Crime em Paris / Quai des Orfèvres

Nota: ★★★½

Anotação em 2011: Em Crime em Paris/Quai des Orfèvres, de 1947, Henri-Georges Clouzot faz uma beleza de filme policial, mas vai muito além. Faz uma fascinante descrição do mundo do show business parisiense e dos métodos – muitas vezes brutais – da polícia, e oferece um panorama de vários estratos da sociedade francesa no imediato após-guerra.

E ainda passa por dois dos temas que voltaria a abordar em sua obra mais pretensiosa e audaciosa, tão pretensiosa e audaciosa que ele não conseguiria terminar, O Inferno: o ciúme, que tem papel muito importante na trama deste Quai des Orfèvres, e o homossexualismo, que trata aqui muito suavemente, em passant.

O ciúme aparece já na primeira seqüência do filme, passada em uma casa editora musical, onde compositores vão apresentar suas novas músicas, que, depois de registradas, serão divulgadas em partituras. Maurice Martineau (Bernard Blier) trabalha ali como pianista. Sua mulher, Jenny Lamour (Suzy Delair) é cantora. Maurice está ao piano tocando uma música que o compositor está a ensinar, enquanto, numa outra sala, Jenny está cantando outra música, que está sendo apresentada pelo editor de música e compositor Léopardi (Henri Arius), um senhor já idoso. Léopardi bate a mão suavemente no joelho de Jenny. Maurice interrompe o trabalho, vai até a sala onde está a mulher e faz uma cena de ciúme. Jenny diz que Léopardi está apenas marcando o ritmo com a mão, e o próprio compositor brinca:

– “Imagine só, um valentão com ciúme de um velho molenga como eu. É lisonjeiro. Incrivelmente estúpido, mas lisonjeiro.”

A canção que aprende naquele momento com Léopardi dará a Jenny uma oportunidade de tornar-se conhecida. É uma música fácil, dessas que grudam na cabeça do ouvinte, e a letra é cheia de malícia, de sensualidade. Chama-se “Avec son tra-la-la, son petit tra-la-la, elle faisait tourner toutes les têtes” – com seu tra-la-lá, seu pequeno tra-la-lá, ela fazia rodar todas as cabeças, e o nome diz tudo. Rapidamente veremos Jenny apresentando a canção num teatro de variedades abarrotado.

Jenny não chega a ser propriamente uma bela mulher, mas é vistosa, curvilínea, cintura fina e quadris e anca amplos, tudo realçado pelo vestido decotado e justo – e, ao cantar a canção maliciosa, mexe os quadris, a bunda. A platéia vai ao delírio, Maurice vai ao inferno do ciúme que seria o tema central do filme que Clouzot deixaria inacabado.

A cantora aspirante a estrela é uma espécie de Madonna, 40 anos antes

Uma vizinha do casal, Dora Monier (Simone Renant), é amiga de infância de Maurice; tem um ateliê de fotografia no mesmo edifício. Vemos Dora em seu ateliê preparando Jenny para uma sessão de fotos; a cantora está sentada num divã, com um grande chapéu com plumas, um bustiê negro decotado, as coxas grossas à mostra, meias de seda negras.

A cantora ambiciosa que quer ser estrela mostrada por Clouzot antecipou Madonna em umas quatro décadas.

Num determinado momento da sessão de fotos, Dora aproxima-se de Jenny para colocar seu corpo na posição que ela deseja fotografar, e Jenny protesta:

– “Só me fale o que você quer. Eu odeio ser tocada.”

E Dora: – “Pobre Maurice…”

Jenny ri: – “Ah, com ele é diferente. Nunca é demais.”

Dora: – “Vocês se dão bem nesse departamento?”

Jenny: – “Quer saber os detalhes?”

Definitivamente, o cinema americano não faria uma seqüência dessas, um diálogo desses, em 1947.

As duas continuam conversando, enquanto Dora se prepara para fazer as fotos:

Jenny – “Eu gosto de você, mas deixe o Maurice em paz.”

Dora: – “Não seja boba. Nós somos amigos de infância, fomos criados juntos.”

Jenny: – “Sei bem essa história de amigos de infância. Começa com brinquedinhos e termina na cama.”

Dora: – “Nós, não.”

Um velhaco que produz sua própria pornografia

A sessão de fotos mal terminou, e chega um cliente ao ateliê fotográfico de Dora. É Brignon (Charles Dullin), um velho milionário, dono de várias empresas, inclusive uma produtora de cinema. Safado, Brignon tem o costume de levar jovens mulheres para que Dora as fotografe nuas.

Jenny, ambiciosa, louca para se tornar uma estrela, havia conhecido Brignon pouco tempo antes. Vai se insinuar junto ao velhaco, à espera de que ele a escale em algum filme.

Dora vai prevenir Jenny para tomar cuidado com Brignon, um homem perigoso. E Maurice, o marido que tem ciúme até da sombra, chegará à beira da loucura ao saber dos encontros da mulher com o milionário safado.

Uma trama brilhante, cheia de suspense

Levei muitos parágrafos para descrever tudo isso, mas esta é só a abertura do filme, os primeiros 15 minutos. Brignon será assassinado em sua casa, numa noite em que Jenny esteve lá. Na mesma noite, Maurice vai até a casa do milionário – e, quando chega, depara-se com o cadáver. Jenny conta para Dora que jantou com Brignon, e depois ele avançou sobre ela, ela reagiu atingindo a cabeça dele com uma garrafa – e deixou lá sua estola de pele! Dora se oferece para ir até a casa do morto para retirar de lá a estola; na casa, aproveita para apagar as digitais de Jenny na garrafa e nos talheres.

Estamos com uns 20, 25 minutos de filme. Vai entrar em cena o ator que nos créditos aparece em primeiro lugar, Louis Jouvet, no papel do inspetor Antoine, que será encarregado do caso. Louis Jouvet (na foto, com Suzy Delair-Jenny), grande astro na época, o nome mais importante do elenco, tem um desempenho extraordinário, excepcional.

A trama que Clouzot desenvolve a partir daí é brilhante. A narrativa prende o espectador o tempo todo, o suspense é mantido o tempo todo – não é à toa que o diretor era chamado de o Hitchcock francês. O clímax vai acontecer na noite de Natal.

Aliás, um pequeno detalhe interessante. Toda a ação se passa em dezembro, inverno rigoroso. É interessante que as pessoas ficam de casaco mesmo dentro das casas, assim como dentro do grande prédio da polícia judiciária no Quai des Orfèvres do título original do filme. (Para lembrar: Quai des Orfèvres é o endereço e ao mesmo tempo a forma com que os franceses se referem ao prédio da polícia judiciária central de Paris, na Île de la Cité.)

Diversas vezes, os personagens reclamam do frio, mesmo em ambientes fechados. Não se faz qualquer referência à guerra, que havia acabado pouco antes – mas imagino que a falta de calefação nos ambientes fechados se devesse ainda à escassez de energia provocada pela guerra. Ou estarei viajando?

Uma personagem fascinante; um caleidocópio da sociedade

A composição do personagem de Jenny é fascinante. Tanto ela dá mostras de que o marido tem toda a razão para ter ciúmes quanto dá demonstrações de que, apesar de toda a aparência de estar sempre querendo seduzir todos os homens que passam à sua frente, é fiel. É uma personagem que, sem dúvida, tem muito a ver com o de Odette, o personagem que Romy Schneider interpretaria no inacabado O Inferno. Algo como a Capitu do mestre Machado de Assis – só que uma Capitu que, em vez de viver na rígida sociedade carioca do século XIX, vive na França bem liberal, em termos de costumes, de meados do século XX.

Clouzot assina o roteiro, em parceria com Jean Ferry. Basearam seu roteiro numa novela chamada Légitime Défense, de Stanislas-André Steeman. Imagino que os roteiristas tenham modificado profundamente a história original.

Há, ao longo de todo o filme – que mostra milionários, motoristas de táxi, zeladores de prédio, gente de música, de teatro, de circo, garçons, policiais de diversas patentes –, referências explícitas às classes sociais, às diferenças entre elas, quem vem de família de trabalhadores, quem vem de famílias mais abastadas. Há, como em tantos filmes franceses, ataques à burguesia. Numa das cenas de ciúme de Maurice, um amigo dele comenta com outro: – “O que você queria? É o jeito como ele foi educado. É filho de burgueses, vê maldade em todo lugar”.

Nosa anos 50 e 60, uma imensa renovação dos atores do cinema francês

Uma palavrinha sobre os atores.

Posso estar muito enganado (e, se estiver, gostaria que o eventual leitor me contradissesse), mas a impressão que se tem é de que houve uma renovação quase completa dos atores do cinema francês nos anos 50 e 60. Diferentemente do que aconteceu no cinema americano, foram muito raros os grandes atores franceses dos anos 40 que continuavam na ativa nos anos 60: Jean Gabin, Danielle Darrieux, Michèle Morgan, Jean Marais, Jean-Louis Barrault… E quem mais? Gérard Philipe morreu em 1959; Louis Jouvet, o maior astro do elenco de Quai des Orfèvres na época do filme, morreu em 1951. Arletty fez seu último filme em 1963.

OK: Suzy Delair, que faz a voluptuosa cantora aspirante a estrela, ainda filmaria até 1976, mas teve poucos papéis depois de 1960. E a belíssima Simone Renant, que faz a fotógrafa Dora, também trabalharia no cinema até 1980, mas em poucos papéis.

Dos quatro atores principais deste filme de 1947, só Bernard Blier teve muitos papéis importantes em filmes de qualidade posteriores aos anos 60.

Bem: posso estar enganado, é claro. Mas de fato me parece que houve uma grande renovação dos atores do cinema francês nos anos 50 e 60. A partir da segunda metade dos anos 50 e início dos 60 surgiram Jean-Paul Belmondo, Jeanne Moreau, Catherine Deneuve, Anna Karina, Jean-Claude Brialy, Jean-Louis Trintignant, Anouk Aimée, Yves Montand, e tantos outros – enquanto a maioria dos atores das gerações anteriores desaparecia. E isso coincide com a irrupção da nouvelle vague, a partir do finalzinho dos anos 50, quando surgiu toda uma nova geração de cineastas – Truffaut, Godard, Chabrol, Malle, Rohmer, muitos deles ex-críticos dos Cahiers du Cinéma.

A garotada nova batia forte nos cineastas mais velhos

Os Cahiers batiam pesado em alguns dos grandes nomes do cinema pré-nouvelle vague, em especial René Clair, René Clément, André Cayatte e Henri-Georges Clouzot. Respeitavam Jean Renoir, e adoravam os americanos, até mais que os próprios críticos americanos. Mas desciam a lenha em muitos dos veteranos franceses. Aquela velha necessidade dos jovens de estabelecer uma imensa diferença entre eles e os veteranos.

Quando crítico, o Truffaut que depois viraria o cineasta da ternura, da suavidade, batia forte na velharada – e em especial em Clouzot. Em 1957, dez anos depois que Quai des Orfèvres foi feito, e dois anos antes de estrear na direção com Os Incompreendidos, Truffaut publicou nos Cahiers um artigo ácido, cortante, com o título de “Clouzot no trabalho, ou O Reino do Terror”.

Em seu texto, Truffaut dizia que os Cahiers eram o último bastião da integralidade crítica; os críticos de todas as demais publicações eram, segundo eles, lenientes com as obras dos “intocáveis” do cinema francês, Clouzot, Clair e Clément. E reproduzia trechos de um livro que mostrava a forma ditatorial, brutal, com que Clouzot tratava todo mundo nos sets de filmagem.

Um diretor ditadorial, personagens que falam alto, se agridem, se ofendem

O bicho não devia mesmo ser flor que se cheire, sem dúvida alguma. O fascinante documentário O Inferno de Henri-Georges Clouzot, de 2009, sobre o filme inacabado do diretor, traz diversos depoimentos que atestam que o cara era mesmo ditatorial, brutal.

O interessante é que essa característica – de grosseria, de brutalidade – passa do diretor para seus personagens. Em Quai des Orfèvres, é impressionante como os personagens falam alto, e se agridem, se ofendem.

Quai des Orfèvres ganhou o Grand Prix de melhor diretor no Festival de Veneza – e o respeito de críticos mundo afora.

Diz Georges Sadoul, em seu Dicionário de Filmes: “Banal intriga policial, tratada com sabor de suspense e de modo pitoresco muitas vezes digno de Hitchcock”.

Já o outro grande crítico e historiador francês, Jean Tulard, diz que o filme é a segunda obra-prima de Clouzot, depois de O Corvo. “Jouvet fazia uma extraordinária composição de inspetor de polícia”, diz ele, num filme “cuja pintura do mundo deplorável do music hall apresenta traços de Lautrec”.

Pauline Kael, a grande dama da crítica americana que acompanhava de perto o cinema dos países europeus, diz: “Um entretenimento assombrosamente bem feito, esse filme de detetive de Henri-Georges Clouzot apresenta o grande ator Louis Jouvet no papel de um inspetor de polícia. Seu mundo se contrasta com aquele do music hall, representado pela hipersexual Suzy Delair. Quando essa mulher sem vergonha e voluptuosa canta ‘Avec son Tra-la-la’, ela pode fazer você ficar imaginando se as coisas mais altas na vida valem a preocupação.”

Na sua sinopse, Dame Pauline faz uma revelação que considero spoiler e, portanto, não reproduzo. Acrescenta que Simone Renant (na foto), cuja beleza me impressionou muito, era tida na época como a mais bela atriz da França; depois informa que o filme foi premiado em Veneza e conclui assim: “Em seu país, nunca teve a audiência que merecia”.

É isso aí. Um belo clássico do cinema francês pré-nouvelle vague. Afinal, assim como a História do Brasil não começou em 2003, como querem nos fazer crer, o cinema francês não começou em 1959. Ainda bem.

Crime em Paris/Quai des Orfèvres

De Henri-Georges Clouzot, França, 1947

Com Louis Jouvet (inspetor adjunto Antoine), Simone Renant (Dora Monier), Bernard Blier (Maurice Martineau), Suzy Delair (Marguerite Chauffournier Martineau, ou Jenny Lamour), Pierre Larquey (Emile, motorist de táxi), Jeanne Fusier-Gir (Pâquerette), Claudine Dupuis (Manon), Charles Dullin (Georges Brignon), Henri Arius (Léopardi, editor de música)

Roteiro Henri-Georges Clouzot e Jean Ferry

Diálogos Henri-Georges Clouzot

Baseado na novela Légitime Défense, de Stanislas-André Steeman

Fotografia Armand Thirard

Música Francis Lopez

Produção Majestic Films. DVD CinemaX.

P&B, 106 min

***1/2

Título em Portugal: O Crime da Avenida Foch. Título nos EUA: Jenny Lamour.

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