As Loucas Aventuras de James West / Wild Wild West

Nota: ★★½☆

A melhor palavra para definir As Loucas Aventuras de James West, no original Wild Wild West, é extravaganza.

Me lembrei da palavra porque ela costumava ser associada aos filmes de Busby Berkeley (1895-1976), o coreógrafo e diretor de musicais dos anos 30 e 40 que criou um estilo visual único, que de alguma forma flertava com o surrealismo e antecipava a op-art, com centenas de bailarinas vestidas de forma idêntica preenchendo todos os cantos da tela em planos gerais impressionantes.

Extravaganza, dito em inglês, parece algo mais extravagante, mais doidão, do que uma simples extravagância.

Em As Loucas Aventuras…, o diretor Barry Sonnenfeld, o criador dos extravagantes MIB – Homens de Preto/Men in Black, extrapalou: misturou western com comédia maluca com filme de ação tipo Missão Impossível ou aventura de James Bond com ficção científica com uma pitadinha de musical.

Uma gigantesca extravaganza.

Caríssima, é claro, como não poderia deixar de ser. Custou, em 1999, absurdos US$ 170 milhões. Com esse orçamento, Edward Burns faria 68 filmes como Os Irmãos McMullen ou Os Amores de Johnny. Woody Allen faria 11 filmes como Vicky Cristina Barcelona – e ainda sobrariam uns trocados.

Claro que As Loucas Aventuras… está muito longe da qualidade artística de qualquer um desses três filmes mencionados no parágrafo anterior. Nem sequer tinha tido interesse de ver o filme na época do lançamento, em 1999; me lembrava vagamente de que todo mundo tinha metido o pau. Mas ele piscou pra gente na locadora, pegamos para experimentar – e a verdade é que uma boa diversão. Evidente: é só divertissement, é descartável, a gente vê e esquece logo. Mas, enquanto está vendo, é uma boa diversão.

Sonnenfeld é bom no que faz. Will Smith, Kevin Kline e Kenneth Branagh são ótimos na comédia, conforme já provaram tantas vezes. Há a beleza explosiva de Salma Hayek, e de mais quatro atrizes que aparecem pouco mas alegram os olhos quando aparecem. E, no meio da história louquíssima, extravagantemente louca, há ótimas piadas.

Seis pessoas trabalharam no roteiro – prova de que a coisa é complicada

Uma história louquíssima.

Os créditos iniciais – por sinal não menos que brilhantes, um grafismo rico, inteligente, criativo, ao som de uma trilha sonora perfeita, criada pelo mestre Elmer Bernstein, tão especialista em música para o western americano quanto Ennio Morricone para o western spaghetti – mostram que seis pessoas trabalharam no argumento e no roteiro. Dois sujeitos criaram a história doidona – Jim Thomas e John Thomas.

A história e os personagens centrais criados por Jim e John Thomas havia dado origem, nos anos 60, a uma série de TV.

O roteiro do filme que recicla os personagens da TV é assinado assim: S.S. Wilson & Brent Maddock e Jeffrey Price & Peter S. Seaman. Se é que compreendo os códigos do WGA, o Writer’s Guild of America, o sindicado dos roteiristas, significa que uma dupla (S.S. Wilson & Brent Maddock) elaborou o roteiro; aí outra dupla (Jeffrey Price & Peter S. Seaman) pegou o trabalho da primeira e o refez.

Em geral, quando acontece esse tipo de coisa, nego refazendo um roteiro que o estúdio rejeitou, é porque o troço é complicado.

Então é assim: estamos em 1869, quatro anos, portanto, após o fim da Guerra Civil Americana, que opôs as forças da União, do Norte, contra os Estados confederados, sulistas, escravagistas. O exército confederado do general Robert E. Lee havia se rendido, e o presidente americano era Ulysses S. Grant, que havia, durante o governo anterior, de Abraham Lincoln, chefiado as forças da União na guerra.

Esses são os fatos históricos. Entra a louca ficção dos seis sujeitos que escreveram o filme:

Nem todo o Sul, porém, havia se rendido. O general McGrath, também conhecido como general Banho de Sangue McGrath (Ted Levine), ainda comandava um grupo de rebeldes. Figura esquisitíssima, o general Banho de Sangue; em vez da orelha direita, perdida em alguma batalha, tem um pequeno alto-falante em forma de cone, miniatura daqueles alto-falantes dos primeiros gramofones que seriam usados décadas mais tarde.

Mas o grande chefe sulista rebelde é um sujeito de aparência ainda mais esquisita, o dr. Arliss Loveless (interpretado pelo britânico e shakespeariano Kenneth Branagh). Loveless perdeu todo o corpo da cintura para baixo, e é então um tronco, cabeça e braços ligados a uma cadeira de rodas veloz e malabarista. Sequestrou os maiores cientistas da época, e os pôs para trabalhar no projeto de engenhocas com as quais pretende nada mais nada menos que obrigar o presidente Grant a se render aos Estados confederados do Sul.

Para enfrentar esses terríveis inimigos, o presidente Grant destaca dois super-heróis, homens de sua mais estrita confiança: o capitão do exército James West (Will Smith) e o delegado federal Artemus Gordon (Kevin Kline).

Uma escolha acertadíssima dos atores que interpretam os super-heróis

West e Gordon vão se estranhar, e muito. São antípodas. West é o super-herói tradicional do western: hábil no manejo das armas, sejam elas quais armas forem, rapidíssimo no gatilho, bom de briga. Se juntássemos a destreza, a força e a coragem de Shane (o personagem de Alan Ladd no grande clássico), a determinação do xerife Will Kane (o papel de Gary Cooper em Matar ou Morrer) e a força tranquila de Tom Doniphon (o papel de John Wayne em O Homem Que Matou o Facínora), não teríamos um milésimo do que James West é capaz.

Gordon é o intelecto. Tem assim a capacidade de se fantasiar de outras pessoas que o Sherlock Holmes original, o criado por Arthur Conan Doyle, perdão, narrado pelo doutor John Watson, tinha. E é também um criador de engenhocas, gadgets – assim uma espécie de mistura do professor Emmett Brown da série De Volta para o Futuro com aquele inventor que cria as engenhocas para James Bond nos filmes da franquia 007.

A escolha dos dois atores para fazer os super-heróis é acertadíssima. Will Smith, com aquele rosto bonito de garotão rapper e aquele físico magrinho, não precisa fazer esforço algum para interpretar o James West que primeiro atira e depois pergunta. É um personagem muito parecido com o que interpretaria nos filmes da série MIB – Men in Black.

E Kevin Kline combina à perfeição com o intelectual-almofadinha-transformista. Ator excelente, cheio de matizes no drama (Grand Canyon, O Clube do Imperador), tem um excelente timing para a comédia, e parece se divertir em se transformar em outras caras e outro sexo, como em Será Que Ele É?/In & Out.

Estamos ainda bem no início do filme, e Artemus Gordon-Kevin Kline se fantasia de presidente Grant, na Casa Branca diante da qual pastavam tranquilas ovelhas. Artemus Gordon-Kevin Kline fantasiado de Grant se parece bastante com o Grant que podemos ver nas notas de US$ 50.

Parece tanto com Grant, que o “verdadeiro” Grant também é interpretado por Kevin Kline. E, nas diversas seqüências em que o presidente Grant aparece ao lado do super-herói Gordon, temos então dois Kevin Klines, contracenando graças aos milagres da tecnologia. Eu, pateta, vi o filme todo achando que algum outro ator fazia o presidente Grant. Só descobri que era Kevin Kline em papel duplo ao ler os créditos finais

Precisava ter uma mulher bonita na trama. Puseram seis

Dois bandidões, o general Banho de Sangue McGrath e o cientista doidão Loveless. Dois super-heróis antípodas que a princípio se destestam, West e Gordon. Precisava ter mulher – o tal do female interest.

Temos seis.

Há Rita Escobar (o personagem de Salma Hayek), que primeiro aparece como uma dançarina de cabaré-puteiro, depois reaparece se dizendo filha de um dos cientistas raptados por Loveless. Rita encherá os olhos das platéias masculina e GLS chegada a uma mulher bela, e disputará, claro, as atenções dos dois super-heróis.

Há a bela sem nome (Garcelle Beauvais) que aparece na primeira seqüência em que vemos James West, os dois pelados tomando banho em uma daquelas gigantescas caixas d’água do Velho Oeste, versão agigantescada de uma banheira de ofurô.

E temos ainda as quatro mulheres que formam a tropa de choque do bandidão Loveless: Amazonia (Frederique van der Wal), Munitia (Musetta Vander), Miss Lippenrieder (Sofia Eng) e Miss East (Bai Ling).

Nenhuma sutileza – e muita ação, piadas e velocidade

As Loucas Aventuras… é um filme que pode ser acusado de muita coisa, menos de sutileza. Basta observar os nomes dos personagens. Loveless, o vilão, é de uma obviedade paquidérmica – sem amor. Amazonia é boa no arco e flecha, como as amazonas da mitologia grega. Munitia é boa nas armas de fogo, e sua munição não termina nunca. Miss Lippenrieder, leitora de lábios em alemão, em alemão porque a atriz é alemã, sabe leitura labial. E Miss East, que receberá James West, East meets West, é uma oriental.

Falta sutileza, mas sobram ação, piadas e velocidade. O filme tem piadas e ação e ação e piadas numa rapidez estonteante – tudo artesanalmente perfeito. E tem, pelo menos, uma piada genial, fantástica. É quando o general Banho de Sangue McGrath cai no chão durante uma briga, e seu pequeno alto-falante que substitui a orelha se aproxima de um cãozinho. Foi daí que inventaram a logomarca da RCA Victor.

Mas não é só esta piada visual que é boa. Há diálogos gostosos, muita brincadeira com o fato de James West ser negro no Sul Profundo racista até a medula. E Will Smith travestido de dançarina africana é hilariante.

É isso aí. Extravaganza cara, bem feita, gostosa, divertida – e absolutamente descartável.

Anotação em janeiro de 2012

As Loucas Aventuras de James West/Wild Wild West

De Barry Sonnelfed, EUA, 1999

Com Will Smith (James West), Kevin Kline (Artemus Gordon / Ulysses S. Grant), Kenneth Branagh (Dr. Arliss Loveless), Salma Hayek (Rita Escobar), M. Emmet Walsh (Coleman), Ted Levine (General ‘Bloodbath’ McGrath), Frederique van der Wal (Amazonia), Musetta Vander (Munitia),

Sofia Eng (Miss Lippenrieder), Bai Ling (Miss East), Garcelle Beauvais (a bela)

Argumento Jim Thomas & John Thomas

Roteiro S.S. Wilson & Brent Maddock e Jeffrey Price & Peter S. Seaman

Fotografia Michael Ballhaus

Música Elmer Bernstein

Produção Warner Bros Pictures. Blu-ray e DVD Warner.

Cor, 106 min

**1/2

2 Trackbacks

  1. […] do sucesso dos palcos de John Guare sobre um bem apessoado vigarista (interpretado por um Will Smith jovenzinho demais) que convence ricos e crédulos nova-iorquinos de que é filho de Sidney Poitier. […]

  2. […] dos filmes Men in Black – a Columbia Pictures, a Amblin de Steven Spielberg – e o diretor Barry Sonnenfeld tiveram a belíssima sacada de tirar fora toda a zorra de demônios, mutantes, zumbis, lobisomens, […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*