Sedução / Cracks

Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2011: Este Sedução/Cracks, uma co-produção irlandesa-anglo-espanhola, nessa ordem, segundo os créditos finais, é um filme de visual assombrosamente belo. Não que se recorra a grandes truques, fogos de artifício. Não. A questão é que tudo o que é mostrado pela câmara tem grande beleza. As paisagens, a natureza, os rostos das atrizes – Eva Green é linda, e a garota espanhola María Valverde, meu Deus do céu e também da terra, o que é que é aquilo? – é mais ainda.

E ao deslumbre visual se acresce um absoluto deslumbre sonoro. A trilha composta pelo espanhol Javier Navarrete é estonteante, maravilhosa. Está presente praticamente ao longo do filme inteiro, pontuando a ação, ajudando a criar os climas, acentuando a beleza das imagens. Costumo ser bastante atento às trilhas sonoras, gosto de ouvi-las depois, sem o filme, me habituar às melodias, e digo que esta trilha é uma das mais impressionantes que ouvi nos últimos anos.

Mas estou, mais uma vez, botando o carro adiante dos bois. Vou tentar situar um pouquinho sobre o que se trata.

É um filme sobre o comportamento de um grupo de garotas de classe média-alta, aí entre os 14 e os 16 anos, em um internato numa ilha inglesa, a Stanley Island, em 1934; a fascinação que exerce sobre elas uma das professoras, Miss G. (o papel de Eva Green); e o imenso impacto que causa a chegada de uma nova aluna, uma jovem espanhola pertencente à nobreza, Fiamma (o papel de María meu Deus do céu e da terra, o que é que é aquilo Valverde).

Uma jovem mulher especializada em fazer pose na vida

O filme abre com alguns planos gerais do lugar, um lugar paradisíaco, um mar belíssimo, vegetação exuberantemente verde, e, no meio do campo, cercado de verde, uma gigantesca construção, uma casa senhorial, um castelo inglês, onde funciona a escola St. Mathilda – um letreiro informa: “St. Mathilda’s School – Stanley Island – England 1934”. Entre uma e outra dessas primeiras tomadas, usa-se um fade out – em vez de se fundir uma imagem a outra, segue-se a cada imagem um ou dois segundos com a tela preta.

Sobre as belíssimas imagens, a belíssima música.

Uma jovem mulher e uma garota estão em um pequeno bote – há baías, enseadas, na ilha, que afastam as ondas fortes; são como pequenos lagos, junto de pequenas faixas de areia à qual se junta uma vegetação viva. Parece mais um local paradisíaco do Pacífico Sul, o Taiti é aqui, que propriamente uma ilha britânica.

A jovem mulher está fumando um cigarro com a pose de quem fuma um cigarro não pelo simples vício, correndo todos os riscos sobre que nos advertem os Ministérios da Saúde, mas sim fazendo pose de quem está à frente de seu tempo, fazendo algo que não era muito permitido a uma elegante senhora – embora todos saibamos, por uma centena de outros filmes, que o hábito de fumar cigarros caretas era extremamente difundido e aceito entre as mulheres inglesas nos anos 30, e até algumas décadas antes.

Falam de um livro proibido, que Miss G. emprestou à garota, Di (Juno Temple).

Veremos em seguida que as garotas daquele internato caro se dividem não exatamente em classes, mas em grupos. Cada grupo tem seu amplo dormitório, e cada grupo tem sua capitã. As garotas focalizadas pelo filme têm Di como capitã. A chefe da equipe, a líder inconteste – a designação usada é mesmo capitã.

Todas, absolutamente todas, são apaixonadas, fascinadas, mesmerizadas por Miss G. Miss G., por sua vez, parece ter eleito Di como sua preferida, e por isso ela foi feita capitã, chefe da equipe, líder inconteste.

Exatamente por que Miss G. fascina tanto aquelas meninas? Miss G. é a professora mais jovem da escola; tem uma aura de progressista, à frente do seu tempo, do rigor dos costumes; tem fama de ter conhecido o mundo lá fora, viajado por terras distantes; fala-se até mesmo que ela teria tido um amante. Ela incita as meninas a terem sonhos, desejos, ambições, empresta livros proibidos – não se mencionam os nomes dos livros, mas podemos deduzir que talvez Miss G. tenha apresentado àquelas garotas cheias de hormônio uma ou outra obra de D.H. Lawrence, que ousava dar nomes às partes da anatomia cuja pronúncia era proibida desde a Era Vitoriana.

Miss G. treina as garotas a mergulhar nas águas geladas do mar inglês.

Confesso que não entendi muito bem o que havia de tão atraente em Miss G. para fascinar daquela maneira aquele bando de adolescentes, mas tudo bem, vamos em frente. O fato é que todas babam por Miss G., e todas têm respeito e até um certo temor reverencial por Di, a preferida de Miss G.

Um trabalho de câmara excepcional – seria um grande filme?

E aí chega Fiamma.

A sequência da chegada de Fiamma, em especial as tomadas longas do corredor entre os dormitórios, a extraordinária trilha criada por seu conterrâneo Javier Navarrete embalando o espectador, é tudo de um brilho formal de assustar. Fiamma vai caminhando pelo longo corredor e olhando pelas portas entreabertas os diversos dormitórios. O trabalho da câmara nessa sequência é excepcional. O espectador a essa altura já foi informado de que ela é uma aristocrata, vem de família católica (as protestantinhas do grupo já demonstraram sua ignorância e seu preconceito quanto à crença religiosa diferente da delas), está chegando para uma espécie de degredo, de exílio numa terra estranha, onde vai se deparar com códigos, comportamentos desconhecidos, e, naturalmente, com uma imensa animosidade – e nesse momento fiquei imaginando se não estaria diante de um grande filme.

Não, este não é um grande filme.

A deusa espanhola dá um salto mortal rumo às gélidas águas inglesas

Numa gélida manhã logo após a chegada de Fiamma, Miss G. leva o grupo liderado por Di para mergulhos na gélida água inglesa. Fiamma, que havia sido posta naquele grupo, é a última a chegar, leva uma bronca de Miss G. As anglo-saxônicas sobem ao alto trampolim, pulam nas anglo-saxonicamente geladas águas – Fiamma, católica e de país mais longe do Pólo, tremelica de frio e aspira de uma bombinha que parece destinada a asmáticos.

Miss G. manda que ela pule.

Fiamma sobe no trampolim, uma deusa ascendendo ao Olimpo, e olimpicamente dá um salto mortal impecável que teria nota dez, dez, dez!, se Carlos Imperial irradiasse uma Olimpíada.

E aí a diretora (cujo nome eu não sabia; jamais tinha ouvido falar no filme; Mary havia pego o DVD na locadora ao léu, au hazard) mete uma câmara lenta e repete a tomada algumas vezes – é um show visual, visual e auditivo, porque Javier Navarrete parece ter composto uns 20 diferentes temas para o filme, em vez de criar uns quatro ou cinco e fazer variações a partir deles.

Um filme que pretende ser o que não é

Sim, um show visual e auditivo, e essa garota María Valverde, pelamordedeus, que faça muitos filmes, dezenas e dezenas de filmes, mas… o que mesmo quiseram dizer com esse filme?

Às vezes ele me deu a impressão de ser um filme sobre uma cultura sobre a qual não conheço absolutamente nada. Um filme sobre jupiteríanos, ou marcianos, ou plutonianos, ou chineses, ou japoneses.

OK – um filme sobre as repressões da sociedade inglesa nos anos 30? A sexualidade reprimida que resulta em tragédias? Ah, faça-me o favor.

Para mim, é o seguinte: este Sedução (eta titulinho imbecil) parece um filme publicitário. Tecnicamente brilhante – mas vazio, raso como um pires.

E, mais do que elíptico em muitas coisas sobre o caráter das personagens, é na verdade mais furado que queijo suíço. Reveladas as origens de Miss G., qual poderia ser a explicação racional para o fato de ela ter podido cursar aquela escola de garotas ricas? Qual poderia ser a explicação para o fato de ela posar por tanto tempo com liberdades e liberalidades que o sistema teoricamente não permitia? Que sentido têm tantas idas e vindas na personalidade de Di – ora o mal em si, ora honesta, corajosa, ínclita? Que sentido tem o fato de o grupo de garotas balançar freneticamente de um tipo de comportamento ao oposto?

É um filme que pretende ser o que não é. Pretende ser um estudo de comportamento – não é. É apenas um comercial de TV – belo e sem conteúdo.

Eva Green trabalha mal. Juno Temple e María Valverde prometem

Diabo. Fui ficando cada vez mais bravo com o filme à medida em que escrevia sobre ele.

E então vamos lá: como trabalha mal a tal da Eva Green.

Sim, tem olhos verdes. É bonita. Mas, cacildabecker, como trabalha mal. A seqüência em que Miss G. vai à mercearia do vilarejo é grotesca. Ela treme demais, ela exagera, ela overact.

Já a garota Juno Temple é boa. Demonstra os sentimentos da sua personagem – ciúme, insegurança, inveja, ódio – sem precisar recorrer a tremeliques. Promete.

María Valverde… Essa moça ainda vai nos dar muitas alegrias.

Revela-se que o filme é apenas um caso de nepotismo explícito

Por que será que os irmãos Ridley e Tony Scott se uniram para serem alguns dos diversos produtores executivos deste filme?

Acho que eu deveria procurar algumas respostas, em vez de fazer tantas perguntas.

Diz a sinopse do AllMovie, assinada por Mark Deming:

“Uma professora que se orgulha de ser diferente encontra uma estudante que têm semelhante natureza não-conformista neste drama de época.” Seguem-se informações que já estão no meu texto. E depois: “Miss G., encoraja suas alunas a desafiar as normas convencionais de seu tempo, e organiza uma equipe de mergulho, que supervisiona com grande interesse. (…) Mas as coisas mudam tanto para Miss G. quanto para suas alunas quando Fiamma (María Valverde) chega à escola. Fiamma é da Espanha e tem um caráter forte e independente; não pede a aprovação de seus pares e insiste em fazer as coisas de seu próprio jeito, o que a torna mais exótica e atraente para as outras alunas.”

Ah, e aí vem a explicação de tudo: a diretora Jordan Scott é filha de Ridley Scott!

Trata-se apenas e tão somente de um caso de nepotismo! Papai Ridley e Titio Tony foram produtores executivos do primeiro filme da filhinha e sobrinha!

Os créditos (finais; não há créditos iniciais) dizem que o roteiro é de Ben Court & Caroline Ip e Jordan Scott, com base no romance de Sheila Kohler. Isso indica que a dupla Ben Court & Caroline Ip fez um roteiro, que depois foi retrabalhado pela Scottinha. Nunca saberemos que ajuda a Scottinha teve de Papai e Titio. Mas o fato é que, se Papai e Titio tiverem tentado ajudar na feitura do roteiro, ajudaram na parte formal, porque nisso, o formal, eles são ótimos. Agora, em termos de conteúdo, o resultado é perto do zero.

Sedução/Cracks

De Jordan Scott, Inglaterra-Irlanda-Espanha, 2009

Com Eva Green (Miss G), Juno Temple (Di), María Valverde (Fiamma), Imogen Poots (Poppy), Ellie Nunn (Lily), Adele McCann (Laurel), Zoe Carroll (Rosie), Clemmie Dugdale (Fuzzy), Sinéad Cusack (Miss Nieven)

Roteiro Ben Court, Caroline Ip e Jordan Scott

Baseado no romance de Sheila Kohlerbased

Música Javier Navarrete

Fotografia John Mathieson

Montagem Valerio Bonelli

Produção Antena 3 Televisión, Bord Scannan na hEireann, Optimum Releasing, Scott Free Productions, StudioCanal

Cor, 104 min

*

4 Comentários para “Sedução / Cracks”

  1. Eita,primeiro filme que discordamos.
    Eu gostei demais e continuo achando Eva Green
    uma ótima atriz.
    Já assistiu “Womb” com ela?

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