Às Cinco da Tarde / Panj é asr

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: Às Cinco da Tarde, da jovem iraniana Samira Makhmalbaf, é duro, árido, seco, como as vidas das pessoas e as paisagens que ela mostra. Não é, de forma alguma, um filme fácil, agradável, de se ver. É um belo filme, uma obra de grande importância, que, ao mostrar tanta miséria, a física, a visível, e as outras, ainda piores, acaba servindo de alento, de esperança.

Talvez não seja muito fácil explicar o que eu quis dizer. Vou tentar.

A realidade que Samira Makhmalbaf mostra não é de seu país, o Irã desde 1976 submetido à ditadura teocrática dos aiatolás. É a do vizinho Afeganistão. A história recente do Afeganistão, é preciso lembrar, é extremamente complexa, confusa, multifacetada. Deve ser difícil para um afegão compreender o que acontece com seu país, em seu país – imagine-se para platéias ocidentais. É verdade que houve O Caçador de Pipas, primeiro o livro, excepcional, de Khaled Hosseini, afegão radicado agora nos Estados Unidos. O livro foi publicado em 2003; o filme, de 2007, me pareceu uma belíssima adaptação do romance – uma história, aliás, dificílima de se passar para imagens.

É interessante lembrar de O Caçador de Pipas, o filme, porque ele serve para mostrar um pouco o que Às Cinco da Tarde é – e o que ele não é. O Caçador de Pipas, grande produção americana, foi feito para o mercado internacional, basicamente para os olhos, a compreensão do Ocidente. Às Cinco da Tarde – feito, por coincidência, no mesmo ano em que o livro de Khaled Hosseini foi lançado, 2003 – naturalmente foi feito para ser visto também no Ocidente; a diretora é freqüentadora (e vencedora) assídua dos festivais de cinema do Ocidente.

Mas, enquanto O Caçador de Pipas é uma grande produção voltada para o público ocidental, o filme de Samira Makhmalbaf não faz esforço algum para ser melhor compreendido deste lado de cá do mundo. É uma obra muito mais calcada diretamente na experiência, na vivência de quem é muçulmano, e vive naquela região conturbada do planeta. É muito mais – esses adjetivos são difíceis, ambíguos, dão margem a interpretações diferentes, mas é preciso usá-los – “autêntico”, “real”, “realista”. É uma visão de quem está perto – essa frase me parece mais exata.

E é um filme de autor, um filme pessoal.

Não estou com isso querendo desmerecer O Caçador de Pipas do diretor Marc Forstedr, de forma alguma – aquele é um grande filme.

Mas este aqui de fato é um filme feito por quem está perto daquela realidade.

Uma religião que exige que os encantos da mulher sejam escondidos

E, como vários outros filmes iranianos dos anos 90 e início da primeira década do novo século, tem uma narrativa e uma trama despojadas, simples. É um fiapinho de história, apenas. O novo cinema iraniano, como diversos cinemas novos no mundo inteiro, bebeu na fonte do neo-realismo italiano, em que as histórias eram apenas fiapinhos – o que importa é a situação social, o contexto, as relações entre as pessoas.

A protagonista é Nogreh (Agheleh Rezaie), moça aí de uns 20 e poucos anos. Mora com o pai (Abdolgani Yousefrazi) e a cunhada Leylomah (Marzieh Amiri), casada com o irmão de Nogreh que está fora de casa, não se explicita exatamente como e por quê, talvez lutando no exército.

Vivem no que parece ser a periferia de Cabul, a capital. Quando a ação começa, o pai está levando Nogreh, numa pequena carroça, até um lugar mais movimentado, onde ela vai participar de um grupo de rezas. Vemos dezenas de mulheres com o corpo inteiramente coberto recitando cântigos religiosos, como os que Nogreh já vinha recitando no caminho, lendo de um grande livro.

As palavras são apavorantes:

“Instrua a todos os homens devotos que fechem seus olhos diante de mulheres, e que controlem sua luxúria.”

“Pois é mais decoroso, e Deus sabe de tudo que fazemos.”

“E que as mulheres se abstenham de dançar. Que seus encantos permanecem escondidos.”

Uma mulher estudar é um crime, um pecado

Nogreh fica pouco tempo participando dos cântigos desse grupo de mulheres religiosas. Levanta-se, caminha por algumas ruas, entra num prédio, tira o véu que cobria seu rosto. O espectador vê o rosto da moça pela primeira vez. Ela dá um sorriso, ainda que tímido – e aí a câmara faz um close-up dos pés. Nogreh tira os mocassins pretos e calça sapatos brancos de salto alto. Não altíssimo, agulhinha, mas alto.

Sapatos brancos de salto alto!

Confesso que cheguei a passar pela minha cabeça (eta cabeça ocidental porca, suja, pecaminosa!), nem sei se cheguei a dizer alguma coisa para Mary, mas juro que cheguei a pensar: Ué – ela vai encontrar um amante?

Claro que não. Mas vai cometer aquilo que para muitos afegãos é igualmente um crime, um pecado: vai se juntar a um grupo de mulheres em uma escola.

Nogreh mente para o pai que participa de um grupo religioso, para poder ir à escola.

Na escola, a professora está dizendo que é a educação que vai preparar as mulheres afegãs para ter papel importante na sociedade. A professora pergunta quem ali quer ser médica, engenheira. Quem ali quer ser, um dia, presidente do Afeganistão. Nogreh é uma das poucas que se levanta diante dessa pergunta. Junto com ela, levanta-se uma garota de óculos, bem falante, extremamente articulada.

Há um debate: alguém fala da necessidade de a mulher ficar em casa, cuidando do marido e dos filhos. A jovem articulada discute, argumenta com brilho.

Um fundamentalista que enxerga blasfêmia em tudo

O pai de Nogreh, veremos depois, é um fundamentalista. Jamais permitiria que a filha deixasse de usar o véu. Estudar, então, nem pensar.

O pai de Nogreh praticamente não conversa com a filha e com a nora. Para elas, ele dá ordens: pegue isso, faça aquilo. Conversar, ele conversa com seu cavalo, seu bem material mais caro e importante. Ao longo do filme, ele lançará para seu cavalo sua indignação diante da realidade que está vendo:

– “A blasfêmia está em toda parte.”

– “Veja as mulheres sem véu.”

– “A blasfêmia está em toda parte.”

– “A blasfêmia reina em Cabul. Como se Deus tivesse morrido – Deus me perdoe!”.

Bem para o fim da narrativa, haverá uma conversa do pai com um desconhecido que eles encontram em uma de suas viagens – o pai está sempre querendo se mudar para outro lugar, para longe de onde a blasfêmia impera, em busca de uma cidade que seja genuinamente muçulmana. Nessa conversa, vai se falar de Osama Bin Laden. O pai pergunta ao velho desconhecido por que ele quer encontrar a estrada para Kandahar, e o velho responde:

– “Quero ver o mulá Omar. Eles reunirão um conselho de sábios para decidir se entregam ou não Bin Laden para os americanos. Eu não entregaria um muçulmano para os infiéis americanos. Bin Laden é nosso convidado, e é um muçulmano. Ele não pode ser morto pelos infiéis.”

Pobre Afeganistão

Respeitada, elogiada, premiada no Ocidente, Samira Makhmalbaf fez Às Cinco da Tarde com dinheiro francês – é uma co-produção França-Irã. Mas, provavelmente de propósito, para não tirar o tom de autenticidade, para não parecer que estava fazendo um filme voltado para o Ocidente, ela não facilita a vida do espectador distante da realidade que ela mostra. Não há um único letreiro nos informando onde e quando se passa a ação.

É preciso então ter em mente que o filme é de 2003, e está mostrando a realidade daquele momento. 2003 – dois anos depois dos ataques terroristas às Torres Gêmeas de Nova York e ao Pentágono. O governo Bush já havia invadido o Iraque, com aquela desculpa esfarrada das armas biológicas de destruição em massa, e já havia posto tropas no Afeganistão para, junto com o novo governo instalado em Cabul, caçar Bin Laden, o autor dos atentados, e os demais líderes da Al-Qaeda.

Mas acho que, para tentar compreender um pouco este filme, seria necessário lembrar alguns antecedentes.

Pobre Afeganistão.

Nos últimos cento e tantos anos, os afegãos enfrentaram os exércitos ingleses e depois os soviéticos; desde 2001, convive com soldados americanos e de outros países, enviados pela ONU, com a concordância do precário governo. E ainda há as lutas internas, de afegãos contra afegãos.

Só em 1919, ao final de uma terceira guerra contra os ingleses, o país tornou-se plenamente independente do Império Britânico. Durante os anos 1970, o país experimentou algo como uma primavera de Cabul, segundo mostra o romance de Khaled Hosseini. Nascido em Cabul em 1970, em família abastada, Hosseini – como seus personagens em O Caçador de Pipas – leu bons livros, viu muitos filmes na capital afegã.

Até que, em 1979, houve a invasão soviética.

Tornou-se comum dizer – e faz todo sentido – que o Afeganistão foi o Vietnã dos soviéticos. Como os Estados Unidos no Vietnã, a União Soviética afundou na lama do Afeganistão – embora o mais correto fosse dizer na areia, já que é um país de muita seca, como mostra o filme de Samira Makhmalbaf. A resistência aos invasores foi feroz – e contou com muita ajuda americana, como mostra outro filme importante, baseado em fatos reais, Jogos do Poder/Charlie Wilson’s War, de Mike Nichols, de 2007.

Depois que os soviéticos bateram em retirada, o Afeganistão sucumbiu a algo ainda pior – sempre pode haver algo pior. A partir de 1996, o país, ou a maior parte dele, passou a ser governado pelos mulás do Taliban, fundamentalistas muçulmanos talvez mais fundamentalistas, mais intolerantes, mais rigorosos ainda do que os aiatolás do vizinho Irã. Como os aitolás, apedrejam mulheres. Para as talibans, Bin Laden é um herói.

A partir de 2001, um governo interino chefiado por Hamid Karzai, apoiado pelos Estados Unidos, passou a lutar contra os focos de resistência dos talibans, e a tentar desmontar a estrutura fundamentalista que eles haviam implantado no país.

É essa a época mostrada no filme. É por isso que, logo no início, a professora diz que o governo está empenhado em dar educação às mulheres – coisa impensável sob o domínio taliban, e impensável também na cabeça dos que, como o pai da protagonista, seguem os preceitos fundamentalistas.

Menina de ouro

Samira Makhmalbaf nasceu em Teerã em 1977, na época em que o vizinho Afeganistão vivia um período de alguma calma, e os jovens podiam ver nos cinemas de Cabul produções ocidentais e também filmes iranianos, egípcios. No Irã, eram tempos de mudanças dramáticas, de grande revolução. Em 1978, o ano em que Samira fez seu primeiro aniversário, houve gigantescas demonstrações populares contra o regime pró-Ocidente do xá Reza Pahlavi; em 1979, o xá fugiu do país, o aiatolá Khomeini assumiu o poder e a milenar Pérsia aprovou uma constituição teocrática, que instituía a República Islâmica do Irã.

Pobre Irã.

Saiu de um regime despótico pró-Ocidente para cair numa ditadura de fanáticos religiosos.

Os regimes ditadoriais costumam ter períodos de opressão um pouco menor. É uma coisa natural, um instinto de autodefesa: mesmo os regimes ditadoriais conseguem compreender que é preciso soltar um pouco da pressão na panela, ou então explodem. Até mesmo os generais Geisel e Golbery, que o lulo-petismo tanto admira, entenderam isso. A ditadura teocrática do Irã teve seu período de leve abertura durante os anos 1990, quando os moderados chegaram ao poder. Foi quando foram feitos os filmes que fascinaram o mundo, o tal do novo cinema iraniano, inspirado no neo-realismo italiano do pós-guerra.

Mohsen Makhmalbaf, o pai da garota Samira, foi um dos cineastas que brilharam naquele período. Teve 14 prêmios e outras 11 indicações em festivais internacionais.

Samira cresceu vendo o pai trabalhar – e aprendendo com ele. Aos oito anos, em 1987, teve um pequeno papel em O Ciclista, o quinto filme de Mohsen Makmalbaf. Foi assistente de direção do pai em O Silêncio, de 1998. Naquele mesmo ano, com 21 anos de idade, Samira dirigiu seu primeiro filme, Sib, um drama com roteiro dela e do pai, sobre duas irmãs que passam 12 anos aprisionadas pelos seus próprios pais; o filme obteve sete prêmios no Ocidente.

Este Às Cinco da Tarde foi seu terceiro longa metragem; antes, ela havia feito um dos segmentos do filme coletivo 11 de Setembro, de 2002, ao lado de, entre outros, Claude Lelouch, Ken Loach, Amos Gitai, Alejandro González Iñárritu, Mira Nair e Sean Penn.

A mesma cena abre e fecha o filme, um círculo completo

O filme abre e fecha com imagens quase idênticas, como se fossem apoiadores de livro, bookends. É a mesma cena, vista de frente na abertura e de costas no encerramento – duas mulheres caminhando num deserto. Na primeira imagem, naturalmente não sabemos quem são elas – no final, sabemos, claro, que são Nogreh e Leylomah. Na tomada do início, uma voz recita:

“Ah, que terríveis, cinco da tarde.

Eram cinco em todos os relógios.

Eram cinco na sombra da tarde.”

Com uns 20 minutos de narrativa, um rapaz de cara simpática, sorridente, sempre bem humorado (Razi Mohebi), ficará encantado com Nogreh. Vai segui-la sempre, ganhar sua confiança. É um jovem poeta – o filme não nos diz seu nome. Ele escreverá para Nogreh uma tradução para o dari do poema de Federico García Lorca, “La Cogida y la Muerte”:

“A las cinco de la tarde.

Eran las cinco en punto de la tarde.

Un niño trajo la blanca sábana

a las cinco de la tarde.

Una espuerta de cal ya prevenida

a las cinco de la tarde.

Lo demás era muerte y sólo muerte

a las cinco de la tarde.”

Contra tudo, contra todos, a vontade de estudar, melhorar

É o símbolo que dá algum alento, alguma esperança, em meio a tanta miséria, tanta desolação. No miserável, devastado Afeganistão, aquela jovem mulher, contra tudo, contra todos, quer estudar. Quer estar preparada para ser um dia presidente da República. Aprende com um jovem que se encanta por ela a recitar Federico García Lorca.

Uma frase dita numa entrevista por Samira Makhmalbaf deixa mais claro ainda o alento, a esperança: “Depois que viram meu primeiro filme, muitas pessoas me perguntaram sobre o Irã. Elas queriam saber se o Irã é mesmo um país onde garotas de 13 anos de idade podem ser presas durante 11 anos, e uma garota de 18 anos de idade podia apresentar seu primeiro filme em Cannes. Eu acho que as mulheres iranianas são como nascentes de água: quanto maior for a pressão sobre elas, mais força elas vão mostrar quando se libertarem”.

Às Cinco da Tarde/Panj é asr

De Samira Makhmalbaf, Irã-França, 2003.

Com Agheleh Rezaie (Nogreh), Abdolgani Yousefrazi (pai), Razi Mohebi (poeta), Marzieh Amiri (Leylomah)

Roteiro Samira Makhmalbaf

Baseado no romance de Mohsen Makhmalbaf

Fotografia Ebrahim Ghafori e Samira Makhmalbaf

Música Mohammad Reza Darvishi

Montagem Mohsen Makhmalbaf

Produção Bac Films, Makhmalbaf Productions,Wild Bunch, . DVD Europa Filmes

Cor, 105 min

***

Título em inglês: At Five in the Afternoon. Na França: À Cinq heures de l’après-midi

Um Comentário

  1. ingrid
    Postado em 27 outubro 2011 às 8:04 pm | Permalink

    assisti em um canal aberto(tv cultura) num sabado à noite, dias atrás, fiquei encantada com a realidade, gostei da atriz samira, não vi exagero p chamar atenção, à medida q assistia mais prendia minha atenção(e olha q p eu PARAR p assistir qualquer coisa, ou simplesmente o ficar parada é rarissímo), um dos melhores filmes que assisti numa escala de cinco..

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