Doce Pássaro da Juventude / Sweet Bird of Youth

Nota: ★½☆☆

Anotação em 2010 (postada em fevereiro de 2011): Alguns filmes a gente não deveria rever. Filmes que vimos muito jovens, na adolescência, e nos encantaram, e ficaram para sempre na memória como especialmente belos. E que, se revistos, perdem o encanto, a magia. Doce Pássaro da Juventude é um deles.Me lembrava da base da história: o homem volta à sua cidade natal para rever a grande paixão da vida. Me lembrava da beleza de Paul Newman, mas sobretudo da beleza de Shirley Knight, uma gracinha loura, jovem e linda. Tenho visto Shirley Knight em alguns episódios recentes do Law & Order – Special Victims Unit; ela envelheceu, é claro, é óbvio, como todos nós, como tudo, mas às vezes a obviedade pode ser surpreendente. Mantém os traços delicados, de anjo renascentista – e sempre que a via agora, uma senhora, uma matrona, ainda que bela, me lembrava dela na beleza esplendorosa da juventude.

Doce pássaro da juventude.

Não sou, ou pelo menos não me considero, uma pessoa saudosista, apegada a lembranças, achando ruim envelhecer. Ao contrário: gosto muito mais de como sou hoje do que como era bem mais jovem.

Mas talvez fosse melhor não ter revisto Doce Pássaro da Juventude. Poderia continuar com aquela imagem idílica que tinha do filme. Ao rever, agora, fui tendo sensações confusas, antagônicas; queria gostar do que estava vendo, queria ver valor naquilo, mas não conseguia. Fui percebendo que, na verdade, Doce Pássaro da Juventude não é um bom filme. Ao contrário. É ruim.

É exagerado. É over. Tennessee Williams é exagerado, é over, mas acho que nesta peça aqui, que deu origem ao filme, exagerou no exagero. Todos os males do mundo estão ajuntados na trama. Todas as mesquinharias, as baixezas, as podridões de que a humanidade é capaz estão ali, concentradas em 120 minutos que retratam um único fim de semana. Um suco concentradíssimo de sordidez.

A peça de Tennessee Williams quer falar de tudo ao mesmo tempo: dependência de drogas, alcoolismo, a condição de gigolô, a amante teúda e manteúda que espalha notícias sobre a falta de potência sexual do ricaço, corrupção política, eleitorado imbecil, aborto, indústria do cinema, distância entre as classes sociais, o medo do envelhecimento, inveja, ciúme, violência policial, jornalismo ruim. (Só faltou homossexualismo, tema presente em várias outras de suas obras.)

E, sobretudo, quer mostrar como as pessoas são más, fracas, traiçoeiras, egocêntricas, levianas, venais, brutais.

Argh.

          Um dramaturgo no auge, um diretor no auge, atores no auge

O dramaturgo sulista era um dos mais famosos, mais encenados e mais filmados dos Estados Unidos, quando o filme foi feito, em 1962. Entre 1950 e 1962, diversas peças de Tennesse Williams viraram filmes, na maioria feitos por bons diretores e com ótimos atores – Algemas de Cristal/The Glass Menagerie, Um Bonde Chamado Desejo/A Streetcar Named Desire, A Rosa Tatuada/The Rose Tatoo, Gata em Teto de Zinco Quente/Cat on a Hot Tin Roof, De Repente, no Último Verão/Suddenly, Last Summer, A Noite do Iguana/The Night of the Iguana.

O diretor Richard Brooks, também autor do roteiro, era um grande nome. Já tinha em seu currículo Sementes da Violência, Sangue Sobre a Terra, Os Irmãos Karamázov, Gata em Teto de Zinco Quente, Entre Deus e o Pecado, e depois faria outros belos filmes, como Os Profissionais, A Sangue Frio, À Procura de Mr. Goodbar.

Paul Newman estava no auge da beleza jovem, e vinha de uma série de filmes bons e de boa bilheteria; já havia trabalhado com o próprio Brooks em outra adaptação de peça de Tennessee Williams, Gata em Teto de Zinco Quente.

Geraldine Page era uma das atrizes de teatro e cinema mais respeitadas pela crítica; com formação profissional séria, teve sete indicações ao Oscar, até finalmente levar a estatueta por The Trip to Bountiful, em 1985.

Entre os coadjuvantes, havia ótimos atores – Ed Begley, Rip Torn, Mildred Dunnock, Madeleine Sherwood.

E ainda havia Shirley Knight, aquela lindeza.

          Personagens que andam pela história feito barata tonta

Na minha opinião, hoje, foi um grande desperdício de talentos.

A trama, os personagens, tudo me parece, além de exagerado, caricatural – e, em muitos momentos, esses grandes atores, nas mãos de um ótimo diretor, cedem à caricatura. Os personagens centrais andam pela história feito barata tonta – ora vão numa direção, ora na direção oposta.

Chance Wayne, o personagem central interpretado por Paul Newman, teve azar demais na vida, é ambicioso demais, ingênuo demais, desceu demais ao inferno de todas as humilhações – como servir de objeto sexual para senhoras mais velhas, até encontrar Alexandra Del Lago (o papel da grande Geraldine Page), atriz famosíssima, ainda que agora em decadência. Ele aposta nela todas as fichas: tem a certeza de que ela vai levá-lo, num piscar de olhos, do anonimato ao estrelato em Hollywood.

Alexandra Del Lago, por sua vez, foi famosa demais, é rica demais, se droga demais, com álcool e haxixe demais. O álcool, ela toma em quantidades industriais – os personagens de Tennessee Williams costumam mesmo ingerir destilarias inteiras em poucas horas. Mama três litros de Smirnoff em menos de 48 horas. Mas, estranhissimamente, alterna momentos de apagão total com outros de sobriedade também total, algo humanamente impossível. 

Boss Finley (o papel de Ed Begley) é o político mais corrupto, mais safado, mais sacana e ao mesmo tempo mais amado e mais odiado pelos eleitores que já passou por uma tela de cinema. Se juntássemos Sarney, Jader, Renan, Newtão, Collor, Arruda e mais alguns outros, batêssemos no liquidificador e extraíssemos disso aí um suco, não teríamos sujeito tão filho da mãe quanto Boss Finley.

Já sua filha Heavenly é o exagero da bondade. A começar do nome, uma coisa celestial. Heavenly é o anjo da pureza máxima. É tão boa e pura que consegue enxergar valores em Chance Wayne, o puto profissional que faz do sexo a escada rumo ao paraíso capitalista da fama e do dinheiro. Tão boa quanto Heavenly só sua tia Nonnie (Mildred Dunnock), que abençoa os amantes mesmo expondo-se ao fogo dos infernos que pode ser lançado contra ela pelo cunhado mal caráter.

Argh.

          Sem close-ups, com belas justaposições de imagens

Um detalhe que me chamou a atenção: apesar de ter as belezas de Paul Newman e Shirley Knight para exibir ao espectador, o diretor Brooks as usa parcimoniosamente. Praticamente não há close-ups, no filme. A imensa maior parte das tomadas é em plano de conjunto, em que vemos o corpo inteiro das pessoas, ou, no máximo, em plano americano, em que vemos meio corpo, da cintura para cima.

Se, no entanto, a câmara não faz close-ups dos belos jovens, ela não se cansa de mostrar o corpo de Paul Newman, que aparece diversas vezes sem camisa, ou de calção. Numa seqüência em que o jovem Chance Wayne mergulha numa bela piscina, pulando do trampolim, Brooks usa quatro diferentes tomadas para mostrar um salto que dura poucos segundos.

(A coisa de mostrar Paul Newman sem camisa fez a diversão de Pauline Kael, como se verá mais abaixo.)

Cineasta sóbrio, clássico, pouco dado a criativóis, Brooks no entanto faz uso de belas justaposições de imagens nos flashbacks, em que o personagem central se lembra de momentos melhores da vida, ao lado de Heavenly. Brooks junta na mesma tomada passado e presente, de forma elegante e rica.

Há também uma bela fala de Alexandra Del Lago, num momento de sobriedade, a respeito do envelhecimento, da relação entre o envelhecimento e as câmaras do cinema:

– “Eu tinha vontade e talento. Mas havia a câmara. A câmara não sabe mentir. A tela de cinema é um espelho muito nítido. Há uma coisa – que Deus nos livre – chamada close-up.”

Neste momento, vemos Alexandra no set de filmagem. E ela continua:

– “A câmara se aproxima. E você, sua cabeça, seu rosto, são capturados pela câmara em meio a luzes fulgurantes. E toda sua terrível história se revela em um sorriso.”

          Os atores já haviam feito os mesmos papéis no teatro

Vamos a fatos e opiniões de gente que sabe muitíssimo mais do que eu.

Doce Pássaro da Juventude teve três indicações ao Oscar – Geraldine Page para melhor atriz, Shirley Knight para atriz coadjuvante e Ed Begley para ator coadjuvante. Begley levou o Oscar. Geraldine Page foi indicada ao Bafta de melhor atriz estrangeira; não ganhou, mas ganhou o Globo de Ouro. Também foram indicados ao Globo de Ouro Paul Newman, Ed Bagley e Shirley Knight.

Alguns fatos interessantes que constam do IMDb:

O filme foi lançado originalmente nos Estados Unidos com a classificação, dada pela MPAA, a associação dos estúdios, de proibido para menores de 18 anos. Esse tipo de classificação, identificada com um X, era usada para obras tidas na época como ousadas, em especial por abordar temas relacionados a sexo. O filme hoje parece absolutamente inocente, tanto que passa na TV americana com a classificação PG, parental guidance – uma sugestão de que os pais devem autorizar (ou não) seus filhos a vê-lo.

A peça de Tennessee Williams estreou no Martin Beck Theatre da Broadway em 10 de março de 1959, dirigida pelo grande Elia Kazan (autor do filme Um Bonde Chamado Desejo). No elenco estavam vários atores que trabalhariam mais tarde no filme: Paul Newman, Geraldine Page, Madeleine Sherwood e Rip Torn.

Rip Torn, que fez, tanto no teatro quanto no filme, o papel do filho de Boss Finley, foi indicado ao Tony, o Oscar do teatro Americano. Mais tarde, em 1989, ele faria o papel do pai em uma versão de Sweet Bird of Youth feito para a TV, em que Elizabeth Taylor faz o papel da atriz bêbada e decadente.

Geraldine Page também foi indicada ao Tony por sua interpretação de Alexandra Del Lago no teatro.

Consta – diz ainda o IMDb – que o papel de Chance Wayne no filme chegou a ser oferecido a Elvis Presley. O empresário do cantor, o coronel Tom Parker, teria recusado por entender que Elvis não deveria fazer o papel de um sujeito mau.

          O final violento era ainda mais violento no teatro

Sérgio Augusto não quis facilitar minha vida: não selecionou o filme para a edição brasileira de 1001 Noites no Cinema, da grande dama da crítica americana Pauline Kael. Vou ter eu mesmo que me virar tentando traduzir o texto sempre brilhante mas cheio de termos pouco usuais de Dame Pauline.

“Paul Newman como o gigolô Chance Wayne e Geraldine Page como a battered (golpeada, desgastada), decadente estrela Alexandra Del Lago, na versão slicked-up (lustrada, polida, arrumada) de Richard Brooks para a fantasia pop flamboyant de Tennesse Williams. Quando o peito nu de Newman não está sendo fumbled at and crooned (manuseado e cantarolado) por Page, está sendo pawed and picked at (unhado e dedilhado) por Shirley Knight, que interpreta sua namorada de cara linda, Heavenly Finley. Esta histérica twaddle (bobagem) apresenta um ataque sádico a Newman, engendrado pelo pai de Heavenly (Ed Begley), um chefão político malvado, e um solilóquio telefônico de Page. (…) Rip Torn e Mildred Dunnock também estão envolvidos na loucura.”

Grande Pauline Kael! Na sétima encadernação, gostaria de saber escrever como ela. (Além disso, seu texto é um convite à melhoria do nosso vocabulário de inglês. Pena que a esta altura do campeonato eu não consiga mais memorizar uma só dessas palavras e expressões.)

Leonard Maltin dá 3.5 estrelas em 4: “A peça de Tennessee Williams, limpada para o cinema, ainda é um drama poderoso. Newman retorna à cidade sulista com a dissoluta rainha do cinema Page, levando o corrupto chefão da cidade Begley (que ganhou um Oscar) a dar um jeito nele. Produção lustrosa com elenco de primeira.”

Quando Maltin diz “limpada para o cinema”, e Pauline Kael fala em slicked-up, estão se referindo ao final do filme, bem diferente do da peça. Na peça, o ataque dos capangas do Boss Finley a Chance Wayne é terrivelmente mais violento. Não é necessário dizer qual é – quem vir o filme poderá imaginar com facilidade.

O texto do CineBooks’ Guide dá ênfase a essa diferença entre o final da peça e do filme. “Todos os bem conhecidos temas de Williams estão mescladas aqui: violência, a mentalidade doente das massas, parentes que se agridem, e as perpétuas neuroses dos personagens femininos. Geraldine Page como Alexandra é uma maravilha em seu papel e na verdade a única razão para se ver este filme. Ela foi honrada com uma indicação ao Oscar. A melhor cena é quando Alexandra recebe um telefonema do colunista da Broadway Walter Winchell (cuja voz não é ouvida).” Segundo o guia, a série de emoções mostrada na face de Geraldine Page na cena – dúvida, incerteza, cinismo, aceitação, esperança, felicidade – deveria servir como uma aula para qualquer pessoa que queira aprender algo sobre a arte de interpretar.

E conclui: “A cor não era necessária; Williams parece melhor em preto e branco e cinza.”

Tem razão: teria sido melhor em preto-e-branco. Ou menos ruim.

Doce Pássaro da Juventude/Sweet Bird of Youth

De Richard Brooks, EUA, 1962

Com Paul Newman (Chance Wayne), Geraldine Page (Alexandra Del Lago), Shirley Knight (Heavenly Finley), Ed Begley (“Boss” Finley), Rip Torn (Thomas J. Finley), Mildred Dunnock (tia Nonnie), Madeleine Sherwood (Miss Lucy), Philip Abbott (dr. George Scudder)

Roteiro Richard Brooks

Baseado na peça homônima de Tennessee Williams

Fotografia Milton Krasner

Música Harold Gelman

Montagem Henry Berman

Produção Pandro S. Berman, MGM. DVD Paragon Multimídia

Cor, 120 min

R, *1/2

4 Comentários

  1. Postado em 12 fevereiro 2011 às 12:11 am | Permalink

    Finalmente! Vou discordar de você, lalalalá! Eu sou das saudosistas. Gosto desse. Sou mesmo over. Gosto das situações extravagantes e limítrofes. Gosto até dos flashbacks que entram sem aviso e parecem atrasar o ritmo. Gosto das interpretações pesadas e quase caricaturais. E gosto do peito do Paul Newman 😉

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 13 fevereiro 2011 às 8:09 pm | Permalink

    Doce Luciana, não podíamos mesmo continuar nos encontrando sempre, em tudo, né?
    Ainda bem que aconteceu um primeiro desencontro. Não gosto muito dessa coisa de o time ficar invicto sempre – parece que os outros secam.
    Grande abraço.
    Sérgio

  3. Jussara
    Postado em 13 fevereiro 2011 às 10:48 pm | Permalink

    Concordo totalmente que certos filmes que vimos na adolescência não deveríamos rever – é quebra de encanto.
    No mais, adorei o abdômen de tanquinho do Paul Newman. Realmente, ele era muito bonito. Talvez pau a pau com o Alain Delon quando estava no auge.
    Sobre o filme não posso falar pq não vi (mas li o texto inteiro. hehe)

  4. Maria B.Marques
    Postado em 9 março 2011 às 9:09 pm | Permalink

    Não revi recentemente, mas lembro que foi um “filmaço”, fortíssimo é verdade. Tennessee Williams era assim mesmo. Era tudo de se esperar e valia a pena. Mas… Sérgio não adianta querer mudar a estória do autor. Eu, também, em seu site já dei opiniões que contradizem o “epírito” do filme. Faz parte!!!

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