Vincent Quer Ver o Mar / Vincent will Meer

Nota: ★★★½

Um filme alemão, de diretor e atores desconhecidos (por mim, pelo menos), sobre três jovens em uma clínica para pessoas com problemas psiquiátricos. Pode parecer pesado, soturno, angustiante – e chato. Certo? Erradíssimo. Vincent Quer Ver o Mar é uma beleza, um ótimo filme, e até alegre, de bem com a vida.

Tivemos essa agradabilíssima surpresa ao zapear. Quando passávamos pelo Max Prime (que ultimamente, aleluia!, tem exibido muitas produções européias recentes), estava anunciando: a seguir, Vincent Quer Ver o Mar. Resolvemos ver o lead, e aí decidir se continuaríamos assistindo ou não. E era impossível não continuar, não ver inteiro.

Delícia trombar de repente com um filme do qual não se sabe absolutamente nada – e ser conquistado por ele.

Mal estar na igreja, durante o ofício fúnebre

A ação começa em uma igreja, onde se realiza um ofício fúnebre. O padre está falando da personalidade da mulher morta, de sua vida dedicada a amar e ajudar os outros, o filho. Na primeira fileira de bancos, vemos um homem de meia idade, obviamente o viúvo, e um jovem aí entre os 25 e os 30 anos (veremos depois que ele está com 27).

O jovem começa a apresentar tiques nervosos, no rosto, no corpo. Saem sons de sua boca; ele tenta abafá-los, mas não consegue. As pessoas param de olhar para o padre, olham para o rapaz. Ele se levanta, sai quase correndo ao longo de toda o corredor central, senta-se na escada diante da igreja.

Lá dentro, a cerimônia prossegue, mas é impossível não ouvir os ruídos que o rapaz produz – e os ruídos se transformam em palavras, xingamentos, palavrões.

Corta, e em seguida o pai, Robert Gellner (Heino Ferch), está levando Vincent (Florian David Fitz, os dois na foto acima) para uma clínica. Uma belíssima clínica, instalações impecáveis – estamos na Alemanha, e Robert, o pai, é homem rico, importante, político, cheio de afazeres, de compromissos.

Quem os recebe é uma médica aí na faixa dos 40 e tantos anos, cabelos negros, olhos claros, expressão firme, de profissional dedicada, séria, decidida – a dra. Rose (Katharina Müller-Elmau, na foto abaixo).

Depois que o pai de Vincent vai embora, a dra. Rose leva o rapaz para o quarto que ele irá ocupar. Não será um quarto só para ele: lá está Alex (Johannes Allmayer), que fica irritadíssimo ao saber que terá que dividir o aposento que até então era só seu. Alex – é fácil perceber – tem uma doença obsessiva. É obsessivamente preocupado com limpeza. Mais tarde será dito explicitamente que ele tem TOC, transtorno obsessivo compulsivo.

Uma garota também na faixa dos 25 anos, Marie (Karoline Herfurth, na foto mais embaixo), vai procurar Vincent: deram a ela a tarefa de mostrar para o recém-chegado os ambientes da clínica. Eles fazem um tour pelo lugar, os internos, sala de TV, refeitório, e os externos – há um belo campo de futebol, um jardim.

Marie tem anorexia – das bravas.

Uma doença pouco conhecida – a síndrome de Tourette

TOC, anorexia. Essas são doenças de que a gente já ouviu falar muito.

A doença de Vincent, bem mais rara, chama-se Síndrome de Tourette. Nem Mary nem eu tínhamos ouvido falar dela.

Eis a definição dada no site do dr. Dráuzio Varela: “Síndrome de Tourette é um distúrbio neuropsiquiátrico caracterizado por tiques múltiplos, motores ou vocais, que persistem por mais de um ano e geralmente se instalam na infância. Na maioria das vezes, os tiques são de tipos diferentes e variam no decorrer de uma semana ou de um mês para outro. Em geral, eles ocorrem em ondas, com frequência e intensidade variáveis, pioram com o estresse, são independentes dos problemas emocionais e podem estar associados a sintomas obsessivo-compulsivos (TOC) e ao distúrbio de atenção e hiperatividade (TDAH). É possível que existam fatores hereditários comuns a essas três condições. A causa do transtorno ainda é desconhecida.”

O filme poderia mergulhar num clima pesado, opressivo, depressivo. Os realizadores, no entanto, optaram pelo inverso disso.

O clima do filme é, repito, até alegre, de bem com a vida. Não que a narrativa vá fugir dos problemas, fingir que eles não existem. Os três personagens centrais, os jovens, têm transtornos psiquiátricos graves, e sua vida não é fácil, não é nada cor-de-rosa.

No entanto, com imenso talento e muita maturidade, os realizadores conseguiram criar uma narrativa que chega a ser bem humorada: os próprios jovens irão rir de seus problemas, suas doenças.

Atenção: spoilers. Revelam-se aqui fatos que acontecem com uns 20, 30 minutos de filme

Tenho feito grande esforço para não revelar fatos que ocorrem depois de uns 15, 20 minutos de ação. Ou então, quando é necessário revelá-los, tomo o cuidado de avisar. Está aí o aviso: aqui vão alguns spoilers.

Como o próprio título indica, Vincent quer ver o mar.

Antes de morrer, sua mãe dissera a ele que gostaria que suas cinzas fossem espalhadas no mar, numa praia da Itália, num lugar com o nome de San Vincent.

A partir aí de uns 15, 20 minutos, o filme se transforma em um road movie. Um road movie cheio de momentos encantadores, de belíssimas paisagens – a fotografia é esplendorosa –, em que se alternam momentos de muito bom humor com outros inquietantes. Tudo extremamente saboroso, bem feitíssimo – um filme muitíssimo bem realizado, fascinante mesmo.

Atuações impecáveis dos atores que fazem os cinco papéis principais

As atuações dos cinco atores principais – que fazem os três jovens, a dra. Rose e Robert, o pai de Vincent – são impecáveis. Cada um está perfeito em seu papel. O elenco dá um show.

Assim que o filme acabou, vi, assustado, que o autor do roteiro é de Florian David Fitz, o ator que faz o papel central, de Vincent. É muito impressionante, até assustador, porque é um roteiro que parece ter sido escrito por alguém bastante maduro, experiente. É uma narrativa sóbria, em termos formais, sem nenhuma invenciocine – mas segura, firme, com todo o jeito de resultar do trabalho de um veterano, que domina o ofício.

Não é veterano – parece que é daqueles gêniozinhos precoces. Nascido em Munique, em 1974, Florian David Fitz estudou música no Conservatório de Boston entre 1994 e 1998, segundo informa o IMDb. Graduou-se com a maior honra – magna cum laude. Toca piano e saxofone. Fala fluentemente (além do alemão, é claro), inglês, italiano e espanhol.

Interessante que sua formação seja musical. No filme que Florian David Fitz escreveu, Alex, o rapaz que sofre de TOC, é um apaixonado por música erudita, em especial por Johann Sebastian Bach. Uma sequência especialmente bela é quando, no meio de montanhas maravilhosas, Alex, ao som de um Bach que toca no rádio do carro ali perto, finge reger a orquestra.

Sua filmografia como ator no IMDb tem 36 títulos. Não reconheço nenhum dos títulos.

Ahá! Tinha que ter alguém maduro, experiente, velho de guerra nessa história. O diretor Ralf Huettner, também de Munique, é de 1954. É daqueles profissionais que passaram por várias áreas: foi cameramen, passou por iluminação, foi diretor de segunda unidade, assistente de direção, ator, roteirista, depois diretor e produtor. Tem 21 filmes como realizador. Dou uma olhada na filmografia e, mais uma vez, nada – não reconheço um título sequer. A gente não conhece nada, nadica de nada.

Detalhe: o cigarro

Ando reparando na coisa do cigarro nos filmes. Na Alemanha civilizadíssima de 2010, a personagem de Katharina Müller-Elmau, bela mulher, bela atriz, a dra. Rose – justo uma médica, uma terapeuta competente – fuma compulsivamente, um cigarro após o outro. Robert, o pai de Vincent, se orgulha de ter parado de fumar há três anos. Mas, numa situação de grande tensão, pedirá um cigarro à dra. Rose.

Eu, que tento diminuir a porra do cigarro mas não consigo – quanto mais parar, que isso ainda nem tentei –, me senti suavemente vingado.

Um filme caprianamente otimista

Vincent Quer Ver o Mar é uma beleza de filme, carregado de um grande amor pelas pessoas, pela vida, pela amizade, pela solidariedade. Remando contra a maré destes tristes tempos atuais, é um filme que faz lembrar o humanismo de Frank Capra – é caprianamente otimista, acha que alguns problemas, como relações familiares, afetivas, conflituosas, podem, sim, ser resolvidos, ou pelo menos minorados, se houver vontade, persistência, ânimo.

Aleluia!

Anotação em dezembro de 2011

Vincent Quer Ver o Mar/Vincent will Meer

De Ralf Huettner, Alemanha, 2010

Com Florian David Fitz (Vincent Gellner), Karoline Herfurth (Marie), Heino Ferch (Robert Gellner, o pai de Vincent), Katharina Müller-Elmau (Dra. Rose), Johannes Allmayer (Alex), Karin Thaler (Monika)

Argumento e roteiro Florian David Fitz

Fotografia Andreas Berger

Música Stevie B-Zet e Ralf Hildenbeutel

Produção Olga Film GmbH.

Cor, 96 min

***1/2

9 Comentários para “Vincent Quer Ver o Mar / Vincent will Meer”

  1. Desde que li esta sua resenha, estou obcecado em conseguir uma cópia do filme, tanto porque tenho síndrome de Tourette desde os 8 anos, quanto porque mantenho um blog sobre esta doença e suas comorbidades (TOC, TDAH e transtornos similares). Obrigado por tanta sensibilidade e informações.

    O endereço do meu blog é http://clicnervoso.blogspot.com, caso queira saber mais sobre o assunto (aprender nunca é demais).

    Abraço!

  2. Tenho assistido filmes ótimos neste canal Max, 75 na Net. Ontem, assisti dois magníficos filmes “Brilho de uma paixão” sobre o poeta John Keats e sua amada Fanny. Em seguida, comecei a ver Vincent quer ver o mar e não pude mais parar. Que filme maravilhoso. Fotografia, roteiro, música, tudo é perfeito. Exatamente como se lê acima na resenha do filme. Há quanto tempo eu não via nada tão bom. Fiquei encantada. Recomendei a amigos e continuarei a fazer isso para poder compartilhar essa experiência inesquecível.
    Mary

  3. Excelente e primoroso filme.
    É um drama, mas que narra a busca de 3 jovens com problemas psíquicos, por uma vida “normal”.

  4. Se gostou desse filme, então não pode perder o próximo de Florian – Jesus liebt mich (Jesus loves me). O filme ainda não saiu, mas adorei o trailer

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