Segunda-feira ao Sol / Los Lunes al Sol

Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: Um belo, triste filme, feito com muito talento e – percebe-se claramente – paixão, gana. E com raiva. Muito provavelmente o jovem diretor madrilenho Fernando León de Aranoa quis fazer um panfleto, um grito de revolta contra a globalização, as mazelas do capitalismo. Fez uma bela obra de arte.

Segunda-feira ao Sol abre com imagens reais – um grande protesto de trabalhadores, distúrbios de rua, enfrentamento com a polícia. Numa sacada brilhante, as cenas são acompanhadas por uma música suave, doce, com um belo solo de violão. O choque entre a imagem e o som é fortíssimo.

Depois de 113 minutos de bom cinema, nos créditos finais, em letras pequenas, será dito que aquelas imagens “foram feitas no transcurso dos distúrbios provocados pela demissão de 89 trabalhadores de Naval Gijón em março do ano 2000”.

No making of que acompanha o filme no DVD e nas peças publicitárias, como cartazes, há um belo jogo de palavras. Diz-se que o filme não se baseia em uma história real – e sim em milhares de histórias reais.

É um filme sobre desemprego. Com base em milhares de histórias reais de empresas que fecham e demitem, ou enfrentam dificuldades com a concorrência e demitem, León de Aranoa e Ignacio del Moral criaram o roteiro. Não há propriamente uma trama – o que importa são os personagens que os autores do roteiro criaram. O filme acompanha o dia a dia de um grupo de uns seis homens que trabalhavam num estaleiro em uma cidade portuária da Galícia (as filmagens foram em Vigo e Pontevedra), e perderam seus empregos. Mais que contar uma história, o filme quer mostrar as situações do dia a dia de trabalhadores que não têm mais trabalho.

         Alguma revolta, algum estoicismo, muita cachaça, e piadas amargas

São personagens bem construídos, bem interpretados. São situações tristes, duras, pesadas, algumas abertamente trágicas – que aquele grupo de homens enfrenta com alguma revolta, algum estoicismo, muita cachaça e, volta e meia, com piadas de extrema amargura.

Boa parte do filme se passa em um bar que os personagens freqüentam todo santo dia.

Um pouquinho sobre os principais deles:

Santa (Javier Bardem) é solteiro, não tem filhos para sustentar. É, do grupo, o que expressa mais claramente sua revolta diante da situação – mas, provavelmente, se estivesse empregado e ganhando bem, também seria um revoltado. É o espanhol típico daquele dito: “Hay gobierno? Soy contra”. É contra tudo – contra até a entregar a passagem do ferry-boat que todos usam todos os dias para o funcionário encarregado de coletá-las. (Na verdade, ele nem paga a passagem, e consegue escapar do funcionário.) Não se diz – o diretor León de Aranoa gosta de não explicitar muitas coisas, de deixá-las apenas implícitas, sugeridas –, mas dá para perceber que Santa devia ter sido um líder dos trabalhadores no estaleiro.

Santa fala muito, até demais. Nisso, é o oposto de José (Luis Tosar); este fala pouco; está o tempo todo absolutamente entregue à amargura. Jamais sorri. Tem extrema dificuldade de falar até mesmo com a mulher, Ana (Nieve de Medina), que enfrenta uma barra duríssima como operária numa indústria de enlatar atum – ela, assim como suas colegas, trabalha o tempo todo de pé, e suas pernas doem, sua saúde está abalada. Em casa em que falta pão, ou em que o pão é escasso, sobra muito pouco espaço para alegria, companheirismo; sexo, então, nem pensar.

Santa às vezes faz um ou outro bico para ganhar alguma coisa. José sequer tenta encontrar algo para fazer. Lino (José Ángel Egido), ao contrário, bem que tenta. E tenta convencer a si mesmo de que conseguirá algum emprego – embora não haja muitos empregos disponíveis, e, quando há, dão sempre preferência a pessoas mais jovens (ele tem as têmporas embranquecidas), que tenham carro (ele, claro, não tem) e saibam informática (ela não sabe coisa alguma).

Reina (Enrique Villén) aceita um emprego mal pago como segurança em uma construção; acha que é melhor que nada – mas tem que enfrentar, no bar, as críticas eternas e impiedosas de Santa.

Amador (Celso Bugallo) é o mais velho do grupo. A mulher está fora, viajou, demora a voltar – e Amador é especialmente triste no meio de pessoas tristes em uma situação triste. Bebe mais que os outros.

Rico (Joaquín Climent) usou todo o dinheiro da indenização para montar seu bar, chamado El Naval. É ali que o grupo se reúne, dia sim e o outro também, para beber, reclamar da vida, ou simplesmente passar o tempo em silêncio, ou olhando para a TV sem prestar muita atenção a ela. Rico tem a companhia e a ajuda da filha, Nata (Aida Folch), de apenas 15 anos, jovem demais para ficar enfurnada no meio daquele bando de marmanjos.

Nata é um dos personagens mais complexos da história – é uma figura que deixa o espectador inquieto, preocupado. Garotas de 15 anos deveriam estar fazendo outra coisa na vida – não deveriam ainda ser tão safas e descoladas e malandras quanto ela.

         Situações tristes, trágicas, às vezes amargamernte engraçadas

O diretor e seu co-roteirista criam situações tristes, trágicas, às vezes irônicas, às vezes amargamente engraçadas.

Santa está deitado em seu quarto olhando para o teto cheio de marcas na pintura antiga – há uma mancha que se parece muito com o desenho da Austrália; corta, e Santa e Lino estão sentados sobre pedras diante do mar de um azul profundo, e Santa filosofa sobre a Austrália, os antípodas, os do outro lado do mundo, um lugar onde tudo é diferente – lá há emprego para as pessoas.

Reina leva o grupo de amigos para um prédio em construção, perto do estádio de futebol; da laje do último andar, dá para ver mais da metade do campo. Um terço dele fica invisível por causa do telhado sobre a área das cadeiras – e o que acontece naquele pedaço do campo, eles têm que imaginar.

José vai com Ana ao banco, pedir um empréstimo. Seu sangue espanhol pega fogo, ele põe tudo a perder.

Nata consegue um bico como babá do filho de uma família rica por uma noite; terceiriza o trabalho, põe Sanra para cuidar do garotinho, divide o ganho com ele e sai para a noite; Santa aproveita e chama a turma para beber o uísque do burguesão.

É lá na casa do sujeito rico que Serguei (Serge Riaboukine), um russo que havia emigrado para a Espanha, também tinha trabalhado no estaleiro e pertence àquela turma, conta a piada, “uma história russa”:

Dois velhos camaradas do Partido se encontram. Um diz ao outro:

– “Tudo o que nos falaram sobre o comunismo era mentira.”

O outro responde:

– “Isso não é o pior. O pior é que tudo o que nos falaram sobre o capitalismo é verdade.”

O filme é um desenrolar de situações assim. Faz lembrar os quadrinhos de Jules Pfeifer. Uma amargura só.

         Panfletos, facadas

O cinema espanhol fez um dos mais duros panfletos contra o capitalismo tornado mais selvagem depois do fim do império comunista e com a globalização: em O Que Você Faria?/El Método, do argentino Marcelo Piñeyro, de 2005, três anos depois deste Segunda-feira ao Sol, sete candidatos a uma vaga numa grande corporação são reunidos em uma sala; em pouco tempo, aquelas pessoas educadas, bem vestidas, com pós-graduações e MBAs e doutorados, transformam-se em gladiadores no circo romano – é matar ou ser morto.

No mesmo ano, 2005, Costa-Gavras, sinônimo de cinema político, fez na vizinha França O Corte/Le Couperet, sobre engenheiro altamente qualificado que não encontra emprego, e decide se livrar dos competidores da maneira mais radical que possa haver. É mais que um panfleto – é uma facada.

 Antes das ideologias, as pessoas

Com seu estilo avesso à explicitude, León de Aranoa demora a fornecer ao espectador os elementos para que ele possa formar o quadro do que aconteceu no estaleiro. O quadro é mais ou menos assim: veio a competição de estaleiros que produziam a um custo mais baixo, especialmente na Coréia; o estaleiro espanhol tentou resistir cortando os seus próprios custos: ofereceu incentivos à demissão voluntária. Alguns aceitaram – como Rico, que usou o dinheiro da indenização para abrir seu bar. Muitos recusaram a oferta – e ficaram sem nada, quando enfim o estaleiro faliu.

Segunda-feira ao Sol é um grande filme, assim como O Que Você Faria? e O Corte. Tem muito da revolta, da indignação dos dois outros. Mas, de alguma forma, concentra-se mais no drama humano do que na revolta contra o sistema. Quase como se admitisse algo assim: as pessoas são muito mais importantes que as ideologias.

Até porque me parece que simplesmente dizer não à globalização,  às demissões, é mais ou menos tão inócuo quando dizer não às doenças, não às enchentes, não aos terremotos. De que adianta fazer uma passeata contra a existência de doenças, de chuva, de terremoto?

Em “North Country Blues”, de seu terceiro disco, de 1964 – antes que o termo globalização existisse –, Bob Dylan descreve a vida em uma cidade que vive de mineração, e em que as minas estão sendo fechadas e as pessoas demitidas “porque há outras muito mais baratas na América do Sul, onde os mineiros trabalham por quase nada”. Bruce Springsteen compôs diversas músicas falando do desemprego “on account of the economy”.

O que quero dizer é que Segunda-feira ao Sol não me pareceu um filme em defesa de um outro sistema econômico diferente do capitalismo – até porque o único outro que a humanidade inventou não deu certo, conforme já foi exaustivamente comprovado. Não é – mesmo que tenha sido a intenção do diretor – um panfleto em defesa do comunismo. É uma bela obra de arte lamentando que a vida tenha que ser assim, e fazendo o duro questionamento – mas não poderia haver uma outra forma?

Um dos grandes méritos deste belo filme – me parece – é que ele não pretende saber a resposta.

Segunda-feira ao Sol/Los Lunes al Sol

De Fernando León de Aranoa, Espanha-França-Itália, 2002.

Com Javier Bardem (Santa), Luis Tosar (José), José Ángel Egido (Lino), Nieve de Medina (Ana), Enrique Villén (Reina), Celso Bugallo (Amador), Joaquín Climent (Rico), Aida Folch (Nata), Serge Riaboukine (Serguei), Laura Domínguez (Ángela)

Argumento e roteiro Fernando León de Aranoa e Ignacio del Moral

Fotografia Alfredo F. Mayo

Música Lucio Godoy

Produção Antena 3 Televisión, Elías Querejeta Producciones Cinematográficas S.L., Eyescreen S.r.l., Mediapro, Televisión de Galicia. DVD Casablanca Filmes.

Cor, 113 min

***

4 Comentários

  1. Postado em 8 janeiro 2011 às 10:20 pm | Permalink

    eu gosto bastante desse filme.
    especialmente do personagem – e da interpretação – do javier bardem.

  2. Ivan
    Postado em 14 dezembro 2013 às 12:13 pm | Permalink

    Assisti ontém e concordo contigo. Belo filme.
    Uma bela obra de arte.
    Exato como dizes, a história deles é igual a de milhares pelo mundo.
    Pela sinopse e a presença do J.Bardem eu já imaginava ser o filme que foi.
    Delicado , divertido , simples , mas também realista, dramático e triste. O Santa, por exemplo, podia ser tudo mas, era bem espirituoso, com sarcasmo ou não.
    Por que, a idade tem que ser fator decisivo?
    Por que esse preconceito com a idade ???
    A partir dos 35 anos é sabido que, se o homem ficar desempregado, começa seu sofrimento, sua luta para conseguir outro.
    Na sinopse diz que eles eram perdedores.
    Eu não concordei com isso.
    Aquela cena que voce fala do Santa deitado na cama do quarto onde se hospeda, e ele olha para a tal mancha que lembra o desenho da Austrália, e, no rádio, está tocando “La Mer” .
    ” Concordo em tudo contigo mas, não tens razão ” .

    A cena do Santa, lendo a história da formiga e da cigarra pro menino … ” não é bem assim ! Aqui eles não dizem como uns nascem formigas e outros nascem cigarras.”
    Aquela cena onde eles assistem o futebol é bem cômica , mesmo
    ” Em casa em que falta pão, ou em que o pão é escasso, sobra muito pouco espaço para alegria, companheirismo; sexo, então, nem pensar ” . É a realidade dura, é o filme …
    Mas, acho que nem sempre deveria ser assim .
    O que aconteceu com o Amador teria tido alguma influência na Ana ?
    Um abraço !!

  3. Ivan
    Postado em 14 dezembro 2013 às 12:25 pm | Permalink

    ” Em casa em que falta pão, ou em que o pão é escasso, sobra muito pouco espaço para alegria, companheirismo ; sexo, então, nem pensar ” . Perdão, a frase é tua.
    É que esqueci de pôr a observação.
    Eu só acrescentei minha opinião que é a dura realidade, é o filme .
    Um abraço !!

  4. Sérgio Vaz
    Postado em 16 junho 2014 às 11:22 pm | Permalink

    Juraci, espero que você encontre e veja o filme, e depois leia um pouco do que foi escrito sobre ele.
    Foi uma bela escolha do seu professora (ou sua professora).
    Um abraço.
    Sérgio

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