A Ponte do Rio Kwai / The Bridge on the River Kwai


Nota: ★★★★

Resenha na coluna O Melhor do DVD, no site estadao.com.br, em 2001: Quando a televisão chegou, no início dos anos 50, o cinema americano adotou a tela larga como arma contra a concorrência. A Fox saiu na frente, comprou os direitos do sistema de lentes desenvolvido por um francês, Henri Chrétian, e batizou-o de CinemaScope, um desses nomes próprios que, de tão conhecidos, virariam substantivos comuns, tipo gilete, maizena, malufada. O filme Fox – Os Primeiros 50 anos, que já passou no Telecine, conta que na época o chefão do estúdio, Darryl F. Zanuck, deu a seguinte ordem aos produtores, roteiristas e diretores: esqueçam a profundidade, pensem só na largura. Em função dessa ordem, fizeram-se naquela época diversos filmes de cenários gloriosos, visual bem cuidado e QI de ostra.

David Lean foi o artista que, exatamente por essa época, conseguiu juntar largura e profundidade, afresco e detalhe, panorâmica e close, a História e as histórias pessoais, as grandes linhas e o psicológico, esplendor visual em tela grande e seriedade, idéias, inteligência. 

O primeiro filme em que ele atingiu essa perfeição, A Ponte do Rio Kwai, chegou há pouco ao DVD no Brasil. É um lançamento requintado, caprichado, que mostra que agora, definitivamente, um filme não é mais só um filme: é o filme e muito, muito mais.

São tantas as apresentações especiais, os extras, que o filme vem em dois discos – embora custe bem pouco mais do que os outros.

Tem, no entanto, dois problemas. O primeiro é que é uma edição limitada – a tiragem pode se esgotar logo. O segundo, e muito mais grave, é que, lamentavelmente, a filial brasileira da Columbia não quis se dar ao trabalho de legendar os extras de um dos filmes mais importantes do seu acervo, e eles vêm só no som original em inglês. Não dá pra entender por que a indústria faz essas economias porcas, patetas.

O filme, este vem no original em inglês e também dublado em português, francês e espanhol, com legendas em todas essas línguas e mais outras da região 4 – chinês, coreano e japonês. Os extras, no entanto, só podem ser bem aproveitados por quem entende inglês. O defeito grave prova, mais uma vez, que a indústria é sempre infinitamente menor, mais imbecil do que a arte que financia e da qual vive.

Apesar desse absurdo, no entanto, é uma maravilha de DVD – essa invenção fantástica que, cinco décadas depois da chegada em massa da TV, faz com que ela mude de formato, deixe de ser quadrada (no sentido mais literal da palavra) para virar retangular, widescreen, cinemascope, de tal forma que os espectadores não precisem sair de casa para ver filmes com imagem perfeita.

O quadro enumera as apresentações especiais dos dois discos: 

  A Ponte do Rio Kwai/The Bridge on the River Kwai)
Produção Inglaterra-EUA, 1957.
Diretor David Lean (1908-1991).
Argumento e roteiro Os créditos, hoje, dizem: Roteiro de Michael Wilson e Carl Foreman, baseado no livro de Pierre Boulle. Na época do lançamento, os créditos diziam que o roteiro era do próprio Boulle, baseado em seu romance. A verdadeira história do roteiro é complexa e fascinante (veja o texto).  
Elenco William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins, Sessue Hayakawa, James Donald, Geoffrey Horne, Andre Morell, Peter Williams, Ann Sears.
Sir David e Sir Alec David Lean, um dos melhores diretores do século, e Alec Guinness, um dos melhores atores, fizeram seis filmes juntos. Guinness esteve nas duas transposições de Dickens feitas por Lean para o cinema nos anos 40, Grandes Esperanças e Oliver Twist. Depois de Rio Kwai, que lhe deu o Oscar, Guinness fez um príncipe árabe em Lawrence da Arábia, um oficial comunista russo em Doutor Jivago e um hindu religioso, budista, em Passagem Para a Índia
Cor, duração. Cor (Technicolor), 162 min.
Ação No meio de uma floresta tropical da Birmânia (hoje Mianmá). 1943.
Local de filmagem No meio de uma floresta tropical do Ceilão (hoje Sri Lanka), 1956.
Fotografia Jack Hildyard. Este foi o terceiro e último dos três filmes consecutivos em que trabalhou para David Lean, depois de Papai é do Contra (Hobson’s Choice), de 1954, e Quando o Coração Floresce (Summertime), de 1955. 
Música Malcolm Arnold. Musicou também Papai é do Contra.
Prêmios Ganhou sete Oscars: filme, direção, ator (Alec Guinness), roteiro, fotografia, montagem, trilha sonora. Só perdeu uma das oito indicações, a de ator coadjuvante para Sessue Hayakawa.
Na lista É o 13º lugar na lista dos cem melhores filmes da história feita pelo American Film Institute.

 

Características do DVD

 

Edição especial São dois DVDs. O primeiro traz a íntegra do filme e apresentações especiais que só podem ser vistas em DVD-ROM de computador. O segundo traz uma série de apresentações especiais.
Formato Widescreen, preservando o formato original de CinemaScope.
Som Dolby Digital 5.1 (remixado em 2000); tem também a opção de Dolby Surround em dois canais.
Opções de línguas Som original em inglês (com opções de 5.1 e dois canais); dublagens em francês, espanhol e português; legendas em inglês, francês, espanhol e português, mais chinês, coreano e tailandês.
Início Pára no menu principal.
Capítulos 40. Com nomes e relação no encarte. Alguns DVDs, no entanto, foram prensados com um pequeno defeito: depois do capítulo 19, o DVD player reinicia a contagem, voltando ao número 1; não há alteração alguma no filme.
Comentários em áudio ao longo do filme Não tem.
Making of Um excelente documentário de 53 minutos, “The Making of The Bridge on the River Kwai”, dividido em 13 capítulos, com cenas e fotos das filmagens e depoimentos de dez pessoas envolvidas na produção; seqüências do próprio filme são apresentadas. O documentário, dirigido por Laurent Bouzereau, foi feito em 2000. Único defeito: não tem legendas.
Filmetes (1) “The Rise and Fall of a Jungle Giant”, Ascensão e Queda de um Gigante da Selva, um documentário de oito minutos, em preto e branco, feito na época do lançamento do filme, 1957, com cenas e fotos das filmagens, mais cenas relativas à produção. Tem diversas informações interessantes, como, por exemplo, que as filmagens demoraram 221 dias nas selvas do Ceilão (hoje Sri Lanka); havia pessoas de 37 nacionalidades envolvidas na produção; 400 nativos e 235 extras trabalharam na construção da ponte real que aparece no filme; até um dique foi construído rio acima para controlar a vazão, que era extremamente instável por causa das chuvas torrenciais e freqüentes; e a ponte construída para o filme foi de fato explodida, com mil toneladas de dinamite, levados por uma empresa especializada da Inglaterra.
Filmetes (2) “On Seeing Film – Film and Literature”, um documentário de 15 minutos, em preto e branco, feito pouco depois do lançamento do filme pelo Departamento de Cinema da Universidade do Sul da Califórnia. Tem uma introdução com William Holden, especialmente feita para este documentário, e apresenta cenas das filmagens no então Ceilão, enquanto o narrador, com jeitão acadêmico – ridículo e vazio mas querendo parecer profundo –  procura estabelecer paralelos entre a narrativa literária e a cinematográfica. Tem um momento especialmente interessante: Alec Guinness ensaiando – e errando – sua aparição final (cheque o finalzinho desta resenha).
Filmetes (3) “An Appreciation by John Milius”, um documentário de oito minutos, produzido em 2000. Segundo Milius, os executivos de hoje não topariam fazer um filme baseado naquele roteiro, porque, para eles (e para boa parte do público jovem de hoje), não há ação suficiente – embora na verdade o filme não precise, absolutamente, de mais ação do que já tem.
Montagem fotográfica Uma beleza de filmete, de sete minutos de duração, feito em 2000, que é uma colagem de cartazes e fotos para a divulgação do filme, nos mais diversos países e línguas. Vários dos cartazes são de relançamento do filme nos cinemas, porque incluem chamadas do tipo: “Dos mesmos produtores de Lawrence da Arábia“, que é de 1962, cinco anos pós-Rio Kwai. O filmete consegue extrair movimento dos cartazes e das fotos, e dá uma indicação preciosa de como os marqueteiros vendem um produto diferente daquele que o filme na verdade é: há diversas, diversas fotos da atriz Ann Sears – que aparece na tela não mais do que dois ou três minutos.
Trailers e fichas Trailers do próprio filme, mais os de Os Canhões de Navarone,  Lawrence da Arábia e Limite de Segurança. É impressionante como a qualidade de imagem do trailer – não restaurado – parece ruim, em comparação com o filme, que passou por processo de restauração e tem imagem e som absolutamente perfeitos. As fichas têm breve biografia e destaques da filmografia de David Lean, William Holden, Alec Guinness, Jack Hawkins e Sessue Hayakawa.
Encarte A caixa com dois DVDs traz um encarte de 12 páginas, com um texto sobre a produção do filme, escrito na época do lançamento para um livreto promocional, “The Bridge on the River Kwai Souvenir Book”.
Apresentações especiais para DVD-ROM Além de todas os bônus acima, esta edição traz alguns outros extras que não podem ser vistos nos aparelhos normais de DVD, mas sim nos computadores que, em vez de CD-ROM, trazem DVD-ROM. Nada sensacional, mas há gosto pra tudo. Há um joguinho, “Trivia Sabotage”, em que o usuário tem que responder a perguntas sobre o filme enquanto a ponte vai sendo construída. As perguntas são fáceis, e ainda há dicas: surgem clipes do filme, se o usuário tiver dúvida. Quem responder certo um determinado número de perguntas fará explodir a ponte; caso contrário, ela termina de ser feita e um trem com soldados japoneses passa por ela. Há um protetor de tela (com claras instruções para a desinstalação). Há textos sobre a situação real da Segunda Guerra Mundial no extremo Sudeste da Ásia, com mapas da época – é preciso lembrar que Siam, ou Sião, hoje é Tailândia, que Burma, ou Birmânia, hoje é Mianmá, e Rangun hoje é Yangun. E há ainda links diretos para os sites da Columbia TriStar Home Video e Sony Pictures Entertainment na Internet.
Produção e distribuição A produção é da Horizon, a empresa do produtor Sam Spiegel, que fez acordo com a Columbia Pictures para o financiamento e a distribuição mundial do filme. O DVD é da Columbia TriStar.

 

Divisor de fases

 A Ponte Sobre o Rio Kwai dividiu a obra de Lean em duas partes. Antes, como se diz com propriedade no making of no DVD, ele era um diretor de filmes para salas de arte. Tinha feito finas adaptações de textos do conterrêneo multimídia (décadas antes de a expressão existir) Noël Coward, realistas e contundentes adaptações de clássicos de Dickens; tinha se aventurado pela comédia de costumes e feito um drama belíssimo sobre o encontro de duas almas solitárias, Desencanto. A partir de Rio Kwai, sua filmografia ficou mais rala em número – de 1957 até 1984, um período de 27 anos, portanto, fez escassos cinco filmes, média de um filme a cada cinco anos, uma concisão só igualável à de outro mestre, Stanley Kubrick. O que o cinema perdeu em abundância ganhou em beleza e conteúdo. Os cinco últimos filmes de Lean – depois de Rio Kwai vieram Lawrence da Arábia, Doutor Jivago, A Filha de Ryan e Passagem para a Índia – são todos superespetáculos, superproduções caras, longas, de bilheteria milionária, e, ao mesmo tempo, filmes soberbos, sérios, profundos.

A referência a Kubrick não é gratuita. Ele foi o autor, exatamente no mesmo ano de Rio Kwai, 1957, de Glória Feita de Sangue/Paths of Glory. São dois dos melhores filmes sobre guerra jamais feitos, e dos melhores de toda a história do cinema. Pertencem, os dois, à ilustre lista das maiores, mais poderosas obras que a humanidade já produziu sobre a insensatez da guerra.

Foram feitos num momento em que, mal terminada a Segunda Guerra Mundial, o mundo enfrentava outra, a “fria” – a da Coréia já tinha terminado e a do Vietnã estava para (re)começar – e, dentro dos Estados Unidos, a paranóia anticomunista levava a outra insensatez, o macartismo. Rio Kwai foi, ele próprio, vítima e oponente dessa página infeliz da história deles. A Academia indicou o filme para oito categorias, e deu a vitória a ele em sete, inclusive o de roteiro. Os créditos iniciais diziam que o roteiro era de Pierre Boulle, baseado no seu livro.

Era uma mentira deslavada – como se conta, muito bem, no excelente making of do filme realizado agora, em 2000, 47 anos depois de o filme ter sido feito. Pierre Boulle não escreveu uma linha do roteiro; como diz Pamela Mann Francis, assistente de Lean, uma das dez entrevistadas no documentário, possivelmente Boulle nem teria condições de escrever um roteiro em inglês.

A mentira era para encobrir o fato de que os dois profissionais que realmente trabalharam no roteiro, Carl Foreman e depois Michael Wilson, estavam na lista-negra do macartismo. Acusados de “comunistas”, de “atividades anti-americanas”, foram proibidos de exercer a profissão. Em 1956, época em que o filme foi rodado, e 1957, quando foi lançado, aplaudidíssimo e premiadíssimo, seus nomes não podiam aparecer. Só mais tarde os créditos seriam alterados para mostrar a verdade.

Como conta o making of, a novela de Pierre Boulle saiu em 1952 na França. Baseava-se em alguns fatos reais: os japoneses de fato usaram prisioneiros de guerra – americanos, ingleses, australianos – para construírem uma estrada de ferro que ligaria Bangcoc, no então Sião, hoje Tailândia, a Rangun, capital da então Bimânia, hoje Mianmá. Com base nessa verdade histórica Boulle construiu a sua ficção.

Carl Foreman tinha se exilado na Inglaterra, naquele começo dos anos 50; leu a tradução do livro para o inglês, encantou-se com a história e transformou-a num roteiro. O produtor Sam Spiegel leu o roteiro de Foreman e teve a certeza de que era um dos melhores trabalhos que já tinha visto. Convidou David Lean para o projeto – acabava de produzir um filme de Lean, Quando o Coração Floresce/Summertime, com Katherine Hepburn, rodado na Itália. Lean – contam hoje, no DVD, sua assistente, Pamela Mann Francis, e seu colaborador Norman Spencer – estava duríssimo após o segundo divórcio, desta vez com a atriz Ann Todd, e precisando demais de um trabalho bem pago. O problema foi que, ao contrário de Spiegel, ele abominou o roteiro escrito por Foreman; entendia que o trabalho de Foreman deveria ser deixado completamente de lado; escreveu um rascunho, juntamente com o colaborador Spencer, a partir do qual outro roteirista trabalharia.

Spiegel levou para o projeto Calder Willingham – não por coincidência, um dos autores exatamente do roteiro de Glória Feita de Sangue, de Kubrick. Willingham e Lean, no entanto, desentenderam-se feio; Michael Wilson foi então chamado para terminar o roteiro, que entregou praticamente em cima da hora, quando Lean e Spiegel já haviam se instalado com sua grande equipe no meio das selvas do então Ceilão para iniciar as filmagens.

Desse emaranhado de idas e vindas no processo de criação, e seguramente sob a orientação precisa e cuidadosa de Lean, saiu um roteiro absolutamente magistral.

Regras para a insanidade

 O ponto de partida de um dos grandes conflitos de Rio Kwai são as formas díspares com que dois oficiais, um inglês, o outro japonês, entendem a Convenção de Genebra, elas próprias, as várias convenções de Genebra, o símbolo máximo do paradoxo – como estabelecer “regras” para a insanidade total? O coronel inglês Nicholson, interpretado por Alec Guinness, prisioneiro dos japoneses em um campo no meio da selva da Birmânia, em 1943, exige do comandante do campo, o coronel Saito, o cumprimento dos termos da Convenção de Genebra segundo os quais os oficiais presos não podem fazer trabalhos manuais. Teoricamente, se fosse possível se abstrair de todas as condições da realidade, uma atitude sensata, de perfeita lógica. Na prática, algo mais ou menos assim como ensinar geologia no momento exato de um terremoto.

O coronel inglês acha que o japonês está louco. O coronel japonês acha que o inglês está louco. As palavras loucura e louco, aliás, perpassam todo o filme, infindavelmente.

Já no início da narrativa (estamos ainda no capítulo 5 do DVD, do total de 40) há um diálogo extraordinário que define tudo ao mesmo tempo – o personagem do coronel Nicholson, o choque de culturas, o embate impossível de se controlar de visões de mundo em tudo opostas, e a loucura da guerra. É um diálogo entre ele, Nicholson, e o oficial americano Shears, interpretado por William Holden – os dois só iriam se rever na seqüência final do filme, mais de duas horas depois.

– O senhor manterá a lei à risca, custe o que custar? – pergunta o americano.

– Sem lei não há civilização – diz o coronel.

– Este é exatamente o ponto. Aqui não há civilização.

– Então teremos a oportunidade de introduzi-la.

Depois que Nicholson é colocado por Saito numa solitária – um “forno”, sob o sol causticante do trópico – por pedir respeito à Convenção, há outro diálogo extraordinário. O médico inglês, major Clipton, consegue autorização para falar com seu superior e tenta dissuadi-lo de continuar pondo em risco a sua vida e a de seus oficiais por se manter irredutível:

– É uma questão de princípios – diz o coronel Nicholson. – Se abrimos mão agora, não haverá fim.

– Senhor, estamos perdidos na selva, a mil milhas de qualquer lugar. Estamos sob o jugo de um homem (Saito, o coronel japonês) que não se deterá por nada para conseguir o que quer. “Princípio”?  Ninguém jamais saberá o que acontece aqui. Desista, senhor, por favor.

– Sou inflexível. Não terei oficial do meu batalhão trabalhando como um cule.

Coolie. A expressão vem do Oriente, através do inglês usado na Índia, que deu em português cule: trabalhador sem qualquer qualificação. Com uma palavra, Lean e seus roteiristas mostram como funciona a cabeça do oficial inglês, os valores do etnocentrismo, de quem se considera umbigo do mundo, o colonizador das raças inferiores. Lean voltaria ao tema em Lawrence da Arábia e, mais tarde, ainda mais ferozmente anticolonialista, em Passagem para a Índia.

Mais adiante, há ainda outro diálogo fascinante entre o coronel Nicholson e o médico, major Clipton – este funciona na narrativa assim como uma espécie de coro da tragédia grega. O abismo entre as duas formas antípodas de ver o mundo e o que acontece em volta é brutal:

– O senhor está convencido de que construir essa ponte é uma boa idéia? – pergunta o major. (…)

– Honestamente, Clipton, há momentos em que absolutamente não consigo compreender você. (…)

– O fato é que – o que nós estamos fazendo pode ser interpretado como – perdoe-me, Senhor – colaboração com o inimigo, talvez até como traição.

– Você está passando bem, Clipton? Somos prisioneiros de guerra. Não temos o direito de recusar trabalho. (…)

– Sim, mas temos que trabalhar tão bem?

– Se você fosse operar Saito, você faria o melhor possível ou o deixaria morrer?     

Bem mais tarde, na véspera da inauguração da obra, os dois coronéis, o inglês e o japonês, se encontram na ponte, e mais uma vez sai faísca de brilho dos diálogos escritos para o filme. O japonês comenta que está lindo – refere-se ao dia, o sol se pondo na floresta densa –  e Nicholson responde que sim, o trabalho ficou magnífico. E aí, diante do pôr de sol que não é capaz de admirar e sob o olhar silencioso do inimigo que o mantém e a seus soldados presos, ele, o oficial inglês inflexível, cheio de certezas, permite-se uma divagação melancólica, outonal, o questionamento máximo:

– E você fica imaginando e pergunta a você mesmo o que a soma total da sua vida representa, que diferença a sua presença fez para qualquer coisa, ou se fez alguma diferença afinal, de fato.

É uma das cenas mais fantásticas que o cinema já fez. O diretor John Milius (que anos mais tarde faria a extraordinária série de TV Roma) tem razão quando diz, em um dos documentários do DVD, que os executivos dos estúdios de hoje não topariam fazer um filme como este. Tem inteligência demais.

Historinhas

 Eis algumas das histórias e curiosidades sobre o filme que são contadas nas apresentações especiais do DVD:

* A ponte feita no então Ceilão para representar a que os prisioneiros de guerra ingleses ergueram na então Birmânia foi a maior estrutura já construída para um filme, até então. Levou oito meses para ser feita, com a madeira de mais de 1.500 árvores; 48 elefantes ajudaram a carregar os troncos de árvores abatidas para o local da ponte (eles podem ser vistos nos filmetes e no making of).

* A explosão da ponte, em março de 1957, foi filmada por seis diferentes câmaras CinemaScope.

* Só a ponte custou US$ 250 mil, de um orçamento original de US$ 2,8 milhões que estourou – pouquíssimo – para US$ 3 milhões. Nos três primeiros anos após o lançamento, o filme rendeu US$ 30 milhões, dez vezes o custo, portanto. Para lembrar: Titanic custou US$ 200 milhões, o suficiente – não descontada a inflação – pra uns 66 Rio Kwai.

* A existência de um americano na história foi exigência da Columbia, preocupada em garantir algum retorno para seu – na época – gigantesco investimento. Lean e os roteiristas criaram, então, a figura do comandante Shears. Chegou a haver contatos da produção com Cary Grant para o papel, mas acabaram fixando-se em William Holden, na época o maior galã da Columbia e um dos maiores do cinema americano. Ele recebeu US$ 1 milhão – foi o primeiro salário milionário de Hollywood -, mais uma percentagem da renda, o que era uma novidade total.

* Além de um grande astro americano, a Columbia pediu também mulheres no elenco. Lean concedeu cinco. Quatro são as tailandesas – lindas – encarregadas de ajudar o comando aliado a carregar seu equipamento selva adentro. A quinta é uma enfermeira que tem um caso com o americano quando ele é resgatado pelos aliados e levados para Colombo, a capital do então Ceilão; ela sequer tem nome, e aparece na tela no máximo uns três minutos. Apesar disso, está presente em dezenas e dezenas de fotos e cartazes promocionais do filme, conforme mostra o excelente montagem fotográfica, um dos vários bônus do DVD. A moça que interpretou a enfermeira, Ann Sears, era uma jovem inglesa de 23 anos, irmã de Heather Sears, uma atriz que chegou a ter papéis importantes em filmes ingleses da época. Ann, no entanto, não fez carreira.

* Embora já tivesse feito dois filmes com Lean, Grandes Esperanças e Oliver Twist, Alec Guinness não demonstrou muito interesse pelo projeto. Contam que ele pediu a Lean que descrevesse o caráter do seu personagem, e Lean resumiu o coronel Nicholson como “um oficial inglês, sujeito da classe alta, um tédio”. Foi só depois de muito agrado do produtor Sam Spiegel que Guinness aceitou o papel. Ainda bem – para os espectadores e para ele. Foi um dos melhores e mais marcantes desempenhos de sua longa, gloriosa carreira.

* Sessue Hayakawa, o escolhido para interpretar o coronel Saito, era um veterano – o mais velho entre os principais envolvidos na produção. Tinha sido um ator de muitos filmes mudos em Hollywood, e trabalhado na Europa e no Japão. Estava com 67 anos, na época da filmagem – um pouco mais velho do que o personagem, reconhece, no making of, o colaborador de Lean, Norman Spencer. Este conta também que Lean teve que chantagear Hayakawa – dizendo que ele havia estragado toda uma longa seqüência – para obter dele a cena em que o coronel Saito chora aos soluços, sozinho, em seus aposentos, após os ingleses terem tomado completo controle sobre a construção da ponte. O veterano ator foi indicado para o Oscar de coadjuvante, mas perdeu – foi a única das oito indicações de Rio Kwai que não se transformou em estatueta.

* Lean ficava possesso com o fato de que muitos críticos, alguns famosos, de veículos importantes, chegavam atrasados para as exibições especiais para a crítica de seus filmes anteriores, e perdiam dez, 15, 20 minutos da versão final da obra que ele havia levado meses e meses para conceber. Na primeira exibição de Rio Kwai para a crítica, determinou que o filme começasse a ser exibido exatamente às 10 da manhã, o horário habitual dessas sessões – e que as portas da sala de projeção fossem fechadas exatamente às 10 horas. Diversos críticos bateram com o nariz na porta enquanto Lean se divertia no saguão de entrada.

* A marchinha que o batalhão comandado pelo coronel Nicholson assobia, “Colonel Bogey March” – que iria se transformar, ao longo destes 47 anos depois da estréia, no maior símbolo do filme – está lá por decisão específica de Lean. Foi dele a idéia de usá-la; ele achava que todos os ingleses que já haviam passado pelo exército iriam reconhecê-la, e entender o espírito irônico da coisa – era uma marchinha com uma letra pesada, forte demais, para os padrões da época. O roterista Carl Foreman se opôs ferozmente ao uso da música, argumentando que as audiências fora da Inglaterra jamais perceberiam o significado daquilo. E disse uma frase fantástica, segundo cita Norman Spencer no making of: “David, você é um bom diretor de filmes de cinemas de arte, mas não entende nada do cenário do grande mercado internacional”.

Fora dos especiais

 Aqui, detalhes que não estão em nenhum dos muitíssimos extras do DVD:

* Nove dos filmes de David Lean ganharam um total de 26 Oscars, em 55 indicações.

* Lean e o diretor de fotografia Jack Hildyard já haviam trabalhado juntos antes dos três filmes dirigidos pelo primeiro e fotografados pelo segundo. Em Pigmalião, de 1938, Lean era o montador, e Hildyard, operador de câmara.

* Lean começou a sua carreira pelas funções mais humildes. Foi boy, segurador de claquete, assistente de operador de câmara, aprendiz de montador, montou primeiro jornais, depois longa-metragens.

* Só para lembrar: tanto Lean quanto Guinness foram tornados cavalheiros do Império Britânico. O que é, no mínimo, uma amarga ironia.

* O francês Pierre Boulle, o autor do livro A Ponte do Rio Kwai, escreveu também outro livro que se transformaria em um filme interessantíssimo,- embora, claro, bem inferior a Rio Kwai. Ele escreveu O Planeta dos Macacos, publicado pela primeira vez em 1963 – aquela bela trama inspirada no pavor do holocausto final que a guerra fria transmitia.

* O roteirista Michael Wilson foi também quem adaptou o livro O Planeta dos Macacos para o cinema. Ele entrou na lista negra do macartismo já em 1951, o ano em que ganhou o Oscar de roteiro adaptado por Um Lugar ao Sol, de George Stevens, baseado no romance Uma Tragédia Americana, de Theodore Dreiser. Foi um dos artistas de Hollywood que se recusaram a depor diante do nojento Comitê de Atividades Anti-Americanas do Congresso, e um dos que por mais tempo permaneceu sem poder trabalhar. Anos depois de ser roteirista de Lean em Rio Kwai, faria o primeiro roteiro de Lawrence da Arábia, que acabou sendo deixado de lado pelo diretor. 

* Apesar de ter dito a frase imbecil citada acima, e apesar de ter feito um roteiro para Rio Kwai do qual David Lean não gostou, Carl Foreman é um artista que merece todo o respeito. Fez o roteiro soberbo de outro dos melhores filmes da história, Matar ou Morrer/High Noon, de 1952 – uma parábola contra o conformismo e a covardia que ajudam a permitir a existência dos regimes de exceção, como o próprio macartismo então crescente, e que iria fazer do próprio autor uma vítima. Foi o mentor, roteirista e produtor de outro ótimo filme de guerra, Os Canhões de Navarone. E dirigiu um belo, sensível – embora subvalorizado – estudo sobre as raízes da guerra fria, Os Vitoriosos.

A cena final

 Segundo os depoimentos reunidos agora para o DVD, nem David Lean nem Alec Guinness tinham certeza sobre o que significa, afinal, a última, derradeira participação do coronel Nicholson na tragédia. Ele percebe, afinal, que estivera errado o tempo todo? Ou, ao contrário, mantém a mesma posição de sempre, e o que acontece em seguida é totalmente involuntário, puro acidente?

Dizem as testemunhas que o próprio Lean não sabia o que dizer a Guinness, quando a cena foi exaustivamente ensaiada, e o que foi filmado, e aparece na seqüência final, é absolutamente aberto para que o espectador tome a sua decisão.

Deve ser mesmo verdade. Mas, até se não for, o fato é que nesse clímax Lean fecha com brilho especial esta obra-prima. Ao contrário do coronel Nicholson e todas as suas certezas lógicas, ao contrário do coronel Saito e sua determinação ferrenha, ao contrário até mesmo do americano Shears e sua náusea diante de tudo aquilo, Lean apenas apresenta as posições antagônicas, opostas, e nenhuma certeza fechada, absoluta – a não ser a de que tudo é absolutamente insano, sem qualquer sentido.

4 Comentários

  1. lucia zaidan
    Postado em 6 agosto 2008 às 5:57 pm | Permalink

    Mesmo depois de 30 anos, sempre me lembro desse filme, perfeitamete.Não sei, mas creio que o cinemascope deve ter muito a ver com isso. Foi muito grande o entusiasmo ao ver aquele telão comprido pela frente, com aquelas imagens maravilhosas!Como gosto dos seus comentários! É tão bom recordar os filmes que tanto prazer nos deram! Verei, naõ tenha dúvida, o fantástico DVDque vocë citou, com todas as historinhas e curiosidades do filme.

  2. Postado em 25 abril 2010 às 8:51 pm | Permalink

    Comprei esse filme ontem, não sabia que existia em DVD, vi muito jovem, quando foi lançado. Notável, sob todos os aspectos, ainda estou maravilhada, absorvida por tamanho prazer! Em outros blogs tem gente comentando que preferiu ”Apocalipse Now”, deve ser gente muuuiiito jovem, né não? eh eh eh…
    Seu comentário, do princípio ao fim, está admirável, não falta nada nada nada, a gente parece que revê o filme – e seu estilo é absolutamente encantador, parabéns e muito obrigada!

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 27 abril 2010 às 4:22 pm | Permalink

    Cara Luíza, muito obrigado pelo seu comentário extremamente simpático.
    Agora, que o “Apocalypse Now” também é um grande filme, lá isso é, concorda? Aliás, preciso revê-lo para escrever um comentário…
    Mais uma vez, obrigado, e um abraço.
    Sérgio

  4. joão américo
    Postado em 6 setembro 2011 às 6:56 pm | Permalink

    gostei muito de assitir esse filme penas que é dificil de assistir novamente mas muito lindo

9 Trackbacks

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