Um Sonho Possível / The Blind Side

Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: Gostei bastante deste filme que, acho, acabou ficando conhecido sobretudo pelo fato de ter dado a Sandra Bullock o Oscar, o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild de melhor atriz.

OK, o filme tem muitas coisas bem boas além da Bullock – e tem também coisas bem bobas, umas simplificações, umas obviedades imbecis.

OK – para começo de conversa, é um filme americano. Não foi feito por um dos grandes estúdios, é uma produção independente, e um filme americano independente é quase tão distante do cinemão de Hollywood quanto uma produção da Coréia, ou da Geórgia, ou da Noruega.

Mas é um filme americano, mesmo que independente, e, nos filmes americanos, como ironizou a francesa Danièle Thompson, “os pobres ficam ricos, os ricos têm uma vida dura, os sem-documento encontram os documentos, as guerras terminam, os mortos voltam a viver e as putas se casam com milionários”.

Embora produção independente, este é, como tantos do cinemão comercial, um filme para inspirar. Para dar um bom exemplo. Para mostrar que pode dar certo.

Nada contra – é só uma constatação, uma definição do estilo do filme. Nada contra, até porque faz muito, mas muito tempo que deixei de achar que filme bom é necessariamente aquele que exibe as chagas do sistema capitalista, da sociedade, e tem final muito infeliz, para manter no público a chama da insatisfação, da discordância, da revolta.

         Um garoto muito grande, gordo, pobre, que teve uma vida de cão

Um Sonho Possível exibe, sim, chagas do capitalismo, da sociedade capitalista. A ação de passa em Memphis, Tennenssee, nos anos 2000, e o filme mostra que há um abismo, um Grand Canyon, separando os pobres dos ricos. E um Grand Canyon separando pessoas de uma mesma cidade é uma chaga gigantesca, uma afronta, um acinte.

Michael Oher, o personagem principal (interpretado por Quinton Aaron), faz lembrar a protagonista de outro filme da mesma safra, Preciosa – Uma História de Esperança/Precious. Em Precious, Clareece Jones é muito gorda, pobre, praticamente analfabeta, e tem uma vida de cão com a mãe sempre drogada. Michael Oher é muito grande e gordo, muito pobre, muito ruim nos estudos, e teve uma vida de cão com e sem a mãe sempre drogada.

Michael tem a sorte de ir para um bom colégio pago, católico, porque o técnico do time de futebol americano, Cotton (Ray McKinnon), acredita que com aquele corpanzil o garoto poderá ser um bom jogador – e para um bom jogador de futebol o colégio dá bolsa de estudos total.

Mas Michael a princípio não parece muito interessado em aproveitar a grande sorte; recusa-se a estudar, a tentar acompanhar a classe – e mesmo os prováveis futuros astros do esporte precisam ter notas mínimas. Os professores se dividem – alguns o rejeitam pura e simplesmente; outros se esforçam para ajudá-lo.

Aos 17 anos, tamanho descomunal, Michael não tem casa; amigos emprestam um sofá para ele dormir, mas um belo dia ele se vê literalmente sem teto.

E aí ele ganha na loteria pela segunda vez: por decisão da dona da casa, Leigh Anne (o papel de Sandra Bullock), a família Tuohy o acolhe, primeiro por uma noite, depois por alguns dias – e ele vai ficando.

Estou revelando aqui apenas o que acontece até quando o filme está aí com uns 20 minutos. Não é necessário avançar mais na trama.

         Muita gente poderá achar que o filme tem um excesso de cor-de-rosa

A história de Michael Oher é verdadeira. O filme se inspira numa história real – é daquele tipo que, nos créditos finais, mostrará imagens do Michael na vida real, de Leigh Anne na vida real.

Não dá para saber, é claro, o quanto de fantasia o roteirista e diretor John Lee Hancock (autor do roteiro de um dos belos filmes de Clint Eastwood, Um Mundo Perfeito) enxertou na história verdadeira – se apenas “dramatizou”, como se costuma dizer, ou seja, simplificou algumas passagens, resumiu fatos, compôs o que eram vários episódios em apenas alguns bem ilustrativos, ou se alterou muito, coloriu de cor-de-rosa.

O que o filme mostra é uma realidade duríssima – todos sabemos que os jovens abandonados, de famílias destruídas, de pais drogados, miseráveis, são milhares, milhões, centenas de milhões no mundo. A vida de Michael era um absoluto inferno. A partir do encontro dele com a família Tuohy, o que era negror total vai se tingindo mais e mais de cor-de-rosa.

Muita gente certamente achará que há um excesso de cor-de-rosa.

         Uma família fascinante, pessoas de bom caráter

Mas a família que vemos na tela é fascinante. John Lee Hancock soube construir com grande talento cada um dos personagens – Leigh Anne, o maridão Sean (Tim McGraw), a adolescente Collins (Lily Collins), o garotinho de uns dez anos S.J. (Jae Head).

Começando de baixo para cima: S.J. é pequenininho, feioso – e inteligentíssimo. É assim uma espécie do oposto de Michael (nos testes, estabeleceram que o Q.I. de Michael era de 80, abaixo do considerado mediano). O cinema já mostrou outras duplas de garotos assim, em que um completa o outro, e a dupla vira sensacional. Este é um dos casos. S.J. entra com a inteligência, a sagacidade; Michael entra com a força – a dupla fica imbatível.  

Collins é uma adolescente bastante diferente do padrão – mas isso existe também, uai, não é invenção de roteirista. (Posso dizer isso com tranqüilidade , porque tive uma em casa.) Não tem brigas homéricas com os pais, não é uma rebelde 24 horas por dia; é estudiosa, séria. Tem uma boa escala de valores morais. Não baseia seu comportamento no que diz a maioria de sua turma.

Michael não poderia ter sorte maior.

Sean Tuohy, o chefe da família, é uma figuraça. Ex-jogador profissional de futebol, ganhou muito dinheiro na carreira; como tinha boa formação (ao contrário de tantos ídolos do futebol, no Brasil e no resto do mundo), soube administrar a fortuna que ganhou, investiu, hoje é dono de uma grande rede de lanchonetes. É classe média bem alta, para os padrões de Memphis; para os nossos padrões, é um sujeito muito rico.

E é um bom pai, trata bem os filhos. É apaixonado pela mulher, tem por ela tanto amor quanto respeito.

E a tal da Leigh Anne é outra baita figuraça. Sandra Bullock deu sorte de pegar o papel, depois de fazer tantos filmes ruins na vida, tantas comedinhas românticas a rigor descartáveis. Leigh Anne é uma danada de uma perua, vaidosa, coquete, preocupada com as aparências todas, a exibição de grifes. Mas tem um vigor hercúleo; trabalha bem e muito (em algo a ver com decoração de interiores), tem personalidade fortíssima, manda e desmanda em casa. E, se se preocupa com a marca das roupas e dos móveis, não dá a menor, mas a menor bola para o que dizem dela as amigas peruas, assustadas com o fato de ela botar pra dentro da casa rica um garoto de tamanho descomunal e com a pele negra que nem carvão.

         Sul Profundo, onde o racismo era garantido por lei até outro dia

E aí chegamos a um ponto importante que o filme mostra de maneira fascinante.

Estamos em Memphis, Tennensse. Sul Profundo. Tanto Sean quanto Leigh Anne estudaram no Mississipi, o Sul mais profundo que pode existir. Até 1964, a segregação entre pessoas de cor de pele diferentes era legal, ali, era protegida por lei. Como na África do Sul do infame apartheid.

Às vezes a gente se esquece disso. É preciso lembrar disso sempre.  

Apenas em 1964 foi promulgada – pelo então presidente Lyndon B. Johnson, democrata, obviamente, que assumira o cargo com o assassinato de John Kennedy em 1963 – uma legislação federal banindo toda e qualquer forma de segregação racial nos Estados Unidos.

         O Brasil na contramão da história, jogando fora seu passado

E aqui não consigo me impedir de fazer uma pequena, rápida digressão, necessária nestes sombrios tempos em que os racialistas impõem ao Brasil leis segregacionistas.

Os Estados Unidos decretaram o fim da escravidão em 1865 – 23 anos antes que o Brasil. Mas, especialmente nos Estados sulistas, que lutaram uma dolorosa guerra civil para manter seus escravos, a segregação foi oficial, por força de lei, até 1964. Houve pouquíssima miscigenação, porque os casamentos inter-raciais eram proibidos – por lei ou na marra, pela força do arraigado racismo do país.

No Brasil, que baniu a escravidão em 1888, jamais houve lei alguma (até agora, no governo Lula) estabelecendo qualquer diferença entre pessoas de pele negra, amarela, branca, marrom, verde, azul. Muito ao contrário. Desde 1951 qualquer forma de discriminação racial pode levar à cadeia, por força da Lei Afonso Arinos.

E agora, em 2010, voltamos atrás na História, rumamos para um passado que aqui nunca havia existido, e criamos leis que dividem os brasileiros entre negros e brancos – quando 41% brasileiros são meio brancos, meio negros, nascidos de casamentos inter-raciais.

Meu Deus do céu e também da terra.

         Uma história que seria inimaginável escasos 20 anos atrás

 A realidade que Um Sonho Possível mostra – a família branca cuidando do garoto negro, o garoto negro estudando na escola particular cara – seria absolutamente, completamente inimaginável escassos, parcos 20 anos atrás.

 Não que o filme afirme que não há racismo, que não há preconceito. Há, infelizmente. Mas lá a História andou para frente tanto, neste cerca de meio século, que o racismo, o preconceito, as atitudes preconceituosas são vistas como devem mesmo ser: coisa pré-histórica, coisa ilegal, imoral.

O que o filme mostra é que hoje, em Memphis, Tennenssee, Sul Profundo, supremacismo branco parece tão dinossáurico quanto acender um cigarro.

E é muito bom, é uma maravilha ver isso.

Pode até ser que o diretor John Lee Hancock tenha exagerado um pouco no tom cor-de-rosa, positivo, otimista. Mas a história do garoto Michael é real.

É uma maravilha ver isso – ao mesmo tempo em que é profunda, apavorantemente triste pensar que estamos fazendo tudo no sentido inverso. Lá, no Império que já foi tão racista quanto o regime do apartheid, estão rumando para frente. Aqui, andamos com passos acelerados rumo às cavernas.

         Os três grandes prêmios para a Bullock, e sucesso nas bilheterias

Sandra Bullock, como foi dito lá em cima, levou o Oscar por seu maravilhoso desempenho como Leigh Anne Tuohy, e levou também o Globo de Ouro e mais o prêmio do SAC, o sindicato dos atores. Um Sonho Possível teve também indicação para o prêmio principal, o Oscar de melhor filme.

Quando se trata de dinheiro, o filme é assim tão cor-de-rosa quanto a história que conta. Custou US$ 29 milhões, quase uma bagatela. Rendeu, desde a estréia, em 20 de novembro de 2009, até julho de 2010, US$ 308 milhões. Sou péssimo de conta, mas dá para ver que isso, sim, senhor, é que é boa relação custo/benefício – investe 29, rende 308.

Ah, sim, não falei nada sobre the blind side, o título original. No futebol americano, o quarterback – o que corresponderia ao centroavante no futebol – tem que ser defendido por alguém forte, grande, que cubra para ele o lado cego, suas costas. Na abertura do filme, a voz em off de Sandra Bullock dá todas as explicações necessárias. Mas, para entender o filme, gostar ou desgostar dele, não é necessário entender coisa alguma de futebol americano.

A questão toda é como as pessoas escolhem fazer o caminho de suas vidas.

Você pode ver tudo negro. Você pode ver tudo cor-de-rosa. Você pode ver como é – muitas cores, muitas tonalidades.

Eu, pessoalmente, prefiro uma coisa colorida.

Um Sonho Possível/The Blind Side

De John Lee Hancock, EUA, 2009

Com Quinton Aaron (Michael Oher), Sandra Bullock (Leigh Anne Tuohy), Tim McGraw (Sean Tuohy), Jae Head (S.J. Tuohy), Lily Collins (Collins Tuohy), Ray McKinnon (treinador Cotton), Kim Dickens (Mrs. Boswell), Adriane Lenox (Denise Oher), Kathy Bates (Miss Sue), Catherine Dyer (Mrs. Smith), Andy Stahl (director Sandstrom) 

Roteiro John Lee Hancock 

Baseado no livro de Michael Lewis

Fotografia Alar Kivilo

Música Carter Burwell

Montagem Mark Livolsi

Produção Alcon Entertainment, Warner Bros.

Cor, 126 min

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