Na Teia do Destino / The Reckless Moment

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: Na Teia do Destino/The Reckless Moment foi o último dos cinco filmes que Max Ophüls fez em Hollywood, entre 1947 e 1949. É deste último ano. Em 1950, de volta à França, ele faria uma de suas obras-primas, La Ronde. Sua despedida da América é um belo, fascinante filme.

Ophüls – que, nos créditos iniciais, aparece como Max Opuls – consegue juntar, magnificamente, suspense e melodrama. Tensão, crime, e a vida de uma pacata família de classe média americana, que vive numa bela casa junto ao mar, na aprazível, tranquila ilha de Balboa, na Califórnia, a cerca de 80 quilômetros de Los Angeles.

Mostra uma dona de casa até então feliz, ajustada, perfeita, e que de repente suja as mãos e a vida para sempre, envolvida num mundo criminoso, e um marginal, um pequeno escroque, que de repente quer lavar as mãos e a vida de toda a sujeira em que sempre esteve metido.

Há muitas improbabilidades no encontro dessas pessoas opostas, antípodas. Se o espectador for ver Na Teia do Destino sob uma ótica rigorosamente racional, objetiva, certamente enxergará furos como num queijo suíço. Mas talvez Max Ophüls não seja muito indicado para os, como dizia Nelson Rodrigues, idiotas da objetividade.

Os perigos da adolescência

O ponto inicial da trama são os perigos da juventude, da adolescência. Vinicius de Moraes dizia que são demais os perigos desta vida, e ele está certíssimo, mas a verdade é que na juventude há uma concentração de perigo espantosa, absurda.

Quando a ação começa, a voz em off de um narrador situa as coisas para o espectador, em apenas duas frases. Diz que aqueles acontecimentos que serão narrados se deram no ano anterior, pouco antes do Natal, e que os Harper moram num lugar agradável, tranquilo, chamado Balboa. Vemos belas, sólidas, amplas casas debruçadas sobre o mar. É de manhã, e a sra. Harper, Lucia Harper (Joan Bennett), está saindo com seu carro. Dirige até Los Angeles, vai até um hotel um tanto vagabundo, fuleiro, e diz na recepção que gostaria de falar com o sr. Ted Darby. Pedem que ela espere no bar, um bar bem grande, soturno, que ainda não está aberto, cadeiras em cima das mesas.

É bem visível que Lucia Harper não está habituada a freqüentar aquele tipo de lugar.

Quando Ted Darby (Shepperd Strudwick) aparece, faz logo um galanteio, tipo “não imaginava que a senhora fosse tão jovem”. Mas Lucia vai direto ao assunto: não quer que ele volte a ver Bea, ela é menor de idade, e está decidido. Darby argumenta que Bea fará 18 anos daí a poucas semanas. Lucia insiste: sua filha e Darby não devem voltar a se ver.

Darby não perde tempo: diz a Lucia que está disposto a não ver a moça novamente, desde que seja recompensado por isso.

Está na cara que Darby é um pequeno crápula, um escroque, um bandidinho. Mais tarde se verá que ele trabalha como marchand – e o espectador também verá que Bea, a filha adolescente de Lucia, está fazendo um curso de artes em Los Angeles, onde conheceu o bandidinho bem mais velho, bem mais esperto, um salafrariozinho.

Com o aceno do homem de que obedeceria mediante um pagamento, Lucia vê que não tem mais nada a fazer ali. Reitera que Bea não mais o verá, e volta para casa.

Não dá para existir diálogo entre a mãe e a filha adolescente

A conversa da mãe com a filha de 17 anos não é nada fácil – como costuma acontecer talvez na maior parte das famílias. Quando Lucia tenta conversar com Bea (Geraldine Brooks), a garota está fechada em copas; já havia recebido um telefonema de Darby, que dissera que a mãe chegara fazendo escândalo. Lucia menciona a questão da oferta que o sujeito fez a respeito de dinheiro, mas Bea, naturalmente, não acredita, acha que a mãe está mentindo.

Conhecemos então o resto da família. Há o filho mais novo, David (David Bair), garotão aí de uns 13 anos, amante de mecânica, sempre às voltas com o conserto de um velho carro da família e com o motor do barco que os Harper guardam na casa dos barcos, uma edificação sólida, grande, próxima ao sobrado principal. Há o sr. Harper (Henry O’Neill), o sogro de Lucia, cabelinho todo branco, aposentado. E há Sybil (Frances Williams), a empregada de confiança, fiel, dedicada.

O marido de Lucia está do outro lado do continente, na Costa Leste. Não se fala claramente, mas as indicações são de que ele é engenheiro, e trabalha numa empresa que tem obras em vários lugares.

Lucia não tem com quem dividir o peso do problema que é sua filha adolescente ter se envolvido com um sujeito mais velho e sem escrúpulos. Acha que não pode contar com o sogro, que está velho demais. Do filho adolescente, não pode esperar mesmo qualquer ajuda.

O marido liga, todos querem falar com ele – não há forma de Lucia poder falar sobre o assunto no telefonema de longa distância, na frente de toda a família. Pior: o marido informa que terá que viajar em seguida para Berlim, não tem como se recusar, é imperativo que ele vá.

À noite, Lucia tentará contar para o marido o caso do namorado indigesto de Bea em uma carta, mas ela percebe que não tem sentido, o marido está longe, não poderá fazer nada para ajudar, a informação só iria deixa-lo angustiado e impotente, sem meios de tomar qualquer atitude. Desiste, joga a carta fora e escreve outra em que diz que, no meio do telefonema conturbado, toda a família em volta, não teve oportunidade de dizer quanto o ama.

Enquanto Lucia escreve e reescreve carta ao marido, em seu quarto, Bea se prepara para sair. Vai encontrar Darby na casa dos barcos.

Acontece uma tragédia. E, como em geral acontece, uma tragédia puxa outra

Detalhei bastante esse início do filme, esses dez, no máximo 15 minutos do começo da história, mas, além desse comecinho, só vou relatar que acontecerá uma tragédia.

Quando há uma tragédia, em geral ela puxa outra, e mais outra, e mais outra.

O filme está aí com mais de 30 minutos quando surge na história o desconhecido Donnelly – o papel de James Mason.

James Mason (1909-1984), mais de 150 filmes no currículo, três indicações ao Oscar, já era um astro, e um grande astro, em 1949, quando Max Ophüls fez o filme. Havia começado a carreira em seu país natal, a Inglaterra, e, como tantos grandes atores ingleses, havia sido atraído por Hollywood.

O nome de James Mason está antes do de Joan Bennett, nos cartazes do filme, embora apareça em cena muitíssimo menos que ela. Joan Bennet é a protagonista, em torno da qual gira toda a história.

Embora não seja muito conhecida hoje, Joan Bennett é uma boa atriz, e uma mulher belíssima. Lembro dela, por exemplo, no papel de outra boa esposa suburbana, dona de casa de classe média da Califórnia, em Chamas que Não se Apagam/There’s Always Tomorrow, baita dramalhão de Douglas Sirk, de 1956.

Uma bela atriz, a síntese da femme fatale em filmes noir

Joan Bennett foi muito mais importante, no entanto, do que poderiam indicar apenas esses dois papéis como dona de casa. E, em 1956, já estava praticamente encerrando a carreira. Uma bela biografia dela no livro Actors & Actresses conta que Joan era a mais nova das três filhas do ator de teatro e cinema Richard Bennet, e foi a última das três irmãs a iniciar carreira no cinema. Apesar disso, acabaria tendo uma filmografia maior e mais importante que as irmãs Constance e Barbara.

“Era uma mulher linda, longilínea e loura, com olhos dramáticos”, diz o livro. “Atuou em diversos filmes durante os anos 1930, muitos deles importantes, como Disraeli e Little Women, mas em nenhum deles sua presença foi particularmente marcante. Foi só no final dos anos 1930, quando tingiu seus cabelos de castanhos escuros, que Joan Bennett deixou de ser apenas mais uma bela loura de Hollywood e começou a ter impacto significativo na tela. Com sua nova imagem, interpretou frequentemente ardentes femmes fatales, extremamente belas mas destrutivas. Em dois de seus filmes mais importantes, The Woman in the Window e Scarlett Street, ambos dirigidos por Fritz Lang, interpretou personagens frios, perniciosos, a antítese dos homens simples, de maneiras tranqüilas, feitos nos dois filmes por Edward G. Robinson.”

Tanto nos dois filmes citados de Fritz Lang quanto em Woman on the Beach, de Jean Renoir, Joan Bennett “conseguiu parecer bela e inocente e vulnerável na superfície, enquanto no interior escondia fria maldade. Lang e outros diretores expressaram grande admiração pela contribuição dada por Bennett a seus filmes desse período, e alguns críticos a chamam do epítome da heroína do film noir”.

Uau! Nunca soube disso – embora tenha visto o citado The Woman on the Window, no Brasil Um Retrato de Mulher.

Ainda segundo o que diz o livro Actors and Actresses, a carreira de Joan Bennett ainda se beneficiou, nos anos 40, com seu casamento com o produtor Walter Wanger, muito importante na época – Wanger é o produtor deste Na Teia do Destino, e teria ajudado a mulher a escolher bons papéis.

Quem a vê apenas neste filme de Max Ophüls e como a esposa serena e até um tanto entendiante de Chamas Que Não Se Apagam talvez não possa imaginá-la como a rainha do film noir. Mas a beleza e a força de Joan Bennett devem ter sido realmente fantásticos. Em 1951, num acesso de ciúme, o maridão Walter Wanger deu um tiro no agente da mulher, Jennings Lang.

Um forte clima de tensão, angústia, suspense

Bem, volto ao filme.

Me impressionou muito como Max Ophüls conseguiu criar tamanho clima de tensão, de angústia, de suspense. Não é propriamente a área dele, mas é o tal negócio, craque é craque.

E é impressionante como ele consegue fazer um filme de suspense que é ao mesmo tempo um melodrama, um estudo de personalidades, que fala das questões familiares. Ele vai fundo nas duas coisas – o suspense e o lado psicológico, emocional dos personagens. Fantástico: juntou a forma do cinema americano de então com a visão mais profunda, mais pesada, do cinema europeu.

Essa história – baseada na novela The Blank Wall, de Elisabeth Sanxay Holding – seria refilmada em 2001, com a escocesa Tilda Swinton, com o nome de Até o Fim/The Deep End. Semanas depois de ter visto este Na Teia do Destino vi a refilmagem, que me pareceu inferior ao original.

Atenção: a partir daqui, revelações, spoilers. Não deve ser lido por quem não viu o filme

Vejo que o competente, dedicado historiador e professor A.C. Gomes de Mattos incluiu o filme em seu livro O Outro Lado da Noite: Filme Noir. Ele escreve: “Ophüls soube evitar os escolhos melodramáticos da história e criar uma atmosfera de aflição e de desgraça, transformando a casa dos Harper em uma prisão cheia de sombras ameaçadoras, que sua câmara percorre em inventivos e extraordinários travellings.”

Não acho que o filme evite o melodrama – ao contrário. Mais ainda: Gomes de Mattos entendeu que o filme tem um happy ending, que no fim Lucia volta a ser exatamente o que era antes, “sã e salva atrás das grades de sua casa, tendo preservado os valores da classe média à qual pertence”, “fingindo que nada aconteceu”. Não é o que eu penso. Acho que Ophüls, genialmente, deixa as coisas abertas, para que cada espectador entenda o que quiser.

Para mim, nada será como antes na vida de Lucia. O abalo que ela sofreu fará estremecer todos os seus valores. Ela jamais será a dona de casa tranqüila que tinha sido até ali.

Cada cabeça, uma sentença. O livro The Columbia Story diz que quase nada do que acontece na história é crível, plausível. Diz que a trama é tola, mas que o talento de Max Ophüls, o charme de James Mason e a agradável presença de Joan Bennett tornam “esse melodrama bastante amoral” melhor do que se poderia esperar.

Ahá: descubro uma coisa bastante rara – Leonard Maltin reescreveu sua resenha sobre o filme. Numa edição antiga de seu guia, a que consta do CD-ROM Cinemania 97, ele diz o seguinte: “Bennett se transforma em uma assassina, perseguida pelo chantagista Mason. Suspense de primeira classe.” Está errado: o personagem de Joan Bennett não mata ninguém. Pois bem: por acaso, fui dar uma olhada na edição de 2009 do Movie Guide de Maltin. A resenha foi inteiramente reescrita – o que é, repito, muito raro. Maltin, ou algum de seus vários colaboradores, reviu o filme. Está lá: “Mason chantageia a mãe protetora Bennett, cuja filha adolescente envolveu-se na morte de um homem. Melodrama noir é também um olhar ligeiramente subversivo sobre uma ‘típica’ família americana.”

Boa, Leonard Maltin! Errar é humano. Corrigir o erro é uma maravilha – como bem prova o personagem de James Mason.

Na Teia do Destino/The Reckless Moment

De Max Ophüls, EUA, 1949

Com Joan Bennett (Lucia Harper), James Mason (Martin Donnelly), Geraldine Brooks (Beatrice Harper), Henry O’Neill (sr. Harper), Shepperd Strudwick (Ted Darby), David Bair (David Harper), Roy Roberts (Nagle), Frances Williams (Sybil)

Roteiro Henry Garson, Robert W. Soderberg, Mel Dinelli, Robert E. Kent

Baseado no livro The Blank Wall, de Elisabeth Sanxay Holding

Fotografia Burnett Guffey

Música H.J. Salter

Produção Walter Wanger, Columbia Pictures. DVD Versátil

P&B, 82 min

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Um Comentário

  1. Postado em 16 junho 2011 às 9:00 pm | Permalink

    Oi Sérgio,
    Encontrei seu blog por acaso! Fiquei super encantada!!

    Muito bom!!!

2 Trackbacks

  1. […] Anotação em 2011: Não achei bom este Coração Prisioneiro/Caught, que Max Ophüls fez em 1949, seu penúltimo filme em Hollywood antes de retornar à Europa. Ophüls é um mestre, e naquele mesmo ano, em sua despedida do cinema americano, faria um belo filme, Na Teia do Destino/The Reckless Moment. […]

  2. Por 50 Anos de Textos » O cinema é um lugar perigoso em 16 dezembro 2011 às 11:55 pm

    […] pé de gente grande. Levou para casa, também, uma obra-prima, a belíssima actriz e mulher que era Joan Bennett. Bennett foi de uma beleza nocturna e clandestina em quatro filmes de Lang, e em filmes de Renoir e […]

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