A Última Estação / The Last Station

Nota: ★★★½

A Última Estação – um relato sobre os últimos meses de vida de Liev Nikolaievitch Tolstói e as pessoas que o cercavam – é uma beleza de filme.

Demorei um tanto para ter certeza disso. Vi o filme duas vezes, com um intervalo de um mês entre as duas, antes de escrever esta anotação. Mas isso é pessoal, portanto menos importante; volto ao assunto ao final do texto.

Apesar do orçamento relativamente baixo, para os padrões do cinemão comercial, tanto europeu quanto americano – custou cerca de US$ 18 milhões –, é uma produção esmeradíssima, suntuosa. A reconstituição de época é uma maravilha que só não é espantosa porque quem assina o desenho de produção é a maga Patrizia Von Brandenstein; essa senhora é como Midas – tudo em que encosta vira ouro.

O ambiente do campo russo em 1910 foi recriado no interior da Alemanha – o filme é uma co-produção de Alemanha e Rússia, e, como muitos outras obras recentes, reúne gente dos mais diversos países. Um dos produtores é o cineasta russo Andrei Konchalovsky, o diretor é americano, no elenco há atores da Inglaterra, Escócia, Estados Unidos, Rússia.

O roteiro, de autoria do próprio diretor Michael Hoffman, se baseia no livro homônimo de Jay Parini. O livro, lançado originalmente em 1990, é uma preciosidade. É um romance, com elementos de ficção – mas baseado nos acontecimentos reais, nos personagens reais. Jay Parini, acadêmico e escritor nascido em 1948, leu os diários das diversas pessoas que conviveram com Tolstói em seus últimos meses de vida – todos eles, os personagens do livro e do filme, mantinham diários, faziam anotações e anotações, que Parini pesquisou exaustivamente.

No posfácio de A Última Estação (editado no Brasil em 2009 pela Record), ele conta que o livro começou em meados dos anos 1980, quando, num sebo em Nápoles, se deparou com o diário de Valentin Bulgákov, o jovem que teve a imensa sorte de, em 1910, aos 24 anos de idade, ser escolhido por Vladimir Grigórevitch Tchertkov, o grande amigo de Tolstói na época, para trabalhar como secretário particular do escritor.

“Logo descobri”, escreve Parini, “que diários parecidos eram escritos por muitos outros membros do círculo íntimo de Tolstói, que se tornara notavelmente amplo por volta de 1910. Li e reli as memórias e diários Vladimir Chertkov, Sofia Andrêievna Tolstoia, Iliá e Liev, Serguei, Tânia e Aleksandra (Sacha), Duchan Makovitski e outros. Lê-los sucessivamente era como olhar para uma imagem através de uma caleidoscópio. Logo me apaixonei pelas formas de vida, simétricas, em contínua mutação, que iam aparecendo.”

O que Tolstói fala, no livro, não é invenção do autor – é a reprodução do que ele escreveu ou disse:

“Sempre que Tolstói fala, neste romance, cito suas palavras verdadeiras ou, com menos freqüência, crio um diálogo baseado em conversas indiretamente registradas. Em outras partes imaginei livremente o que talvez se tenha dito, ou o que provável ou obrigatoriamente foi dito.”

Ou seja: A Última Estação, o livro, é quase a reconstituição rigorosa dos fatos reais – como A Sangue Frio, de Truman Capote, ou Os Eleitos, de Tom Wolfe, ou ainda O Inocente, de John Grisham.

E o filme é bastante fiel ao livro.

Um imenso acerto na escolha dos atores

Aqueles nomes russos todos, citados alguns parágrafos acima, podem assustar um pouco quem não estiver habituado, quem não tiver lido algum livro da fantástica, esplendorosa literatura russa. Mas aqueles são os personagens da história – a real e a contada no livro e no filme.

A escolha dos atores para interpretar esses personagens foi outro gol de placa – assim como a escolha de Patrizia Von Brandenstein para coordenar a direção de arte e o desenho dos sets.

Para o papel principal, o do secretário particular Bulgákov, foi escolhido James McAvoy, o jovem ator escocês de talento tão grande quanto a sorte, que já tinha no currículo o papel central de dois ótimos filmes, O Último Rei da Escócia e Desejo e Reparação. A rigor, a rigor, talvez McAvoy estivesse já maduro demais para o papel – tinha 30 anos, e seu personagem, 24. Mas ele consegue parecer mais novo que seus 30 anos; está soberbo, muitas vezes abertamente divertido, como o jovem tímido, inexperiente, que de repente se encontra diante de seu grande mestre, seu ídolo – e o grande, o imenso, o gigantesco Tolstói vira-se para ele e pergunta como ele está, como foi sua viagem, em que texto está trabalhando agora.

Quando fica nervoso, Bulgákov, na pele de James McAvoy, espirra. Quando Tolstói o trata como um velho amigo, Bulgákov espirra. Quando Macha, sua colega no vilarejo de tolstoianos fiéis, invade seu quarto e senta-se a seu lado na cama, Bulgákov espirra.

A escolha de Kerry Condon (na foto acima) para o papel de Macha (muito provavelmente um dos poucos, senão o único personagem fictício do livro e do filme, creio) foi outro grande acerto. Kerry Condon está ótima como a jovem estudante russa libertária, liberal, fogosa, cheia de vida, que se dá bem naquela vida do campo, e, como uma autêntica camponesa russa, corta lenha com a mesma desenvoltura com que lava os pratos. Kerry Condon não tem uma beleza extraordinária, de topmodel – tem uma beleza forte, espontânea, energética, sensual, perfeita para o papel. Eu me lembrava de já ter visto o rosto dela, mas foi preciso recorrer ao IMDb para checar de onde. Foi de Roma, a extraordinária série de duas temporadas da BBC e HBO, juntas e ao vivo. Em Roma, fez o papel de Otávia, filha de uma das amantes de César.

Outro acerto foi Paul Giamatti para o papel de Chertkov, o grande amigo do escritor, líder do tolstoísmo, o movimento filosófico-religioso criado pelo mestre nas suas últimas décadas de vida. Giamatti sabe fazer caretas, trejeitos, caras e bocas – e Chertkov é descrito exatamente assim no livro, um sujeito melífluo, repelente.

Christopher Plummer e Helen Mirren estão perfeitos como Tostói e Sofia

Diz o IMDB que a produção quis Anthony Hopkins e Meryl Street para os papéis de Tolstói e Sofia, sua mulher. Dois atores fabulosos, Hopkins e Meryl. Mas ainda bem que não deu certo o casting original. A dupla Christopher Plummer e Helen Mirren está perfeita. Perfeita.

Christopher Plummer estava com 80 anos, quando o filme foi feito – produzido em 2009, estreou nos Estados Unidos em janeiro de 2010. Tolstói estava com 82, nos seus últimos meses de vida. A equipe de maquiagem providenciou aquela barba bem longa que Tolstói ostentou na velhice, e as entradas avançadas. Ficou um autêntico Tolstói. Ele aparece às vezes jovial, alegre – mas com o corpo um pouco arqueado, demonstrando a idade. Tem momentos em que é brincalhão – e, outros momentos, fica furioso, absolutamente furioso, com a mulher.

E a mulher, a condessa Tolstoia, Sofia Andrêievna Tolstoia, vem na pele de Helen Mirren. Que atriz fantástica.

Da primeira das duas vezes que vi o filme, cheguei a ficar assustado: achei que Helen Mirren, por ser Helen Mirren, essa atriz fenomenal, acaba roubando muito a cena, eclipsando até mesmo a figura central da trama, o próprio escritor.

De fato ela rouba todas as cenas em que aparece. Mas, pelo que diz o livro, e pelo que se sabe da história, Sofia era uma mulher como a que Helen Mirren compõe: apaixonada pelo marido, mas também apaixonada por tudo aquilo de que ele não mais queria saber – dinheiro, posses, pose, aparência. Sabia ter o porte de uma dama da aristocracia – mas também sabia dar xiliques extremos.

O escritor é o sol em torno do qual gravitam as demais figuras

Helen Mirren foi indicada tanto ao Oscar quanto ao Globo de Ouro na categoria de atriz principal. Christopher Plummer teve as mesmas indicações na categoria de coadjuvante.

É um tanto estranho que seja considerado coadjuvante o papel de Tolstói num filme sobre os últimos meses da vida de Tolstói, mas, a rigor, é isso mesmo. Tanto no livro quanto no filme, quem aparece mais são o secretário particular Bulgákov e a condessa Sofia. São importantes também Macha, a jovem que faz Bulgákov renunciar ao tolstoiano voto de castidade; o sorrateiro Chertkov; a filha preferida do mestre, Sacha (interpretada por Anne-Marie Duff, mulher de James McAvoy na vida real); e Duchan Makovitski (John Sessions), o médico particular.

Tudo gira em torno de Tolstói, é claro. Ele era o Sol daqueles planetas todos. Mas, talvez até devido à sua estatura imensa, descomunal, a seu brilho intenso demais, o escritor Jay Parini tenha optado por focalizar mais o entorno do que o próprio escritor – uma opção que o diretor e roteirista Michael Hoffman sabiamente manteve.

Letreiros para ajudar o espectador a compreender o que verá na tela

Hoffman procurou não enfeitar muito. Seu filme não tem fogos de artifício, invencionices formais. Ao contrário: conta a história – que já é muito boa em si mesma – de maneira linear, ortodoxa.

Notei apenas um pequeno detalhe formal que parece fascinar o diretor – assim como fascina a mim: ele adora travellings, as tomadas em que a câmara vai se movimentando. Há muitos belos travellings no filme, com a câmara em trilhos e em gruas, movimentando-se horizontal e também verticalmente. São movimentos suaves, elegantes. Coisa de quem domina o ofício, é experiente.

O filme tenta ajudar o espectador, situá-lo. Na abertura, surgem legendas com as informações básicas. A primeira delas é uma citação de uma frase de Tolstói em Guerra e Paz:

“Tudo o que sei, sei apenas porque eu amo.”

Vemos uma tomada que mostra um campo, coberto de neblina matinal, e depois uma com Helen Mirren descendo as escadas de uma casa. Letreiros vão informando, entre outras tomadas de Helen Mirren-Sofia entrando no quarto em que dorme Christopher Plummer-Tolstói:

“Iasnaia Poliana, propriedade de Tolstói, 1910.”

“Leo Tolstoy, autor de Guerra e Paz e Anna Karênina, é o mais célebre escritor do mundo.”

“Ele rejeita a propriedade privada e defende a resistência passiva. Alguns até mesmo o vêem como um santo em vida.”

“Ele concentra sua atenção à difusão de sua nova doutrina, e, com o amigo Vladimir Chertkov, fundo o movimento mundial do tolstoísmo.”

Uma tomada de uma rua, com belos, austeros prédios. O letreiro informa:

“Moscou, escritório central do tolstoísmo.”

E aí se inicia a ação. Chertkov está acertando com o jovem Bulgákov a ida dele para Iasnaia Poliana, para assumir o cargo de secretário particular de Tolstói.

Quem não conhece nada a respeito do grande escritor, ou conhece bem pouco, pode, portanto, com a ajuda dessa introdução, desfrutar bem o filme. Mas imagino que, da mesma forma, o filme deverá agradar aos amantes de Tolstói.

Não é uma tarefa simples, essa – a de passar para o espectador a dimensão dessa figura extraordinária. Mas acho que o filme, assim como o livro, consegue a façanha.

Até porque ele é bem focado num período curto de tempo – apenas os últimos meses, as últimas semanas de vida do escritor. Não pretende mostrar mais que isso – até porque uma cinebiografia de Liev Nikolaievitch Tolstói teria que ser não um filme, mas uma série, de duração bem maior que, digamos, os 894 minutos de Berlin Alexanderplatz de Fassbinder.

Uma nota pessoal: Tolstói é tão descomunal que dá medo

Repito uma frase escrita logo acima: talvez até devido à estatura imensa, descomunal, ao brilho intenso demais da figura de Tolstói, o escritor Jay Parini, assim como o diretor Michael Hoffman, tenha optado por focalizar mais o entorno do que o próprio personagem.

Tolstói é tão descomunal que me dá medo.

Quando era adolescente, cometi a imprudência (os jovens são necessariamente imprudentes, e algumas imprudências são bem-vindas) de ler Guerra e Paz. Achei na época que entendi o livro; devo ter captado dele algo como uns 10, talvez 20 por cento. Depois li outras obras menores dele – menores em tamanho, quero dizer -, como A Morte de Ivan Ilitch. Só fui ler Anna Karênina depois dos 50 anos de idade – e aí, evidentemente, aproveita-se muito mais daquela imensa riqueza que é a literatura de Tolstói. Já beirava os 60 quando reli Guerra e Paz. Minha admiração pelo autor é tão grande que me sinto pequeno demais diante dele. Jamais me atreveria a escrever um texto sobre qualquer um dos seus dois romances amazônicos, como tenho escrito (e até publicado no 50 Anos de Textos) sobre diversos livros que leio.

Acho que foi por isso, por esse temor reverencial diante de Tolstói, que, depois de ter visto o filme pela primeira vez, um mês atrás, não consegui escrever nada sobre ele. Não consegui nem mesmo ter um juízo sobre se o filme havia sido fiel ao livro que deu origem a ele.

Foi ótimo revê-lo. As fichas caíram direitinho. É uma beleza de filme.

Anotação em novembro de 2011

A Última Estação/The Last Station

De Michael Hoffman, Alemanha-Rússia, 2009

Com James McAvoy (Bulgákov), Helen Mirren (Sofia), Christopher Plummer (Liev Tolstói), Kerry Condon (Macha), Paul Giamatti (Chertkov), John Sessions (Duchan, o médico), Anne-Marie Duff (Sasha Tolstói), Patrick Kennedy (Sergeyenko)

Roteiro Michael Hoffman

Baseado no romance homônimo de Jay Parini

Fotografia Sebastian Edschmid

Música Sergey Yevtushenko

Production Design Patrizia Von Brandenstein

Produção Egoli Tossell Film, Zephyr Films, Egoli Tossell Film Halle, Production Center of Andrei Konchalovsky, SamFilm Produktion. DVD Sony.

Cor, 112 min

R, ***1/2

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