007 Contra GoldenEye / GoldenEye

Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2011: GoldenEye é uma gigantesca bobagem, como são muitos dos filmes de 007 – ou talvez todos. Feito só para diversão, escapismo puro. Aquela coisa de sempre: muita explosão, muito tiro, centenas de pessoas sendo assassinadas. E, para suavizar um pouco, mulheres lindas. Mas GoldenEye tem uma característica específica: é um filme que se compraz em chutar cachorro morto.

O filme, feito em 1995, pouquíssimos anos após o desmoronamento do império soviético, é tão irritantemente, grotescamente anti-Rússia (não apenas anti-URSS), que eu – comunista de coração na juventude, tão cada vez mais anticomunista na idade madura que brinco estar hoje à direita do maior direitaço que houver – quase me peguei querendo saudar o companheiro Stálin.

Epa: é brincadeirinha, tá?

Uma sabotagem interna na Rússia, e 007 tem que salvar o mundo

Mas que o filme é irritante na coisa de chutar o cachorro recém morto, lá isso é.

Já que eu vi a josta, e já que tenho um site sobre filmes, e preciso de posts para botar nele, tenho que fazer uma sinopse. Por pura preguiça, copio uma que já está feita. Pego o Guia de Vídeo e DVD 2002 da Nova Cultural, um guia precioso, feito com talento e seriedade, que infelizmente deixou de ser publicado:

“James Bond investiga conspiração no governo russo envolvendo testes nucleares que podem colocar em perigo a segurança mundial.” Hum… Tá sintético demais, parece até o Cinéguide.

Tento o Movie Guide de Leonard Maltin: “O cerne da história é uma sabotagem interna na Rússia, e a tentativa de Bond de descobrir quem está por trás dela – e como parar os conspiradores antes que eles usem a arma roubada para atacar o mundo livre.”

Toda a falta de verossimilhança do mundo reunida numa seqüência

Os filmes de James Bond, assim como os da série Indiana Jones, costumam começar com uma grande seqüência de ação em ritmo frenético, que pode ou não ter a ver com a história principal que vai rolar depois. Na abertura deste filme aqui, essa seqüência espetacular mostra James Bond, o 007, aqui encarnado em Pierce Brosnan, e mais Alec Trevelyan (Sean Bean), o 006, atacando sozinhos uma fábrica de armas químicas soviéticas – era ainda 1987, a União Soviética ainda existia. É aquela papagaiada de sempre – os dois ingleses matam uns trocentos russo-soviéticos; cada bala inglesa mata três, e a pontaria dos russo-soviéticos, ao contrário, é a pior do mundo.

Depois de uns cinco minutos do mais puro exagero e falta de qualquer sentido – mas com imagens bem feitas, e um som espetacular que faz o subwoofer acordar a vizinhança –, James Bond cai num precipício mais alto do que qualquer história em quadrinhos poderia inventar. Ele cai, um avião também cai – e, no ar, na queda livre, ele consegue entrar no avião, sentar-se na cadeira do piloto e se salvar!

Truco! Truco! Truco!

Mas quem se dispõe a ver filme de James Bond não está a fim de verossimilhança, certo?

Créditos iniciais com uma beleza de visual, ao som de Tina Turner

Depois dessa seqüência vêm os créditos iniciais. Coisa caprichadíssima, é preciso reconhecer. Saul Bass, o mestre dos créditos iniciais dos anos 60, seguramente teria aplaudido de pé. Vemos estátuas dos líderes soviéticos, armas fumegantes, mulheres maravilhosas – enquanto Tina Turner canta “GoldenEye”, especialmente composta por Bono e The Edge para a ocasião.

E aí me pergunto: por que será que tanta gente boa se encanta ao fazer canções para os filmes de James Bond?

Paul McCartney, o imenso, gigantesco, inigualável Paul McCartney tem paixão por “Live and Let Die”, especialmente composta para o James Bond de 1973, no Brasil Com 007 Viva e Deixe Morrer. Nos seus shows, é uma das músicas clímax, acompanhada por uma festa de fogos de artifício. Como macarthista de carteirinha, confesso: não só acho a música uma josta absoluta como não consigo compreender que Sir James Paul tenha cometido essa asneira, esse elogio aos assassinatos em série. Bob Dylan puxou devidamente as orelhas dele na canção “License to Kill”.

Resquícios da mentalidade doentia da guerra fria

Sou tomado por uma imensa preguiça de falar sobre este filme. Mas acho que é necessário lembrar que este é o filme em que James Bond-Pierce Brosnan entra em um tanque de guerra e sai destruindo metade dos prédios de São Petersburgo, a cidade imperial dos czares, que depois virou Petrogrado, depois Leningrado, e, após a queda dos czares soviéticos, voltou a ser São Petersburgo.

São Petersburgo, como se sabe, é uma cidade extraordinariamente bela, com edifícios e praças majestosas.

É bem típico de uma doentia mentalidade ainda apegada à guerra fria colocar o herói do serviço secreto inglês destroçando boa parte daquela cidade belíssima.

E finalmente registro, só por registrar, algo que não interessa a ninguém: quis ver um filme de aventura, desses com muita edição de som, para inaugurar a TV nova que finalmente compramos, com o som ajustado pelo Fábio De Domenico, tinindo de bom, e aí peguei o DVD deste James Bond. A imagem de fato é espetacular, e o som, maravilhoso. Richoteia tiro em tudo quanto é caixa de som. Coitados dos vizinhos.

Psiquiatras e psicólogos talvez pudessem explicar por que as pessoas precisam desses momentos de escapismo, de ver tanta explosão, tanto tiro, tanta gente sendo assassinada.

Definitivamente, não sou desse time.

Nos dias seguintes, ainda extasiado diante da beleza das imagens na nova TV e do som recauchutado, maravilhoso, revi os dois primeiros James Bond, os muito superiores a este filme aqui, é claro, O Satânico Dr. No/Dr. No, de 1962, e Moscou Contra 007/From Russia With Love, de 1963, com o grande Sean Connery como o agente com licença para matar. Pensei em escrever uma anotação sobre os dois. Afinal, um site sobre filmes teria que ter uma anotação sobre os primeiros James Bond. Não consegui: a preguiça me venceu. Não sou desse time, não é a minha praia.

007 Contra GoldenEye/GoldenEye

De Martin Campbell, EUA-Inglaterra, 1995

Com Pierce Brosnan (James Bond), Sean Bean (Alec Trevelyan), Izabella Scorupco (Natalya Simonova), Famke Janssen (Xenia Onatopp), Joe Don Baker (Jack Wade), Judi Dench (M)

Roteiro Jeffrey Caine e Bruce Feirstein

História de Michael France

Baseado nos personagens criados por Ian Fleming

Fotografia Phil Meheux

Música Eric Serra

Canção “GoldenEye” de Bono-The Edge, cantada por Tina Tuner

Produção United Artists. DVD MGM.

Cor, 130 min.

*

Um Comentário

  1. José Luís
    Postado em 20 agosto 2014 às 2:25 pm | Permalink

    Acho que vi apenas um filme do 007, o primeiro que vinha como se fosse uma história de espionagem; como eu gosto dessas histórias como é o caso dos romances de John le Carré fui ao engano. Não voltei a ver nenhum.

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Marte Ataca! / Mars Attacks! em 26 novembro 2013 às 2:00 pm

    […] ultrapassando bastante) o ridículo. Martin Short faz o assessor de imprensa Jerry Ross. O inglês Pierce Brosnan faz o professor Donald Kessler, o assessor para assuntos científicos, que, naturalmente, tem o […]

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