Amante a Domicílio / Fading Gigolo

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Nota: ★★☆☆

John Turturro escreveu e dirigiu Amante a Domicílio (no original, Fading Gigolo) como uma homenagem a Woody Allen. Resolveu homenagear o cara, e então bolou a história. Tá certo que a história não faz muito sentido, mas é um filme divertido.

Essas afirmações aí não são minhas, são da Mary. Quando terminamos de ver o filme, eu fiquei assim meio sem saber o que pensar, o que dizer, o que achar.

Passavam pela minha cabeça coisas assim: pô, tanta mulher bonita… Mas… Por que tanta importância à personagem da viúva do rabino? Tanta gozação com judeu… Será que o Turturro é judeu? Sim, porque judeu pode gozar judeu, mas gói, melhor não – se gói gozar judeu, eles todos viram feras ferozes…

zzfading2Passavam pela minha cabeça, vagamente, perguntas – e Mary, rápida no gatilho como Clint Eastwood em Bronco Billy (entre tantos outros westerns e policiais), veio com aquela enxurrada de afirmações.

Passaram-se alguns dias desde que vimos Fading Gigolo (fading de to fade, de fade out, fade in – desvanecer, desbotar, descolorir, apagar-se), e continuo com dúvidas, perguntas. Na falta de afirmações minhas, resolvi abrir o texto com as de Mary.

Allen trabalhou apenas cinco vezes como ator em filmes de outros realizadores

Em 48 anos de carreira (desde 1965, o ano de Que é Que Há, Gatinha?/What’s New, Pussycat?, até 2013, o ano deste Fading Gigolo e do seu Blue Jasmine), Woody Allen só trabalhou como ator em filmes que não de sua autoria em seis ocasiões. A rigor, a rigor, cinco – porque em uma delas, Paris-Manhattan (2012), de Sophie Lellouche, uma homenagem apaixonada, aberta, a ele, Allen aparece apenas em uma sequência, representando a si próprio, além de falar algumas frases em off.

Cinco filmes dos outros como ator. Vale lembrar quais são, rapidinho.

Testa de Ferro por Acaso/The Front (1976) é de Martin Ritt, cineasta engajado, sempre atento para a política, o social. WA interpreta o personagem título – um sujeito que, durante o macarthismo, o período da caça às bruxas no show business, nos anos 1950, passou a assinar roteiros de filmes e de programas para a TV escritos por autores colocados na lista-negra de comunistas ou simpatizantes proibidos de trabalhar. WA dá um tom cômico a uma drama pesado.

zzfading0Cenas de um Shopping/Scenes from a Mall (1991) é de Paul Mazursky, o diretor do emblemático Uma Mulher Descasada (1978). WA faz o marido de Bette Midler; no dia do 16º aniversário do casamento, os dois vão a um shopping em Beverly Hills, Los Angeles, consumir e brigar. É uma comédia amarga.

Nunca tinha ouvido falar (ou, se já tinha ouvido, tinha me esquecido completamente, o que dá no mesmo) de Feitos um para o Outro/The Sunshine Boys (1996), dirigido por um tal John Erman baseado em peça de Neil Simon. O elenco tem ainda Peter Falk, Sarah Jessica Parker e Liev Schreiber. Bom ator, descendente de judeus poloneses e russos, Liev Schreiber teria um dos principais papéis neste Amantes a Domicílio.

Também nunca tinha ouvido falar (como sou ignorante, meu Jeová do céu e também da terra!) em Juntando os Pedaços/Picking up the Pieces (2000), dirigido pelo bom mexicano Alfonso Arau. No elenco estão WA e Sharon Stone, que também está neste Amantes a Domicílio.

E então temos Amantes a Domicílio. A rigor, o quinto dos únicos cinco filmes não de sua autoria em que WA trabalha como ator.

O filme me faz fazer mais perguntas do que tentar dar respostas

Mas será que ele trabalhou apenas como ator? Será que não deu umas diquinhas para o novato (em comparação com ele mesmo) John Turturro?

Este aqui foi o quinto filme dirigido por Turturro, esse excelente ator que, quando bem iniciante, ganhou um pequeno papel em Hannah e Suas Irmãs (1986).

Hum… É absolutamente necessário, em nome de uma racionalidade mínima que seja, apresentar aqui uma sinopse do filme, um resumo do que trata a história – ainda que uma coisa curta.

É um problema. Não sei fazer sinopses curtas.

zzfading4No Brooklyn de todas as etnias e todos os credos, o velhinho Murray (Woody Allen) está sendo obrigado a fechar a livraria que herdou do pai e do avô. O negócio está dando prejuízo, e então o jeito é fechar. Enquanto fecha, é ajudado pelo grande amigo Fioravante (o papel do autor e diretor Turturro).

Fiovarante é um sujeito trabalhador: sabe trabalhar como encanador, é um faz-tudo. Está agora trabalhando numa floricultura. Mas, embora competente, nunca pára em emprego por muito tempo, e anda sempre duro.

Murray tinha ido consultar sua dermatologista, a dra. Parker, e, durante a consulta, ela havia dito que pensava em fazer um ménage-à-trois, um threesome – uma sacanagem a três, em português claro.

E então Murray imaginou que seu amigo Fioravante poderia ser o terceiro cara na transa a três pretendida pela dra. Parker.

Em suma, para abreviar: o velhinho Murray propõe a seu amigo Fioravante que vire um prostituto, um comedor de mulheres profissional.

Fioravante protesta, reclama, xinga o amigo mais velho, diz que ele precisa se tratar, que está doido.

Mas acaba topando.

O primeiro trabalho é com a dra. Parker – que vem na pele de Sharon Maravilha Stone. Fioravante vai avante e se prova um latin lover maravilhoso.

E então a dupla cafetão Murray e puto Fioravante se dá bem, e o primeiro ganha uma boa grana como agenciador, e o segundo ganha uma grana preta – além de comer um bando de mulher bonita.

Aí entra em cena a viúva do rabino, Avigal – interpretada por Vanessa Paradis. Vanessa Dentinhos Separados Paradis é uma mulher interessante: em algumas tomadas, é linda. Em outras, é feiosinha.

Agora, por que raios é que o roteiro, o filme inteiro, os personagens do cafetão, Murray, Woody Allen, e do puto, Fioravante, John Turturro, dão tanta importância a ela? Por que ela fica mais importante que a rica dra. Parker? E do que a amiga-amante da dra. Pasrker, Selima, que vem na pele da colombiana lindíssima Sofía Vergara?

Ahnn… Não querendo dar uma de idiota da objetividade, mas dando, por que seria mesmo que um livreiro do Brookyn em fase falimentar teria condições de frequentar uma dermatologista caríssima em Manhattan?

De fato, este filme me faz fazer mais perguntas do que tentar dar respostas.

O IMDb diz que, sim, Woody Allen deu sugestões sobre o roteiro

zzfading3Observo a página de Trivia do IMDb a respeito deste filme. Trivia – informações sobre a produção, curiosidades, informações úteis e/ou inúteis. Só há quatro tópicos. Os filmes interessantes podem provocar até 50 tópicos na Trivia do IMDb. Poucos itens de Trivia, vixe, são uma indicação de que o filme não é lá muito interessante.

Transcrevo a totalidade da Trivia sobre o filme:

* Uma das poucas aparições de Woody Allen num filme não dirigido por ele.

* Não apenas ele é um dos astros do filme, como Woody Allen também deu sugestões a John Turturro sobre o roteiro, a pedido do diretor.

* John Turturro e Woody Allen usam o mesmo barbeiro, que foi como Allen ficou sabendo a respeito do filme.

* Pouco depois que o filme foi feito, Sharon Stone e John Turturro trabalharam juntos numa peça de teatro.

Quanto àquela minha dúvida lá em cima, sobre Turturro ser ou não judeu: parece que não, não é. Seu pai é americano, filho de imigrantes italianos, e a mãe nasceu na Sicília. Os dois são católicos e criaram os filhos – nascidos no Brooklyn, assim como Woody Allen – dentro da religião católica.

De novo é Mary que tem razão: segundo ela, Turturro se permitiu fazer gozações com judeus porque a presença de Woody Allen lhe dá costas largas para tal.

Mas, afinal de contas, este filme acrescenta alguma coisa? Presta?

zzfading5Fico então aqui a me perguntar: se, nessa trama, há uma dermatologista riquérrima, casada com um homem e vivendo um caso de paixão com uma mulher, papéis de Sharon Stone e Sofía Vergara, por que, raios, vamos nos concentrar na mulher solitária do rabino morto, interpretada por Vanessa Paradis? É para fazer uma séria denúncia contra o absurdo das leis rabínicas?

É: de fato este filme me leva a fazer perguntas. Respostas, não tenho uma sequer – “none whatsoever, Frank”, como dizia o HAL-9000, o supercomputador do 2001 de Stanley Kubrick, depois de ter se decidido a passar para o lado do Mal.

Faço mais pergunta – e, para essas, me apreço a dar a resposta. O filme Fading Gigolo acrescenta alguma coisa? Presta?

Hum… A resposta que eu dou é não.

Anotação em novembro de 2014

Amante a Domicílio/Fading Gigolo

De John Turturro, EUA, 2013

Com John Turturro (Fioravante), Woody Allen (Murray), Vanessa Paradis (Avigal), Liev Schreiber (Dovi), Sharon Stone (Dra. Parker), Sofía Vergara (Selima), Tonya Pinkins (Othella), Aubrey Joseph (Cefus), Dante Hoagland (Coco), Isaiah Clifton (Cyrus)

Argumento e roteiro John Turturro

Fotografia Marco Pontecorvo

Música Abraham Laboriel e Bill Maxwell

Montagem Simona Paggi

Produção Antidote Films. DVD Sony Pictures.

Cor, 90 min

**

Um Comentário

  1. Daphne
    Postado em 8 abril 2015 às 1:44 am | Permalink

    A viúva é o elemento transgressor por excelência, transgride as leis ortodoxas, e coloca o ‘amante transgressor’ na situação de o apaixonado que sofre por amor, comentário que ele mesmo faz no primeiro encontro, onde há amor há dor, e que ela vai repetir ao se despedir.

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Chef em 15 maio 2015 às 8:02 pm

    […] Há muitas, muitas referências a Cuba, basicamente porque o protagonista, o chef do título, interpretado por Jon Favreau (que é também o diretor e o autor do argumento e do roteiro), foi casado com uma cubana, Inez. A cubana Inez é interpretada por essa colombiana de Barranquilla e de beleza espantosa, Sofía Vergara. […]

  2. […] dos dentes da frente bem separados, de A Mulher e o Atirador de Facas, Como Arrasar um Coração, Amante a Domicílio. É talvez a personagem mais estereotipada de todas: presidente de uma grande empresa de pesquisa […]

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