A Dupla do Outro Mundo / Topper

3.0 out of 5.0 stars

(Disponível no YouTube em 2/2026.)

Topper, no Brasil A Dupla do Outro Mundo, produção da MGM de 1937 com Constance Bennett e Cary Grant – nesta ordem, nos créditos iniciais e nos cartazes –, é uma comédia malucamente divertida, divertidamente maluca. E também notavelmente ousada, creio, tanto na forma quanto no conteúdo.

Embora pouquíssimo lembrado hoje em dia, foi um grande sucesso na época de seu lançamento – teve duas indicações ao Oscar e levou à produção de duas sequências, em 1938 e 1941, uma série de TV, entre 1953 e 1955, e uma refilmagem, em 1979.

Uma comédia ousada no conteúdo: o casal do título brasileiro, os personagens de (nesta ordem) Constance Bennett e Cary Grant, é tão rico quanto alegre, brincalhão, gozador, irreverente, iconoclasta, beirando a irresponsabilidade – ou às vezes afundando nela às gargalhadas. E vai se dedicar a tentar livrar o Topper do título original da sua vidinha chata, oprimido pela mulher rígida, insuportável, pelas obrigações do trabalho como presidente de banco e até pelo próprio mordomo.

Ao contar a história do casal alegre e do senhor todo formal e triste, o filme opõe duas filosofias de vida – o saber viver, o aproveite a vida, seize the day, viva a música e o amor, contra o padrão do trabalhe duro, seja sempre sério, responsável. Com décadas de antecedência, mostra o antagonismo hippies x yuppies. O jeans e a minissaia x o terno e o tailleur. Bem a grosso modo, os de bem com a vida x os caretas.

E não é só.

Eram os anos mais duros, mais rígidos do Código Hays, oficialmente Motion Picture Production Code, o conjunto de normas de censura aceito pelos grandes estúdios. E no entanto a mocinha, casada, faz charme para o caretão Topper, ele também casado, bem mal casado; saem em viagem os dois, o maridão dela largado, deixado de lado. Há até um momento em que a mocinha – e era bela essa Constance Bennett – fica quase na horizontal, joelhos à mostra, provocando o sujeito também casado, como ela, só que não com ela!

Mais: as mulheres ficam bem ouriçadas, saidinhas, diante da revelação de que o homem que parecia pacato, sério, sisudo, era um danado de um arrojado conquistador. A informação era falsa, mas, acreditando nela, a secretária e a recepcionista logo se põem a caprichar no figurino para atrair as atenções do “mulherengo”.

E um filme ousado também na forma. Topper usa e abusa de efeitos especiais – assinados por Roy Seawright, um mago da técnica.

Nesse tópico efeitos especiais, particularmente, é preciso ter sempre em mente que o filme é de 1937, apenas 10 anos depois de o cinema aprender a falar, mais de meio século antes de se tornarem banais as imagens geradas por computador, as CGI da sigla em inglês. E muito do filme depende dos efeitos especiais – as canetas que escrevem sozinhas, os lenços e cigarros que se movimentam pelo ar através dos ambientes, o carrão (aliás, um carrão com um desenho maluco, futurista) que corre sem motorista, e outras coisas mais.

E tudo funciona magistralmente bem!

Um filme um tanto ousado – mas, em um ponto bem importante, bastante parecido com dezenas, centenas de outros de sua época, os anos 1930, os anos da Grande Depressão, em que milhões e milhões de norte-americanos ficaram desempregados e passando por todo tipo de privação.

Como muito seguramente em nenhuma outra época, nos anos da Grande Depressão Hollywood inundou os cinemas do país – e do mundo – com comédias em que os personagens eram ricaços, andavam sempre vestidos impecavelmente para festas elegantes, black-tie para os cavalheiros e vestidos de soirée para as damas, e passavam as noites entrando e saindo de nightclubs luxuosos.

O fato de o nome de Cary Grant, um dos maiores astros da História do Cinema, aparecer em segundo lugar, com uma atriz pouquíssimo lembrada hoje tendo a honra do top billing, o primeiro lugar nos créditos e nos cartazes, é apenas uma das muitas, várias, diversas curiosidades que cercam este filme delicioso – que, em alguns momentos, chega bem pertinho da mais absoluta bobagem.

Essa deliciosa bobagem está afora, quase 90 anos depois de seu lançamento, disponível no YouTube, grátis que nem passeio no parque, em cópia com imagem e som ótimos.

Três dias seguidos de festa – e mais uma noite na farra

Quando o filme começa, o casal Marion e George Kerby, respectivamente Constance Bennett e Cary Grant, está em um conversível bonitão, charmoso, em uma estrada – com o detalhe de que George dirige com os pés no volante, sentado no alto do encosto da cadeira do motorista!

Estão passeando na estrada e cantando – vestidos a rigor.

Ficaremos sabendo muito rapidamente, pelos diálogos dos dois, que havia sido aniversário de Marion. O casal tinha se esbaldado em uma grande festa que durara três dias, e então tinham abandonado os convidados e pegado a estrada, rumo a Manhattan. Às 10h30 da manhã seguinte, em Wall Street. haveria a reunião anual da diretoria do banco, e Topper fazia questão da presença de George.

Cosmo Topper (o papel de Roland Young, o terceiro nome nos créditos iniciais, logo abaixo do de Cary Grant) é o presidente do banco. Essa informação vem bem depressa. O que demoramos um pouco a ficar sabendo é o motivo pelo qual Topper quer a presença na reunião de George Kerby. É simples: George Kerby é o maior acionista do banco.

Wall Street, presidente de banco, maior acionista de banco. Me vi imaginando o que pensariam disso as audiências nos cinemas americanos em 1937, apenas oito anos depois que a Bolsa de Nova York teve o maior crash da História do capitalismo e afundou o país na Grande Depressão, com reflexos ao redor do mundo.

Mas vamos em frente.

Na estrada, Marion comenta que, como eram 10 da noite, e a reunião anual da diretoria do banco seria às 10h30 da manhã seguinte, eles teriam pela frente 12 horas para descansar. Na sequência seguinte, George está estacionando seu carrão diante do Rainbow Nightclub.

– “É isto que você chama de uma noite de descanso?”, pergunta Marion. Ao que George, pulando para fora do conversível sem se incomodar com a forma mais prática de abrir a porta, responde: – “É perigoso descansar muito. Vamos lá, querida.”

O maïtre logo percebe que o freguês mais maravilhoso que pode haver está chegando e manda providenciar a melhor mesa para Mr. Kerby.

Diversas pessoas cumprimentam George enquanto o casal caminha entre as mesas. O maestro da banda que está tocando cumprimenta George. Marion sabe o nome do garçom que os atende. São da casa.

A noite é criança, e então, depois de dançar e beber coquetéis e jantar no Rainbow Nightclub, o casal dá uma esticada em uma outra casa noturna em que também é super bem recebido. Só que vai ficando, vai ficando, vai ficando… Todos os outros fregueses já foram embora, e lá estão os Kerbys, debruçados sobre o piano em que o pianista canta para eles – e com a participação de Marion e George– uma canção chamada “Old Man Moon”, letra e música do gigante Hoagy Carmichael, o cara que, como diz a Wikipedia, compôs quatro das canções norte-americanas mais gravadas e regravadas – “Stardust” (1927), “Georgia on My Mind” (1930), “The Nearness of You” (1937), e “Heart and Soul”.

O homem do piano do bar em que Marion e George dão uma esticada é o próprio Hoagy Carmichael.

Ah, meu… Que beleza!

O casal dorme no conversível em plena Wall Street

Finalmente, depois que o gerente do bar pede pela milésima vez, os Kerbys vão embora e permitem que o lugar seja fechado.

Entram no carro, vão até a Wall Street, param na frente do banco de Topper. Não se fala que horas eram, mas era madrugada profunda, tipo 3, 4 da manhã. Finalmente, depois de vários dias seguidos de farra, Marion e George caem no sono.

Pela manhã, quando a cidade se enche de movimento, uma pequena multidão pára na calçada para apreciar aquele espetáculo de dois ricaços dormindo profundamente no conversível ultra-chamativo…

Enquanto os Kerbys dormem, ficamos conhecendo Cosmo Topper, o cara que dá nome ao filme.

Na primeira sequência em que o vemos, Topper-Roland Young está tomando seu banho matinal. O mordomo entra no banheiro, avisa a hora – e fecha a torneira do chuveiro!

O mordomo, a mando da sua patroa, decide o momento em que o banho do patrão tem que terminar!

Esse sujeito, Wilkins (Alan Mowbray), é seguramente um dos mordomos mais empertigados e mais absolutamente detestáveis da História do Cinema.

Sua patroa, Henrietta Topper (o papel de Billie Burke), não fica nada atrás.

Ao chegar para o café da manhã com a bruaca, o pobre banqueiro de Wall Street pede desculpas por estar 44 segundos atrasado.

Bem…

Realiza-se a reunião anual da diretoria do banco. |Diante do presidente Topper e de uma dezena de diretores seriíssimos, sisudos, o sempre alegre, irreverente Kerby cantarola, graceja, faz trejeitos. É um sujeito absolutamente inconveniente – mas quem haveria de criticar o maior acionista?

Terminada a reunião, depois de algum tempo o casal Kerby inicia a viagem de volta até sua casa – que fica fora de Manhattan e da região mais central de Nova York, talvez em Long Island (acho que Long Island é mencionada). Uma viagem em estrada por local não urbanizado, pelo campo.

E é aí que acontece o evento chave da trama, o acontecimento que define para onde vai a história. Rola quando estamos com 23 minutos do filme que dura 97.

O evento é contado em qualquer sinopse do filme. Está até nos títulos que o filme recebeu no Brasil, em Portugal, na França. Mas, diacho, de uma certa maneira, é um spoiler! Sem dúvida é mais gostoso ver o filme sem saber disso que vai acontecer aos 23 minutos. Eu tinha lido uma sinopse, e então para mim não foi surpresa; Mary, sempre mais esperta, não tinha lido, e para ela foi algo bem inesperado.

Por isso, não revelei de cara a coisa que define o que é a trama. Para que o eventual leitor que não tiver visto ainda o filme possa ter o prazer da surpresa. E, assim, dou aqui o aviso:

Atenção: quem não viu o filme deveria parar por aqui.

Na França, Topper é Le Couple Invisible. Em Portugal – que muitas vezes segue os exibidores franceses –, O Par Invisível. No Brasil, como já foi dito, A Dupla do Outro Mundo.

(A Dupla do Outro Mundo faz lembrar o título brasileiro de Blithe Spirit, a deliciosa comédia britânica de David Lean de 1945, Uma Mulher do Outro Mundo. Os dois filmes têm a ver um com o outro…)

Quando estamos com 23 minutos do filme, os sempre alegres, festivos Marion e George Kerby morrem. Batem as botas. Passam desta para melhor.

A sequência é gostosíssima.

George enfia o pé no acelerador. Marion até reclama, mas o cara não se abala. Até que perde o controle do carro, que sai da estrada e se espatifa contra uma grande árvore. O casal é ejetado para fora.

A câmara está a alguns metros de distância – é um plano de conjunto, aquele que pode captar um grupo de pessoas, dos pés à cabeça. Vemos as figuras de George-Cary Grant e Marion-Constance Bennett imóveis no solo.

E então, enquanto os dois permanecem no chão, vemos George e Marion se levantando – são eles, mas nós os vemos assim translúcidos, transparentes. Espíritos, fantasmas, ectoplasmas.

Caminham até uma árvore tombada, sentam-se sobre o tronco, de frente para o carro espatifado e seus corpos lá, mortinhos da silva.

O primeiro diálogo:

Marion – “Oh, George, eu posso ver através de você!”

George – “Gozado. Eu também posso ver através de você”.

Marion (olhando para os corpos): – “George, veja. Sabe de uma coisa? Acho que estamos mortos.”

George: – “Acho que você está certa. Gozado; não me sinto diferente.”

E vão papeando. Chegam à conclusão de que, para irem definitivamente para o outro mundo, teriam que ter cometido alguma boa ação na vida. Pensam, relembram – e não conseguem se lembrar sequer de uma boa ação praticada na vida de tanta alegria e prazer.

Decidem que vão fazer uma boa ação: vão ajudar o pobre Topper a ser feliz.

Efeitos especiais maravilhosos – mas não inéditos

George e Marion imediatamente percebem que tanto podem aparecer como pessoas transparentes quanto simplesmente ficar totalmente invisíveis. Farão ora uma coisa, ora a outra, dependendo do movimento, da ocasião, dos seus planos.

E a partir daí o talento de Roy Seawright estará presente em praticamente todas as sequências. Roy Seawright (1905-1991) cuidou dos efeitos especiais de 160 títulos, teve três indicações ao Oscar. Pouco depois deste A Dupla do Outro Mundo (que é, como já foi dito, de 1937), com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, serviu como major na Primeira Unidade de Filmes da Força Aérea, realizando os efeitos especiais de muitos filmes para treinamento militar.

Assim que decidem que o que vão fazer na vida, agora que são fantasmas, será ajudar Cosmo Topper ser feliz, George – completamente invisível – dá uma checada no carro. Fora os amassos na lataria, o único problema parece ser um pneu furado. E então dois passantes ficam observando – assim como o espectador – um pneu sendo trocado sozinho…

Depois virão os cigarros e lenços voadores, as coisas que se mexem sozinhas, todo tipo de cena hilariante – e muitíssimo bem executada. Em 1937!

Um trabalho muitíssimo bem realizado, e apenas dez anos depois de o cinema aprender a falar. Mas não há aí propriamente ineditismo. Isso não. É bom lembrar que, a partir de 1896 – poucos meses depois de os irmãos Louis e Auguste Lumière exibirem pela primeira vez para uma platéia de espectadores pagantes um filme, o pequeníssimo documentário A Chegada de Trem à Estação/L’Arrivé d’un Train à La Ciotat, no dia 28 de dezembro de 1895 –, o mago George Méliès começou a produzir e dirigir seus filmes, fantasias cheias de efeitos especiais.

A sequência em que os corpos de Marion e George ficam no chão, enquanto seus espíritos, visíveis, mas transparentes, se levantam e caminham, conversam e agem normalmente, é maravilhosa, esplendidamente bem realizada – mas algo exatamente igual já havia sido realizado na Suécia, em 1921. Na obra-prima A Carruagem Fantasma, o corpo inanimado de David Holm – o protagonista interpretado pelo próprio diretor Victor Sjöström – fica lá estendido no chão, enquanto sai dele o mesmo corpo visível, mas agora só o espírito, e portanto o corpo que sai do chão e anda é transparente, como um fantasma.

Quase 70 anos depois, em 1989, o grande Steven Spielberg repetiria essa mesma sacada de Victor Sjöström usada aqui neste Topper em um de seus filmes menos badalados, embora muito bom, Além da Eternidade/Always. Pete Sandich, o protagonista da história, interpretado por Richard Dreyfuss, morre em um acidente de carro, como Marion e George – e de seu corpo inanimado no chão sai o seu espírito, ou seja, seu corpo transparente, somente visível por outros mortos e pelos espectadores.

A atuação de Roland Young é extraordinária

As duas indicações ao Oscar foram para Roland Young, na categoria de ator coadjuvante, por sua interpretação como o personagem-título – que é de fato espetacular -, e para Elmer Raguse, na categoria de gravação de som.

O próprio Roland Young interpretou novamente Topper nas duas sequências do original, Marido Mal Assombrado/Topper Takes a Trip (1938) e A Volta do Fantasma/Topper Returns (1941). No elenco da primeira dessas continuações – dirigido pelo mesmo Norman Z. McLeod deste original aqui – estavam também Constance Bennett e Billie Burke. O segundo, dirigido por Roy Del Ruth, tinha no elenco Joan Blondell e Carole Landis.

Topper, o original, foi a primeira aventura do produtor Hal Roach no mundo dos filmes classe A. Até então, ele era tido como um dos grandes produtores das comédias de baixo orçamento – havia ganhado fortuna com os curta-metragens com Laurel e Hardy, o Gordo e o Magro. Acertou em cheio, pelo que mostram os alfarrábios – e pelo que a gente pode checar hoje vendo o filme.

Eis o que diz um desses alfarrábios, o CineBooks’ Motion Picture Guide – que dá a Topper 4 estrelas em 5:

“Baseado livremente no romance de Thorne Smith The Jovial Ghosts, Topper é uma agradável comédia que usa os efeitos especiais aperfeiçoados no filme de horror da Universal The Invisible Man (1933) para efeito cômico. O supervisor de efeitos especiais Roy Seawright usou todos os truques possíveis para fazer (Cary) Grant e (Constance) Bennet aparecerem e desaparecerem e fazer com que os objetos pareçam mover por eles próprios (quer dizer, com a ajuda das mãos fantasmas de Grant e Bennett).

“A chave do sucesso do filme, no entanto, é (Roland) Young. Já que é seu personagem que deve interagir com aquelas maliciosas aparições ao longo do filme, Young tinha que ter uma atuação sem falhas – e teve. O ator habilmente contorce seu corpo para fazer parecer que mãos invisíveis estão empurrando-o para frente e para trás, ajudando-o a levá-lo para casa bêbado, e mesmo arrumando sua aparência desgrenhada em um tribunal. O trabalho de Young é especialmente impressionante porque, enquanto se concentrando em organizar os movimentos físicos corretos, ele também tem que reagir diante dos dois fantasmas (implorando que eles o deixem em paz) e os humanos ao redor dele (de tal forma que ele não pareça um lunático). É uma interpretação complexa, multifacetada.”

O texto informa em seguida que ele foi indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante – mas acabou perdendo para Joseph Schildkraut por The Life of Emile Zola.

Constance Bennett, uma atriz muito interessante

Achei muito interessante ver o nome de Hedda Hopper entre os atores secundários nos créditos iniciais. Ela aparece, se não estou enganado, em apenas uma sequência, como Mrs. Stuyvesant, uma ricaça famosa, respeitadíssima entre os ricos de Nova York, que Henrietta Topper, aquela bruxa, admira de paixão.

Sempre ouvi falar no nome de Hedda Hopper 1885-1966), uma das mais famosas colunistas de fofocas sobre Hollywood dos anos dourados, ao lado da grande rival Louella Parsons. No auge da fama, nos anos 1940, sua coluna, distribuída para diversos jornais de todos os Estados Unidos, era lida por mais de 35 milhões de pessoas. Hedda Hopper foi retratada em diversos filmes, entre eles Trumbo – Lista Negra (2015), em que foi interpretada pela maravilhosa Helen Mirren, e Ave, César/Hail, Caesar (2016), com Tilda Swinton no papel. A primeira temporada da serie Feud, de 2017, focalizou a rivalidade ente Hedda (interpretada por Judy Davis) e Louella Parsons.

O que eu não sabia, e me surpreendeu, foi que Hedda Hopper trabalhou como atriz, num pequenino papel. Achei que aquilo fosse uma raridade. Ignorância minha: ela tem nada menos de 155 títulos como atriz em sua filmografia. Aparentemente, sempre fez pequenos papéis. E foi depois deste Topper aqui que ela decidiu se dedicar a falar da vida dos atores e diretores nos jornais em vez de continuar na carreira de atriz. A partir de 1946, ainda apareceu em diversos filmes – mas fazendo o papel dela mesma, Hedda Hopper, a colunista.

Acabei me estendendo um tanto sobre Hedda Hopper, que não tem importância alguma – e este texto já está grande demais, até mesmo para os meus padrões. Mas é preciso fazer um registro sobre Constance Bennett, a atriz que, em 1937, era mais famosa que o belo, elegantérrimo, chique, perfeito dançarino Archibald Alec Leach (1904-1986), o inglês de Horfield, um pequenino subúrbio de Bristol que, com o pseudônimo de Cary Grant, havia se radicado bem jovem nos Estados Unidos, e iniciara carreira em Hollywood em 1932.

Entre sua estréia em 1932 e este Topper, de 1937, Cary Grant trabalhou em 28 filmes (se eu tiver contado direito). Em 1936, ele fez uma comédia romântica, Quase Casados/Wedding Present, em que, como em Topper, era o segundo nome nos créditos iniciais e nos cartazes; o nome do alto, o top billing, era o de Joan Bennett – a irmã mais jovem de Constance Bennet.

Há quem diga que não existem coincidências, há quem diga que as coincidências são uma forma de Deus ficar incógnito. Eu diria que sem coincidências a vida seria bem menos divertida, mas vamos lá.

Constance Bennett (1904-1965) era a primogênita de Richard Bennett, famoso ator de teatro e em seguida de cinema, na época dos filmes mudos. “Sua irmã mis jovem Joan deixou uma marca mais importante no cinema, mas Constance foi primeira entrar na profissão do pai, e durante algum tempo foi uma das principais estrelas de Hollywood”, diz o sempre sério, denso livro Actors & Actresses, editado por James Vinson. O verbete sobre ela prossegue:

“Bennett era uma loura bela, de figura suave, delgada, que começou no cinema no final da adolescência, chegou ao grande estrelato quando estava com uns 25, e sofreu um declínio para papéis secundários ali pelos 35. Os mais populares de seus filmes foram lançados no início dos anos 30, quando ela era sinônimo da heroína sofisticada, porém próxima das pessoas. De todos os seus filmes dos anos 1930, no entanto, só os de Topper são vistos ainda hoje.”

O termo “ainda hoje”, quando impresso, é bem relativo. O belo livro que comprei em Londres em 1990 é de 1986…

Este site tem vários comentários sobre filmes com a irmã mais nova de Constance Bennett. Gostaria de ver ao menos mais uns dois filmes da primogênita de Richard Bennet e comentá-los aqui…

         Anotação em fevereiro de 2026

A Dupla do Outro Mundo/Topper

De Norman Z. McLeod, EUA, 1937

Com Constance Bennett (Marion Kerby),

Cary Grant (George Kerby),

Roland Young (Cosmo Topper)

e Billie Burke (Henrietta Topper), Alan Mowbray (Wilkins, o mordomo dos Toppers), Eugene Pallette (Casey, o detetive do hotel), Arthur Lake (o rapaz do elevador e depois do hotel), Hedda Hopper (Mrs. Stuyvesant, a socialite famosa), Virginia Sale (Miss Johnson), Theodore Von Eltz (o gerente do hotel), J. Farrell MacDonald (policial), Elaine Shepard (a secretária), Doodles Weaver, Si Jenks, Rustics, Three Hits and a Miss (eles mesmos), Donna Dax (funcionária do Rainbow Nightclub), Hoagy Carmichael (Bill, o pianista), Claire Windsor, Betty Blythe (senhoras)

Roteiro Jack Jevne, Eric Hatch, Eddie Moran

Baseado no romance “The Jovial Ghosts”, de Thorne Smith

Fotografia Norbert Brodine

Diretor musical Marvin Hatley

Música Edward B. Powell, Hugo Friedhofer

Montagem William Terhune

Direção de arte Arthur Rouce

Efeitos especiais Roy Seawright

Figurinos Samuel Lange, Irene, Howard Schraps

Produção Hal Roach, MGM.

P&B, 97 min (1h37)

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Titulo na França: “Le Couple Invisible”. Em Portugal: “O Par Invisível”.

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