
(Disponível na Netflix em 10/2025.)
A produção é alemã, de 2025; toda a ação se passa na ilha espanhola da Mallorca, e o título original é em inglês, esse esperanto que foi adotado praticamente no mundo inteiro – Fall for Me. Caia de amor por mim, Países de língua não inglesa, como a França e a Itália, mantiveram o original Fall for Me. O país em que se passa a história adotou o mesmo verbo no imperativo, mas em espanhol, Caerás – e foi seguido pela Argentina, pelo México.
Os portugueses foram de Só Te Quero a Ti. Os brasileiros, de Quero Você.
Tem sido classificado, no IMDb e em sites mundo afora como thriller erótico, e o rótulo é perfeito para o filme da diretora Sherry Hormann, sobre roteiro original – com trama criada diretamente para o cinema – de Stefanie Sycholt. Diretora mulher, autora e roteirista mulher – e são mulheres as duas das personagens centrais da história, duas irmãs. Sim: definitivamente, é um filme feminino, e feminista.
Um thriller erótico feminino, feminista.
Para mim, Fall for Me pareceu, muitas vezes, uma caprichada peça publicitária sobre a estupenda, acachapante beleza de Mallorca.
Há dezenas e dezenas e dezenas e mais dezenas de espetaculares planos gerais da ilha – a ilha vista do mar, a câmara seguramente em um drone sobre o azul intenso do Mediterrâneo; trechos da ilha vistos de cima, a câmara em drone voltada diretamente para baixo, a vegetação exuberante, de encher os olhos de prazer. Trechos de Palma, a maior cidade da ilha, com casario lindíssimo. Casas ricas, amplas, maravilhosas – ali chamadas de fincas – no meio da mata e com vista deslumbrante para o mar.
Esse aparente ar de propaganda da Secretaria de Turismo da Mallorca, a exibição constante de toda a beleza do lugar – seguramente um dos lugares mais deslumbrantes da Europa –, e mais o fato de que todos os personagens são muito belos, elegantes, e só andam em ambientes de riqueza, tudo isso chegou até a me incomodar, no início do filme. Pensei em parar de ver e procurar outra coisa.
Essa impressão inicial é totalmente falsa. Era mesmo fundamental que se insistisse tanto em mostrar as belezas da ilha. Porque o tema de fundo do filme – que demora um tanto a ser apresentado às claras ao espectador – é exatamente a exploração comercial daquele paraíso, a exploração imobiliária que passa por cima de tudo. A capacidade que o ser humano tem de cometer os atos mais absurdos, insensatos, criminosos pela ambição, pelo apego ao lucro.
A capacidade que o homem tem de criar e destruir coisas belas, como diz o poeta.

A irmã mais velha vai visitar a que mora em Mallorca
Fall for Me abre exatamente com um plano geral, uma visão panorâmica de um trecho da ilha, a câmara colocada sobre o mar – e a paisagem é de fato paradisíaca. São falésias dando para o mar de azul profundo, e, um tanto distantes, algumas edificações baixas, nada agressivas, que se incorporam à paisagem. Mais para trás, uma área de floresta densa, de um verde amazônico, e, ao fundo, belíssimas montanhas.
Uma beleza acachapante.
Uma voz feminina em off diz: – “Você sabe o segredo de um golpe bem-sucedido? O golpista sabe exatamente o que você mais deseja.”
Corta, e vemos uma imagem submarina, a câmara colocada mais para o fundo, voltada para cima, para a superfície, para a claridade, uma mulher mergulhada, usando não maiô ou biquíni, mas um vestido.
A voz em off conclui o intróito: – ‘E, no momento certo, ele dá pra você;”
Nova tomada submarina – agora vemos o rosto da mulher, e outro corpo caindo na água.
Diversas tomadas bem rápidas, e surge o título, em letras gigantescas: Fall for Me.
A câmara na altura do chão, close-up de uma mala não muito grande, com rodinhas, levada por uma mulher de calças compridas pretas e sapato preto de salto alto.
Veremos que é Lilli, a protagonista da história, chegando ao aeroporto de Palma de Mallorca, para visitar sua irmã oito anos mais nova, Valeria, que vive na ilha.
Valeria é uma jovem bonita – mas Lilli é um espanto de beleza. A câmara da realizadora Sherry Hormann e seu diretor de fotografia Marc Achenbach vão abusar de close-ups do belíssimo rosto, inclusive em diversas sequências de sexo.
Valeria, a irmã mais nova, é o papel de Tijan Marei. Lilli (à esquerda na foto abaixo), a mais velha, o de Svenja Jung (à direita). E aqui falo das idades, porque acho a idade dos personagens um elemento fundamental. Tijan Marei é berlinense da safra de 1996, e estava portanto com 29 anos quando o filme foi lançado. Svenja Jung é de uma cidade do interior da Renânia-Palatinado, classe de 1993, 32 anos em 2025.
A diferença de idade entre as duas atrizes é de apenas três anos, mas a das personagens é maior, é de oito anos – e não há problema algum nisso. De fato, Valeria-Tijan Marei parece bem mais jovem que Lilli-Svenja Jung – e o espectador verá que a diferença de idade entre as duas irmãs é bastante importante na trama.
Em um diálogo lá pelo meio da narrativa, Lilli conta que seu pai sempre foi ausente – mas o pai de Valeria tinha sido mais ausente ainda. A mãe delas havia morrido quando Lilli tinha apenas 18 anos – e ela acabou sendo a pessoa que criou a irmã mais nova. Sempre se sentiu de uma certa forma responsável por ela.

A irmã mais jovem tem grandes planos
Lilli havia batalhado, ralado, estudado, e era uma jovem profissional em boa situação – trabalhava como auditora fiscal, e tinha clientes importantes. Valeria, diferentemente da irmã mais velha, não tinha se dedicado a estudos – e, a rigor, não fica muito claro do que ela vivia. Talvez de mesada da irmã. Não é dito explicitamente, mas pode ser.
Valeria recebe a irmã com a maior alegria – e muitas novidades. Está com um carro esporte caríssimo quando vai receber Lilli no aeroporto. E está de caso sério, bastante sério, casamento à vista, com um garotão bonitão, Manu (Victor Meutelet). O casal havia alugado uma belíssima finca, onde Lilli ficaria hospedada, bem à vontade, para descansar naqueles dias de férias, enquanto eles dois estavam em uma casa alugada mais perto da cidade.
Aquela finca de sonho, com vista espetacular para o Mediterrâneo, o casal pretendia comprar para transformar no que aqui no Brasil chamaríamos de uma pousada, uma pousada de charme. Manu – explica ela para a irmã – entraria com metade da grana e ela com a outra metade, tirando a parte dela da herança da mãe. Inclusive com a venda, que já vinha sendo acertada, da propriedade que a mãe havia deixado para elas, uma propriedade junto a uma mata natural de um lado e as falésias diante do mar.
Lilli reage com surpresa e indignação à possibilidade de vender a propriedade que a mãe havia deixado para as duas.

A visitante conhece um bonitão – e cai de amores
Aqui faço umas observações que seguramente vêm do meu lado de idiota da objetividade.
Detalhinhos sobre o passado dos personagens não têm, necessariamente, que ser explicados, explicitados. E é bom, é interessante, que não se deixe tudo explicitado, tintim por tintim – até para deixar o espectador imaginar por si próprio alguns pontos. Pois é. Mas o fato é que a autora e roteirista Stefanie Sycholt não se preocupou nem um pouquinho em nos contar algumas informações básicas sobre a mãe das duas protagonistas da história.
Muito certamente ela era uma alemã, é claro. Talvez uma alemã de família com dinheiro, mas sonhadora, aventureira, que resolveu fugir de seu país frio e rígido e se estabelecer naquele paraíso quase tropical, quase caribenho, quase baiano. Com a grana dos pais, tinha comprado aquela propriedade em lugar paradisíaco. E tinha tido as duas filhas, com homens que não deveriam, de forma alguma, ter o direito de serem pais, porque sumiram no mundo e nunca deram atenção às meninas.
É. Dá para o espectador formar uma historinha assim – ou outra qualquer. O filme não nos conta.
O que o filme conta é que a jovem Valeria queria vender a propriedade – mas aquilo nem passava pela cabeça da madura Lilli.
É mostrado também que a casa da propriedade estava em ruínas. O eventual comprador teria que botar aquilo abaixo e fazer outra edificação. E a área toda em volta era de preservação.
Todas essas informações – as explicitadas e as não explicitadas – são importantes na trama.
Mas o que aparece mesmo na tela é que, numa bela boate de Palma a que é levada por Valeria e Manu, ainda bem no início dos 103 minutos do filme, Lilli fica conhecendo Tom (Theo Trebs), um garotão bonito pra cacete, sedutor, envolvente, e aí ela fall for him! Cai por ele, literalmente!
E aí dá-lhe sequências eróticas.
Na primeira delas, Lilli sai da boate e vai até uma grande e deserta varanda, de onde, encostada à murada, fica diante daquela beleza de casario pensando sabe-se lá o que. Aí Tom vem por trás dela, aprochega-se, encosta. A moça gosta. O rapagão enfia a mão embaixo do vestido dela, vai até a xoxota – e a câmara se deleita com o rosto lindo de Svenja Jung quase gozando, em close-up.

Sherry Hormann é uma realizadora de respeito
Fall for Me não tem um único defeito no que diz respeito à moral, aos valores. Não defende nada que seja moralmente errado. Bem ao contrário: expõe um cenário que é tipo meninas, senhoras, mulheres de todas as idades, cuidado com os perigos. Estejam atentas – sempre.
Mas me pareceu tudo muito bonitinho demais. Tudo irrepreensivelmente lindo, limpinho. Asséptico – como os filmes publicitários.
Fiquei surpreso ao saber, filme terminado, que a realizadora germano-americana Sherry Hormann era a mesma que havia feito Flor do Deserto, co-produção Reino Unido-Alemanha-Áustria de 2009 que é um grande filme, uma beleza, uma obra importante, necessária, que conta, e conta muito bem, uma história real – trágica e bela – que todas as pessoas deveriam conhecer, a de Waris Dirie, nascida no deserto da Somália, que sofreu mutilação na vagina, transformou-se em top model, capa das revistas mais importantes da área em todo o mundo, e uma ativista contra a prática horrenda comum entre povos africanos.
Diacho! A mulher é uma realizadora de respeito!
Vi este Fall for Me pouco depois do seu lançamento mundial na Netflix, que foi em 21 de agosto de 2025. Em outubro, quando vi o filme, ele estava com apenas 4,8 em 10, média de 4,4 mil leitores do IMDb. No Rotten Tomatoes, ele não tinha ainda número de críticas nem de votos de leitores para ter média no Tomatometer e no Popcornmeter.
Nem os doutos críticos nem os seres humanos normais haviam dado bola para este Fall for Me.
Anotação em outubro de 2025
Quero Você/Fall for Me
De Sherry Hormann, Alemanha, 2025
Com Svenja Jung (Lilli, a irmã mais velha),
Tijan Marei (Valeria, a irmã mais nova),
Theo Trebs (Tom),, Victor Meutelet (Manu, o namorado de Valeria), Thomas Kretschmann (Nick, o empresário imobiliário), Antje Traue (Bea, a ex-namorada de Manu), Lucía Barrado (Girasol, a mulher de Nick), Canan Samadi (Elena), Sienna Fournet Hoeltschi (Soledad)
Argumento e roteiro Stefanie Sycholt
Fotografia Marc Achenbach
Música Martin Todsharow
Casting Luci Lenox
Produção Quirin Berg, Christina Henne, Max Wiedemann,
Netflix Studios, W&B Television, Ánima Stillking Films.
Cor, 103 min (1h43)
**1/2
Título nos EUA, Reino Unido, França, Itália: “Fall for Me”. Em Portugal: “Só Te Quero a Ti”. Na Espanha, Argentina, México: “Caerás”.
