Grande Bolada / Arme Riddere

Nota: ★★½☆

O cinema ainda não descobriu direito o imenso potencial dos livros do escritor norueguês Jo Nesbø. Este Arme Riddere aqui, co-produção Noruega-Suécia de 2011, exibido na TV a cabo brasileira como Grande Bolada, foi apenas o segundo filme baseado em história de Nesbø; neste segundo semestre de 2016, os americanos já começavam a produzir uma refilmagem, com o mesmo título do filme original no mercado de língua inglesa, Jackpot.

Tradução apropriada: Jackpot é prêmio máximo, em geral de loteria, bolada. É disso mesmo que trata a história de Nesbø.

Os ingleses também preparavam, no segundo semestre de 2016, para lançamento em 2017, The Snowman – a primeira história do detetive Harry Hole a ser filmada. O extraordinário Michael Fassbender foi o escolhido para interpretar Harry Hole, personagem fascinante, que já apareceu em 11 novelas escritas por Nesbø entre 1997 e 2017. Nesbø é do tipo caudaloso, prolixo, prolífero.

O primeiro Harry Hole do cinema chegará fora de ordem, como os livros de Jo Nesbø chegaram ao Brasil (sempre pela Editora Record): The Snowman, no original Snømannen, aqui Boneco de Neve, é de 2007 – foi o sétimo romance com Harry Hole como o protagonista.

Os livros de Jo Nesbø podem ser divididos entre os da série Harry Hole, os da série Doctor Proctor, as novelas de Olav Johansen, e os independentes, que não pertencem a nenhum dos outros grupos.

Com toda certeza a história que deu origem a este Arme Riddere/Jackpot/Grande Bolada é desta última subdivisão.

A abertura é impactante, uma maravilha. Não dá para parar de ver o filme

A abertura do filme é não menos que brilhante. Não há como alguém possa ver aquela abertura e deixar o filme de lado, achar que não vale a pena.

Ela fisga o espectador com tudo.

Uma imagem em preto-e-branco de dois homens sentados de lados opostos de uma mesa. Um letreiro informa o onde e o quando: “Delegacia de Polícia de Ostfold. Dias antes do Natal”. Ostfold fica perto de Oslo, ao Sul, junto da fronteira da Noruega com a Suécia.

O espectador percebe que a imagem em preto-e-branco é a colhida por uma câmara colocada no alto da sala, a da câmara que está gravando a conversa entre o policial – o detetive Solør (Henrik Mestad) – e o interrogado, um tal de Oscar Svendson (Kyrre Hellum).

O detetive Solør olha nos olhos do interrogado, e diz a primeira frase do filme, bem lentamente: – “Oscar Svendson. Nós nos conhecemos há uma hora, desde quando vi você saindo debaixo de uma mulher grande. Havia oito corpos ao seu redor, e você segurava uma espingarda.”

Oscar tenta começar a dar sua versão, mas a voz não sai direito, ele gagueja, tartamudeia.

Corta, e vemos um carro em alta velocidade, três rapazes nele, muito alegres, bebendo. Param o carro num lugar à beira da estrada em que uma placa anuncia Pink Heaven, o céu cor-de-rosa – uma boate, um night club que funciona 24 horas. Na verdade, um puteiro.

Os três rapazes descem do carro, correm para a porta de vidro gritando “Onde estão as mulheres?” – e são recebidos por uma saraivada de balas.

Tomadas rapidíssimas de um tiroteio do cão dentro da Pink Heaven, enquanto vão aparecendo os créditos iniciais, os nomes dos atores em letras gigantescas.

O detetive não acredita em uma palavra do que o sobrevivente da carnificina fala

A princípio, o detetive Solør não acredita em uma palavra do que Oscar conta para ele na sala de interrogatório na delegacia de polícia de Ostfold.

Em meio às tomadas muito rápidas, bem no início do filme, já havíamos visto o detetive Solør chegar ao local da carnificina, juntamente com sua colega, a detetive Gina (Marie Blokhus), poucos minutos após o tiroteio. Havíamos visto que, enquanto os policiais faziam a primeira inspeção do local e contavam os mortos, um sujeito havia se levantado debaixo de uma grande mulher morta, com uma espingarda da mão – esse mesmo Oscar, aparentemente o único sobrevivente da cena dos vários crimes, do tiroteio maluco.

Então, a princípio, o detetive duvida de cada palavra que esse Oscar diz. Mas Kyrre Hellum, o ator que interpreta o interrogado, é bom demais (na verdade, todos são ótimos; como é o principal protagonista, Kyrre Hellum brilha mais que todos), e transmite para o espectador a idéia de que ele de fato é uma vítima das circunstâncias todas, o único sujeito inocente no meio daquele cenário de guerra.

O que aconteceu – ele conta para o detetive – foi que ele e mais três colegas de trabalho ganharam o maior prêmio da loteria esportiva. Acertaram os 12 resultados, e o bilhete em nome de Oscar foi o único vencedor do prêmio de 1,7 milhão de coroas.

Oscar conta que trabalhava numa indústria que admitia ex-detentos. Então, dois desses ex-detentos, Tresko (Andreas Cappelen) e Billy (Arthur Berning), este último um tipo extremamente violento, tinham se unido a Oscar e a seu amigo de infância Thor (Mads Ousdal) para fazer uma aposta na loteria.

Ganharam a aposta – mas aí começou a tragédia, porque Tresko quis ficar com todo o dinheiro, e então foi morto por Billy e Thor.

O filme é de uma violência sem limites, pior que os slasher movies

Quando o relato de Oscar para o detetive Solør chega nesse ponto, estamos aí com menos de 30 minutos do filme que dura 90. Assim, creio que relatar o que aconteceu até aqui não seja spoiler.

Nem chega a ser spoiler dizer que neste filme, como em tantos outros filmes policiais, haverá reviravolta.

Pois bem – ou, a rigor, pois mal: o que virá a partir daí é algo de uma violência sem limites.

Vai espirrar mais sangue do que nos mais grotescos, abjetos slasher movies, aquele tipo de terror tétrico que os adolescentes americanos e também de diversos outros quadrantes parecem admirar como se fosse poesia pura.

Poucas vezes vi humor tão negro.

E é muito estranho, porque detesto humor negro. Não consigo compreender o que há de humor no humor negro. E tenho profundo desprezo por slasher movie. Mais ainda que desprezo – nojo.

No entanto, não quis parar de ver este filme.

Pensei em Fargo (1996), dos irmãos Coen. No livro O Inocente, de Ian McEwan, que deu origem ao filme O Inocente (1993) de John Schlesinger, com Campbell Scott, Isabella Rossellini no auge da beleza, tão parecida com a mãe, e mais Anthony Hopkins. Fargo e O Inocente, livro e filme, têm em comum com este Arme Riddere aqui, um mesmo elemento, uma mesma ação pavorosa, odiosa, vomitativa, repelente, pavorosa, medonha – aquilo que Jack, the Ripper fazia.

Não é um filme que se leva a sério. Mas é estupidamente bem feito

Não tenho idéia de como é a história de Jo Nesbø que deu origem a este filme, e que está agora dando origem a uma refilmagem americana.

Me admira que uma história de Jo Nesbø tenha dado origem a este filme aqui, que é mezzo thriller dramático, mezzo slasher cômico.

Porque, dos três ou quatro livros de Jo Nesbø que li, não há qualquer espaço para comicidade. As histórias de Jo Nesbø são extremamente violentas, sanguinolentas – porque o mundo é tantas vezes violento, sanguinolento. Mas as histórias dele, pelo menos as que li, não misturam violência com riso. Muito ao contrário: denunciam a violência, a sanguinolência. Lamentam que elas existam. Não fazem rir dela. São sérios, graves.

Não que este filme seja moralmente errado, condenável. Que faça defesa da violência por mostrar cenas ultra-violentas. Na verdade, desde bem o início o diretor Magnus Martens – ele também o autor do roteiro – demonstra que este não é um filme para ser levado a sério. Não é realista, não pretende mostrar a vida como ela é. É uma diversão, um divertissement – só que falando de crimes e mostrando ultra-violência.

E é estupidamente bem feito. Nordicamente bem feito.

Anotação em outubro de 2016

Grande Bolada/Arme Riddere

De Magnus Martens, Noruega-Suécia, 2011

Com Kyrre Hellum (Oscar), Mads Ousdal (Thor), Henrik Mestad (detetive Solør), Arthur Berning (Billy), Andreas Cappelen (Tresko), Lena Kristin Ellingsen (Trine), Fridtjov Såheim (Gjedde), Peter Andersson (Lasse), Jan Grønli (Clausen), Marie Blokhus (detetive Gina), Anne Marie Ottersen (a mãe de Thors)

Roteiro Magnus Martens

Baseado em história de Jo Nesbø

Fotografia Trond Høines

Música Magnus Beite

Montagem Jon Endre Mørk

Produção Fantefilm, Film Väst, Zentropa, Det Danske Filminstitut.

Cor, 90 min

**1/2

Título nos EUA: Jackpot.

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