
Nota: 



Anotação em 2009: Este filme feito em 2002 pelo grande diretor inglês Stephen Frears é uma porrada na cara. É duro, pesado, imensamente triste. Talvez seja, de todos os muitos filmes que falam de imigração, da vida de imigrantes, o mais barra pesada, o mais angustiante. Um filme excepcional.
Fui conferir quando tinha visto o filme pela primeira vez, e fiquei chocado com a coincidência: tinha sido no dia 30 de dezembro de 2003 – revi agora no dia 30 de dezembro de 2009. Em 2003, anotei só o nome do filme, a data, e botei 4 estrelas, mas não fiz comentário algum. Dei com ele na locadora, resolvi rever para escrever sobre ele para o site. Claro que eu me lembrava bem da barra pesada que é; confesso que o filme é tão angustiante que, no começo, cheguei a pensar em desistir de rever. Mas o brilho, a qualidade da obra de Frears me fez ir em frente.
E aí é preciso lembrar como esse cineasta consegue ser eclético. Ele fez terror (O Segredo de Mary Reilly), recriação de fatos históricos recentes (A Rainha), comédia musical (Sra. Henderson Apresenta, Alta Fidelidade), transposição de romance clássico passado na França pré-revolução, no século XVIII (Ligações Perigosas), policial (Os Imorais), western (Terra de Paixões). Fez filme em Hollywood, com grandes astros (Herói por Acidente) e pequenos filmes de baixo orçamento (A Van). Sempre esbanjando talento.
É impressionante.
Diversas peças, que vão se encaixando com perfeição
A história, a trama, o roteiro de Coisas Belas e Sujas, tudo é um brilho, tudo muito bem amarrado. O autor do argumento e do roteiro, Steve Knight, vai espalhando diversas peças, diversos personagens, diversas situações, que às vezess parece que não se encaixam bem – mas tudo vai se encaixando, sim, com perfeição. E a direção segura de Frears faz esse drama social ter um clima, um pique, um ritmo de thriller.
São dois personagens principais, cercados por quatro secundários, mas todos fundamentais para o desenvolvimento da trama. Os protagonistas são dois imigrantes ilegais na Londres do novo milênio, Okwe (Chiwetel Ejiofor, o excelente ator de Cinturão Vermelho, Filhos da Esperança e Simplesmente Amor) e Senay (Audrey Tautou, na sua estréia em filmes de língua inglesa, logo depois do estrondoso sucesso de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain).
Okwe é um nigeriano que trabalha durante o dia como motorista de táxi e de noite na recepção de um hotel. Praticamente não dorme; masca uma planta para afastar o sono. Durante algumas poucas horas, pela manhã, deita-se no sofá do pequeno apartamento onde mora Senay, uma jovem turca que trabalha como faxineira no mesmo hotel. Okwe – o espectador percebe rapidamente – tem um passado rico e complexo. Mas o filme vai entregar as informações sobre esse passado bem aos poucos – algumas revelações só virão bem no final. Não se demora para mostrar que ele teve formação, estudo – conhece medicina.
Juliette (Sophie Okonedo), uma prostituta que freqüenta o hotel com seus clientes, uma noite chama Okwe para ver se dá um jeito na privada entupida do quarto que usou. Okwe vê que o motivo do entupimento é um coração jogado na privada – um coração humano. É o começo de uma teia intrincada, absurda, chocante, apavorante.
Senay, uma moça nascida no interior da Turquia, por sua vez, será perseguida pela polícia de imigração. Ela e Okwe vão passar por sofrimentos imensos, gigantescos, insuportáveis, desumanos.
Os outros personagens secundários – mas também importantes –, além de Juliette, a puta que vai revelar que tem um bom coração, são Juan (Sergi Lopez), um imigrante em situação legal, gerente do hotel, uma figura que é a personificação do mal; Ivan (Zlatko Buric), um russo cínico que trabalha na portaria do hotel; e Guo Yi (Benedict Wong), um imigrante também em situação legal, que trabalha no necrotério de um hospital, e é grande amigo de Okwe.
“O meu Deus não fala mais comigo”
O roteirista Steve Knight colocou algumas frases absolutamente brilhantes – e desesperançadas – na boca do chinês Guo Yi, um sujeito inteligente, culto, tornado um cínico pelas dificuldades que enfrentou na vida. Quando Okwe conta para ele sobre o coração humano encontrado no quarto do hotel, Guo Yi diz o seguinte:
- “Esta é uma cidade sinistra. Depois de 11 anos aqui, como refugiado legal, não faço perguntas. Você é ilegal, Okwe. Você não tem posição aqui. Você não tem nada. Você não é nada.”
E em seguida:
- “Nada é tão perigoso quanto um homem virtuoso. Se você está tão preocupado, devia ir à polícia – para ser deportado.”
Há diálogos brilhantes assim ao longo de todo o filme. Quando Okwe percebe que Senay está disposta a fazer algo sugerido por Juan, em que vai arriscar a vida em troca de uma boa quantia de dinheiro e um passaporte, há um diálogo estarrecedor.
Senay: – “Uma das faixineiras fez isso e agora está livre.”
Okwe: – “Outras estão mortas!”
Senay: – “E também estão livres.”
Okwe: – “O que o seu Deus diria?”
Senay: “O meu Deus não fala mais comigo.”
Okwe e Senay são alguns dos personagens mais tristes, mais angustiantes do cinema. E Chiwetel Ejiofor e Audrey Tautou estão excepcionais nos papéis.
O filme teve uma indicação para o Oscar – para Steve Knight, pelo roteiro original. Colecionou 16 prêmios e 19 outras indicações.
Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4: “Original e surpreendente a cada momento; o diretor Stephen Frears obtém o melhor com o roteiro de Steve Knight.”
Está certo ele ao usar os dois adjetivos. É de fato um filme original e surpreendente. Duro, pesadíssimo, tristíssimo – e brilhante.
Coisas Belas e Sujas/Dirty Pretty Things
De Stephen Frears, Inglaterra, 2002
Com Chiwetel Ejiofor (Okwe), Audrey Tautou (Senay), Sergi López (Juan Sneaky), Benedict Wong (Guo Yi), Sophie Okonedo (Juliette), Zlatko Buric (Ivan)
Argumento e roteiro Steve Knight
Fotografia Chris Menges
Música Nathan Larson
Produção BBC Films e Miramax.
Cor, 97 min
R, ****
Título em Portugal: Estranhos de Passagem. Título na França: Loin de Chez Eux
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[...] do filme uma atriz não cantora, a inglesa Sophie Okonedo, que trabalhou com Stephen Frears em Coisas Belas e Sujas/Dirty Pretty Things, de 2002, e já teve uma indicação ao Oscar de coadjuvante por Hotel Ruanda, de 2004. Tem muito [...]