Terrível Suspeita / The House on Telegraph Hill

Nota: ★★☆☆

Anotação em 2010: No mesmo ano – 1951 – em que dirigiu O Dia em que a Terra Parou, uma beleza de filme, uma ficção científica diferenciada, séria, Robert Wise fez também Terrível Suspeita/The House on Telegraph Hill. É um drama, um suspense que começa em um campo de concentração nazista e vai parar numa rica mansão vitoriana de San Francisco, a casa do título original.

É um filme bem mediano. Não chega perto de ser um ótimo filme, mas tem algumas qualidades. É sempre bom ver filmes em preto-e-branco, da época em que Hollywood fazia basicamente obras para adultos, e não para platéias adolescentes.

Os críticos costumam meter o pau em Robert Wise; tascam nele adjetivos como convencional, acadêmico – como se isso fosse um insulto. Tenho grande respeito por ele. Depois de iniciar a carreira como montador (é dele a montagem de Cidadão Kane e de Soberba, de Orson Welles), passou à direção em 1944. Fez filmes demais – num período de 14 anos, entre 1944 e 1958, fez 25. Há medianos, como este aqui, mas há outros importantes, como Punhos de Campeão/The Set-Up e Quero Viver/I Want to Live! E nos anos 60 faria duas pérolas, West Side Story e A Noviça Rebelde/The Sound of Music.

Vou ao Dicionário de Cinema de Jean Tulard: “Após vários filmes de rotina, Wise assinou uma obra-prima, Punhos de Campeão, um dos melhores filmes dedicados ao boxe e o mais belo dos filmes de amor. (…) Wise fez outro filme de boxe notável, Marcado pela Sarjeta, baseado na autobiografia de Rocky Graziano, campeão do mundo dos pesos médios.” O crítico francês diz que o diretor se dá bem no western e na ficção científica, mas é à comédia musical que deve sua celebridade, pelos já citados West Side Story e A Noviça Rebelde, que, como tanta gente, classifica de “bastante piegas”.

O livro 501 Movie Directors amplia a lista de gêneros pelos quais Wise passou. Depois de ter começado com filmes B de terror psicológico, fez noir, ficção científica, guerra, western, melodramas. “Ele é mais conhecido como a força criativa por trás de dois dos musicais de maior sucesso da história do cinema: West Side Story (1961) e The Sound of Music (1965)” – e aí o livro lembra que esses dois filmes ganharam uma penca de Oscars. O primeiro teve 11 indicações e ganhou 10, inclusive os dois principais, filme e direção; o segundo teve 10 indicações e levou cinco prêmios, inclusive os de filme e direção.

O 501 Movie Directors destaca os filmes mais importantes de cada diretor; de Wise, ele seleciona nada menos que 25 – uma enormidade absoluta. Mas, nessa longa lista de 25 filmes não está este Terrível Suspeita/The House on Telegraph Hill.

E está certo o livro, acho eu. Não era mesmo para estar. É um filme menor, dentro da vasta obra de Wise. Mas nem por isso um filme ruim.

         Uma polonesa prisioneira em um campo de concentração nazista

A primeira tomada é uma panorâmica de San Francisco, enquanto a voz em off de uma narradora explica: “Esta é a cidade de San Francisco, vista do Telegraph Hill. E esta (surge um plano geral da mansão vitoriana, imponente) é a casa em Telegraph Hill onde achei que fosse encontrar paz e alegria. Hoje ela está assim (vemos uma placa de “vende-se”). Mas minha história começa 11 anos atrás, a 11 mil quilômetros de distância, em uma outra casa perto de Varsóvia, na minha terra natal, a Polônia (vemos uma bela, aristocrática propriedade rural). Meu nome é Victoria Kowelska, e este era o meu lar. Era assim em 1939, quando meu marido voltou para casa de licença, e isto (vemos ruínas do que era a grande casa) é o que sobrou depois que os alemães passaram. De uma só vez, perdi meu marido, minha casa, tudo o que eu amava; me tornei uma das milhares de miseráveis criaturas jogadas em prisões e campos de concentração.”

Durante uns cinco, sete minutos, Wise mostra seqüências de Victoria – interpretada por Valentina Cortese – no campo de concentração. No campo, Victoria aproxima-se de uma outra prisioneira, Karin Dernakova (Natasha Lytes), uma mulher de saúde frágil; Victoria cuida dela, rouba remédios para ela, briga para que ela tenha seu quinhão de comida. Antes de ser presa, Karin tinha conseguido enviar seu filho recém-nascido para ser criado por uma tia, Sophie, que vive em San Francisco, e ela e Victoria combinam que, se sobreviverem, se a guerra acabar, irão as duas para os Estados Unidos. Mas Karin não resiste às condições duríssimas do campo de concentração, e morre. Embora com sérias dúvidas morais, com vergonha de si mesma, Victoria resolve assumir a identidade da amiga morta. 

A guerra na Europa está terminando, os prisioneiros dos campos são libertados, e Victoria se apresenta aos vitoriosos americanos se dizendo Karin Dernakova.

         Valentina Cortese, uma estrela internacional que eu não conhecia

Segundo o iMDB, diversos atores chegaram a ser considerados para o papel de Alan Spender, o homem que ficou cuidando do filho da polonesa Karin Dernakova e herdou da Tia Sophia o casarão de Telegraph Hill – James Mason, Richard Widmark, Dana Andrews, John Lund.

É interessante que o papel tenha ido para um ator menos conhecido (pelo menos por mim) do que todos os citados, um sujeito chamado Richard Basehart. A atriz escolhida para o papel principal, o de Victoria que vira Karin, Valentina Cortese, também me era absolutamente desconhecida – assim como William Lundigan, o ator que faz o terceiro papel mais importante do filme, o de Marc Bennett, o major que atende a Victoria-Karin recém-saída do campo de concentração na Alemanha em 1945 e que ela reencontrará depois em San Francisco.

Richard Basehart, William Lundigan, Valentina Cortese. Um trio de desconhecidos – ao menos por mim, repito.

Aparentemente, os dois sujeitos não têm mesmo uma filmografia importante. Mas Valentina Cortese foi, sim, uma estrela importante – se eu não a conhecia, o problema é meu, não dela. Nascida em Milão, em 1924, e formada na Academia de Artes de Roma, começou no cinema italiano em plena Segunda Guerra, em 1940, e foi protagonista de diversos filmes feitos na Itália durante a guerra e logo após seu final. Foi convidada para uma temporada em Hollywood – época em que  estrelou este filme aqui e em que se casou exatamente com o ator Richard Basehart. Voltou para a Itália em meados dos anos 50, trabalhou com Michelangelo Antonioni em As Amigas/Le Amiche, com Joseph L. Manckiewicz em A Condessa Descalça, com Federico Fellini em Giulietta dos Espíritos, com François Truffaut em A Noite Americana. Aliás, por seu papel como uma velha estrela em A Noite Americana ela foi indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro como coadjuvante, e venceu o Bafta nessa categoria, mais o prêmio da National Society of Film Critics dos Estados Unidos.

Cacilda: erro meu, não conhecer Valentina Cortese.

Vivendo e aprendendo.

         Os três parágrafos abaixo revelam detalhes – spoilers

Os roteiristas Elick Moll e Frank Partos fizeram a adaptação da novela de Dana Lyon. Naturalmente, não conheço a novela, e jamais tinha ouvido falar de Dana Lyon, mas o fato é a trama que ela criou, ou que os roteiristas recriaram, acaba reunindo situações presentes em outros filmes da época. Em Casei-me com um Morto, de Mitchell Leisen, feito um ano antes, em 1950, a personagem central, interpretada pela fantástica Barbara Stanwyck, também assume a identidade de uma mulher morta – e o filme também começa com a voz dela em off sintetizando seu drama (“Uma casa confortável, numa cidade bonita. O homem que eu amo, e que me ama. Tudo parece maravilhoso, mas não para nós. Porque esperamos que a qualquer momento a polícia chegue. Na nossa história há um crime”).

Em Rebecca, o primeiro filme americano de Alfred Hitchocock, de 1940, a nova sra. de Winter (Joan Fontaine) encontra, ao chegar à propriedade do marido, uma governanta absolutamente hostil – igualzinho ocorre aqui com Victoria, tornada Karin, depois tornada sra. Spender.

E em Suspeita/Suspicion, também de Hitchock, de 1941, a personagem da mesma Joan Fontaine teme que o marido esteja planejando assassiná-la, situação que se repete em Terrível Suspeita – de onde saiu o título escolhido pelos exibidores brasileiros. Em Suspeita, suspeita-se de um copo de leite; em Terrível Suspeita, suspeita-se de um copo de suco de laranja.

É uma trama interessante – mas tem, de fato, esses elementos conhecidos, esse déjà-vu.

Terrível Suspeita/The House on Telegraph Hill

De Robert Wise, EUA, 1951

Com Richard Basehart (Alan Spender), Valentina Cortese (Victoria Kowelska, William Lundigan (Marc Bennett), Fay Baker (Margaret), Gordon Gebert (Christopher)

Roteiro Elick Moll e Frank Partos

Baseado em novela de Dana Lyon

Fotografia Lucien Ballard

Música Sol Kaplan

Produção 20th Century Fox. DVD Fox

P&B, 93 min

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