Contratadas para Matar / Les Femmes de l’Ombre

Nota: ★☆☆☆

Contratadas para Matar, no original Les Femmes de l’Ombre, as mulheres da sombra, é uma grande e cara produção de primeiríssima qualidadade, impecável em todos os quesitos técnicos. Inspira-se em uma personagem real; conta a ação de um grupo de cinco mulheres francesas contra os nazistas, em 1944, pouco antes do Dia D, o dia do desembarque das forças aliadas na Normandia.

Ao longo de toda a narrativa, surgem na tela letreiros identificando o dia e o local da ação retratada. É um bom auxílio para que o espectador acompanhe a história – e, ao mesmo tempo, o induz a pensar que se trata da reconstituição de fatos reais.

A abertura é em Paris, em uma ferrovia dentro da cidade, em abril de 1944: um grupo da Resistência faz uma emboscada a uma tropa nazista. Uma atiradora que usa arma de mira de precisão é o centro da ação dos resistentes. Ela mata diversos nazistas, e escapa – após, porém, ver seu marido ser morto no combate.

A mulher – interpretada por Sophie Marceau, uma das atrizes mais populares do cinema francês – chama-se Louise Desfontaines. Volta a aparecer em Londres, onde o governo do primeiro-ministro Winston Churchill havia criado o SOE, Special Operations Executive, para dar apoio à Resistência Francesa. Trabalha no SOE, para surpresa de Louise, o irmão dela, Pierre (Julien Boisselier), que ela julgava colaboracionista.

(A personagem de Louise – vi na internet assim que o filme terminou – foi inspirada em um personagem real, Lise de Baissac, que trabalhou para o SOE, e era tida como uma mulher de sangue frio e grande capacidade de decisão.)

Pierre não só não é colaboracionista como é membro importante do SOE, e está encarregado de chefiar uma missão estratégica – e perigosíssima. É assim: um geólogo inglês a serviço das forças aliadas tinha ido, incógnito, às escondidas, à Normandia, para pesquisar o local escolhido para o grande desembarque das tropas aliadas no continente europeu tomado pelas forças nazistas. Sua missão, evidentemente, era secretíssima – os alemães não poderiam jamais saber onde seria o desembarque. O geólogo acabou sendo ferido num bombardeio; conseguiu pegar o uniforme de um nazista, e estava em hospital francês gerido pelos alemães, fingindo-se de alemão.

A missão de Pierre era enviar para a França, secretamente, um comando formado por mulheres, para resgatar o geólogo (e suas informações) e levá-lo de volta à Inglaterra, antes que sua verdadeira identidade fosse descoberta e os alemães o obrigassem, sob tortura, a confessar tudo o que sabia.

Um comando formado por uma aristocrata, uma prostituta, uma cristã ferverosa e uma ex-dançarina

Louise irá chefiar o comando de mulheres, obedecendo às ordens do irmão.

O grupo já tem uma agente infiltrada no hospital francês, uma aristocrata milanesa de origem judia, de codinome Maria (Maya Sansa). Caberá a Louise escolher as três outras mulheres.

Escolherá Jeanne (Julie Depardieu), uma prostituta francesa vivendo em Londres e que havia sido condenada por ter assassinado um alcaguete; Gaëlle (Déborah François), uma francesa perita em explosivos, cristã a toda prova, então trabalhando para as forças do general Charles de Gaulle na Inglaterra; e Liliana (Marie Gillain), uma figura bastante complexa.

Essa Liliana era, quando a França foi invadida, dançarina no Folies Bergères. Apaixonou-se por um alemão. Marcaram a data do casamento, que seria realizado na igreja de Saint-Germain- des-Prés – mas, na última hora, a noiva fugiu, desapareceu. Estava então em Londres, em 1944, trabalhando como secretária das forças armadas, com o nome de Suzy Desprez. Acontece que o alemão com quem ela quase havia se casado, Karl Heindrich (Moritz Bleibtreu), agora era um importante coronel da SS, encarregado da contra-espionagem, e com especial interesse em descobrir onde, afinal, seria o desembarque dos aliados.

Nenhuma dessas três mulheres escolhidas para a missão aceita de cara. Louise e Pierre terão que forçar a barra para que elas aceitem. Jeanne, a puta, será convencida com o argumento de que sua pena será abolida. Gaëlle, que Louise percebe ser uma danada de uma entusiasta de uma trepadinha, será seduzida por Pierre. E a Liliana-Suzy será dada uma opção: ou ela topa a missão, ou enfrenta a corte marcial.

Como diziam os professores, o excesso de informação prejudica a comunicação

Toda essa imensa quantidade de informações que passei nos parágrafos acima são despejados sobre o espectador nos primeiros 15, no máximo 20 minutos de filme. É informação a dar com o pau. É o que os teóricos da comunicação chamam de entropia. Das aulas dos meus dois anos de ECA, a primeira das três faculdades de jornalismo que cursei e abandonei, por não ter saco para tanta idiotice, tudo o que guardei foi a lição, repetida ad nauseam, de que o excesso de informação prejudica a comunicação. Mas aí tergiversei – e já tem informação demais, até aqui.

É Os Doze Condenados, de Aldrich, versão mulheres

Quando termina o processo de seleção das mulheres que comporiam o comando encarregado da missão a rigor impossível, me lembrei de Os Doze Condenados/The Dirty Dozen, o filme de Robert Aldrich de 1967 em que os aliados reúnem 12 soldados presos – por violência, indisciplina e outros crimes – para executar uma missão a rigor impossível.

Falei com Mary: Ih, é Os Doze Condenados, versão mulheres.

A rigor, a rigor, a rigor, este Les Femmes de l’Ombre não passa disso: Os Doze Condenados, versão mulheres. Com a diferença de que a comandante da equipe não é uma presa, uma figura violenta – é uma super-heroína –, e apenas duas têm problemas com a Justiça.

Vou tentar acelerar, até porque não tem sentido ocupar muito tempo com este filme.

É, de fato, uma produção esmerada, impecável em todos os quesitos técnicos.

É quase absolutamente maniqueísta: os nazistas são todos criminosos torturadores horrorosos; entre os franceses há os super-heróis como os irmãos Louise e Pierre, mas há também putas como Jeanne, fracas como Gaëlle e personalidades complexas como Liliana-Suzy; há até um personagem que é colaboracionista, como foram na realidade milhares de franceses. Mas, muito embora haja essas diferenciações, na hora do pega-pra-capar todos os que combatem o bom combate, os que lutam contra o nazismo, são fortes, corajosos, inflexíveis, bons.

Não me agrada o maniqueísmo.

Se há algo que me desagrada quase tanto, ou tanto quanto o maniqueísmo, é transformar filmes sobre guerra em filmes de ação.

Compreendo que há muita gente que gosta de filmes de ação, que tem prazer em ver lutas, tiros, karatê, lutas marciais, boxe, perseguição de carro, estrondo, explosão. Tem gosto pra tudo.

Agora, filme sobre a tragédia que é a guerra, sobre a imensa, brutal tragédia que foi a Segunda Guerra, que se compraz com cenas que façam a alegria de quem gosta de filmes de ação, ah, não, péra lá, tô fora.

E é exatamente o caso deste filme aqui. É bem feito. Mas não tem um pingo de alma, de idéia, de seriedade.

Quer saber? Se for para ser levado um pouquinho a sério, este filme é uma grande porcaria.

Anotação em dezembro de 2011

Contratadas para Matar/Les Femmes de l’Ombre

De Jean-Paul Salomé, França, 2008

Com Sophie Marceau (Louise Desfontaines), Julie Depardieu (Jeanne Faussier), Marie Gillain (Suzy Desprez), Déborah François (Gaëlle Lemenech), Moritz Bleibtreu (coronel Karl Heindrich), Maya Sansa (Maria Luzzato), Julien Boisselier (Pierre Desfontaines), Vincent Rottiers (Eddy)

Roteiro Jean-Paul Salomé e Laurent Vachaud

Fotografia Pascal Ridao

Música Bruno Coulais

Produção Les Chauves-Souris, Banque Populaire Images, Canal+, Centre National de la Cinématographie, CinéCinéma.

Cor, 117 min

*

Título em inglês: Female Agents. Título em Portugal: Mulheres de Guerra.

7 Comentários para “Contratadas para Matar / Les Femmes de l’Ombre”

  1. Eu vi este filme e também gostei muito pouco,
    achei até cansativo e confuso.
    Parece que algumas mulheres que participaram na vida real neste luta não gostaram mesmo nada.
    A Wikipedia diz que o filme as mostra “coagidas a aderir à resistência” e “a não aderir através de patriotismo”.

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