
(Disponível no Prime Video em 2/2026.)
Mostrar os horrores do nazismo, do Holocausto, nunca é demais. Sim, já foram feitas dezenas, centenas de filmes sobre eles – mas nunca é demais. É preciso que os crimes abomináveis não sejam jamais esquecidos – e a minissérie Os Arquivos Menten, produção dos Países Baixos de 2016, cumpre muitíssimo, muitíssimo bem esse papel. Mas faz bem mais que isso.
Ao contar a história real dos crimes bárbaros, chocantes, inimagináveis de Pieter Menten e da luta de um jornalista para torná-los públicos, a minissérie vai bem fundo na demonstração de como foi difícil para as instituições dos Países Baixos finalmente conseguirem fazer o criminoso de guerra pagar por seus crimes.
Se o assassino de centenas de pessoas for muito rico – demonstra a série –, sua impunidade está praticamente garantida. E isso não apenas nos confins do Terceiro Mundo, como Uganda, Botsuana ou Brasil, mas também em Amsterdã, esse lugar que sempre nos pareceu sinônimo de desenvolvimento, qualidade de vida e liberalidade de costumes.
Os Arquivos Menten é também uma vigorosa, contundente defesa do jornalismo – mais uma bela demonstração feita pelo cinema daquela verdade que também deve ser repetida sempre, para que ninguém esqueça: o jornalismo está para a democracia assim como o oxigênio para a vida.

Um leilão de objetos antigos – roubados de judeus na guerra
Na primeira sequência da minissérie, um grande grupo de pessoas – judeus, veremos – é levado por soldados nazistas para perto de uma grande cova escavada no campo. Junto dela há uma metralhadora montada em um cavalete. Um letreiro informa o quando e o onde: “Podhorodze, Polônia, 1941”.
Corta, e um novo letreiro informa que estamos em “Amsterdã, 1976”. Um locutor de rádio está informando sobre um leilão de objetos de grande valor – móveis, tapetes, estátuas, porcelanas, relógios, antigos objetos de prata – “de propriedade do colecionador holandês Pieter Nicolaas Menten”.
Uma senhora bem idosa, que se identifica como Boas (o papel de Ditha van der Linden) está ligando à procura do sr. Knoop. Diante dela, na mesa em que fica o telefone, está um jornal aberto na página em que há um grande título: “Colecionadores holandeses são espécie em extinção”.
E aqui entram os créditos iniciais.
Os créditos são caprichados, interessantes visualmente – mas talvez haja ali uma concentração de informações um tanto grande demais para o espectador assimilar, a não ser que ele, como eu, goste de parar a imagem, voltar, ver de novo, e se for o caso ver mais uma vez, e ainda outra.
Vemos imagens de uma rotativa imprimindo uma edição de jornal – e fotos nas páginas do jornal que está sendo rodado nos mostram os principais atores da série, com seus nomes. Uma tomada de crânios humanos sendo colocados numa madeira se intromete no meio das que mostram o papel correndo pelas rotativas.
São quatro os atores que vemos nas fotos do jornal que está sendo rodado:
* Guy Clemens (na foto abaixo), que interpreta o jornalista Hans Knoop;
* Aus Greidanus, que faz Pieter Menten, o ricaço colecionador de arte e de objetos antigos, e que – conforme veremos ao longo da série – foi um colaborador dos nazistas no interior do Polônia; nas sequências passadas durante a Segunda Guerra, Pieter Menten é interpretado por Arian Foppen (na foto acima);
* Noortje Herlaar, que faz Betty Knoop, a jovem e bela mulher de Hans, mãe de seus dois filhos pré-adolescentes;
* Carine Crutzen, que interpreta Meta Menten, a mulher de Pieter Menten.
Essa sequência com as rotativas imprimindo um jornal, entremeada por tomadas em preto-e-branco de crânios humanos, é bem rápida, e nela não cabem todos os créditos iniciais. Em cada um dos três episódios, os nomes dos demais principais atores e dos chefes das equipes técnicas vão surgindo sobre tomadas já de ação.

No primeiro episódio, assim que termina a sequência rápida em preto-e-branco, estamos na redação da revista Accent. Hans Knoop, o homem que a velha senhora Boas procurava, o editor-chefe da revista, está chegando à redação. Logo que chega, vários editores o cercam e ali, de pé, eles fazem uma reunião de pauta. À pergunta de Knoop de que assuntos temos, seus editores falam da candidatura de Jimmy Carter à Presidência dos Estados Unidos, do golpe de estado na Argentina, do novo casamento de Frank Sinatra. A uma sugestão de um editor sobre os procedimentos de uma clínica, Knoop responde: – “Moralismo fica para a imprensa de esquerda”.
Uma boa maneira que os roteiristas Jan Harm Dekker e Robert Jan Overeem encontraram para lembrar o espectador de alguns fatos daquele ano de 1976 – e que a revista Accent é uma publicação de direita.
(A série não se dá ao trabalho de explicitar muito claramente o que talvez para o público dos Países Baixos seja conhecido demais, mas a Accent é a revista semanal do jornal Telegraaf, um dos mais importantes do reino.)
A secretária de Hans o avisa sobre o telefonema da sra. Boas, mas ele não liga de volta para ela.
A sra. Boas é persistente. Conhece a lanchonete perto da redação que Knoop costuma frequentar, e tem a sorte de passar por lá no momento em que o jornalista está fazendo um lanche.
Ela mostra aquela página do Telegraaf que estava aberta à sua frente quando ligou para Knoop – a da matéria que fala dos colecionadores holandeses. – “Pieter Menten, multimilionário, vai leiloar parte da coleção dele”, diz a velha senhora. – “Essa coleção foi roubada de judeus poloneses.”
A sra. Boas conta que ficou sabendo disso por um jornalista de Tel Aviv, Chaviv Kanaan, do Haaretz – o jornal mais respeitado de Israel. E promete passar o telefone dele para Knoop.
Knoop dá uma olhada na folha de jornal que a mulher colocara diante dele. Identifica que o autor da matéria é o editor de artes do Telegraaf, e argumenta que ela deveria ter ligado para o autor da reportagem, e não para ele. Que ele não pode entrar em um assunto que é da editoria de artes do jornal. Ela retruca, firme, assertiva: – “Sr. Knoop, isso nos afeta, a mim e ao senhor, pessoalmente”.
Tesouro roubado de judeus. Fica absolutamente claro: Hans Knoop, assim com a velha senhora que passa dicas para ele, é judeu. Ir atrás da história não é apenas um dever de um bom jornalista – é também o dever dele como judeu.
O milionário já havia sido investigado, mas escapara
Estamos aí, quando a sra. Boas diz a Hans Knoop que os crimes do milionário colecionador de arte o afetam pessoalmente, com apenas cinco minutos do primeiro dos três episódios de Os Arquivos Menten. Como costumo fazer quase sempre, me alonguei bastante ao relatar o iniciozinho da narrativa desta bela série. Gosto de fazer isso; acho que a forma, o tom com que os realizadores abrem sua história define muito do que virá depois.
Como nessa abertura, os três episódios da minissérie vão mostrar fatos daquele ano de 1976, em que Hans Knoop passará a investigar a história de Pieter Menten, e, em paralelo, os eventos durante a Segunda Guerra Mundial que vão sendo recuperados pelo jornalista, através de antigos documentos e fotos e de depoimentos de sobreviventes que testemunharam as ações do ricaço na região de Podhorodze, na Polônia, então ocupada pelos nazistas.
Pieter Menten havia se tornado amigo e sócio de um alto oficial nazista, como ele um apreciador de arte e antiguidades. Juntos, haviam se apoderado de preciosidades pertencentes a judeus presos e enviados para os campos de concentração.
O massacre que a série mostra daquele grupo de judeus que vemos bem no inicinho da narrativa foi comandado pessoalmente por Menten, que usava farda de oficial da SS, apesar de não pertencer à Schutzstaffel.

Knoop fica sabendo que Menten já havia sido acusado de crimes de guerra, lá atrás, em 1949. Não apenas conseguira se safar das acusações como passara a processar os policiais e promotores que haviam investigado sua história. (A série não fala desse detalhe, mas, segundo a Wikipedia, no julgamento de 1949, seu principal advogado de defesa foi Rad Kortenhorst, então presidente da Câmara dos Deputados holandesa.)
Alguns veteranos que haviam trabalhado no caso mais de 25 anos antes ajudam o jornalista, passam informações e documentos para ele – mas alertam para o imenso poder que o sujeito tem, com toda sua fortuna e alguns dos melhores advogados do país.
Já de posse de várias informações sobre o passado do milionário, Hans Knoop vai entrevistá-lo, ouvir sua versão. Memten reage com uma mistura de ameaça e tentativa de suborno.
O jornalista não é mostrado como um super-herói
Lá pelas tantas – eu já gostando bastante da série, achando fascinante essa história real –, fiquei com receio de que ela caísse no pecado do maniqueísmo. O criminoso de guerra absolutamente cruel x o jornalista judeu santo guerreiro das boas causas.
O criminoso de guerra de fato é mostrado como um homem absolutamente cruel. Um absoluto monstro – um desses seres que parecem não ter um pingo sequer do que há de bom na raça humana. O ator escolhido para o papel, Aus Greidanus (nas fotos acima e abaixo), tem uma interpretação não menos que brilhante – ele consegue mostrar o monstro nazista em uma figura perversa, demoníaca, totalmente repulsiva.
Diacho: poderia haver um retrato suave de um sujeito que matou mais de cem pessoas pelo “crime” de serem judeus? Faço a pergunta que é evidentemente apenas retórica e já respondo bem depressa: não, não poderia.

Há uma outra figura que é mostrada como um monstruoso mau caráter na série – um tal Henk Demeester, um dos editores do Telegraaf, um sujeito que detesta Knoop, e fará de tudo para prejudicá-lo. O ator Vincent Linthorst faz um belo trabalho ao compor esse jornalista como o Mal em Si, o Mau Caráter Absoluto. Ah, sim, esses tipos existem – há alguns deles nas redações por aí. Conheci um ou outro.
Felizmente, no entanto, a série não retrata Hans Knoop como um super-herói, um super-homem, a absoluta perfeição. Não, não há isso. Claro, ele é mostrado como um bom homem, e um bom jornalista. Diacho – foi pelo esforço dele, enfrentando as ameaças de um milionário poderoso e a aberta má vontade de colegas de profissão e da própria empresa jornalística, que se tornou possível levar Pieter Menten a julgamento, que terminou em 1980.
Mas a série não trata Hans Knoop como um super-homem. É uma pessoa que tem hesitações – naquele iniciozinho da narrativa, tentou como pôde fugir da senhora Boas, que, aparentemente, sempre vinha para cima dele com sugestões de pauta. Tem hesitações e temores, como qualquer ser humano. Ao mergulhar no trabalho de investigação, comete aquele erro tão comum de sacrificar a vida pessoal, deixa de dar a atenção que a bela esposa e os filhos merecem.
Não, a série não cai na tentação e no pecado do maniqueísmo, me pareceu.
Dado importantíssimo: o roteiro escrito pela dupla Jan Harm Dekker e Robert Jan Overeem se baseia no livro De Zaak Menten: het Complete Verhaal, literalmente O Caso Menten: a História Completa – de autoria do próprio Hans Knoop. E há aí um detalhe incrível: segundo o site da Amazon, o livro foi lançado em 2016, o mesmo ano da série. Exatos 40 anos após a série de reportagens de Knoop na revista Accent.
“Roteiro bem construído, um sólido elenco”
De Zaak Menten teve no Reino Unido e nos EUA o título de The Body Collector, o colecionador de corpos. Sei lá por que motivo for. Por que não, diabo, a tradução literal, The Menten Affair? E aqui, por que não O Caso Menten? O título brasileiro faz o leitor a pensar que os arquivos mentem…

Na França, os exibidores mantiveram o título em inglês. Em uma boa resenha no site dvdfr.com, publicada em abril de 2018, quando a série foi lançada na França em DVD, Philippe Gautreau faz a pergunta: “por que esse título?” Mas não oferece resposta – provavelmente porque não exista… Depois de uma boa sinopse da trama, ele faz sua avaliação:
“The Body Collector, muito fiel aos fatos, é apaixonante do início ao fim, ritmado por uma série de reviravoltas, uma alternância de sucessos e fracassos, estes em parte imputáveis à propensão das autoridades holandesas a deixar sob uma capa de chumbo certos abusos cometidos durante a ocupação alemã.
“Se a minissérie não brilha pela inventividade da encenação, seu roteiro é bem construído e ela se aproveita de um sólido elenco, com Aus Greidanus, arrepiante em sua interpretação de Menten, e Guy Clemens, de uma convincente sobriedade no papel der Hans Knoop. A reconstituição do passado nos flashbacks, visivelmente feita com recursos limitados, é no entanto crível.
“The Body Collector, premiado como melhor série dramática no Festival de Cinema dos Países Baixos e melhor série dramática estrangeira no Fairmont Banff Springs Festival, no Canadá, deve ser vista por lançar luz sobre um caso ignorado pelo grande público.”
Concordo com tudo que esse Philippe Gautreau diz – com exceção da afirmação sobre recursos limitados, baixo orçamento. Não senti isso, não, de forma alguma.
Em fevereiro de 2026, dez anos após seu lançamento, a série estava com nota 7,5 no IMDb, média das cotações de cerca de mil leitores do grande site.
Anotação em fevereiro de 2026
Os Arquivos Menten/De Zaak Menten
De Tim Oliehoek, Países Baixos, 2016
Com Guy Clemens (Hans Knoop, o editor da revista “Accent”),
Aus Greidanus (Pieter Menten),
Noortje Herlaar (Betty Knoop,a mulher de Hans),
Carine Crutzen (Meta Menten, a mulher de Pieter),
Arian Foppen (Pieter Menten jovem), Camilla Meurer (Elizabeth Menten), Vincent Linthorst (Henk Demeester, o jornalista que detesta Hans Knoop), Porgy Franssen (Eduard Groen Borghart, o editor-chefe do jornal), Rein Hofman (Gijs Jongstra), Hans Croiset (Dirk Menten, o irmão de Pieter), Julien Croiset (Dirk Menten jovem), Ditha van der Linden (Henriette Boas, a velha senhora judia)
Roteiro Jan Harm Dekker, Robert Jan Overeem
Baseado no livro “ De Zaak Menten”, de Hans Knoop
Fotografia Coen Stroeve
Música Riad Abdel-Nabi, Anders Ehlin
Montagem Axel Skovdal Roelofs
Castomg Houdijn Beekhuis, Betty Post
Desenho de produção Barbara Westra
Figurinos Margriet Procee
Produção Alain De Levita, Kaja Wolffers. NL Film.
Cor, cerca de 140 min (2h20)
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Título nos EUA e no Reino Unido: “The Body Collector”.
