
A grande, maravilhosa Agnès Varda dividiu toda sua gloriosa carreira alternando filmes de ficção com documentários. La Pointe Courte, sua estréia, o filme de 1955 que ela escreveu e dirigiu quando tinha apenas 27 anos, é, de uma maneira fascinante, uma mistura das duas coisas. Meio ficção, meio documentário.
A rigor, a rigor, a metade não-ficção é quase documentário. Não é exatamente um documentário porque ela criou um fiapinho de história. Bem fiapinho mesmo – “uma criança morre, namorados se casam”. Mas quem vemos na tela não são atores, e sim pessoas do local em que se passa a ação, o local que dá nome ao filme, Pointe Courte, uma vila de pescadores na cidade de Sète, no Sul da França, debruçada sobre o Mediterrâneo, a Oeste de Marselha. Naquela época, meados dos anos 1950, uma vila de pescadores muito, mas muito, mas muito pobre.
Os moradores locais interpretam a si mesmos, vivendo situações de seu dia a dia: moram em barracos acanhados, em vielas precárias, tudo bastante parecido com favelas do Terceiro Mundo. É uma vida extremamente pobre, quase miserável. O sustento vem da pesca, mas as autoridades da fiscalização sanitária estão sempre incomodando os pescadores, exigindo que cumpram legislações que seus avós e bisavós jamais haviam conhecido.
As famílias são numerosas, com filhos às pencas – como sempre acontece na pobreza – e irmãos vivem perto uns dos outros, e se frequentam, e trabalham juntos.

Essa é a metade quase documentário do filme, e a câmara de Agnès Varda e seus três diretores de fotografia percorre – calmamente, bem calmamente, muitas vezes em travellings estudados, longos, cinematograficamente esplêndidos – as ruelas daquele bairro-favela, penetra nas casas, vai mostrando os aposentos, as ninhadas de crianças, os gatos que caminham entre os meninos no chão de terra batida.
Famílias de moradores de Pointe-Curte sendo filmadas em suas pobres, quase miseráveis moradias. Trabalhadores pescando. Imagens da realidade – quase um documentário.
Entremeando-se a esse quase documentário, imiscuindo-se nele, há a ficção – a história de um casal em momento D.R. O homem nascera e se criara ali mesmo, em Pointe-Curte, filho de um artesão que construía barcos. Mas, diferentemente de todos os demais habitantes do bairro-favela, havia saído de lá, ido para o distante Norte, para Paris – um lugar que, tudo indica, parecia mais distante para aqueles habitantes do lugar do que a Lua, as estrelas. E se casara com uma parisiense.
Havia voltado agora para visitar sua terra natal – e sua mulher chega para se encontrar com ele, para dizer que deveriam se separar.
Entre uma sequência e outra da face quase documentário, e ao longo de todo filme – que é curto, apenas 81 minutos –, o casal da ficção caminha pelas vielas de Pointe-Curte, pelas praias sujas, feias, discutindo a relação.

A diretora iniciante escolheu um ator iniciante
O espectador não fica sabendo o nome do homem e da mulher – eles não são mencionados em momento algum. Os dois, o homem e a mulher, ele e ela, são das pouquíssimos pessoas que aparecem diante da câmara que são atores. Seus nomes estão nos créditos iniciais, o dela na frente do dele – e, depois dos nomes dois dois, lemos: “Com os habitantes de Pointe Courte”.
Os dois atores… Que coisa fantástica é a passagem do tempo…
A atriz já havia feito cinco filmes. Talvez isso explique o fato de seu nome aparecer antes do dele. O nome do ator não era conhecido. Antes deste filme aqui, havia aparecido em papéis minúsculos em três filmes, não creditado – como apenas um figurante, depois como um apaixonado pela personagem chamada Béatrice, depois como um passante.
Que coisa fantástica é a passagem do tempo…
Pouca gente hoje se lembraria do nome de Silvia Monfort (1923-1991), embora ela tenha tido uma carreira significativa, com 38 títulos na filmografia, inclusive a versão de 1958 de Os Miseráveis, com Jean Gabin e Bernard Blier, Rififi entre Mulheres (1959), A Francesa e o Amor (1960).
Já ele viria a ser um dos gigantes do cinema europeu ao longo de toda a segunda metade do século XX. Philippe Noiret (1930-2006) tem 155 títulos em seu currículo, colecionou 15 prêmios, entre eles o Bafta de melhor ator por Cinema Paradiso (1988) e o César e o David di Donatello de melhor ator por O Velho Fuzil (1976) e A Vida e Nada Mais (1990).
O que explica que uma inexperiente belga de 27 aninhos de idade tenha escolhido um ator com a experiência de três pequeninas participações para ser o protagonista de seu filme de estréia, e com isso lançado a carreira do até então desconhecido?
Dádiva, como diz o general Yevgraf-Alec Guinness em Doutor Jivago (1965). “Then it’s a gift”, ele diz, ao saber que a garotinha que pode ser a filha de seu irmão Yuri Jivago toca esplendidamente a balalaica.
Faro. Talento. Essa coisa que não tem explicação, lógica, senso.

Uma evidente influência do neo-realismo italiano
Ao ver agora, pela primeira vez, 70 anos depois de seu lançamento, o filme de estréia de Agnès Varda, essa cineasta por quem me apaixonei aos 17 anos, ao ver duas vezes em seguida a obra-prima As Duas Faces da Felicidade/Le Bonheur (1965), foi absolutamente impossível não lembrar de La Terra Trema, o segundo filme de Luchino Visconti, lançado em 1948, sete anos antes, portanto, deste La Pointe Courte.
O aristocrata comunista italiano Luchino Visconti já era bem mais maduro que a belga de nascimento e francesa por adoção Agnès Varda – estava com 42 anos – quando fez seu filme quase documentário mostrando o triste, duro, pesado dia a dia dos pescadores pobres, quase miseráveis, de um pequenino lugarejo da Sicília.
La Terra Trema – anotei quando vi o filme, em 2019 – “é quase um documentário – só que com um fiapo de história, de trama, baseada em fatos reais, do dia a dia, em que pessoas do povo que vivem aqueles fatos interpretam a si mesmos. Antes de iniciar as filmagens, Visconti escreveu notas que tiveram o título de Per um film documentario sulla Sicilia. Quando ele viajou para a região de Catânia, na Sicília, levando uma pequenina, enxutíssima equipe, falava-se que iriam mesmo fazer um documentário. (…) Não há um único ator profissional no elenco. Todas as pessoas que trabalham no filme foram escolhidas entre gente do povo da região. A rigor, são pessoas que fizeram diante da câmara do diretor de fotografia G.R. Aldo as mesmas coisas que faziam na vida real.”
Para realizar seu quase documentário sobre a dura vida do povo trabalhador de um lugarejo da Sicília, Visconti teve um investimento inicial do Partido Comunista Italiano, de que era fiel simpatizante. O dinheiro acabou durante as filmagens, e o conde teve que vender jóias da família para concluí-lo.
Diz o IMDb que, para fazer seu filme de estréia, Agnès Varda gastou o equivalente a US$ 14 mil – uma quantia muito menor do que deputado brasileiro carrega na cueca. “Todo o dinheiro”, especifica o grande site enciclopédico, “foi para alugar equipamento e comprar e processar filme; nenhum dos atores ou membros da equipe recebeu pagamento”.
O IMDb diz, com propriedade, que este filme aqui é considerado por muitos críticos como o ponto de partida para a nouvelle vague – mas não diz que ele demonstra claríssima, óbvia influência do neo-realismo italiano.
Embora não se fale nisso no que li agora sobre o filme, me parece inegável a influência direta sobre a jovem Agnès Varda de La Terra Trema de Luchino Visconti. E acho absolutamente fundamental registrar que tudo, tudo, tudo, neste La Pointe Courte, se inspira no neo-realismo italiano.
Cinema feito fora dos estúdios, ao ar livre, em locações reais. A opção preferencial pelos pobres, humilhados, ofendidos. O uso de não-atores.
La Pointe Courte é uma prova absolutamente cabal de que a nouvelle vague francesa teve forte influência do neo-realismo italiano. Assim como, diacho, o cinema dos angry young men ingleses, o cinema novo brasileiro, o cinema independente americano iniciado com John Cassavetes, e, depois, os chatos dos dinamarqueses do Dogma, e os belos novos cinemas romeno e iraniano.

“Cabe ao leitor o talento de reorganizar as sensações”
“Eu tinha uma idéia bem precisa em La Pointe Courte: propor dois temas, não contraditórios, mas que, colocados lado a lado, acabariam por anular-se mutuamente”, disse Agnès Varda em uma entrevista publicada em março de 1962 pela revista Positif. “Teríamos assim, de um lado, um casal em crise e de outro, um vilarejo que tentaria resolver de maneira coletiva certos problemas cotidianos. O filme seria dividido em capítulos e não haveria nunca mistura dos dois temas, mas a possibilidade para o espectador de estabelecer oposições e superposições. Sempre achei que havia uma grande dificuldade em integrar problemas de ordem pessoal a outros, de ordem mais geral. Assim, para a construção do filme, inspirei-me no romance de William Faulkner, Palmeiras Selvagens. Se pegarmos o livro, vemos que não existe relação alguma entre o casal, Charlotte e Henry, e o velho condenado do Mississippi. Não é alegórico nem simbólico, mas há uma sensação que vem da leitura concomitante dessas duas histórias, cabendo ao leitor o talento de reorganizar as sensações.”
André Bazin, um dos mais influentes nomes da crítica de cinema de todo o mundo, um dos fundadores dos Cahiers du Cinéma, mentor, quase um pai adotivo de François Truffaut, escreveu o seguinte sobre La Pointe Courte assim que o filme foi lançado, no jornal Le Parisien Libéré (mais tarde apenas Le Parisien):
“La Pointe Courte é um filme milagroso. Por sua existência, pois seria preciso remontar a O Sangue de um Poeta para encontrar um filme em sua concepção tão livre de qualquer contingência comercial. Jean Cocteau beneficiou-se na época do apoio de um generoso mecenas, mas esses tempos, infelizmente, terminaram. Um filme sonoro é demasiado caro, mesmo para um capricho de milionário. Agnès Varda é uma mulher muito jovem, cujo grande talento conhecemos enquanto fotógrafa do Théâtre National Populaire, e que sentia simplesmente a necessidade de realizar este filme. Em vez de procurar um produtor segundo o processo tradicional, ela achou justamente que a energia necessária para desaninhar esse pássaro raro seria melhor empregada se ela o produzisse por seus próprios meios. Convenceu então alguns amigos a trabalhar em cooperativa, e é assim que, com pouco dinheiro mas muita coragem, imaginação e talento, La Pointe Courte chega a ver o dia.
“Este primeiro milagre condiciona o segundo: essa total liberdade de estilo que nos dá a sensação, tão rara no cinema, de nos encontrarmos face a uma obra que não considera nada além da vontade de seu autor, sem nenhuma concessão. Uma obra de inspiração tão livre quanto o romance que Agnès Varda poderia ter escrito sobre o mesmo assunto.
“Se La Pointe Courte é um filme de vanguarda, não é, contudo, no sentido tradicional da palavra, sendo este mais ou menos confundido com a herança do surrealismo ou pelo menos com a destruição das estruturas de narração. A história que nos conta Agnès Varda é a mais simples do mundo, uma história de amor. Não podemos naturalmente deixar de pensar em Viagem à Itália, de Rossellini (que aliás não pôde, por evidentes razões cronológicas, influenciar Agnès Varda), em que reencontramos um contraponto similar entre os sentimentos do herói e o ambiente geográfico e humano. Esta comparação honra ambos os filmes. O de Agnès Varda é, contudo, muito diferente pelo tom e pela técnica. Antes de mais nada, é um filme de mulher do mesmo modo que existem romances femininos, o que é quase único no cinema. Além disso, a autora adotou no filme um ponto de vista paradoxal de estilização dentro do registro realista: tudo nele é simples e natural e, ao mesmo tempo, depurado e composto; e seus heróis dizem apenas coisas inúteis e essenciais, como as palavras que nos escapam em sonhos.”

“Coisas inúteis e essenciais”! Que maravilhosa definição dos diálogos entre o homem e a mulher interpretados por Philippe Noiret e Silvia Monfort!
E aqui vai uma explicação: aquela frase que reproduzi lá em cima, “uma criança morre, namorados se casam” é também de André Bazin, em um outro texto de sua crítica, em que ele faz uma sinopse do filme. Vale transcrever, é claro:
“Um homem e uma mulher estão a ponto de se separar, após quatro anos de vida em comum. Ele passa férias em seu vilarejo natal, uma aldeia de pescadores próxima a Sète, chamada Pointe Courte. Ela vem juntar-se a ele, antes da provável separação definitiva. Ambos passeiam, sonham com seu passado, confrontam seus sentimentos, numa busca incerta por si próprios. No entanto, em torno deles, misteriosamente indiferentes e solitários, os pescadores seguem sua vida entre a coleta de mariscos nos mangues e a ameaça dos funcionários do controle de higiene. Uma criança morre, namorados se casam e nos dias de festa há competições sobre os canais de Sète. O casal tece seu próprio destino, numa busca onírica, ao cabo da qual eles estarão novamente reunidos.”

“Obra experimental ambiciosa, honesta e inteligente”
Eis um trecho do que o então jovem crítico François Truffaut escreveu em 1956 sobre o filme que estava em cartaz – quatro anos apenas antes de ele próprio passar para o outro lado do balcão e lançar seu filme de estréia, Les Quatre-Cents Coups, no Brasil Os Incompreendidos:
“Ensaio cinematográfico, obra experimental ambiciosa, honesta e inteligente, La Pointe Courte, primeiro filme de Agnès Varda, fotógrafa do T.N.P., está em seu lugar na tela do Studio Parnasse. Segundo a propaganda (pelo menos uma vez ‘sincronizada’ com a obra elogiada) trata-se de um ‘ensaio de filme para ser lido’, composto por duas crônicas – a de um casal depois de quatro anos de casamento e a de uma vila de pescadores (Pointe Courte, perto de Sète). O filme não pretende provocar nem provar nada. Ele conta, lentamente, no ritmo do passar do tempo, que gasta e transforma, no ritmo do tempo inexorável e à luz lúcida de idêntico bom tempo.”
Depois de opiniões própria Agnès Varda, de André Bazin e de François Truffaut, eu deveria calar a boca. Mas me sinto obrigado a dar uma opinião que é também um aviso, e a rigor deveria estar na abertura deste comentário.
La Pointe Courte é sem dúvida alguma um filme importante, marcante – por ter sido o primeiro dessa diretora maravilhosa, e o primeiro papel importante desse grande ator que é Philippe Noiret, por ter sido corajoso, “milagroso”, por ter aberto o caminho para a nouvelle vague. E, diacho, por ter maravilhosas tomadas, travellings de fantástica beleza.
Merece ser visto com respeito e admiração pelos cinéfilos de carteirinha, por estudiosos e estudantes de cinema. Mas basicamemnte por esses ai, eu acho. Definitivamente, não é um filme para todos os gostos.
Anotação em julho de 2025
La Pointe Courte
De Agnès Varda, França, 1955
Com Philippe Noiret (ele),
Silvia Monfort (ela),
e Marcel Jouet (Raphäel Scotto), Albert Lubrano (Albert Soldino), Anna Banegas (Anna Soldino), André Lubrano (Dédé Soldino), Rossette Lubrano (a mulher de Albert)
Argumento e roteiro Agnès Varda
Fotografia Louis Soulanes, Paul Soulignac, Louis Stein
Montagem Alain Resnais
Direção de arte Valentine Schlegel
Produção Ciné-tamaris.
P&B, 81 min (1h21)
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