ Motion Picture Guide deu 4 estrelas em 5: “Charmoso, fantasioso e quase perfeito, Local Hero prova mais uma vez que não é preciso muito dinheiro para fazer um bom filme. O roteirista e diretor escocês Bill Forsyth, depois de Gregory’s Girl (1981, no Brasil A Paixão de Gregory), se suplanta com uma idéia original desenvolvida com inteligência. É muito engraçado e tocante.”

E depois: “Cada ator, até os dos papéis menores, é bem escolhido. Burt Lancaster, em particular, nunca esteve melhor. Sua atuação é uma maravilhosa paródia do papel que ele interpretou várias vezes: o tipo do chefão militar ou industrial”.

Até mesmo Pauline Kael, em geral exigente demais, sempre cortante ao ver defeitos em obras-primas, se derreteu com o filme: “Uma comédia mágica do roteirista e diretor escocês Bill Forsyth, que observa as pessoas do filme como se elas fossem criaturas num zoológico peculiarmente habitado pelos tipos mais diversos”. Dame Kael faz duras restrições às cenas de abertura, em Houston, segundo ela filmadas com mão pesada, mas diz que, de resto, o filme tem um charme original.

É isso mesmo. É isso aí: uma pequena pérola.

Anotação em abril de 2012

Momento Inesquecível/Local Hero

De Bill Forsyth, Inglaterra-Escócia, 1983

Com Peter Riegert (Mac), Denis Lawson (Gordon Urquhart), Burt Lancaster (Happer), Peter Capaldi (Oldsen), Jenny Seagrove (Marina), Jennifer Black (Stella), Fulton Mackay (Ben), Norman Chancer (Moritz), Rikki Fulton (Geddes), Alex Norton (Watt), Christopher Rozycki (Victor), Christopher Asante (Reverendo MacPherson)

Argumento e roteiro Bill Forsyth

Fotografia Chris Menges

Música Mark Knoplfer

Produção David Puttnam, Enigma Productions, Goldcrest Films International. DVD Vinny Filmes.

Cor, 111 min

***1/2

5 Comentários para “Momento Inesquecível / Local Hero”

  1. Adorei este filme que nunca tinha visto e penso que não foi exibido em Portugal, pelo menos não tenho a mínima ideia.
    Tenho o disco de Mark Knopfler com a banda sonora do filme que é excelente mas do filme não tenho notícia, nada.
    Há uns anos (poucos) saiu em DVD.
    É caso para aplaudir!

  2. Mark Knopfler = Perfeição
    Burt Lancaster = Perfeição
    Com os dois ali, e aquela aurora boreal, o filme nem precisava ser tão bom, tão bonito…

  3. Despretensioso e delicioso filme, emoldurado à perfeição pela trilha sonora magistral de Mark Knopfler.
    Para ver e rever de tempos em tempos.

  4. Sempre recomendo esse filme para amigos. Faço um resumo do filme, contando sobre a dificuldade da venda de um pedaço da praia, a chegada do chefão e o retorno do Mac para seu apartamento, que é o final do filme. Sempre me perguntam se foi feita a compra e eu digo que, para a beleza do filme, não importa. Melhor que assistir esse filme é revê-lo.

  5. Li o comentário e discordei totalmente da frase:E assim Local Hero é também uma ode à vida simples nos lugares pequenos, em contraposição à correria insana das grandes metrópoles. E ainda uma elegia aos escoceses, em contraposição aos metidos, emproados ianques, que acham que podem comprar tudo.

    O objetivo do filme não é enaltecer os locais pequenos contrapondo-os aos confortos das grandes cidades. Em minha singela opinião que conheço bem a Escócia, é que ela apaixona a todos que a entendem como ela de fato é! Um país sofrido, dominado por CLANS que mantinham controle total da população formada por pessoas de tez dura, mas de coração mole, não a toa migraram com os Irlandeses para os EUA para viver o sonho americano. Pessoas agradáveis, mas sempre pobres quando se compara à Inglaterra. É esse clima que lá reina o que fez com que Mac se apaixone pela terra e para lá quisesse voltar, e o telefonema desde Los Angeles mostra isso. Sim, pode-se pensar que contrapor a vida singela de um lugar perdido no tempo à uma mega-cidade seja um elemento que ajuda na decisão, mas quem conhece a Escócia de perto sabe que nasce nele a vontade de voltar e de pertencer àquela vida.Tampouco me parece que o filme quer mostrar que os americanos querem demonstrar seu poder financeiro, eis que a praia acabou sendo comprada pelo milionário que apenas mudou sua finalidade. Deixou de querer destruir a natureza para fazer dali um Santuário de pesquisas marinhas. Só o fez quando se viu parte daquela terra revivendo o que seus antepassados sentiram e largaram para buscar uma vida melhor nos EUA. Por isso o milionário compra a terra e muda sua finalidade. Ao invés de destruir para buscar lucro, ele se converte à ela e quer preservá-la. Esta é a beleza do filme que não pode ser reduzida à mentalidade moderna e visão errônea dos EUA e sua gente e a Escócia uma das origens daquelas pessoas.

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