Os Amores de Johnny / Nice Guy Johnny

Nota: ★★★☆

O garotão Edward Buns acertou a mão no seu filme de 2010. Acertou em cheio, mais uma vez. Os Amores de Johnny/Nice Guy Johnny é uma comédia gostosa, divertida, inteligente, sobre juventude, a transição para a idade adulta, amor, casamento, o momento de decisão, da escolha do que se vai fazer na vida.

Edward Burns começou cedo, e extraordinariamente bem: seus dois primeiros filmes, Os Irmãos McMullen, de 1995, e Nosso Tipo de Mulher/She’s the One, de 1996, são excelentes. Tinha apenas 28 anos quando fez Os Irmãos McMullen, um filme fascinante, encantador, sobre relações familiares, relações afetivas – os temas básicos, fundamentais, que não abandonaria nunca, ao longo dos anos seguintes, em que escreveu e dirigiu dez filmes, intercalados com trabalhos como ator em filmes dirigidos por outros, inclusive O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg, e O Amor não Tira Férias, de Nancy Meyers.

Quando vi Os Irmãos McMullen, em 1996, anotei: “É uma alegria ver um filme americano independente, muitíssimo longe dos padrões de Hollywood. O filme é sobretudo honesto, íntegro, sensível, verdadeiro. É simples, claro, límpido. E fala daquilo que o cinemão americano mal consegue arranhar hoje em dia: as relações familiares, as relações humanas, as relações afetivas. Apenas e tão somente o que mais importa na porra da vida.”

No ano seguinte, ao ver Nosso Tipo de Mulher, fiquei tão deslumbrado que vi pela segunda vez um dia depois, e anotei: “Meu Deus, esse menino Edward Burns é um novo Woody Allen! O filme é uma total delícia. É uma gostosa e inteligente comédia sobre amor, traição, família, com excelentes observações sobre as coisas do cotidiano e os sentimentos, as ligeiras falsidades no convívio”.

O filme de 2004, À Procura de Kitty, me pareceu um pouquinho mais fraco que os dois primeiros. No de 2006, Noivo em Fuga/The Groomsmen, voltou a acertar em cheio: “ele conta as histórias de cinco amigos de infância, na faixa dos 33 a 35 anos, em Long Island -, e, ao apresentá-las, faz assim uma espécie de compêndio dos pequenos problemas que assolam o dia-a-dia do macho americano típico nesta primeira década dos novos século e milênio”.

O diretor continua fazendo filmes independentes, autorais, longe do esquemão comercial

Que delícia ver que, em 2010, aos 42 anos, ainda com a cara boa pinta de meninão, embora já com fios de cabelo brancos nas têmporas, Ed Burns continua fazendo o mesmo tipo de filme, sobre relações entre as pessoas comuns, gente como a gente. Como os anteriores, Os Amores de Johnny é um filme independente, fora do esquemão comercial dos grandes estúdios, com atores pouco conhecidos (pelo menos no Brasil), nenhum medalhão, nenhuma grande estrela. Continua autoral – são dele o argumento e o roteiro.

O filme abre com Johnny (Matt Bush, na foto abaixo) no trabalho: perto do aniversário de 25 anos, ele é o locutor-apresentador de um programa de rádio sobre esportes, numa pequena emissora de Oakland, na região da Baía de San Francisco, que ocupa quase toda a madrugada – vai das 2 até as 6 da manhã. Johnny – o espectador vê isso de cara – é bom no que faz, e adora aquilo. Está sempre bem humorado, fala pelos cotovelos (em geral, os personagens de Burns, assim como os de Woody Allen, falam pelos cotovelos), atende a telefonemas de gente insone, conversa com os ouvintes, responde a suas perguntas, sempre alegre, feliz.

É a pessoa certa no lugar certo.

Mas, naturalmente, ganha bem pouco. Um programa na madrugada, de uma emissora pequena, evidentemente paga pouco. E Claire (Anna Wood), sua noiva, é uma garota que não se conforma com pouco. Muito ao contrário. Nova-iorquina filha de pai rico (o pai, Meadows, interpretado por Jay Patterson, é um psiquiatra pomposo, que exige ser chamdo de doutor), ela quer muito conforto e muito dinheiro na vida. Não que vá trabalhar para ganhá-lo; apesar de viver nos anos 2000, Claire quer a vida das heroínas dos romances ingleses do século XVIII: quer que seu homem trabalhe num bom emprego para pagar os luxos a que está acostumada.

A moça não deixa por menos: fez o pai mexer uns pauzinhos, falar com uns amigos, e agora, numa sexta-feira pela manhãzinha, assim que termina seu programa, Johnny está embarcando para Nova York, onde no domingo deverá jantar com seus futuros sogros e na segunda terá uma entrevista com um empresário amigo do dr. Meadows, que tem a oferecer a ele um emprego em uma indústria de papelão. Nada interessante, empolgante, nada a ver com aquilo que ele sabe e gosta de fazer – mas o salário é muito bom, com convênio médico, garantias…

O garoto é boa gente, dócil, sério, compenetrado. Mas o tio o enche de maus conselhos

Isso tudo é mostrado bem rapidamente, nos primeiros minutos do filme, enquanto Johnny, saindo da rádio, dá uma rápida passada em casa para pegar uma mala, despede-se de Claire e ouve dela dez mil conselhos.

Claire é bonita – mas uma tremenda pentelha.

O coitadinho do Johnny a ama. E o amor, a gente sabe, é cego.

Em Nova York, Johnny se hospeda num hotelzinho bem chinfrim, escolhido por Claire, para economizar. E logo vai visitar seu tio Terry – o papel de Edward Burns –, no barzinho dele, um bar simples, de bairro bem distante de Manhattan. O filme não especifica onde é o bar, mas é algo como um bairro bem simples do Brooklyn, ou do Queens, ou do Bronx. Perto, mas longe, muito longe de Manhattan.

O tio Terry é um bon vivant, um malandrão, um galinha – que, além de comer várias mulheres casadas, ainda se utiliza da casa de praia de uma, do carrão de outra. Dá ao sobrinho boa gente, dócil, sério, compenetrado, obediente à noiva babaca, os piores conselhos possíveis – ou melhores, dependendo da opinião de cada um: não se case, você é novo demais para casar, tem aí no mundo um bando de mulheres esperando que você as coma.

Conselho é de graça. Mas o tio Terry não dá apenas conselhos: marca encontro com Johnny e o arrasta para a farra. O pobre coitado tenta de todas as formas escapar da armadilha armada pelo tio, mas não tem jeito. No fim de semana, será apresentado pelo tio e por uma das amantes dele a uma gracinha de garota, Brooke (Kerry Bishé, uma gracinha, nas duas fotos abaixo).

Foi o filme mais barato da carreira do diretor – míseros US$ 25 mil

Esse Matt Bush, de quem eu nunca tinha ouvido falar, está simplesmente espetacular no papel de Johnny, esse nice guy, esse garoto bom, certinho, que será exposto às tentações pelo tio malandrão. E tem o físico perfeito para o papel: é magrinho, baixinho, tem uma carinha de jovem certinho, caretinha. Nascido em 1986, começou a carreira em 2005; já tem 18 títulos na filmografia, incluindo episódios de séries de TV.

Aparentemente, só ele – além do próprio Edward Burns –, em todo o elenco, tem uma experiência maior, um currículo consistente. Todos os demais atores são desconhecidos, segundo confirma o IMDb – e estão todos muito bem. Ed Burns é um grande diretor de atores.

Para cortar os custos, os próprios atores cuidaram de seu cabelo e de seus figurinos. Os locais em que o filme foi rodado – durante míseros dez dias – pertencem a amigos de Burns, e foram cedidos de graça. A equipe trabalhou de graça, sem salário, em troca de uma participação nos lucros. Foi o filme mais barato da carreira do diretor desde sua estréia: custou apenas US$ 25 mil.

O que é fantástico: por US$ 25 mil, Edward Burns fez um filme muito melhor do que umas dez produções milionárias dos grandes estúdios somadas.

É realmente uma grande figura, o garotão Ed Burns. Não só não se traiu, não se vendeu ao sistema, como, 15 anos após sua estréia, radicaliza ainda mais a coisa de fazer filme com orçamento baixo. Seu primeiro filme, Os Irmãos McMullen – anotei na época – custou exatamente US$ 25 mil, o mesmo que este Nice Guy Johnny. Se se levar em conta a inflação, este filme recente é bem mais barato que o primeiro. O filme de estréia ganhou o Grande Prêmio da Crítica no Sundance Festival, o festival de filmes independentes idealizado por Robert Redford, e faturou US$ 10 milhões. Foi, proporcionalmente, o filme americano mais rentável daquele ano de 1995, o que garantiu a Burns um folgadíssimo orçamento (para os termos dele) de US$ 3,5 milhões para seu segundo longa.

Passou a ter, então, cacife para colocar em seus filmes alguns nomes de peso, garantia de boas bilheterias, como Jennifer Aniston e Cameron Diaz. Mas agora, na radicalização, pegou uma penca de atores desconhecidos.

Grande Edward Burns!

Como quem não quer nada, o filme questiona os valores das pessoas

Os Amores de Johnny é uma comédia simpática, divertida, gostosa, repito. No entanto, é bem mais que isso. É um filme que trata – embora com bom humor, como quem não quer nada – de coisas muito sérias: as opções que podemos fazer na vida, o estilo de vida que queremos. Perder a vida no ato de ganhá-la? Trabalhar demais, como um escravo, como um camelo, como um cachorro, para comprar um bando de coisas a rigor desnecessárias? É realmente preciso se matar de trabalhar para ter mais dinheiro do que se poderá gastar? Ou tentar fazer aquilo de que se gosta, mesmo se o salário não for tão alto?

Os muito pobres, evidentemente, não têm muita escolha. Claro que essas são opções de quem pode fazer opções; são opções oferecidas às pessoas de classe média, que têm o básico garantido.

Bem, mas o que é o básico?

O bom rapaz Johnny bem que tenta argumentar com a noiva pentelha: será que eu preciso mesmo ganhar tão mais assim? Não dá para a gente viver de forma mais modesta?

O personagem da noiva pentelha, Claire, pode perfeitamente ser visto como o americano típico, médio: gente que gasta mais do que ganha, que compra mais do que poupa, que quer sempre consumir mais, quanto mais melhor, que quer sempre ter uma casa maior, quanto maior melhor, e assim por diante

Claire é assim uma espécie do protótipo do americano que deu início à bolha imobiliária que, ao explodir, em 2008, provocou um tsunami que ainda hoje, e cada vez mais, causa destruição no planeta inteiro.

Melhor viver com menos dinheiro e mais prazer

Essa questão da opção, do estilo de vida que a gente quer, é um tema que está sempre presente nos filmes de Edward Burns. Em Nosso Tipo de Mulher, por exemplo, Burns interpreta um sujeito que, capitalistamente falando, é um fracasso: trabalha como motorista de táxi, e deve ser – segundo lhe joga na cara a ex-namorada, uma alpinista social interpretada por Cameron Diaz – o único motorista de táxi de Nova York que sabe falar inglês perfeitamente. O irmão dele, ao contrário, trabalha feito um louco em Wall Street, e está cheio da grana. O motorista de táxi é muitíssimo mais feliz, mais resolvido, que o irmão do mercado de capitais.

O cineasta sempre deixa muito claro o que para ele é o certo: melhor viver com menos dinheiro e mais prazer.

De novo: grande Edward Burns!

Anotação em 9/2011

Os Amores de Johnny/Nice Guy Johnny

De Edward Burns, EUA, 2010

Com Matt Bush (Johnny Rizzo), Edward Burns (tio Terry), Kerry Bishé (Brooke), Anna Wood (Claire), Brian Delate (Frank), Marsha Dietlein (Nicole), Harper Dill (Maggie), Michele Harris (Amy)

Argumento e roteiro Edward Burns

Fotografia William Rexer

Música P.T. Walkley

Produção Marlboro Road Gang Productions.

Cor, 89 min

***

Um Comentário

  1. Rogério
    Postado em 8 abril 2012 às 8:53 pm | Permalink

    Sinceramente não entendi essa crítica… Filme devagar demais, com o protagonista ser muito baixinho em comparação com a loira Brooke… e com uma voz mais fina que da minha namorada. E acho que a minha namorada não é gay como ele.

Um Trackback

  1. […] em termos de cinema americano. Mas até que bastante, em termos de Edward Burns: para fazer Os Amores de Johnny/Nice Guy Johnny, seu filme de 2010, gastou US$ 2,5 milhões, exatamente a mesma soma usada para sua estréia em Os […]

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