Dennis Hopper foi se encontrar com James Dean e Marlon Brando


Alguns anos atrás, Bob Dylan teve uma doença grave; quando o perigo passou, as agências de notícias distribuíram uma declaração dele: “Pensei que tivesse chegado a hora de me encontrar com Elvis”.

Lembrei desta frase ao ver, alguns minutos atrás, a notícia da morte de Dennis Hopper, aos 74 anos de idade. Imediatamente me ocorreu que Dennis Hopper foi se encontrar com James Dean e Marlon Brando.

Provavelmente o recém-chegado vai querer oferecer um baseado para os outros dois, e fazer planos para botarem, os três, seus surrados casacos de couro preto, montar nas Harley-Davidson e sair sem destino, rebeldes sem causa, céu afora, em busca de uma América para sempre perdida.  

 Ícone e iconoclasta

Procurei a notícia no New York Times, para ver como eles estavam dando, e não achei. Já estava nos portais dos grandes jornais brasileiros, mas o jornal mais influente do mundo demorou um pouco mais. No iMDB, claro, já estava a faixa no alto da página; a notícia, ainda pequena, abria com: “O ícone de Hollywood Dennis Hopper…”

Voltei ao New York Times e já estava lá, no alto da página: “Dennis Hopper, cinematic iconoclast, dies at 74”.

Ícone – e iconoclasta. De uma maneira fantástica, o melhor site enciclopédico de cinema e o site do principal jornal americano se completam para dar a descrição sucinta dessa figura emblemática: ao mesmo tempo ícone e iconoclasta.

Símbolo de uma época

Hopper começou a carreira de ator em 1954, em seriados para a TV. Premiado pela sorte, já no ano seguinte teve um pequeno papel em Juventude Transviada/Rebel Without a Cause, o filme de Nicholas Ray – com James Dean no papel principal – que se transformaria em um imenso mito e, mais do que simplesmente espelhar um tipo de comportamento que começava a se alastrar pelos Estados Unidos, o dos jovens rebeldes naquela era pré-beatniks e pré-hippies, disseminou-o pelo mundo inteiro.

Teria – nascer com estrela é isso aí – também um pequeno papel em Assim Caminha a Humanidade/Giant; o grande filme de George Stevens só chegaria aos cinemas em 1956, quando James Dean já estava morto – morreu num acidente de carro, aos 24 anos de idade, com apenas três filmes no currículo, dois dos quais também estrelado por Dennis Hopper. Virou um dos maiores ícones da cultura popular do século 20.

Hopper escreveu, dirigiu e estrelou Easy Rider em 1969 – e o filme, no Brasil Sem Destino, seria tão absolutamente emblemático dos anos 60 quanto Juventude Transviada havia sido dos anos 50.

Dava-se bem com os outsiders, os rebeldes, os doidos

Sem Destino/Easy Rider seria seu trabalho mais importante, mais brilhante. Mas trabalhou muito. Atuou em dezenas e dezenas de filmes e de episódios de séries para a TV, dirigiu alguns poucos filmes – oito, no total. Fez, por exemplo, um bandidão em Bravura Indômita/True Grit, de 1969, o filme de Henry Hathaway que deu o único Oscar a John Wayne. O alemão Wim Wenders o dirigiu no papel de Tom Ripley, o personagem criado por Patricia Highsmith, em O Amigo Americano, de 1977. (Wenders, fã absoluto de Nicholas Ray e do bom cinema americano, prestava assim uma homenagens transversa ao velho ídolo que havia dirigido o jovem Hopper em Juventude Transviada.)

Em 1979, fez o papel de um fotojornalista no filme antiguerra mais doido de toda a história, Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, no qual Marlon Brando – o outro rebelde da motocicleta – tinha um papel pequeno mas fundamental. Coppola o dirigiria de novo em O Selvagem da Motocicleta/Rumble Fish, de 1983 – a motocicleta, de novo e sempre –, o filme que ajudou a firmar como astros Mickey Rourke, Matt Dillon e Nicolas Cage.

Outro diretor absolutamente fora do padrão, do tradicional, David Lynch, o escalou para um dos principais papéis em Veludo Azul/Blue Velvet, de 1986. O outsider Bruno Barreto fez dele o protagonista de um de seus mais belos filmes, Atos de Amor/Carried Away, de 1996.

Dava-se bem com gente que não pertencia ao cinemão tradicional, à indústria hollywoodiana, o que é absolutamente explicável. Sempre foi um rebelde, um estranho no ninho (para fazer um trocadilho com o título brasileiro do filme que deu o primeiro Oscar a Jack Nicholson, o ator que Sem Destino transformou em astro de primeira grandeza).

Eterno hippie, eterno agitador

Dennis Hopper faz lembrar, e muito, Hal Ashby, o diretor hollywoodiano mais anti-hollywoodiano da história, eterno hippie, eterno agitador, eterno iconoclasta.

Nunca tinha escrito para este site sobre um cineasta ou ator que acaba de morrer; não é um blog sobre cinema, com notícias e comentários sobre coisas do cinema – é um site com meus textos sobre filmes. Mas não consegui resistir à tentação de fazer uma pequena anotação sobre Dennis Hopper. Nunca vai ser possível esquecer a emoção que senti ao ver Easy Rider pela primeira vez, com minha amiga Vivina, numa pré-estréia às dez da noite de um sábado no antigo Cine Rio do Conjunto Nacional (depois Cinearte, hoje Cine BomBril), e nas várias e seguidas vezes que revi depois – e por isso não deu para deixar de escrever.

Já que fiz a anotação, gostaria então de transcrever o que diz alguém que sabe das coisas, o francês Jean Tulard, no seu Dicionário de Cinema – Os Diretores:

“Ator excelente (pode-se vê-lo em Juventude Transviada de Ray e em obras de Sturges, Hathaway, Corman), redigiu, interpretou e rodou Sem Destino, cuja repercussão foi enorme, suscitando inúmeras imitações. Um novo tipo de marginal era apresentado: o hippie com seus jeans, suas camisetas, seu vocabulário, as drogas e a moto. Com As Cores da Violência, nos mostrou a batalha das gangs em Los Angeles; a violência do filme dá um frio na espinha. E com Hot Spot retoma os faustos do filme noir, com uma atmosfera pegajosa, garotas voluptuosas e a reviravolta final.”  

Não vi As Cores da Violência/Colors, de 1988, nem Hot Spot, de 1990. E, na época em que vi, não gostei muito de Atraída pelo Perigo/Catchfire, de 1990, um filme que teve uma história atribulada – uma versão não autorizada foi lançada na Europa, e o filme acabou sendo distribuído no Brasil com a direção atribuída a Alan Smithee, que, segundo o iMDB, é um pseudônimo de Hopper. Mas o filme tem um detalhe interessantíssimo: nele, Bob Dylan – que citei lá em cima – faz uma ponta, como um artista plástico.

Que os anjos, James Dean e Marlon Brando o recebam bem. É possível que ele não encontre um baseado por lá – mas tomara que haja uma Harley-Davidson envenenada para ele montar.

29 de maio de 2010.

Para ler o texto sobre Dennis Hopper no New York Times, clique aqui.

Este site, incompletíssimo, com gigantescas lacunas, que não fala de uma centena, algumas centenas de filmes fundamentais – inclusive Sem Destino/Easy Rider –, tem apenas os seguintes filmes de e/ou com Dennis Hopper:

Atraída pelo Perigo/Catchfire, ou Backtrack, de Dennis Hopper, 1989;

O Coração da Justiça/The Heart of Justice, de Bruno Barreto, 1993;

Atos de Amor/Carried Away, de Bruno Barreto, 1995;

Um Motivo para Viver/Leo, de Mehdi Norowzian, 2002;

Fatal/Elegy, de Isabel Coixet, 2008.

5 Comentários

  1. Postado em 29 maio 2010 às 4:14 pm | Permalink

    Acabei de ler e, como eu escrevi, não estava na lista dos meus 10 mais. Mas como dói quando morrem estes construtores da minha imaginação!

  2. patricia mendonça
    Postado em 30 maio 2010 às 11:28 am | Permalink

    Hopper pertence àquela categoria de atores/diretores q por terem pertencido à est´rorias como Easy Rider deixam de ser pessoas, passam a ser algo mais sutil e mais belo, impossível de não nos deslumbrar já q nos fará devanear a cada revisiita às suas obras. Que a Harley esteja lá, bem na entrada, com JDean segurando o capacete para que juntos encontrem Brando para uns Hamburgueres… Belíssimo texto. (recomendado por Mary Zaidan)

  3. Telmo Junges
    Postado em 23 setembro 2010 às 4:16 pm | Permalink

    Recomendo para quem gosta de cinema o livro
    “Como a geração Sexo, Droga e rock en roll
    salvou Hollywood, ali estão os bastodores de hollywood, saiu os produtores que fumavam seus charutos e entrou a geração dos baseados, e você acompanha a mudança do controle de produções que sai da mão de executivos de estudio e passa para os diretores. Hooper foi importante nesta mudança.
    Neste livro tem coisas deliciosas como o dia em que John Wayne botou sua pistola 45”
    na cintura para matar aquele comunistinha de m….
    Livro imperdivel.

  4. mário silva
    Postado em 18 novembro 2010 às 6:52 pm | Permalink

    Belo obituário do legendário Denis Hopper,
    mas são necessárias duas retificações: 1- o filme dirigido por Win Wenders é “O Amigo Americano”, e 2- o imortal James Dean
    morreu num desastre de automóvel e não moto como constou.

  5. Sérgio Vaz
    Postado em 19 novembro 2010 às 12:12 am | Permalink

    Caríssimo Mário, muitíssimo obrigado pela mensagem, e por ter apontado os erros. Graças a você, eles já estão corrigidos no texto.
    Espero que você volte ao site, e me avise sobre outros erros.
    Um abraço.
    Sérgio

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Pat Garrett & Billy the Kid em 17 agosto 2010 às 12:26 am

    […] Alias, e mais de Kris Kristofferson, o autor de “Me and Bobby McGee” e ator em filmes de Dennis Hopper e Martin Scorsese, e de sua então mulher, a maravilhosa Rita Coolidge… Mas se eu já cansei, […]

  2. […] uma característica interessante do filme: em papéis pequenos, aparecem Robert Duvall e Dennis Hopper. O papel de Hopper é mínimo, mal dá para perceber que é ele – e o filme é de 1969, o mesmo […]

  3. […] dois sujeitos que ficam correndo a toda pelas estradas da Itália, nunca tinha ouvido falar que Dennis Hopper se inspirou nas aventuras dos personagens de Gassman e Trintignant para fazer o road movie sobre […]

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