Um Homem Sério / A Serious Man

Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: Um Homem Sério, o mais recente filme dos irmãos Coen, tem sido rotulado como comédia. Rótulo maluco. É uma danada de uma tragédia. Só não é uma tragédia grega porque é uma tragédia judia.

É bem verdade que, como resumiu genialmente Billy Blanco, “o que dá pra rir dá pra chorar, questão só de peso e medida, problema de hora e lugar” – e mais adiante ele mesmo sintetizou que “tem gente que ri da desgraça”.

Sim, o tal de humor negro. É a grande especialidade dos Coen. Ferinos, sarcásticos, incisivos, demolidores, irreverentes, os filmes dos irmãos Joel e Ethan Coen costumam ser como grandes britadeiras: não deixam pedra sobre pedra, destroem tudo o que tocam, transformam em areia, em pó – a instituição do casamento, as relações familiares, as relações de trabalho, até mesmo a violência, o crime. Nos filmes dos Coen, os mais inocentes, suaves planos de se ganhar um dinheiro com um ato ilegal mas não violento acabam resultando em banhos de sangue – como em Fargo e Matadores de Velhinhas.

Em Um Homem Sério, não chega a haver banho de sangue, coisa em que os Coen também se especializaram, desde sua estréia, em Gosto de Sangue/Blood Simple, de 1984 – mas a violência com que eles mostram o dia a dia de uma família judia de classe média no Meio Oeste americano no final dos anos 60 é brutal, chocante.

Aquele meio social – famílias judias de classe média no Meio Oeste americano no final dos anos 60 – é bem conhecido de Joel e Ethan Coen: é exatamente o meio em que eles cresceram. Joel nasceu em 1954, Ethan, em 1957, os dois em Minneapolis, Minnesota – o mesmo Estado natal de F. Scott Fitzgerald e Bob Dylan.

         Tudo o que parecia chão firme vira areia movediça

O protagonista da história, Larry (Michael Stuhlbarg), é um professor de Física do segundo grau. Larry chegou à meia idade achando que tinha uma vida normal – mora numa casa confortável com a mulher Judith (Sari Lennick) e os filhos Danny (Aaron Wolff) e Sarah (Jessica McManus), que estudam em colégios judeus, aprendem a língua dos antepassados, são, ao menos teoricamente, todos tementes a Deus e professam o que manda a religião.

A partir do início da ação, e até a última tomada, tudo o que para Larry parecia chão firme vira areia movediça. A mulher o está traindo com um velho conhecido, Sy Ableman (Fred Melamed), amigo da família, e quer o divórcio e que ele saia de casa; a filha pratica pequenos furtos e só pensa numa cirurgia plástica no nariz; o filho não dá a menor pelota nem para o estudo nem para os preparativos para seu bar mitzvah, que está para acontecer em breve, e só pensa em ficar chapadão com maconha. O irmão mais velho, Arthur (Richard Kind), completamente disfuncional, é apenas um fardo que Larry tem que carregar – e um fardo que se mostra cada vez mais pesado. A vida profissional se vê de repente ameaçada por um estudante coreano que quer comprar uma nota melhor mediante bom pagamento em dólares.

De repente jogado num terremoto infernal, Larry vai recorrer à religião, ao aconselhamento dos rabinos – para descobrir que os rabinos não têm resposta alguma para dar a ele.

A vida concreta de Larry é virada pelo avesso – e ele não acha saídas nem no mundo dos homens nem no mundo de Deus.

Uma comédia?

         “Nenhum judeu foi molestado durante a produção deste filme”

“O riso é, obviamente, ‘um traço humano universal’, lembra o professor Massaud Moisés, em seu Dicionário de Termos Literários, citando uma obra de Victor Raskin, Semantics Mechanisms of Humor. “O motivo que o desencadeia numa cultura não funciona em outra: a causa do riso entre os ingleses recebe a indiferença dos filipinos, e vice-versa. E dentro da mesma cultura, a resposta emocional varia conforme as pessoas, desde a mais intensa até a mais fria, para não dizer que também muda de acordo com o temperamento de uma pessoa com o seu estado de espírito ao longo do dia.”

Enquanto víamos Um Homem Sério, e depois de vê-lo, e eu dizia diversas vezes “Mas tadinho do Larry”, Mary questionou que o filme é um ataque muito violento às tradições judias, à própria religiosidade, aos rabinos.

Os filmes dos Coen são sempre assim mesmo: ataques muito violentos, que não deixam pedra sobre pedra. 

No making of que acompanha o filme no DVD, Joel e Ethan Coen dizem que várias pessoas de comunidades judias do Meio Oeste participaram da produção do filme, trabalharam como extras; sabiam da história, do que o filme trataria – e não consideraram nada ofensivo a seus costumes, suas tradições. “Não queríamos rir de ninguém”, diz um dos dois irmãos – e em seguida vemos os dois em ação no set de filmagem dando gargalhadas.

Eterna e profundamente iconoclastas, irreverentes, os Coen botaram a seguinte frase, no final dos créditos finais do filme – aquele monte de letrinha miúda que a maioria das pessoas não lê: “No jews were harmed in the making of this motion picture”.

Nenhum judeu foi molestado durante a produção deste filme. (Molestado, ferido, machucado, incomodado.) Ao ver essa frase, que substitui a tradiconal “nenhum animal foi ferido durante a produção deste filme”, dei a única risada que essa imensa tragédia judia me provocou. Os Coen são fodinha mesmo.

         “Se Deus não existe, então tudo é permitido”

Mary ponderou que, ao fim e ao cabo, no frigir dos ovos, o filme passa uma mensagem assustadora, chocante: diante de tragédias ainda maiores, como uma doença grave, ou um furacão, ficam pequenas as tragédias como roubar, traficar, cometer uma fraude pela primeira vez numa vida até então honrada.

Algo bem próximo da grande dúvida que Dostoéviski levanta em Os Irmãos Karamázovi: se Deus não existe, então tudo é permitido.

(Por coincidência, vimos o filme no mesmo dia em que Dora Kramer comparou, na sua coluna, a frase de Dostoéviski com a realidade brasileira, em que o presidente da República e sua candidata ignoram todas as leis, e portanto em última instância a própria lei maior, a Constituição – e, se a Constituição não vale, então tudo é permitido.)

Outro judeu americano, Woody Allen, já passou por essa questão em alguns de seus filmes, em especial em Crimes e Pecados, sua versão pessoal do Crime e Castigo de Dostoiéviski, e O Sonho de Cassandra, uma variação sobre o mesmo tema.

Como Woody Allen retratou hábitos e tradições judaicas em diversos de seus filmes, é absolutamente natural que vejamos referências à sua obra neste O Homem Sério. Allen também já colocou em seus personagens todas as dúvidas fundamentais, as perguntas para as quais sabemos não haver resposta, mas que continuamos sempre fazendo, para usar a expressão de Kate Wolf. Vários personagens de Woody Allen foram – como o Larry dos Coen – levar suas dúvidas ao rabino.

Na comparação, os filmes de Woody Allen, por mais cáusticos que sejam, parecem suaves, doces, diante da forma como os irmãos Coen expõem suas histórias. Os filmes dos Coen cortam mais que peixeira de baiano. São imensas britadeiras que não deixam pedra sobre pedra.

Um Homem Sério/A Serious Man

De Joel e Ethan Coen, EUA, 2009

Com Michael Stuhlbarg (Larry Gopnik), Richard Kind (Tio Arthur), Fred Melamed (Sy Ableman), Sari Lennick (Judith Gopnik), Aaron Wolff (Danny Gopnik), Jessica McManus (Sarah Gopnik), Adam Arkin (advogado do divórcio), Amy Landecker (Mrs. Samsky), Alan Mandell (rabino Marshak) 

Argumento e roteiro Ethan e Joel Coen

Fotografia Roger Deakins 

Música Carter Burwell

Montagem Roderick Jaynes

Produção Focus Features, Relativity Midia, StudioCanal. Estreou no Brasil em 19/2/2010

Cor, 105 min

***

3 Trackbacks

  1. […] entre um segmento e outro. Já o de Paris teve 20 segmentos, 21 diretores (considerando Joel e Ethan Coen como uma entidade […]

  2. […] se passa e o filme foi feito, mais a Alemanha. O grande Martin Scorsese foi um dos produtores. Carter Burwell, o excelente autor das trilhas sonoras dos irmãos Coen, fez um trabalho […]

  3. […] absolutamente tudo em O Homem Que Não Estava Lá, que os irmãos Coen lançaram em 2001, é estiloso. Cada tomada dos 116 minutos do filme parece ter sido […]

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