Cirkus Columbia

Nota: ★★★½

Uma beleza, uma maravilha, um filmaço, este Cirkus Columbia, feito em 2010 na Bósnia e Herzegovina em co-produção com diversos países, França, Inglaterra, Alemanha, Eslovênia, Bélgica e a vizinha Sérvia.

É uma fascinante história de família, contada com imenso talento e um leve toque de humor, embora seja um drama pesado, devido à situação política que é o pano de fundo da narrativa e está sempre presente no dia-a- dia dos personagens. A ação se passa em uma pequena cidade, não identificada, em 1991 – logo após a queda do comunismo e a dissolução da antiga Iugoslávia, e às vésperas da proclamação da independência da Bósnia e Herzegovina, em 1992. Naquele mesmo ano, 1992, começaria a absurda, sangrenta, brutal guerra civil que duraria três anos.

Como outros grandes filmes recentes, Cirkus Columbia traz aquela moral, aquela conclusão definitiva: as pessoas são muito mais importantes que as ideologias, os governos, os países. As ideologias, os governos acabam servindo para infelicitar, infernizar a vida das pessoas.

Para lembrar: Cirkus Columbia pertence, portanto, à nobre estirpe que inclui A Missão do Gerente de Recursos Humanos e A Noiva Síria, ambos do israelense Eran Riklis; Querido Muro de Berlim, do alemão Peter Timm; Trem da Vida e O Concerto, do romeno-francês Radu Mihaileanu; Mediterrâneo, do italiano Gabriele Salvatores; A Leste de Bucareste, do romeno Corneliu Porumboiu; Os 27 Beijos Perdidos, da georgiana Nana Djordjadze. Credo em cruz: quanto filme bom!

“As pessoas aqui sempre viveram juntas. Quem ousaria dividir a Bósnia?”

Na primeira tomada, um garotão – Martin (Boris Ler), de uns 20 anos, mas que tem atitudes, comportamento de um adolescente de 16, 17 – está acordando no sofá de sua casa. Veste uniforme de uma seleção de futebol. Mora com a mãe, Lucija (Mira Furlan, na foto acima, atriz fantástica, bem dirigidíssima, como todo o elenco), em um casarão amplo, bem antigo, de dois andares e mais um sótão. No sótão, Martin tem um equipamento de rádio-amador.

Filho e mãe recebem logo cedo a visita de um militar, Savo (Svetislav Goncic), capitão do exército. Savo presenteia Martin com uma antena poderosíssima, como a qual o rádio do rapaz poderá atingir longas distâncias. Enquanto Martin sobe imediatamente no telhado para instalar a nova antena, Lucija e Savo conversam. Percebe-se claramente que o militar arrasta a asa para Lucija, uma mulher bela, atraente, embora se vista de forma simples e não tenha muitos cuidados com sua aparência.

Ela mostra a ele uma carta que ainda não mostrara ao filho – a convocação para o serviço militar. Savo diz que vai dar um jeito naquilo, embora todos os homens estejam sendo convocados – o quartel está em alerta máximo.

Lucija acha isso um absurdo:

– “Quem vai atirar em quem? As pessoas aqui sempre viveram juntas. Quem ousaria dividir a Bósnia?”

É duro ouvir esta frase, quando se sabe a tragédia que se abateria sobre a região pouco depois – uma carnificina semelhante às piores guerras tribais da África, ali, em plena Europa, berço da civilização ocidental.

Um homem que emigrou para a Alemanha volta para sua cidade, rico, e com uma bela mulher jovem

Corta, e vemos um Mercedes-Benz vermelho, imenso, belíssimo, numa estrada. Nele viajam um homem aí de uns 50 anos, uma mulher bela e bem mais jovem, de uns 30 anos, no máximo, e um gatinho preto. O homem, Divko (Miki Manojlovic, excelente ator), está voltando para sua cidade natal, depois de 20 anos na Alemanha, onde ficou rico. A bela moça, Azra (Jelena Stupljanin, o casal na foto ao lado), pretende se casar com Divko, assim que sair o divórcio dele.

O gato está enjoado com a viagem, vomita. Param o carro num posto de gasolina antes da entrada da cidade. O frentista que os atende é exatamente o garotão Martin. Enquanto Divko vai ao banheiro, Azra sai do carro para limpar a caixinha em que carrega o gato. Martin enche o tanque de gasolina e observa a moça – ela se abaixa para pegar alguma coisa, e Martin baba ao olhar sua bela bunda.

De volta à sua cidade após 20 anos vivendo e enriquecendo na Alemanha, Divko vai visitar o prefeito, seu primo, Ranko Ivanda (Milan Strljic). Abraçam-se, fazem festa, bebem um destilado, comem um presunto – e depois começam a falar do que interessa a Divko: o despejo de sua ex-mulher, para que ele possa retomar a casa que é da família dele há gerações.

A ex-mulher de Divko, que o prefeito manda a polícia despejar à força, é Lucija. Divko não o reconheceu, mas o frentista do posto de gasolina, Martin, é seu filho.

Estamos aí com menos de 15 minutos de filme. Virá a seguir uma trama rica, interessante, gostosa – às vezes engraçada, às vezes bastante amarga – sobre esse conflito familiar. Com a política sempre por trás, a cada momento.

Um avô de Martin foi fuzilado como fascista; o outro avó era líder comunista

Veremos, ao longo da narrativa, que o avô paterno de Martin, o pai de Divko, havia sido fuzilado como fascista durante as décadas em que a Iugoslávia era comunista. Já o avô materno, o pai de Lucija, era um líder comunista. Divko havia fugido da Iugoslávia para o capitalismo porque o regime comunista estava para prendê-lo.

Ranko, o atual prefeito, primo de Divko, é odiado pelas pessoas que ainda são comunistas na nova realidade pós-dissolução do império soviético. Um dos que o odeiam é o prefeito anterior, Leon (Miralem Zupcevic), comunista de carteirinha, adorador do Marechal Tito, o homem que conseguiu manter unidas durante décadas as várias etnias e as várias regiões da Iugoslávia – Bósnia e Herzegovina, Croácia, Sérvia, Montenegro.

O ex-prefeito Leon e o capitão Savo foram as pessoas que protegeram Lucija e a ajudaram a criar Martin. Savo é bósnio, como 48% da população da Bósnia e Herzegovina; Ranko, o prefeito, é sérvio, como 37% dos moradores.

“Quem vai atirar em quem? As pessoas aqui sempre viveram juntas.”

A afirmação de Lucija é de fato uma ironia apavorante.

Atores pouco conhecidos por aqui, mas experientes, veteranos, consagrados

Vejo que Mira Furlan, a atriz que interpreta Lucija, começou a carreira na antiga Iugoslávia, e, antes da dissolução do país, era conhecida e respeitada por trabalhos no cinema, no teatro e na TV. Nascida em 1955 em Zagreb, na Croácia, começou no cinema em 1975, uma década e meia antes do fim da Iugoslávia. Em 1991, exatamente o ano em que se passa a ação deste Cirkus Columbia, ela emigrou para os Estados Unidos. Já estava fora quando começaram as absurdas, inimagináveis atrocidades cometidas ao longo da guerra civil – que incluíram centenas e centenas de estupros, centenas de execuções. Nos Estados Unidos, trabalhou em 18 episódios da série Lost, essa que deixou milhões de pessoas viciadas.

Miki Manojlovic (na foto acima), o ótimo ator que faz Divko, nasceu em Belgrado, na Sérvia, em 1950. É filho e pai de atrizes, tem uma filmografia que beira os cem títulos, inclusive trabalhos dirigidos por Emir Kusturica e Goran Paskaljevic, os dois maiores nomes do cinema feito nos países que compunham a antiga Iugoslávia. Nas duas últimas décadas, após o fim do comunismo, trabalhou em filmes feitos na França, na Itália e na Inglaterra – como, por exemplo, o excelente Irina Palm.

Jelena Stupljanin (nas fotos acima e ao lado), que interpreta a bela Azra, também é de Belgrado – mas veio gerações depois de Mira Furlan e Miki Manojlovic. Nasceu em 1978, três anos depois que Mira Furlan estreou no cinema. Formou-se na Faculdade Nacional de Artes Dramáticas, de Belgrado; tem 13 títulos no currículo, incluindo séries de TV. Bela, gostosa e talentosa.

O filme se baseia em uma novela escrita por Ivica Djikic, jovem jornalista e escritor croata nascido em 1977 numa pequena cidade da Bósnia e Herzegovina – exatamente como a retratada no livro e no filme. Cirkus Columbia, lançado em 2002, foi seu primeiro livro.

O roteiro baseado no livro foi escrito por Danis Tanovic, que é também o diretor do filme. Sujeito de talento. É também nascido na Bósnia e Herzegovina, e é jovem, de 1969. Dirigiu um dos episódios do filme 11 de Setembro, e também os longa-metragens Terra de Ninguém e – meu Deus do céu e também da terra! – Inferno/L’Enfer, de 2005, um belíssimo filme francês baseado em roteiro deixado por Krzysztof Kieslowski, com Emmanuelle Béart, Karin Viard e Marie Gillain.

Só fiquei sabendo que L’Enfer é dele agora, ao fazer a anotação. Não tinha, claro, gravado seu nome.

Sujeito de talento. E de bela visão do mundo. Seu filme tem um humanismo forte, soberbo, soberano – uma imensa simpatia pelas pessoas simples, por seus defeitos, pecadinhos, e um total desprezo pelos dogmas ideológicos, pelos governos, pelas divisões que as religiões, as ideologias e os governos criam entre os homens.

Cirkus Columbia é uma absoluta maravilha.

Anotação em maio de 2012

Cirkus Columbia

De Danis Tanovic, Bósnia e Herzegovina, França, Inglaterra, Alemanha, Eslovênia, Bélgica e Sérvia, 2010

Com Miki Manojlovic (Divko Buntic), Mira Furlan (Lucija), Boris Ler (Martin), Jelena Stupljanin (Azra), Milan Strljic (Ranko Ivanda), Mario Knezovic (Pivac), Svetislav Goncic (Savo), Almir Mehic (Bili), Miralem Zupcevic (Leon Dilber)

Roteiro Danis Tanovic

Baseado no romance de Ivica Djikic

Fotografia Walther Vanden Ende

Produção Asap Films, Autonomous, Studio Maj, Razor Film Produktion GmbH, Man’s Films, Art & Popcorn, CinePostproduction.

Cor, 113 min

***1/2

Um Trackback

  1. […] Terra de Amor e Ódio, no original In the Land of Blood and Honey, é um belo filme. Trata da guerra da Bósnia, e portanto é daquele tipo de filme duro de se ver: há atrocidade demais, violência demais, […]

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