Dez filmes que impactaram minha geração

O desafio foi feito por Elisabete Junqueira, fundadora e editora do belíssimo portal avosidade: eu toparia fazer a lista de dez filmes que, de alguma maneira, causaram impacto sobre a minha geração?

Era um desafio gigantesco descomunal; não apenas eu teria que escolher, selecionar os filmes, como precisaria falar sobre eles, num bate-papo para o canal podcast do avosidade. “Misturamos a consagrada linguagem do rádio, com histórias e músicas”, disse ela.

Aceitei o teste só pela metade: topei fazer a lista, e uma sinopse do filme, o por que ele causou impacto na minha geração – mas por escrito. Sem falar. Sou um horror para falar para mais de duas pessoas, fico nervoso, não consigo raciocinar.

Bete topou – e meu medo de falar se provou um grande aliado do canal podcast do portal avosidade, porque o resultado foi uma maravilha de programa, com as vozes agradabilíssimas da Bete Junqueira e da também jornalista Ana Magalhães.

O podcast de fato ficou magnífico, com uma sensacional edição das trilhas sonoras dos filmes citados.

Quis aproveitar e registrar aqui a lista dos dez filmes, apresentados em ordem cronológica. As sinopses, copiei e adaptei de guias. A avaliação que vai depois de cada uma é inteiramente minha.

Toda lista de melhores, mais isso ou mais aquilo, é necessariamente incompleta, e obrigatoriamente ruim. Faltam títulos que não poderiam faltar de forma alguma – e há títulos que não mereceriam jamais entrar na lista.

Mas a verdade é que a imensa maioria das pessoas adora uma lista – até para poder meter o pau nela.

Então aí vai.

Os Incompreendidos/Les Quatre-Cents Coups

De François Truffaut, França, 1959.

Com Jean-Pierre Léaud, Claire Maurier, Albert Rémy

Em Paris, um garoto de 12 anos que não recebe a menor atenção da mãe e do padrasto comete pequenos furtos e começa a se aproximar da marginalidade.

Les Quatre-Cents Coups, no Brasil Os Incomprendidos, foi o longa-metragem de estréia de um realizador que viria a ser um dos melhores e mais importantes de todos, François Truffaut. É a primeira parte de um conjunto de cinco filmes que acompanhariam, ao longo de 20 anos, de 1959 a 1979, a evolução de um mesmo personagem, Antoine Doinel – uma façanha sem par na História do cinema mundial.

Absoluto sucesso de crítica, no mundo inteiro, influenciaria muito do que o cinema faria depois de seu lançamento, em 1959.

Sobretudo, acima de tudo, Les Quatre-Cents Coups foi, e continua sendo, um dos filmes mais pessoais e mais confessionais que já foram feitos. A história que François Truffaut conta no primeiro de seus parcos 21 longa-metragens é sua autobiografia. Escancarada. Sem disfarces. Sem piedade. Nenhum outro dos grandes mestres do cinema abriu sua intimidade mais íntima, se expôs tão claramente, tão abertamente, quanto François Truffaut neste filme.

Os Companheiros/I Compagni

De Mário Monicelli, Itália-França, 1963.

Com Marcello Mastroianni, Renato Salvatori, Annie Girardot, Bernard Blier

Um ex-professor de escola secundária (interpretado por Marcello Mastroianni) tenta organizar os operários que trabalham em condições desumanas em indústria têxtil no Norte da Itália, no final do século 19.

Vi Os Companheiros pela primeira vez (chequei agora no meu caderninho de criança e adolescente) no dia 8/8/65, no Cine Art-Palácio de Belo Horizonte. Depois vi de novo no dia 13, passada apenas uma semana. E de novo no dia 19/9, ainda no Art-Palácio, o que já é um indicativo interessantíssimo: eram raríssimos os filmes que ficavam tanto tempo em cartaz em Belo Horizonte naquela época.

Me lembro bem como o filme mexeu com os espectadores, um ano e pouco depois do golpe de 64. As pessoas aplaudiam o discurso que o personagem de Marcello Mastroianni faz quase no final. Era uma reação pela emoção do filme, mas, claro, era também uma reação passional contra os milicos.

Os Reis do Ié-Ié-Ié/A Hard Day’s Night

De Richard Lester, Inglaterra, 1964

Com John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr

Em dois dias “típicos” da vida dos Beatles, no auge do fenômeno da beatlemania, os quatro rapazes se preparam para um show ao vivo na televisão.

A Hard Day’s Night é um filme engraçado, divertido, gostoso de se ver. É inteligente, esperto, safo. Irreverente, gozador, suavemente ousado. Tem alguma coisa dos filmes dos irmãos Marx, tem um tom do cinema novo inglês de seu tempo, dos Angry Young Men. Apesar disso, ou por isso mesmo, era inovador. Fresco, fresh, no sentido mais literal e mais puro.

Permanece com um gostinho de coisa nova mesmo agora, passados quase 60 anos anos de seu lançamento na Inglaterra, em julho de 1964 – o auge do fenômeno sociológico conhecido como beatlemania. A Hard Day’s Night é um espelho daquele fenômeno, um produto dele – e ao mesmo tempo seu realimentador.

Ao redor do mundo todo, as pessoas viam e reviam e reviam sem parar A Hard Day’s Night. Num país periférico, do Terceiro Mundo, um adolescente chamado Sérgio Vaz viu A Hard Day’s Night nove vezes, conforme anotou em seu caderno de filmes, entre março de 1965 e fevereiro de 1967.

Dr. Fantástico/ Dr. Strangelove Or: How I Learned To Stop Worrying and Love The Bomb

De Stanley Kubrick, Inglaterra-EUA, 1964

Com Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden

No auge da Guerra Fria do início dos anos 1960, um general louco, com um ódio insano do comunismo, dá início a uma sequência de acontecimentos que leva as duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, à beira da guerra atômica que extinguiria a vida na Terra.

Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick, pertence a uma cepa rara – a dos filmes que, em vez de envelhecer, vão se demonstrando cada vez mais atuais, à medida que o tempo passa. O grande Roger Ebert escreveu: “Visto depois de 30 anos, Dr. Strangelove parece notavelmente fresco e sem data – uma sátira perspicaz, irreverente, perigosa.”

E ele escreveu isso há mais de dez anos. Muito antes de o planeta se vir às voltas com a crescente maré do populismo de extrema direita.

Dr. Strangelove – a gente constata a cada revisão – não é apenas um filme extraordinário que alerta sobre a iminência de um conflito de nuclear que aniquilaria todas as formas de vida no planeta. Ele é exatamente isso, sim, sem dúvida alguma.

Mas é mais. É um dos mais brilhantes, mais inteligentes e mais assustadores filmes que alertam para o perigo do fanatismo, da cegueira ideológica de gente como Donald Trump, Steve Bannon, Matteo Salvani, Viktor Orbán, Jair Bolsonaro.

Deus e o Diabo na Terra do Sol

De Gláuber Rocha, Brasil, 1964

Com Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Othon Bastos, Maurício do Valle.

No meio da seca e da miséria, no Nordeste do Brasil, um camponês pobre passa do domínio de um beato fanático ao de um cangaceiro.

Assim que chegou às telas dos cinemas, em 1964, exatamente o ano do golpe que instaurou a ditadura militar no Brasil, Deus e o Diabo na Terra do Sol se revelou muito mais que um filme. Foi uma erupção vulcânica, um terremoto, o choque de um gigantesco meteorito, uma bomba atômica.

Deus e o Diabo é barroco. Gongórico. Operístico. Tour de force. Exagerado, over do over. Suntuoso. Em alguns momentos – vários, a rigor –, chato de doer. Espetacular. Superlativo. Deus e o Diabo é um filme superlativo.

Como observou um crítico francês, Gláuber Rocha rompe com a estrutura narrativa tradicional – e, acrescento eu, foge do realismo feito o diabo da cruz, o vampiro do alho e do crucifixo. É tudo absolutamente estilizado. Como uma ópera. Com alguns momentos em que os personagens fazem marcações fixas dentro do quadro como se fosse puro teatro, como se fosse uma tragédia grega num palco de anfiteatro. Não é a narrativa de uma história de pessoas reais – é muito mais uma fábula, uma parábola, uma grande metáfora.

Fahrenheit 451

De François Truffaut, Inglaterra, 1966

Com Oskar Werner, Julie Christie

Em um futuro opressivo, não existem mais incêndios, e os bombeiros se dedicam a queimar livros, que são proibidos pelo regime autoritário. Um bombeiro fiel ao regime começa a ter dúvidas sobre se o que ele faz é certo.

O diretor François Truffaut não ligava muito para a política. É um dos pouquíssimos, raríssimos artistas europeus em atuação nos anos 60 que não era socialista, comunista ou no mínimo simpatizante da causa.

Mas tinha paixão pelos livros. Era um apaixonado por livros, por filmes, por mulheres e pela paixão, não sei exatamente em que ordem. Praticamente todos os seus filmes ou baseiam-se em livros ou falam de livros, mostram livros, comentam livros.

Não poderia imaginar um mundo regido por um Estado totalitário em que os livros fossem proibidos. Tem absolutamente toda a lógica ele ter se decidido a levar para o cinema o livro de Ray Bradbury sobre aquele futuro apavorante, em que a Resistência contra o regime é exercida por pessoas que decoraram os livros, e os vão passando oralmente para os filhos, os sobrinhos, os netos.

Um Homem, Uma Mulher/Um Homme et une Femme

De Claude Lelouch, França, 1966

Com Jean-Louis Trintignant, Anouk Aimée

Um homem e uma mulher, ambos viúvos, se conhecem e se apaixonam.

É só um fiapinho de história, como bem mostra a sinopse. E uma história absolutamente comum, sobre duas pessoas comuns, “normais” (se é que alguém pode ser chamado de normal), sem nada, nada de extraordinário.

Dois atores competentíssimos, simpáticos, belos, aí na faixa dos 30 e tantos anos – Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée; uma câmara que faz belíssimos movimentos; uma mistura de sequências em cores e em maravilhoso preto-e-branco; uma trilha sonora apaixonante, com um tema simples e gostoso, daqueles que grudam na cabeça da gente como chiclete. E pronto: o filme conseguiu a façanha raríssima de vencer ao mesmo tempo o Oscar de melhor filme estrangeiro e a Palma de Ouro do Festival de Cannes, um dos mais importantes do mundo. E se tornou um espetacular sucesso de público. Em São Paulo, bateu recordes, ficou mais de um ano em cartaz.

O diretor Lelooch faria seus personagens se reencontrarem duas décadas mais tarde, em Um Homem, Uma Mulher: 20 Anos Depois (1986), e novamente, já velhinhos, em Os Melhores Anos de Uma Vida (2019).

Todas as Mulheres do Mundo

De Domingos Oliveira, Brasil, 1967

Com Leila Diniz, Paulo José, Ivan de Albuquerque, Flávio Migliaccio

Na Zona Sul do Rio de Janeiro, rapaz bonitão, simpático (Paulo José), namora todas as mulheres que passam pela sua frente – até que conhece Maria Alice (Leila Diniz), apaixona-se perdidamente e tem que escolher entre ela e metade da humanidade.

Em pleno início da ditadura militar, enquanto praticamente todos os filmes brasileiros denunciavam as mazelas e a injustiça social do país como forma de combater o governo de direita, Domingos de Oliveira remou contra a maré e fez uma comédia romântica. Que é a mais bela e arrebatada declaração de amor feita no cinema a uma mulher – Leila Diniz, aquela mulher esplendorosa, maravilhosa, que passou entre nós como um cometa e foi embora cedo demais.

Todas as Mulheres do Mundo não é apenas um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. É um dos melhores filmes de todos os tempos.

E é impressionante como o filme resiste intacto ao teste do tempo. Quatro décadas depois, ele mantém o frescor, o brilho, a inteligência, a beleza, a criatividade transbordante.

Não é à toa que inspirou uma série da Rede Globo recentemente, em 2020.

Sem Destino/Easy Rider

De Dennis Hopper, EUA, 1969

Com Peter Fonda (Wyatt, o Capitão America), Dennis Hopper (Billy) e Jack Nicholson (George Hanson),

Dois motociclistas atravessam metade dos Estados Unidos, de Los Angeles até Nova Orleans, passando por colônias de hippies e por cidades em que eram hostilizados por causa de suas roupas e maneiras pouco convencionais.

“Em 1969, um filme sobre motocicletas de baixo orçamento mudou para sempre a forma em que a América olha para si mesma e a maneira com que os filmes redefinem a cultura.” Essa afirmação abre um documentário de pouco mais de uma hora de duração sobre Sem Destino, chamado Easy Rider: Shaking the Cage. Pode parecer um exagero – mas não é.

Easy Rider tem imensa importância, sim, sem dúvida alguma. Foi um marco fundamental. Foi o filme que mostrou escancaradamente, pela primeira vez, a vida dos hippies, a forma com que viviam as pessoas que tinham resolvido abandonar o American Way of Life para procurar alguma coisa mais satisfatória, mais plena.

Fiquei com a sensação, depois de terminar de rever o filme, 50 anos depois de seu lançamento, que Easy Rider está para o cinema americano como Hair está para o teatro da Broadway – e como Woodstock está para a cultura, para a História de uma maneira geral. Easy Rider, Hair e Woodstock foram os grandes marcos da presença forte da contracultura, do hippie way of life.

A Confissão/L’Aveu

De Costa-Gavras, França-Itália, 1970

Com Yves Montand, Simone Signoret, Gabriele Ferzetti, Michel Vitold, Jean Bouise

Em Praga, em 1951 – a época dos julgamentos dos ex-camaradas que por algum motivo passaram a ser considerados inimigos do regime comunista –, um vice-ministro (o papel de Yves Montand) é preso e violentamente torturado para confessar crimes contra a pátria que não cometeu.

Nem mesmo Franz Kafka seria capaz de criar essa história de tamanho absurdo kafkiano que viria a acontecer de verdade ali mesmo, na sua cidade natal, a bela Praga, e que Costa-Gavras, Monsieur Cinéma Politique, transformou em um filme em tudo por tudo extraordinário, eletrizante, importantíssimo, em 1970.

Nem mesmo George Orwell, Aldous Huxley ou Ray Bradbury conseguiriam construir uma trama de distopia tão apavorante, tão cruel, tão desumana, quanto a história real conduzida na Checoslováquia do início dos anos 1950 pelo governo e pelo Partido Comunista checo, sob as ordens da União Soviética de Stálin.

Na época em que foi lançado, 1970, foi um furor, um choque, uma bomba atômica: como assim, esse formidável time de gente esquerdista, o cineasta greco-francês Constantin Costa-Gavras, o casal 20 da esquerda francesa Yves Montand-Simone Signoret, e mais o comunista espanhol Jorge Semprun, unidos num filme que mostra tortura num regime comunista? Traição, traição, traição! Estão se vendendo para o imperialismo! Abandonaram a defesa do povo, a construção do socialismo!

Costa-Gavras, Montand, Simone Signoret e Semprun, ao contrário de lulistas e bolsonaristas, não têm ditadores favoritos.

Agosto de 2021

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