É Proibido Fumar

Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: É Proibido Fumar é um bom filme, muitíssimo bem realizado, com talento e maturidade. Exatamente como Durval Discos, o filme de estréia da diretora Anna Muylaert, este aqui, seu segundo longa, tem dois tempos, dois movimentos, dois atos. A primeira parte é uma comédia quase escrachada; de repente, o tom muda por completo. Vira um drama pesado.

E, no final, deixa uma sensação estranha, um travamento na garganta, um esquisito gosto de amoralidade, se não de imoralidade mesmo. Ou então de grave, gravíssima denúncia sobre o estado das coisas.

Vamos por partes, como se deve.

Ainda não vi Durval Discos, mas é sabido que o filme foi apresentado como sendo assim parecido com um LP, como os que estão à venda na loja de discos que é o centro da trama: tem um lado A, e depois um lado B, em que o tom muda completamente.

Como fez em seu primeiro filme, Anna Muylaert criou a história e escreveu o roteiro do segundo. Conforme ela diz no making of do filme, o ponto de partida para a história de É Proibido Fumar foi exatamente sua experiência de parar com o cigarro.

Baby (a protagonista interpretada por Gloria Pires) é uma fumante compulsiva. Está aí na faixa dos 40 anos; herdou da mãe o apartamento em que vive, em São Paulo, atulhado com muitos móveis e muitas plantas. Dá aulas de violão, sobrevive delas. É classe média média, uma pessoa de hábitos simples e poucas aspirações, quase nenhuma. Passa a maior parte do tempo em casa, vê muito a televisão; não lê, não procura se informar, desenvolver algum projeto, se aprimorar. Não tem um hobby, não se dedica a nada. Aparentemente, seu maior desejo, sua grande ambição é ter em casa o sofá que sua tia Diná prometeu ao morrer que seria dela, e que ficou com sua irmã Pop (Marisa Orth, em uma pequena participação), com quem ela não se dá bem. Pop, ao contrário dela, é uma mulher que estudou, fez curso em Boston, tem um bom emprego numa posição executiva.

Baby se dá melhor com a outra irmã, Teca (Daniela Nefussi), dona de casa, uma filha de uns sete anos, um bebê.

Percebe-se claramente que Anna Muylaert fez um esforço para retratar pessoas comuns, simples, gente como a imensa maioria; nada de tipinhos intelectualizados, cultos, envolvidos com literatura, cinema, TV, jornalismo, como os personagens de tantos filmes brasileiros em que os cineastas acabam retratando o seu próprio mundinho, tipo, só para dar um exemplo de filme ruim, A Via Láctea, ou, para dar exemplo de filmes bons, Todas as Mulheres do Mundo ou Edu Coração de Ouro. Nada, também, de gente rica, como nos filmes de Walter Hugo Khoury. Não. A diretora fez uma opção semelhante à de Carlão Reichenbach, ou Heitor Dhália em O Cheiro do Ralo, ou Carlos Alberto Riccelli em O Signo da Cidade: a opção preferencial pelas pessoas simples, comuns.

Dá para perceber, também, que a simpatia da diretora é muito mais para o tipo de gente à la hippie, riponga, do que para o seu oposto, os yuppies. Entre a largadona Baby e a trabalhadora Pop, o filme é muito mais Baby.  

         Uma atuação excepcional de Gloria Pires

Baby vai então, nos primeiros 15, 20 minutos do filme, vivendo sua vida pequenina, fumando, fumando, fumando…

E Gloria Pires dá um show. É uma grande, excelente atuação. Gloria Pires, do primeiríssimo time das novelas da Rede Globo, presente em fenômenos de bilheteria do cinema brasileiro (Se Eu Fosse Você 1 e 2, Primo Basílio), mãe de Lula no esforço eleitoral que deu com os burros n’água Lula, o Filho do Brasil, ótima em O Quatrilho, tem aqui o que é, seguramente, uma das melhores interpretações do cinema brasileiro nos últimos anos.

Gloria Pires não exagera, não over-act. Gloria Pires é expressiva, demonstra as sensações, os sentimentos todos de Baby, numa atuação que não é propriamente contida, mas passa muito longe do exagero em que caem tantos atores brasileiros. Gloria Pires fala, gesticula, se comporta exatamente como Baby (todos nós conhecemos algumas Babys) se comporta.

Pois bem. Baby está lá vivendo sua vida pequenina, miúda, solitária, quando se muda para o apartamento do lado um sujeito solteiro, disponível, músico, violonista, cantor em uma churrascaria, um tipo meio bicho-grilo fora de época – Anna Muylaert de fato gosta de tipos meio bicho-grilos. Eu também.

Max (interpretado por Paulo Miklos, um dos muitos Titãs, ator aqui e ali) atrai todas as atenções de Baby, que vai tomar informações sobre ele com o porteiro, seu Chico – a seqüência é um grande acerto da diretora, valorizada pelo talento de Gloria Pires. Os diálogos são absolutamente naturais – e impagáveis.

Vai pintar um clima, vai rolar uma trepada, um namoro.

Ele não fuma esse cigarro que paga IPI, só o outro tipo. Logo…

E aí, de repente, quando estamos pela metade do filme, tudo muda. Desaparece a comédia, entra o drama. Evidentemente, não vou adiantar mais nada sobre a pequena história construída por Anna Muylaert.

         Ou é amoral, imoral, ou então…

Filme terminado, fiquei (ficamos, Mary e eu) em um certo estado de choque.

Ou bem o filme tem uma moral que é amoral ou imoral, ou então…

Evidentemente Anna Muylaert não fez um filme para defender a imoralidade.

Só pode ser, é claro, o “ou então”.

Ou então, muito ao contrário, ela fez um filme para retratar, para demonstrar, para denunciar a lassidão moral em que estamos mergulhados, como nunca antes na história deste país. 

Acredito, é claro, na segunda hipótese.

Anna Muylaert não toca nessa questão, no making of do filme. Mas falou disso em entrevistas. Em reportagem de Luiz Zanin Oricchio no Estadão, em novembro de 2009, na época em que o filme foi mostrado no Festival de Brasília, ela declara:

“Estamos vivendo num mundo politicamente correto e o filme não é. A grande discussão que quis colocar é sobre a impunidade, a culpa, a escolha que todos podemos fazer, mesmo com um cadáver embaixo do tapete.”

(No Festival de Brasília, o filme abacanhou um monte de prêmios – melhor filme, atriz, ator, roteiro, atriz coadjuvante para Daniela Nefussi, direção de arte para Ana Mara Abreu, trilha sonora para Marcio Nigro. Venceu também os APCAs, o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte, de melhor diretora e melhor atriz.)

No release oficial do filme, está o seguinte parágrafo:

“Para Anna Muylaert, o filme tem uma história simples, contada de modo particular. Mais comercial que Durval Discos, não deixa de oferecer diferentes possibilidades de interpretação, no final. ‘É um pouco o que acontecia com os filmes que eu ia ver na Praça Roosevelt na adolescência. É Proibido Fumar é um filme mais aberto do que a média do que se faz hoje’, diz.”

(E aí não posso deixar de registrar que, embora bem mais velhinho que Anna, também freqüentei, e muito, o pequeno grande Cine Bijou da Praça Roosevelt.)

         Tempos sombrios, de valores morais no ralo

Naturalmente, o que importa não é o que o autor fala sobre sua obra, mas o que mostra a obra em si. De qualquer forma, essas frases da diretora sobre seu filme são bastante esclarecedoras sobre sua intenção.

Muito provavelmente, Anna Muylaert quis colocar em questão estes tempos sombrios, em que a sociedade e as instituições se preocupam com firulas bobas, menores, como a total proibição de  fumar cigarros que pagam IPI, mas não sabe o que fazer com a violência crescente, a desestruturação das famílias diante do poder da droga, pais que estupram filhas, pais que jogam filhas pela janela, filhas que matam pais por um punhado de dinheiro, jovens que enriqueceram rapidamente no futebol, tornaram-se ídolos e que mandam matar e fazer picadinho das moças com quem treparam em orgias.

Mas, se se concorda que o filme foi feito para denunciar a lassidão moral, É Proibido Fumar assume – mesmo que sua diretora não tenha pretendido exatamente isso – uma dimensão grandiosa. É então um filme que retrata, com uma agudeza chocante, o Brasil da era Lula.

É um tempo triste, imensamente triste, em que se escondem cadáveres embaixo do tapete e o oficialismo se ufana com os índices de aprovação jamais vistos do presidente populista, preguiçoso, falastrão, cujas palavras não têm qualquer lastro com a verdade dos fatos.

Os cadáveres sob o tapete se acumulam mais e mais: o mensalão até agora impune, as alianças do governo com as forças políticas mais retrógadas, a violação, por órgãos federais, de dados sigilosos primeiro de um caseiro humilde, depois de um vice-presidente do principal partido de oposição, a contínua e crescente desobediência às leis e à Justiça Eleitoral, a política externa que compactua com as ditaduras, que puxa o saco dos ditadores e desdenha a sorte de quem luta contra eles. E tudo absolutamente impune – e os crimes vão se sucedendo tanto, a cada dia, que, como os pobres personagens Baby e Max, as pessoas ficam entorpecidas, incapazes de reagir, de enxergar a dimensão da miséria em que mergulhamos.

É muitíssimo provável que Anna Muylaert não tenha tido a intenção de que sua obra alcançasse essa dimensão política. E seguramente o júri do Festival não premiou o filme por isso. Mas tudo na vida é política. Ou bem o filme defende a bandalheira – o que, obviamente, não é o caso –, ou bem essa talentosa cineasta fez um filme que pode entrar para a história como um retrato fiel do tamanho da lama em que nós, a sociedade como um todo, nos metemos, e que o governo Lula só fez aprofundar.

É Proibido Fumar

De Anna Muylaert, Brasil, 2009

Com Glória Pires (Baby), Paulo Miklos (Max), Daniela Nefussi (Teca), Alessandra Colassanti (Estelinha), Lourenço Mutarelli (corretor), Marisa Orth (Pop), Paulo César Peréio (ZéTadeu), Thogun (Batera), Rafael Raposo (João Francisco), André Abujamra (Pablo), Antonio Abujamra (Pepe)

Argumento e roteiro Anna Muylaert

Música Marcio Nigro   

Fotografia Jacob Solitrenick   

Direção de arte Ana Mara Abreu

Montagem Paulo Sacramento

Produção África Filmes, Dezenove Som e Imagem. DVD PlayArte.

Cor, 85 min

***

2 Comentários

  1. Ivan
    Postado em 31 julho 2012 às 3:13 pm | Permalink

    Gostei bastante do filme.Sou fã incondicional
    de Glória Pires. Magnifica “Glorinha”. Lembro dela começando sua gloriosa carreira em “Dancing Days” vivendo a “Marisa.” Apesar de “verdinha” ainda, (as vezes não conseguia tirar um sorriso do rosto em uma cena mais séria) deu um show.
    Lembro dela também e, aí sim, já totalmente senhora de si, atriz completa, em “Vale-Tudo”
    Nessa novela ela mostrou todo seu talento vivendo a maquiavélica e tudo mais, “Maria de Fatima”. Isto, são só duas lembranças dela
    e,(que gosto de ter)nem é preciso falar mais de sua maravilhosa carreira.
    Voltando ao filme,longe, mas, muito longe de
    mim, mesmo, ter “parecido” senso de crítica qual o teu, Sergio e, por isso,aqui no meu acanhado modo, vi mais drama do que comédia.
    Achei a Baby uma mulher que buscava ser feliz. Não sei se o título do filme devería mesmo ser esse pois a Baby fica com o Max mesmo voltando a fumar. Como também achei incrível a conotação que teve aquele sofá.
    Aquela cena em que a Baby, conversando com a
    Teca, chora ao dizer que não vai poder fazer o bolo que a Tia fazia pois não ficou a receita, muito bonita.
    No final, achei que o canalha da história sería o Max, ao pedir os 10.000 paus à Baby mas o grande canalha mesmo foi o porteiro, quando guardou a fita que tinha as cenas do acidente com a Baby e a ex do Max e, a chantagem posterior com a qual ele pôde voltar para a “Terrinha”.
    De início, pensei que ele tivese feito isso, por grande amizade (quem sabe ?)com Baby mas,
    antes mesmo desse final que falei, fica bem claro a verdadeira intenção dele.
    Sergio, acho fiz um spoiler, se achar que deves, apague ou então coloque um alerta, te agradeço.
    Em tempo, a Baby era uma defensôra ferrenha de Chico Buarque e Max de Jorge Ben Jor, ele era mais agito. Achei que o Miklos fica devendo muito como ator. Como compositor e cantor a história é outra.

  2. Ivan
    Postado em 5 agosto 2012 às 12:42 pm | Permalink

    Voltei e, a responsável por isto é a Glória Pires, maravilhosa Glorinha. Depois de ter visto este ótimo filme,assisti ontém, também com a Glória mas,tendo junto as ótimas,Lilia
    Cabral,Paloma Duarte e, Andréa Beltrão, o filme “A Partilha”, baseado na peça do Falabella. É a história de 4 irmãs que se reúnem para o funeral da mãe delas. Há também a negociação entre elas para a venda do apartamento que ficou de herança onde elas não vão só dividir a herança mas tbm,
    seus dramas,dores,ciúmes,frustações,mágoas e
    intimidades. É uma comédia linda, maravilhosa
    onde essas quatro ESTRELAS dão um verdadeiro banho de interpretação.Comédia com os dramas de cada uma.”É UM PRIMOR DE FILME.FILMAÇO!!!
    Recomendo para todos teus leitores,Sergio e,
    se tu puderes,assista também, acho que vais gostar muito. E,se gostares, tenho certeza que vais fazer mais um texto lindo, daqueles que tua competência, sabe fazer.

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