Johnny Guitar


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: Johnny Guitar é um filme curioso, esquisito, doidão – assim como a sua trajetória, ao longo das mais de cinco décadas que se passaram desde que ele foi feito, em 1954.

Quando foi lançado nos Estados Unidos, foi quase uma unanimidade: todo mundo detestou. “Deveriam ter feito um teste de sanidade comigo”, diz Joan Crawford, no livro Conversations with Joan Crawford, de 1977. “Não há desculpas para este filme ser tão ruim ou por eu ter trabalhado nele.”

Na Europa, no entanto, foi uma babação sem fim pelo filme. E, com o tempo, ele foi virando cult. Está, só para dar um exemplo, no livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer

Vou transcrever algumas coisas que se escreveram sobre ele, mas, antes, seria bom fazer uma sinopse. Tento me valer do Cinéguide francês, que em geral tem sinopses bem curtas e elucidativas: “No velho Arizona, a proprietária de um salão de jogos usa para montar seu negócio um terreno cultivável e atrai o ódio de uma mulher dona do banco.” Hum… É mais ou menos isso, mas está muito fraco.

ajohnny2Tento o Leonard Maltin: “O grande western esquisitão, uma confrontação memorável entre a dona de saloon Crawford e a endiabrada McCambridge, que quer que ela saia da cidade e/ou seja enforcada. Simplesmente fascinante com simbolismo exuberante do começo ao fim.” É, está melhor; as duas sinopses misturadas já dão uma certa idéia de que é o filme.

Vou tentar descrever a abertura e dar uma geral na trama:

Um cavaleiro solitário (Sterling Hayden) cavalga pela imensidão do Velho Oeste; passa por um trecho de montanhas onde está havendo explosões com dinamite; o espectador não sabe ainda, mas saberá depois que as explosões são para abrir caminho para uma ferrovia que está sendo construída ali. O cavaleiro segue em frente e, do alto de um morro, vê uma diligência sendo assaltada, um homem sendo assassinado pelos ladrões, que fogem em seguida. O cavaleiro segue em frente. Amarrado a seu corpo, pendendo atrás de suas costas, há… um violão!

Cacilda, o que faz um violão num bangue-bangue? (Este será apenas o primeiro estranhamento de muitos, de vários e vários que o espectador de westerns vai encontrar neste filme.)

         Um saloon perdido no meio do nada

O cavaleiro com o violão às costas chega ao lugar onde há uma grande edificação, no meio do nada – não há uma pequena cidade em volta, o prédio está lá sozinho, sem outras construções por perto. Há uma fortíssima ventania, uma tempestade de vento. O cavaleiro finalmente apeia, e entra no prédio – um grande saloon, uma mistura de bar com salão de jogos. Estão ali apenas dois crupiês e um garçom atrás do balcão, todos muito mal encarados, olhando para o forasteiro. Ele diz seu nome, Johnny Guitar, e pede para falar com a patroa. A patroa aparece depois de algum tempo, lá no alto, no segundo andar do prédio, onde ficam seus aposentos particulares – chama-se Vienna, o mesmo nome do estabelecimento. É Vienna, mas é principalmente Joan Crawford, porque Joan Crawford é uma estrela maior do que todos os seus papéis. É sempre Joan Crawford interpretando alguém, no caso aqui Vienna, dona de saloon, bar, cabaré, salão de jogos.

ajohnny1Daí a pouco entrarão no saloon diversos homens da cidadezinha mais próxima dali – diversos homens, liderados pelas duas pessoas mais ricas e poderosas da região, um fazendeiro, McIvers (Ward Bond, presença constante nos westerns de John Ford), e sua filha solteirona, a dona do banco, Emma Small (Mercedes McCambridge). O grupo está ali porque Emma suspeita que Vienna e seu amigo Dancin’ Kid (Scott Brady) foram os reponsáveis pelo assalto à diligência, no qual morreu o irmão de Emma.

Há uma longa confrontação entre Vienna e o povo que chegou, em especial entre Vienna e Emma. Aí chegam Dancin’ Kid e seu bando, formado por três outros sujeitos. Longos diálogos.

Aí Johnny Guitar – que até então estava na cozinha do saloon, jantando – entra no amplo salão do saloon e na conversa.

É uma longa, extremamente longa seqüência, esta, desde a chegada de Johnny Guitar até a aparição do grupo grande da cidadezinha e até a entrada em cena de Kid e seu bando. Deve durar uns 15 minutos, e é mostrada praticamente em tempo real, sem cortes. A partir dessa longa seqüência, e com mais outros 15 minutos de filme, o espectador ficará sabendo de várias histórias, nessa trama intrincada: a) Vienna teve uma informação privilegiada, soube antes de todos que a ferrovia passaria exatamente por ali, e por isso construiu ali seu saloon; é um investimento que dará grande retorno no futuro; b) os poderosos do lugar, McIvers e Emma, não admitem a existência do saloon, farão de tudo para expulsar Vienna dali; c) o ódio de Emma provém de uma história passional; ela é apaixonada por Kid, embora não admita isso, e Kid é apaixonado por Vienna; d) Vienna e Johnny Guitar tiveram uma paixão furiosa cinco antes; não deu certo, separaram-se, nunca mais tinham se visto até então.

Ah, mas então é um filme sobre romance, e não um bangue-bangue?

         No meio do bangue-bangue, violão, piano, paixões

Aí é que está. É por aí mesmo. É um western, nas roupas, na ambientação, nos tiros; tem os mocinhos, tem os bandidos, tem mocinhos maus e bandidos bons, mas é um filme sobre romance, amor, frustração, ciúme – e, no fundo, pairando sempre, embora só nas entrelinhas, há um forte clima de excitação sexual. Quando Johnny pergunta a Vienna por que Emma a odeia tanto, ela diz que é porque Emma ama o Kid – o Kid a faz sentir mulher. Emma é interpretada por uma exageradíssima Mercedes McCambridge, numa figura composta para parecer um homenzinho, ou um sapatão daqueles caricatos. Não é dito explicitamente, mas está claro que Vienna pôde construir aquele grande saloon a partir de informações privilegiadas e de dinheiro obtidos através do sexo.   

– “Um homem pode mentir, roubar e até matar, mas, enquanto tiver seu orgulho, ainda é um homem”, diz Vienna para Johnny Guitar. “A mulher só precisa errar uma vez e vira uma vagabunda. Deve ser um alívio ser homem.”

E mesmo quando o filme mais se parece um western, no duelo final, temos o duelo entre duas mulheres. As personalidades mais fortes, naquele ambiente machista, e nesse gênero sempre dominado pelo homem, são duas mulheres.

De fato, era esquisito demais para o público e para os críticos americanos em 1954.

Mas os europeus babaram.

Johnny Guitar tem mais importância na minha vida do que na vida do próprio Nicholas Ray”, disse François Truffaut. “Nutri uma paixão pelo filme desde o momento em que o vi pela primeira vez. Naquela época, eu era crítico de cinema. Johnny Guitar foi muito importante na minha vida, pois o achei poderoso e profundo em seu retrato da relação entre homem e mulher.”

Martin Scorsese, outro grande cineasta que, como Truffaut, tem uma gigantesca cultura cinematográfica, assiste a filmes sem parar como Truffaut fazia, disse, na época do lançamento do filme em DVD sob a chancela de “Martin Scorsese Presents”: “Johnny Guitar é um dos grandes trabalhos operísticos do cinema, pois é permeado do início ao fim por um tom compulsivo e apaixonado. Realmente, não há filme como este. O ritmo lento, a intensidade crescente, a incansável e assustadora trilha de Victor Young. Nos Estados Unidos, as pessoas esperavam um western. Bem, Johnny Guitar parecia ser um western, mas ninguém sabia o que pensar dele. Na Europa, fora do contexto, os espectadores viram um filme totalmente diferente, um intenso, não convencional e estilizado filme repleto de ambigüidades e de entrelinhas, e, por isso, extremamente moderno.”

         Um comprido vestido branco que pega fogo   

ajohnnytrilhaScorsese falou da trilha sonora de Victor Young. A trilha de fato é muito especial. Há os temas um tanto tonitroantes, típicos dos westerns da época, nos momentos em que há cavalgadas, perseguições a cavalo. Mas há temas doces, suaves, melódicos – afinal, o nome do filme e do personagem é Johnny Guitar, o cara toca violão. O tema principal, que Johnny Guitar começa a tocar ao fim daquela longa seqüência no início do filme, depois que o povaréu da cidadezinha deixa o saloon, acaba assustando Vienna, e ela pede para que Johnny toque outra coisa. Mais tarde, a própria Vienna, perdão, Joan Crawford-Vienna tocará a melodia ao piano, o piano que há no fundo do grande salão; está num belo, elegante, encorpado vestido branco, comprido até os pés. Ela toca a mesma melodia, o tema principal da trilha, enquanto entra no salão um imenso grupo de cidadãos liderados por Emma e McIvers, doidos para enforcá-lo sob a acusação (falsa) de ter participado do assalto ao banco.

Na seqüência final, o mesmo tema musical será apresentado mais uma vez, agora com a voz de Peggy Lee, a louraça de voz profunda e melodiosa que fazia um sucesso estrondoso naqueles anos 50, com uma letra de autoria dela mesma, uma letra, que me perdoem Peggy Lee e o diretor Nicholas Ray, da mais alta babaquice possível (“Play the guitar, Play it again, my Johnny. Maybe you’re cold, But you’re so warm inside. I was always a fool For my Johnny, For the one they call Johnny Guitar. Play it again, Johnny Guitar.”)

O belo vestido branco vai acabar pegando fogo, literalmente (e pode haver simbolismo mais óbvio do que um vestido que pega fogo, numa atmosfera de muito desejo sexual?). E aí Vienna o trocará por uma calça comprida e uma camisa do vermelho mais berrante possível, enquanto Johnny Guitar, que já trepou à beça com ela, pudicamente olha para o lado, para não flagrá-la no ato de mudar de roupa. Mas a câmara insinua uma olhadela de voyeur sobre Joan Crawford naquele momento.

ajohnny4É interessante como Joan Crawford-Vienna alterna o figurino masculinizado – calça comprida, camisa colorida, um lenço à guisa de gravata, cinturão com balas, revolverzão no coldre – com vestidos longos, femininos, sensuais. Emma, a banqueira perversa, vingativa, cheia de amor, pé no freio e frustração, que está em geral no modelito bangue-bangue (na foto), aparece também de saia – uma saia negra, o contraste perfeito com o vestido branco de Vienna.

 O livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer traz interessantes colocações. Reproduzo: “O melodrama de Johnny Guitar é tão exagerado que alguns o acharão risível. Outros serão conquistados por seu poder hipnótico. (…) No fim, há um tiroteio entre as duas mulheres, o tipo de subversão das convenções que levou alguns críticos a considerarem o filme feminista. Ele também foi interpretado como uma alegoria anti-McCarthy, contra a histeria coletiva e a favor daqueles que defendem seus princípios. (…) (O filme) é corajamente barroco no uso que faz de cores fortes, no seu estilo de atuação virtuoso (com Joan Crawford particularmente espetacular) e na beleza inesquecível da sua canção tema, cantada pela grande Peggy Lee. Se esse tipo de exuberância artística for demais para você, talvez seja melhor se limitar aos documentários.”

 Como o livro cita a caça às bruxas da era McCarthy, aproveito para registrar que o roteiro foi assinado por Philip Yordan, mas, segundo o iMDB, na verdade foi escrito por Ben Maddow, com mexidas feitas pelo diretor Nicholas Ray. Como Ben Maddow estava na lista negra do maccarthismo, acusado de comunista, ou filo-comunista, Yordan ficou com o crédito.

 Como diz mestre Scorsese, “um filme totalmente diferente, um intenso, não convencional e estilizado filme repleto de ambigüidades e de entrelinhas”. Muito doidão – e fascinante.

Johnny Guitar

De Nicholas Ray, EUA, 1954

Com Joan Crawford, Sterling Hayden, Mercedes McCambridge, Scott Brady, Ward Bond, Ernest Borgnine, John Carradine,

Roteiro creditado a Philip Yordan (na realidade, segundo o iMDB, o roteiro foi escrito por Ben Maddow e Nicholas Ray; Maddow não podia assinar porque estava na lista negra do macarthismo)

Baseado na novela de Roy Chanslor

Música Victor Young

Fotografia Harry Stradling

Produção Republic Pictures

Cor, 110 min

R, ***

16 Comentários para “Johnny Guitar”

  1. Quando este filme foi lançado em DVD, fui pra loja esperar sua chegada. Depois corri para casa para vê-lo, como se diz, de joelhos, numa justa reverência ao Nick. Muito bom reencontrar o filme aqui. Seus textos têm a capacidade de nos trazer o filme inteiro à memória.

  2. Acabei de rever Johnny Guitar no Telecine Cult e vim correndo ver se havia um post pra ele. Há. Esse é um dos meus westerns favoritos (e gosto também de O Diabo Feito Mulher o/). Gosto das cores fortes, da incrível e constante maldade de Emma, do descontrole, da fotografia tão hipnótica, das paixões tão exacerbadas. Gosto dos diálogos: Johnny/Sterling Hayden pergunta a Vienna/Joan Crawford “how many men have you forgotten?” e ela responde “As many women as you´ve remembered”. Ou “Meus homens não são assassinos. Precisam de frio, fome e cansaço pra se tornarem.” E Emma: Quanto tempo isso demora? “Você tem 5 anos de fúria aí, dê-lhes 5 horas”. E, claro, gosto de todo simbolismo (tenho cá pra mim que Emma tinha uma queda mesmo era por Vienna, num sentido histérico freudiano de interrogar-se sobre o que é uma mulher, mas enfim).
    São filmes assim que mantém alma e imaginação cativas e me fazem recordar o que é este amar o cinema que me ocupa tanto.

    PS. nem sei se chegam os comentários em posts tão antigos, mas foi tão intenso rever que quis partilhar consigo.

  3. O que mais recordo – com surpresa e prazer, pois considero um marco – sobre este filme é o fato de seus personagens mais fortes serem mulheres. Em pleno faroeste. Sempre achei -e ainda acho – isto um marco, uma diferença, uma ousadia para a época.

  4. A primeira vez que assisti este filme, foi em 1967, eu tinha 17 anos e, revi, ontém.
    45 anos depois e, o impacto foi o mesmo daquela época. Para mim, é um dos clássicos
    do velho “faroeste”.O que mais me impressiona
    é o colorido do filme, cores lindas,fortes.
    O filme gira em torno de Vienna e Emma,elas
    são as protagonistas e, como diz a Carla,as
    personagens mais fortes do filme.
    Como voce disse, Sergio, a letra é horrível
    mas a melodia, muito bonita.
    Que atriz maravilhosa foi Joan Crawford !!!

  5. Parabéns pelo site, Sérgio. A respeito deste filme, gostaria de destacar um “momento mágico”: quando Joan Crawford “interpreta” a música “Johnny Guitar” ao piano. Cena magnífica. Fica ainda mais destacada pela ruína que se sucede, quando o bando invade e tudo é destruído. Tenho paixão por cenas como essa, que eu chamo de “Momento Mágico”. Abraço!

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