Os Amantes / Les Amants

Nota: ★☆☆☆

Os Amantes, o segundo filme de Louis Malle, é um grande clássico, uma das obras mais marcantes do cinema francês do final dos anos 50 e início dos 60. Provocou imensa polêmica na época de seu lançamento, 1958.

Nunca tinha visto antes – e acho que deveria ter visto bem mais cedo. Vê-lo só agora, tanto tempo passado, foi uma decepção. Achei o filme chato, aborrecido, bobo.

Claro: a fotografia em preto-e-branco do mestre Henri Decaë é um primor, uma maravilha. E a interpretação de Jeanne Moreau, extraordinária, espetacular, cheia de sutilezas, por si só faz valer a pena ver o filme.

E é preciso, evidentemente, levar em consideração sua importância histórica. Sem dúvida alguma.

Vejamos o que diz o Guide des Films do mestre Jean Tulard:

“Dijon: Jeanne se entendia com Henri, seu marido, dentro desse meio da alta burguesia. O destino a faz encontrar Bernard, um jovem anti-conformista. Dentro da doçura de uma noite de verão, ela conhece com ele a plenitude do amor. No alvorecer, ela decide segui-lo. Até onde? Grande sucesso de público, com base no escândalo. Os abraços, para ser preciso, são no entanto discretos. Vimos outros depois… Esse filme envelheceu consideravelmente, mas permanece um marco na liberação da moral. A apreciar pelo menos pela beleza das imagens e pela leveza de uma câmara que acaricia os amantes.”

Outro francês, o historiador e crítico Georges Sadoul, diz o seguinte, pelo menos na edição brasileiras de seu Dicionário de Filmes:

“Uma burguesa rica (J.M.), casada com o proprietário de um jornal borgonhês (A.C.), e amiga de uma elegante parisiense (J.L.de V.), encontra por acaso, na rua, um jovem (J.M.B.), torna-se sua amante e abandona a família, talvez não para sempre. O primeiro êxito de Louis Malle. Melhor sequência (satírica): o jantar no castelo. A mais discutível: o canto de amor no parque. As cenas eróticas, tratadas com arte (e pudor), contribuíram para o sucesso internacional do filme.”

Hum… Aqui, com perdão de mestre Sadoul, há dois pequeninos equívocos. A amiga de Jeanne não é parisiense; é, assim como Jeanne, de Dijon, da província; mora no momento da ação em Paris; isso é dito com todas as letras. E Jeanne não se encontra com o jovem na rua, e sim na estrada, depois que seu carro enguiça. O jovem pára, ela pede uma carona.

Do outro lado do Atlântico, naquele país que se tornou o mais rico do mundo, sem no entanto ter os milhares de anos de civilização que os europeus têm, Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4 e disse: “Chique, no passado controvertido conto sobre a rica, casada, espiritualmente vazia Moreau e seus dois muito diferentes envolvimentos extra-maritais. O primeiro grande sucesso internacional de Malle, e uma das maiores participações de Moreau em sua juventude”.

O ianque grosseiro, sem a finesse dos 6 mil anos de civilização européia, na minha opinião pegou o principal da história: Jeanne, a heroína, é espiritualmente vazia.

O marido é um tédio, o amante é um tudo. Tudo, na vida da heroína, é um tédio

Jeanne (o papel de Jeanne Moreau) tem um casamento absolutamente insatisfatório. O marido, Henri (Alain Cuny), dono do jornal de Dijon, dedica ao trabalho 101% de seu tempo, de seu desejo, de suas vontades. Não sobra nada para a bela mulher. A bela mulher – que não faz absolutamente porra nenhuma na vida, não lê um livro, não vê um filme, não tem um hobbie, não dá a mínima atenção à filha Catherine, aí de uns sete anos – é uma absoluta nulidade. Ela passa, então, com a aquiescência e até o incentivo do marido provinciano, a ir sempre a Paris visitar a amiga de infância Maggy (Judith Magre), casada com um parisiense. E, entendiadamente e entediantemente, torna-se amante de um grande amigo de Maggy, o ricaço dolce far niente Raul Flores (José-Luis de Villalonga).

O marido é um tédio, o amante é um tédio. Tudo ali é um tédio.

Lá pelo meio do filme, para o espectador corajoso que chega até a metade do filme, Jeanne vai conhecer Bertrand (Jean-Marc Bory). Nos 86 primeiros minutos do jogo, ela vai achar Bertrand um chato de galocha. Quando o tempo regulamentar está se esgotando, de repente, muito de repente, ela se apaixonará perdidamente, mas perdidamente, perdidamente, por Bertrand.

Sem que o espectador possa ter simpatia por um personagem sequer, não há filme que fique de pé

Os cineastas franceses e italianos dos anos 50 e 60 detestavam os ricos. Faziam filmes para mostrar quão imbecis são os ricos.

Creio que essa foi a forma de eles se demonstrarem politicamente corretos. Todo burguês é safado, velhaco, doente do pé – e essa era a mensagem através da qual eles se diziam avançados, de esquerda, socialistas.

Ao tentar demonstrar que a burguesa Jeanne era uma imbecil, uma bocó, uma idiota, Louis Malle conseguiu, na minha opinião, fazer um filme imbecil, bocó, idiota.

Não é possível o espectador ter qualquer tipo de simpatia por aqueles basbaques que vê na tela. São todos eles, de toda forma, uns chatos.

Sem que o espectador possa ter simpatia por um personagem sequer, não há filme que fique de pé.

E aí, lá pelo final do filme, vêm as cenas na época consideradas tórridas – hoje mais inocentes do que a TV aberta mostra às 6 da tarde.

As cenas então tórridas que Les Amants exibe hoje parecem absolutamente inócuas, suaves. E – perdão, fãs de Les Amants -, babacas. Aquela quantidade de “je t’aime” que a protagonista bota pra fora não chega a não ser nada mais do que uma grotesca, ridícula, absurda bobagem.

Ninguém se apaixona tanto em tão pouco tempo.

Na minha opinião, Os Amantes é um filme chato como os personagens que retrata

Depois que fiz a anotação acima, me ocorreu que talvez o que Malle tenha querido mostrar é justamente que Jeanne não se apaixonou tanto assim por Bertrand. Que ela criou, inventou a paixão para fugir da monotonia, do tédio da vida dela. Daí, inclusive, a necessidade de ela repetir tantas vezes o “je t’aime”, o “mon amour, mon amour”.

Sim, é bem possível que seja isso mesmo. O que torna o final mais palatável, menos implausível, e suavemente mais elaborado.

Mas não torna o filme melhor.

Os Amantes é chato como os personagens que retrata.

Até porque é o seguinte: só sente tédio quem é chato, imbecil, idiota, sem o mínimo de imaginação e curiosidade.

Anotação em abril de 2012

Os Amantes/Les Amants

De Louis Malle, França, 1958

Com Jeanne Moreau (Jeanne Tournier), Alain Cuny (Henri Tournier), Jean-Marc Bory (Bernard Dubois-Lambert), Judith Magre (Maggy Thiebaut-Leroy), José-Luis de Villalonga (Raoul Flores), Gaston Modot (Coudray)

Roteiro Louis Malle

Diálogos Louise de Vilmorin

Baseado no romance Point de Lendemain, de Dominique Vivant

Fotografia Henri Decaë

Música Johannes Brahms

Produção Nouvelles Éditions de Films (NEF). DVD Classic DVD.

P&B, 88 min

*

10 Comentários para “Os Amantes / Les Amants”

  1. Oi, Sérgio.
    Deixa eu colocar uma pitadinha de história na sua crítica. Eu tinha 16 anos quando foi feito Os Amantes e 18 quando o vi – naquela época os filmes demoravam mais de 1 ano pra chegar aos cinemas do Centro do Rio de Janeiro. O que eu vi no filme foi: uma mulher que tinha dois homens à sua disposição fica tarada por um homem que faz sexo oral com ela; tudo indica que os outros dois não faziam. Isso era coisa de prostituta. Ela não se apaixona pelo carinha, apenas fica doidona.
    Portanto, alguns anos antes da explosão do feminismo, Malle deu seu recado.
    Será que eu entendi direito?

  2. Você entendeu perfeitamente, Jorge.
    E é exatamente isso. Em 1962, era avançado. Hoje, é só chato.

  3. Pqp, Sério! hahaha
    Nunca ri tanto!
    Acabei de ver esse mini coqutel molotov francês! TEm certos filmes tão ruins, mas tão ruins, que vai me dando uma curiosidade móbida de saber como termina, que eu fico impedida de dar um stop no DVD.
    Mas é isso aí mesmo, é chato de doer, não recomendo mesmo. Eu, como nasci nos anos 80, o primeiro (e úncio filme até então) que eu vi do Louis Malle foi Perdas e Danos com o Jeremy Irons. E eu gostei do filme com 12 anos e ainda gosto com 29. Então, só para dar uma pinta de cinéfila mais “profissa”, aluguei esta bombinha.
    Ufa, ainda bem que não foi um delírio mesmo, mas rolou sexo oral sim naquela cena. (e bem rapidinho, não)?
    PS: realmente. ninguém se apaixona tanto assim, e em tão pouco tempo. Está certíssimo.

    PS2: caraca, hein, 1958…

  4. Pois é, como dizia Nelson Rodrigues ” Toda unanimidade é burra”. É claro que o filme é datado, mostra as mulheres burguesas como fúteis e sem objetivos de vida mas, creio que naquela época-1958-antes do feminismo, era assim mesmo, a mulher era apenas um objeto para o prazer sexual do homem e isso a deixava, é claro, frustrada com a vida. Achei que a cena implícita de sexo oral feita por Bertrand em Jeanne realmente a deixou tarada como disse o Jorge e, muito ingenuamente, ela confundiu a sensação que sentiu, provavelmente o primeiro orgasmo, com amor e paixão. Até hoje muitas pessoas fazem isso, confundem o prazer sexual e o entrosamento nesse sentido com paixão e amor, esses sentimentos não são prerrogativas dela; creio então que dá para compreender o porque de sua ênfase em dizer “eu te amo,eu te amo, eu te amo”.
    Guenia Bunchaft
    http://www.sospesquisaerorschach.com.br

  5. Acho o máximo esses eufemismos tipo “fazer sexo oral”… Aliás a história de dizer “fazer sexo” parece que pegou. É coisa de quem não faz nada. Quem faz dá uma, dá uma carcada, troca o óleo, dá uma sapatada na barata, sapeca a perseguida, entorta a cremalheira etc.

  6. lindo filme, totalmente romántico, simbólico, idealizado, sutil, típico de “Nouvelle Vague”. Talvez por isso nao tenha sido compreendido pelos críticos acima, precupados somente – me desculpem pela observacao – com materialidades, entre sexo e dinheiro.
    Excelente critica ‘a burguesía vazia, e um verdadeiro hino ao amor e ‘a entrega entre duas pessoas.
    Nao por acaso foi premiado. Mais atual do que nunca.

  7. Assisti há pouco tempo Lês Amanhã, meu fascínio e curiosidade se esfacelaram
    Achei um filme arrastado e monótono
    Talvez tenha sido um grande filme por ocasião de seu lançamento nos anos 50, mas nos dias atuais nouvelle vague é algo enrrolativo e maçante.

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