
Nota: 



Anotação em 1999: Eis aí um filme absolutamente ruim e absolutamente intrigante: como é possível que o Anselmo Duarte tenha feito isso em 1957 e, apenas cinco anos depois, O Pagador de Promessas? Como é possível que ele tenha aprendido tudo em cinco anos? É ruim demais da conta; é tão caricaturalmente mal feito que até parece aqueles filmes propositalmente idiotas do tipo Apertem os Cintos que o Piloto Sumiu. Os atores todos são absolutamente lastimáveis, como se estivéssemos no pior dos programas de humor de décima-nona categoria de televisão ruim. Os diálogos são horripilantemente horrorosos, grotescos. As cenas de lutas são forçadas, ridículas. Tudo é extremamente amador no pior sentido do termo, no sentido de falta de domínio da mais básica técnica. Para enrolar os cerca de 90 minutos, há umas dez cenas musicais, do pior nível possível.
E, no entanto, é um interessante documento histórico – pelas cenas filmadas nas ruas da São Paulo de 1957 (que cidade fascinante!), pelo que mostra da TV brasileira aos sete anos de idade, pela ingenuidade ginasiana, e exatamente pelo fato de ter sido dirigida pelo primeiro e até hoje único brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes.
E, ainda, pelo fato de ter se antecipado quatro décadas ao grande Quiz Show de Robert Redford – os dois abordam o mesmo tema, os programas de TV em que os convidados têm que responder a perguntas feitas pela produção..
Vamos aos alfarrábios.
Fantástico: o Dicionário de Cineastas de 1988 do Rubinho Ewald não tem Anselmo Duarte. Segundo o Dictionnaire du Cinéma – Les Réalisateurs, do Jean Tulard, este foi o primeiro filme dirigido por ele. O seguinte foi O Pagador, que obteve “la palme d’or à la surprise générale”. Salvyano Cavalcante de Paiva confirma que este foi o filme de estréia de Anselmo Duarte na direção.
Absolutamente Certo!
De Anselmo Duarte, Brasil, 1957.
Com Anselmo Duarte, Aurélio Teixeira, Odette Lara, Dercy Gonçalves, Maria Dilnah, Ambrósio Fragolente
Roteiro Anselmo Duarte e Talma de Oliveira
Argumento Jorge Iléli e Jorge Dória
Fotografia Chick Fowle
Música Enrico Simonetti
Produção Oswaldo Massaini, Cinedistri
P&B, 95 min.


2 Comentários
Discordo frontalmente de sua análise. É uma chanchada deliciosa. Na época, o filme (ou a
fita) obteve um sucesso de bilheteria espetacular, o que possibilitou a realização de O PAGADOR DE PROMESSAS. Lamentavelmente,
ainda não foi dado a Anselmo o reconhecimento devido. Ele foi o grande galã do cinema nacional nos anos 50. Era um bom
ator. Dercy está notável como a sogra e dona
do televisor do quarteirão. Sociologicamente,
o filme é remarcável por exibir a situação da classe média baixa da periferia e mostrar
o fenômeno da televisão em seus primórdios,
quando um vizinho mais ousado, ou mais bem
situado economicamente, adquiria o aparelho e
toda a vizinhança – quando não convidada – se
postava na janela para “espiar”…E, ainda há
Eliana, Aurélio Campos como apresentador (ele apresntava o “quiz” O CÉU É O LIMITE”, o
programa de maior sucesso na época; depois, foi vereador, ou deputado estadual, não me recordo direito), Paulo de Jesus (nosso mais
brilhante e técnico pugilista da época), etc. Talvez, não fora esse filme e não recordaríamos desses rostos saudosos… Perdoe-me a discordância veemente, mas esse
filme foi um dos prediletos de minha infância e de meus irmãos, e por esse motivo
eu tenho seu DVD.
Caro Mario, agradeço muito por seu comentário, rico, informativo.
É extremamente salutar para mim, e enriquecedor para o site, receber comentários com opiniões diferentes das minhas.
Um abraço, e, mais uma vez, obrigado.
Sérgio