Sherlock Holmes (uma outra visão)

Nota: ★☆☆☆

Texto de Valdir Sanches, convidado especial. * Se era para fazer um filme de ação, com todos os clichês do gênero, bem podiam ter deixado o velho Sherlock Holmes em paz. Claro, não teriam o mesmo volume de público – e bilheteria. Holmes foi importante para vender o produto, pobre garoto-propaganda.

Acho que deveria haver, para personagens históricos da literatura, uma coisa assim como o Condephaat, nível internacional. Tombavam-se Sherlock e o Dr. Watson, como, por via das dúvidas, Anna Karenina.

Assim, não existiria um filme como este, que destrói a alma das histórias de Conan Doyle. Não só os personagens, como a atmosfera em que eles vivem. Onde está o fog londrino, “marca registrada” do mistério? Não tem vez com o diretor Guy Ritchie. Dá para entender: com tanto fogo, para que fog?

O tombamento que proponho não deve ser confundido com censura. Eu só não queria que Holmes, aos 119 anos, passasse por tudo isso.

Tirássemos as cenas de pancadaria – muita pancada – elas fariam falta à história? As explosões? Está certo que não temos a cena dos personagens fugindo no primeiro plano e tudo explodindo atrás. As do filme têm mais requinte, beleza plástica. Mas o que tem a ver isso tudo com o processo dedutivo de Holmes?

O clichê da mocinha em perigo, no filme, é uma porcaria. Uma serra elétrica começa a abrir porcos abatidos, limpos e dependurados (adorável). Fará o mesmo com o corpinho de Irene Adler, igualmente pendurado? Ela é salva quando a serra está a centímetros de seu rosto. Alguém, por acaso, tirando-se os porcos, já não viu cena igual?

Perto do fim do filme, achei que tinha tido uma sacada de Sherlock. Previ claramente o que ia acontecer. Depois, me dei conta. Qualquer pessoa poderia deduzir que estava por vir a velha e gasta situação: a bomba vai explodir e nossos heróis não sabem como detê-la.

Cortar o fio azul ou o verde? O tempo correndo. O mostrador, neste caso, não é o da bomba, mas o do Big Ben. Num dos filmes de James Bond, ele desliga o dispositivo quando faltam 007 segundos para explodir. Irene Adler só teve que tirar pólvora de balas (fácil, não é?) em segundos, para explodir o cachimbo de Sherlock Holmes e parar o mecanismo. Ui!

O confronto final. Lá estão Holmes e o vilão em um lugar muito alto (belo cenário, qualidade do filme). Quem cairá lá de cima: Batman ou o Coringa? Meu Deus, Sherlock, ou Batman, ou o Homem Aranha está a ponto de cair. Não, não, quem está em apuros agora é o bandido… Este vai à breca, mas não desaparece. Aguardem Sherlock II, a Missão.

O vilão, como desde o Super-Homem, quer conquistar o mundo. Precisava, em plena Londres vitoriana?

O filme naturalmente é um belo espetáculo na reconstituição de época, cenários, figurinos. Os diálogos são criativos e divertidos. Aqueles dois personagens que nada têm de Sherlock e Watson são atraentes, poderiam ter vida e nomes próprios. A memória de Sir Arthur Conan Doyle agradeceria.

O enredo me pareceu do gênero Código Da Vinci metabolizado. Mas quem entende disso é o Sérgio Vaz.

O pior de tudo é que a fórmula pode pegar. Nero Wolf, detetive criado por Rex Stout, com seus mais de 200 quilos, que nunca sai de casa (quem o faz é Archie Goodwin, seu assistente), que se cuide.

Este site é uma coisa pessoal – traz as minhas anotações, minha visão pessoal e intransferível sobre filmes. Mas, exatamente porque ele é pessoal, e portanto posso fazer nele o que bem entender, muito de vez em quando convido um amigo para escrever sobre algum filme, ou algo relacionado aos filmes. Como Valdir Sanches me mandou um comentário gostosamente desafiador a respeito do meu post sobre o Sherlock Holmes de Guy Ritchie, convidei-o para escrever sua visão sobre o filme. O 50 Anos de Filmes sai no lucro.  

Sérgio Vaz, agosto de 2010.

Sherlock Holmes

De Guy Ritchie, EUA-Alemanha, 2009

Com Robert Downey, Jr. (Sherlock Holmes), Jude Law (Dr. Watson), Rachel McAdams (Irene Adler), Mark Strong (Blackwood), Eddie Marsan (Inspetor Lestrade), Kelly Reilly (Mary), James Fox (Sir Thomas Rotheram) 

Argumento Lionel Wigram e Michael Robert Johnson, baseado nos personagens criados por Arthur Conan Doyle

Roteiro Michael Robert Johnson, Simon Kinberg e Tony Peckham Fotografia Philippe Rousselot

Música Hans Zimmer

Montagem James Herbert

Direção de arte Sarah Greenwood, James Foster, Nick Gottschalk e Matt Gray

Produção Warner Bros. Pictures, Village Roadshow Pictures

Cor, 128 min

*

4 Comentários para “Sherlock Holmes (uma outra visão)”

  1. Concordo com quase tudo o que Valdir Sanches escreve.
    Isto de Sherlock Holmes não tem nada, se os personagens tivessem outros nomes ninguém se aperceberia.
    Não fiquei cliente, é umais uma americanada.

  2. A propósito desta “modernização” lembro uma série de TV britânica com o título “Sherlock”, produzida pela BBC. A acção decorre na actualidade com Benedict Cumberbatch no papel principal. Recomendo vivamente, tem uma qualidade notável.

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *