Corações em Conflito / Mammoth

Nota: ★★½☆

Anotação em 2010 (postada em janeiro de 2011): Corações em Conflito/Mammoth é uma co-produção de Suécia-Alemanha-Dinamarca, estrelada por um ator mexicano e uma atriz americana, passada em Nova York, Bangcoc e uma praia da Tailândia, e em uma cidade não identificada das Filipinas, que tem uma série de lições a dar ao espectador.

O filme ensina que: o mundo é cruel; há uma enorme, imensa injustiça social – existem milionários e existem miseráveis; há pessoas abnegadas, que fazem muito bem o seu trabalho, e gente que explora sexualmente menores de idades; os pais e mães deveriam eles mesmos cuidar da educação e da criação de seus filhos, e não entregar essas tarefas a outras pessoas.

Todas elas lições corretíssimas. Mas e para quem já sabe de todas essas verdades elementares, de que serve o filme?

Bem, é que pode haver alguém que ainda não saiba disso – ou ande meio esquecido.

Sei lá.

         Um garotão boa gente, gênio em informática, que ficou muito rico

Acho que peguei pesado demais. Não é um filme ruim, não. Tem qualidades. E, afinal, é bem intencionado.

Ele me fez lembrar Babel, de Alejandro González Iñárritu – histórias que se passam em diferentes países, de diferentes continentes, e que se interrelacionam – e também, em menor grau, Encontros e Desencontros/Lost in Translation, de Sofia Coppola – americano perdido em hotel de luxo em cidade asiática, numa civilização que desconhece inteiramente.

A história gira basicamente em torno de um jovem casal e sua filhinha, que moram num belo loft no Soho, em Manhattan. Leo Vidales (Gael García Bernal), filho de hippies, gênio de informática, criou um site de jogos e ficou bastante rico; é um garotão, boa gente, bom caráter, tornado rico como tantos outros gênios da informática, mas ainda não acostumado nem com as exigências do mundo empresarial, nem às comodidades do dinheiro farto.

Sua mulher, Ellen (Michelle Williams, em sua versão loura), é médica, trabalha durante a madrugada numa unidade de pronto-socorro de um hospital – e portanto atende a casos graves, de gente acidentada, vítima de violência, tentativas de assassinato, uma barra pesadíssima. Tem problemas com o sono: como trabalha de madrugada, teria que dormir de dia, mas, ao deitar, está sempre agitada, com o stress do trabalho duro nas salas de cirurgia.

A filha do casal, Jackie (Sophie Nyweide), de dez anos, é inteligentíssima, esperta, cheia de curiosidade, interessada em astronomia, em aprender palavras da língua da babá. O tempo que não está na escola, passa com a babá, Gloria, uma filipina simpática, amorosa, dedicada. Na verdade, Jackie ficou muito mais próxima de Gloria de que sua própria mãe – e isso se tornará um problema sério para Ellen.

Quando a ação começa, Leo está saindo para uma viagem à Tailândia, em companhia de um executivo de sua empresa, onde vai assinar um contrato milionário.

Gloria, que cuida da filha dos outros com o mesmo amor que dedicaria aos próprios filhos, está nos Estados Unidos – como tantas centenas de milhares de outras mulheres de países pobres – exatamente tentando juntar dinheiro para dar uma vida melhor a seus dois filhos, Salvador, de dez anos (Jan David G. Nicdao), e Manuel (Martin Delos Santos), de uns seis. Os garotos foram deixados com a mãe de Gloria, e sentem imensa falta dela. Falam-se com uma certa constância por telefone, mas a conversa a longa distância, claro, não diminui a carência dos garotos.

         Um diretor bem intencionado, um believer

Esse tema – a mãe imigrante que não tem tempo para seu próprio filho e ganha a vida cuidando do filho dos outros – foi muitíssimo bem tratado por Walter Salles no seu curto e eficiente esquete no filme Paris, Te Amo, de 2006, com a atriz colombiana Catalina Sandino Moreno. Não registro isso para desmerecer este filme aqui do diretor sueco Lukas Moodysson; é apenas uma constatação.

Lukas Moodysson, nascido em Malmö, em 1969, tem no currículo um belo, gostoso, simpático filme, Bem-Vindos/Tillsammans, de 2000, sobre uma comunidade de hippies em 1975, em Estocolmo. É autor também do elogiado Para Sempre Lilya/Lilja 4-ever, de 2002. Sabe fazer cinema, domina o ofício, e tem uma boa visão do mundo. É um believer.

Achei este seu filme bem mediano, mas isso não significa de forma alguma que ele não deva ser visto.

Corações em Conflito/Mammoth

De Lukas Moodysson, Suécia-Dinamarca-Alemanha, 2009

Com Gael García Bernal (Leo Vidales), Michelle Williams (Ellen Vidales), Marife Necesito (Gloria), Sophie Nyweide (Jackie Vidales), Thomas McCarthy (Bob), Natthamonkarn Srinikornchot (Cookie), Jan David G. Nicdao (Salvador), Martin Delos Santos (Manuel)

Argumento e roteiro Lukas Moodysson

Fotografia Marcel Zyskind

Música Linus Gierta, Erik Holmquist, Jesper Kurlandsky

Produção Memfis Film, Film i Väst, Pain Unlimited GmbH Filmproduktion, Sveriges Television (SVT). DVD Califórnia

Cor, 125 min

**1/2

4 Comentários

  1. Maria B.Marques
    Postado em 1 fevereiro 2011 às 9:17 pm | Permalink

    Ainda ontem estava vendo esse filme, mas com tanto sono não aguentei e… desliguei a TV, Tentarei ver o final da próxima vez…Mas, Sergio em seu comentário fala de “Encontros e Desencontros” que adorei. Alem´da ternura que se estabelece entre o casal castigado pelo tédio, definiria esse filme com a seguinte frase: “O que a derrota numa guerra pode fazer a uma nação…”

  2. Jussara
    Postado em 1 março 2011 às 10:05 pm | Permalink

    Acho que vc tem razão: pra quem já sabe todas as verdades que são mostradas, pra que servirá o filme?
    E nem precisamos ir tão longe na questão de mães imigrantes que cuidam dos filhos dos outros. Mulheres que trabalham como doméstica ou babá, geralmente deixam os filhos em casa (ou na rua) pra ir trabalhar e cuidar dos filhos alheios. E isso no próprio país.

    O tal garotão boa gente, mostrou não ser tãão boa gente assim quando não pensou duas vezes em trair a mulher com uma prostituta qualquer. E ainda chegou a pensar em fugir com ela (!?). Imaturo é pouco pra ele. Já Ellen, a médica, apesar de notar que a filha sentia sua falta, continuava a trabalhar loucamente e a se preocupar mais com as crianças que atendia do que com a própria filha. Não vejo muito mérito em cuidar dos filhos dos outros e esquecer os próprios (isso no caso dela, que podia ter flexibilidade nos horários ou diminuir a carga horária).

    Gostei muito da Gloria – carismática, sensível, inteligente. Pra mim, é de longe a mais humana dos personagens. A menininha tb é uma graça; mas pela troca de dentes, acredito que ela tenha uns sete anos, e não dez. As duas salvam o filme.

    O ponto alto foi ver uma foto ou recorte de revista, do Cristo Redentor, na porta do armário do hospital onde a Ellen trabalhava. Será que o diretor gosta/conhece a cidade maravilhosa?

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 1 março 2011 às 10:12 pm | Permalink

    Grande Jussara!
    Uma das muitas coisas que admiro em você é seu olho de lince para os pequenos detalhes em todos os filmes.
    Pergunto pela décima vez: Não quer escrever uns textos aqui, não?
    Abração.
    Sérgio

  4. Heitor
    Postado em 2 junho 2014 às 2:22 pm | Permalink

    Caro Sérgio, eu sugiro você criar uma categoria aqui no 50 Anos: a de filmes bem intencionados. sou seu fã, tanto que tô aqui lendo praticamente o site todo. Mas filme com boa intenção ninguém merece. Um aviso pouparia dois trabalhos, o de começar a ler e o de parar.

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