A Reserva / Reservatet

4.0 out of 5.0 stars

(Disponível na Netflix em 2/2026.)

Entre os personagens de A Reserva/ Reservatet, minissérie dinamarquesa de 2025, há uma policial investigando um caso, e o gênero “policial” tem sido usado para classificá-la. Sim, há elementos de uma história policial. Mas A Reserva é sobretudo um drama familiar – um belo, sensível, muitíssimo bem escrito e realizado drama familiar.

Um drama familiar que destaca, realça, evidencia um tom de comentário social – o fosso entre classes sociais em um dos países mais ricos, mais desenvolvidos, de melhor qualidade de vida do mundo.

A partir do desaparecimento de uma garota filipina que trabalha como au pair na casa de uma família milionária, a história criada pela jovem roteirista Ingeborg Topsøe aborda, de forma séria, uma grande gama de temas importantes. A suspeita sobre as ações do cônjuge amado. Os problemas da criação de filhos, a dificuldade de se aproximar de fato do filho que está entrando na adolescência. Os perigos dos grupos de mensagens de adolescentes – sempre puxando os garotos para atos mal-intencionados.

E mais: a sempre difícil convivência entre patroa e empregada doméstica – mesmo quando a patroa é, como a personagem central da trama, Cecilie, uma pessoa de excelente caráter, compreensiva, amável, que trata muitíssimo bem a au pair de seu filho, Angel.

E pior: os preconceitos de classe e de raça, a xenofobia. A arrogância, a soberba que parecem inatas dos ricos demais.

A Reserva tem uma trama envolvente, muitas vezes abertamente emocionante, e é muitíssimo bem realizada em todos os quesitos. Os personagens são muito bem desenhados, e as intepretações são excelentes, nordicamente impecáveis.

Famílias entre as mais ricas do país rico demais

Praticamente toda a ação da minissérie se passa em um bairro de gente muito rica da região chamada de Nordsjælland, ou North Zealand, ao Norte de Copenhagen. Os créditos iniciais – que rolam, como agora parece ser o padrão tanto nos filmes quanto nos episódios das séries, após uma breve abertura em geral com um acontecimento forte, impacantes – aparecem sobre um conjunto de tomadas aéreas da região feitas seguramente com a câmara em um drone, e mostram que aquilo ali é uma área exclusiva de famílias ricas, muito, muito ricas. Um lugar reservado para poucos – esse é, obviamente, o sentido da palavra que é o título original da série, Reservatet.

A rigor nem seria necessário, mas o IMDb faz questão de informar: ”Reservatet é também o nome da região da classe alta ao Norte de Copenhagen”.

Interessante: os exibidores brasileiros – da Netflix – mantiveram o sentido original no título da série aqui, A Reserva. Tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, optou-se por um título, digamos, mais chamativo: Secrets We Keep, segredos que mantemos. que guardamos. Mais atraente, mais chamativo, talvez – mas também muito apropriado: ao longo dos seis episódios da série (de cerca de 35 minutos cada), o espectador vai ficando conhecendo mais e mais segredos das duas famílias que vivem ali e em torno das quais gira a história.

Gente muito rica em um dos países mais ricos do mundo. A Dinamarca tem o nono maior PIB per capita do planeta, segundo o Fundo Monetário Interacional. Acima de seus vizinhos Suécia e Finlândia, acima do Canadá e da Alemanha. É o quarto país de melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), segundo a ONU.

Diacho: ser dos mais ricos em país que é dos mais ricos é danado.

Duas famílias muito próximas – mas bem diferentes

Cecilie e Mike (os papéis de Marie Bach Hansen e Simon Sears, nas duas fotos acima) são daqueles privilegiados entre os privilegiados, os happy few, como dizem os de língua inglesa.

Moram em uma casa não menos que espetacular, debruçada sobre o mar lindíssimo que ali mais parece lagoa serena. Têm um filho de uns 13, 14 anos, Viggo (Lucas Zuperka, um ator mirim de talento impressionante), e uma garotinha que está aí perto de 1 ano, Vera.

Ao contrário do que os miseráveis, os pobres e nós, os remediados – ou seja, uns 98% da população do planeta – achamos, os muito ricos também têm problemas na vida. Cecelie, mulher de bom caráter, como já foi dito, uma pessoa correta, boa, sensível, inteligente, teve problemas seriíssimos assim que Viggo nasceu. Não se usa a expressão “síndrome pós-parto”, mas parece que ela teve isso – e, apesar de se esforçar, de fazer todo o possível, nunca conseguiu ter uma relação absolutamente tranquila e afetuosa, solta, com o filho. Nunca houve entre eles uma grande intimidade. E Viggo, segundo a série nos mostra, é um garoto de boa índole, sim, sensível, inteligente – mas um tanto tímido, um tanto introspectivo, não muito expansivo, sociável.

Cecilie e Mike têm uma relação basicamente boa. Veremos, lá pela metade da narrativa, que Mike, diferentemente da mulher, veio de classe social mais baixa; quando jovem, pobre, com más companhias, teve problemas. Mas ralou, estudou, formou-se em Direito, virou um advogado de sucesso.

A au pair deles, Angel (Excel Busano), uma filipina simpática, amável, trabalhadora, conquistou totalmente o garoto Viggo. Viggo tem adoração por ela, confia plenamente nela; gosta de dormir com ela por perto.

A família Cecilie e Mike tem laços profundos com os vizinhos e amigos Katarina e Rasmus (os papéis de Danica Curcic e Lars Ranthe, na foto abaixo).

Laços profundos, muito profundos. Cecilie e Katarina são amicíssimas. Mike trabalha com Rasmus. Oscar, o filho do casal, é colega de escola de Viggo – os dois são os melhores amigos, não se largam. A au pair de Katarina, Ruby (Donna Levkovski), é amicíssima de Angel; pertencem ao mesmo círculo de empregadas domésticas filipinas ali da região, frequentam juntas os mesmos lugares, a mesma igreja católica.

Há, no entanto – a série mostra isso de cara, e vai mostrando cada vez mais –, diferenças imensas entre uma família e outra.

Para começo de conversa, Rasmus é muitíssimo mais rico do que o casal de amigos. É herdeiro de uma família milionária dona de empresas – um representante da quarta geração de milionários. Mike trabalha como advogado para as empresas dele. São bastante amigos, sim – mas Rasmus paga honorários para Mike. Um não é exatamente o patrão do outro, mas é praticamente como se fosse.

As diferenças não param.

Oscar, o filho do milionário Rasmus, é do tipo mandão. É o líder de um grupo de garotos da escola, daquele tipo que enche o grupo de zap deles de filmetinhos de sacanagem, e exige que todos os demais façam a mesma coisa.

E, enquanto Cecilie, bom caráter, trata sua au pair Angel com todo o respeito e consideração, Katarina – a série não demora nada a mostrar – é uma racista filha da puta.

No primeiro dos seis episódios da minissérie, Ruby, a au pair de Katarina, desaparece.

Uma trata bem a au pair. A outra trata a sua como ser inferior

Au pair. Há uma certa hipocrisia em redor desse termo, me parece. Uma certa, ou, talvez melhor dizendo, uma imensa hipocrisia.

Segundo a série indica, e como o Google mostra, au pair é uma pessoa de país pobre que faz uma espécie de intercâmbio com uma família européia. A au pair “cuida das crianças e faz tarefas leves em troca de moradia, alimentação, mesada e oportunidade de aprender o idioma local”. Exige-se dela visto de entrada, documentos.

Na prática, na verdade dos fatos – a série mostra claramente – a au pair é uma babá, que acaba virando uma empregada doméstica.

Cecilie, boa pessoa, trata Angel com respeito, dignidade, como já foi dito. Angel faz as refeições à mesa da sala, junto com o garoto Viggo e os pais, quando os pais estão em casa. Mora em um quarto amplo, confortável, em um porão, que, como a casa é em um terreno em declive, tem janela com vista para o mar. Tem um laptop, está fazendo um curso para vir a ter no futuro seu próprio pequeno negócio. (Na foto abaixo, Excel Busano, que faz Angel.)

Katarina trata Ruby como um ser inferior.

Diacho, a vida é assim – seja na Dinamarca, seja aqui neste país enfiado no fundo do Terceiro Mundo. Há quem trate a doméstica com respeito, dignidade – há quem trate a doméstica como um ser inferior.

Insisto nisso porque a série trata bastante dessas questões. A Reserva não é, de forma alguma, um whodunit, uma história em que o que mais importa é o quem fez, quem matou.

Mas, sim, ele tem sua porção whodunit. Não é o fundamental, mas o quem fez, quem matou, está lá.

Uma policial novata dedica imensa atenção ao caso

O desaparecimento de Ruby deixa sua amiga Angel arrasada – e veremos que toda a comunidade de empregadas filipinas da região também. A garota era conhecida e muito querida.

Katarina demonstra para a amiga Cecilie certeza de que a moça foi embora por ter encontrado um emprego que pagasse mais. Chega a sugerir que Ruby tenha resolvido se prostituir. Cecilie, bem diferentemente, fica preocupada. Numa sequência interessante, ela vai até o quarto de Ruby na casa da amiga, abre gavetas – e numa delas encontra o passaporte da moça, com algumas notas dentro dele. Ora, quem abandona por livre e espontânea vontade a casa em que vive não deixa lá o passaporte e dinheiro.

Por um desses acasos de que é feita a vida – tanto a real quanto a da ficção –, Cecilie havia ficado sabendo que Ruy comprara um remédio para fazer teste de gravidez.

Um dia ou dois depois do desaparecimento, e após cobranças feitas por Cecilie, o casal Rasmus e Katarina informa a polícia sobre o caso.

Um policial em cargo de chefia na grande delegacia do lugar, Carl (Henrik Prip), escala uma iniciante chamada Aicha (Sara Fanta, na foto abaixo) para investigar o desaparecimento da au pair. A série deixa bastante claro que esse Carl considera o caso pouquíssimo importante – para ele, a vida de uma imigrante filipina não vale coisa alguma. Aicha, no entanto, vai se empenhar no trabalho, com a maior dedicação e seriedade.

Uma das pessoas que Aicha interroga – além da patroa da moça, Katarina, e sua amiga Cecile – é o padre da paróquia local. O padre – cujo nome não é falado em momento algum, embora o personagem tenha uma certa importância, e apareça em várias sequências – diz que não pode revelar nada, já que o segredo da confissão é inviolável. Bem mais adiante, procurado novamente, ele vai dar informações à policial. (O ator que faz o padre se chama Claudio Morales.)

O fato de Ruby ser católica praticante, fervorosa, tem importância na investigação de seu desaparecimento.

E o fato de a comunidade filipina naquela região de dinamarqueses riquíssimos ser católica também me pareceu um detalhe importante na trama criada por Ingeborg Topsøe.

Cinco dos atores foram indicados ao Oscar dinamarquês

A dinamarquesa Ingeborg Topsøe é da classe de 1985 – estava. portanto, com 40 anos quando foi lançada a minissérie A Reserva. Estudou Filosofia na Universidade de Copenhagen, ganhou uma bolsa de um ano na UCLA, Universidade da California em Los Angeles, onde estudou escrita criativa, e depois cursou a National Film & Television School de Londres. Seu trabalho de graduação foi o roteiro do curta Volume, de 2012, dirigido por Mahalia Belo, que venceu na categoria de melhor curta do British Independent Film Awards e foi selecionado para exibição no Sundance.

O longa Kød & Blod, nos Estados Unidos Wildland, de 2020, aparentemente não lançado no Brasil, com roteiro de Ingebord Topsøe e da diretora Jeanette Nordahl, foi exibido no Festival de Berlim, recebeu ótimas críticas e teve indicação ao Robert, o Oscar do cinema dinamarquês, na categoria de melhor roteiro original.

Nada menos de cinco atores de A Reserva receberam indicações ao Robert da Academia Dinamarquesa. Sempre nas categorias referentes a séries de TV, é claro, foram indicados Marie Bach Hansen como melhor atriz, Simon Sears e Lars Ranthe como melhor ator coadjuvante, e Danica Curcic e Sara Fanta como melhor atriz coadjuvante. (Para lembrar: eles fazem, pela ordem, os papéis de Cecilie, Mike, Rasmus, Katarina e Aicha.)

Nenhum deles acabou levando para casa a estatueta do Oscar dinamarquês – mas, diacho, o fato de que os cinco principais atores foram indicados é uma bela confirmação de que, como eu disse lá no início deste comentário, as interpretações são impecáveis.

Os atores não ganharam – mas A Reserva levou o Robert de melhor série de TV.

É uma beleza de série.

Anotação em fevereiro de 2026

A Reserva/Reservatet

De Ingeborg Topsøe, criadora, Dinamarca, 2025.

Direção Per Fly

Com Marie Bach Hansen (Cecilie), Simon Sears (Mike, o marido de Cecilie), Lucas Zuperka (Viggo, o filho de Cecilie e Mike), Excel Busano (Angel, a empregada de Cecilie),

Danica Curcic (Katarina), Lars Ranthe (Rasmus, o marido de Katarina), Frode Bilde Rengsholt (Oscar, o filho de Katarina e Rasmus), Donna Levkovski (Ruby, a empregada de Katarina),

Sara Fanta Traore (Aicha, a policial), Henrik Prip (o chefe de Aicha), Gel Andersen (Kim Flores, amiga de Angel e Ruby), Nilda Stehr (Ona), Claudio Morales (o padre), Isabelita Reyes (Darna, amiga de Angel e Ruby), Asta Tvilling Jensen (Vera, a filhinha de Cecilie e Mike)

Roteiro Ingeborg Topsøe, Ina Bruhn, Mads Tafdrup

Argumento Ingeborg Topsøe

Fotografia Jasper Spanning

Música Halfdan E

Montagem Anja Farsig, Kasper Leick, Frederik Strunk

Casting Anja Philip

Desenho de produção Niels Sejer

Diretor de arte

Figurinos Rebecca Richmond

Produção Claudia Saginario, Uma Film.

Cor, cerca de 210 min (3h30)

Título nos EUA e Reino Unido: “Secrets We Keep”.

****

Titulo no Reino Unido e nos EUA: “Secrets We Keep”. Em Portugal: “Reservado”.

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *