Os Sicilianos / Le Clan des Siciliens


Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: Um bom, correto policial à francesa, à la anos 60. Não que seja datado, no sentido de hoje parecer velho, superado. Não. Henri Verneuil, que fez bons policiais nos anos 60, é sujeito de narrativa clássica, e narrativa clássica não fica datada. É um filme à la anos 60 porque era assim que se faziam bons policiais naquela época; as coisas eram mais suaves e mais lentas do que são hoje. De lá para cá vieram o estilo MTV, as tomadas curtíssimas, a montagem alucinada, a explicitude de tudo (o sexo, a violência), a tendência ao exagero do exagero, a multiplicação das explosões, das perseguições de carros. Não seria nem necessário ver diferenças em relação a um filme hollywoodiano de hoje em dia. Bastaria comparar este bom policial francês de 1968 com um bom policial francês mais recente, como MR73 – A Última Missão, de Olivier Marchal, para ver as imensas diferenças de estilo, de ritmo, de forma de ir desenvolvendo a história, de contar as relações entre os personagens. MR73, com Daniel Auteil, é francês, europeu, nas camadas mais profundas, na forma de ver e mostrar o mundo – mas, na aparência, é muito próximo de um policial ou de um filme de ação hollywoodiano.

Os Sicilianos, uma produção cara, bem cuidada, que Henri Verneuil fez em 1968 com parte do dinheiro vindo de Hollywood, da Fox Europe, uma subdivisão da 20th Century Fox, é um filme pré-MTV, pré-explicitude total.

         Um relato bem frio – tem até um aviso sobre isso

E é um relato frio, distanciado. Alguém poderia dizer brechtiano (eu não; minha admiração por Brecht é grande demais para me permitir simplificar as teorias dele). É uma narrativa fria – as cold as a cucumber, como os ingleses costumam dizer, e a professora Lúcia tentava ensinar a seus alunos na Cultura Inglesa de Pinheiros.

Tão frio, tão frio, que o diretor já nos avisa logo de cara, antes mesmo dos créditos iniciais, uma espécie assim de sua filosofia. É uma frase do escritor e dramaturgo Anton Tchekov, num letreiro grande, ocupando toda a tela:

“Quando eu desenho ladrões de cavalo, não digo que roubar cavalos é errado. Essa é uma preocupação dos jurados, não minha.”

Atrás desse letreiro, as primeiras tomadas mostram o Palácio da Justiça, em plena Île da la Cité, pertinho da Sainte Chapelle, no coração do coração de Paris. Começam os créditos iniciais – e aí o veterano Verneuil se permite um criativolzinho, coisa de pouca monta: ao longo da apresentação, ele usa o split screen, a tela dividida em duas – uma mais para os planos gerais, outra para close-ups. Vemos cenas de um presídio, de presos sendo levados em ônibus especiais para as audiências na Justiça.

Quando terminam os créditos, estamos vendo Alain Delon num dos corredores do Palácio da Justiça, algemado a um guarda, aguardando o momento da sua audiência. Vemos um guarda passando rapidamente algo para dentro do bolso do preso, e em seguida o preso é chamado para a audiência com o juiz. Pelo sumário que o meritíssimo faz, ficamos conhecendo o básico sobre o personagem de Delon: chama-se Roger Sartet, nasceu na Córsega, tem uma longa ficha criminal, que inclui roubos a joalherias e, numa fuga após um assalto, o assassinato de dois policiais.

Um criminoso barra-pesada, um policial abnegado

É um criminoso barra-pesada, o belo e bem vestido Roger Sartet.

Enquanto o juiz está lendo o sumário para o criminoso, entra na sala o inspetor-chefe Le Goff, interpretado por Lino Ventura. O espectador percebe de cara que Le Goff tem especial prazer em ver preso e condenado aquele bandido específico: passou muito tempo atrás dele, conhece tudo sobre ele. Le Goff é um policial sério, abnegado; naquele momento, está nos primeiros dias sem fumar, razão pela qual está sempre com um cigarro – apagado – na boca.

Depois de ouvir o relato de seus crimes mais recentes, Roger Sartet é escoltado até o ônibus especial que o levará de volta à prisão. Estamos com cinco minutos de filme, e, nos dez, 15 minutos seguintes, o diretor Verneuil mostrará, com toda a calma, paciência e frieza do mundo, como Sartet fará para fugir, com a ajuda de um bem coordenado bando.

O bando que ajuda Sartet a fugir, veremos em seguida, é o do veterano Vittorio Manalese – interpretado pelo na época mais veterano, mais famoso e mais respeitado ator do cinema francês, Jean Gabin, um mito, uma lenda viva. Manalese é um siciliano que deseja agora, no final da vida, voltar para a terra natal. Mas ainda quer – é uma coisa dura, a ambição – juntar um pouco mais de dinheiro antes de deixar a empresa de jogos eletrônicos que serve de fachada para seus negócios do outro lado da lei e a Paris onde se radicou tempos atrás. O jovem Sartet vai oferecer a ele um plano arriscado, mas milionário: o roubo de uma coleção magnífica de jóias, então em exposição em Roma, antes de seguir para nova exposição em Nova York.

Manalese não vai com a cara de Sartet – acha que ele é muito jovem, muito instável, muito mulherengo. No código de Manalese, matar, só em último caso; matar policial, então, é bobagem suprema. Como bom siciliano, Manalese gosta de família – seus três filhos trabalham com ele –, gosta de mandar em tudo relacionado à família, e desgosta profundamente de coisas como, por exemplo, as saias ou vestidos acima do joelho usadas pela nora Jeanne (Irina Demick), que além de tudo sequer italiana é.

Com toda a calma, paciência e frieza do mundo, Verneuil vai mostrar o golpe seguinte da família Manalese – um golpe arriscado, ousadíssimo.

Um dos pontos altos do filme, talvez até o melhor de tudo, é a trilha sonora, assinada pelo mestre Ennio Morricone. A música surge imponente já nos letreiros iniciais – com a assinatura, clara, distinta, única, de Morricone. Eu já conhecia bem o tema principal da trilha, de um dos vários discos do mestre que tenho. É de babar.

         Um elenco que era assim como ter três Pelés

O veterano Jean Gabin e a então sensação jovem e bela Alain Delon já haviam trabalhado juntos sobre a direção de Verneuil num outro belo policial, Melodie en Sous-Sol, no Brasil Gângster de Casaca – um filme que vi bem garoto em Belo Horizonte e que me fez babar, com um final surpreendente, maravilhoso.

Ter Gabin, Delon e mais Lino Ventura num único filme era um feito, algo como ter três Pelés num ataque só.

(Depois que escrevi esta anotação, na hora de pegar a ilustração e publicar o post, vejo que a frase do alto do cartaz do filme diz exatamente isso: “Juntos, os três grandes do cinema francês”. Aliás, essa foto aí não é de cena alguma do filme, até porque os três nunca aparecem juntos numa mesma tomada; é de uma série de fotos para divulgação do filme, realçando exatamente a reunião dos três atores.)

Um filme com um elenco destes mereceria ter uma figura feminina maior do que Irina Demick (na foto abaixo). Irina Demick não é feia – mas também não é belíssima, nem tem especial glamour ou charme. Assim que vi o nome dela nos créditos iniciais do filme, me lembrei de uma história que ouvia falar quando era garoto, a época em que vi Gângster de Casaca. Irina Demick foi uma invenção de Darryl F. Zanuck, um dos tycoons, dos grandes magnatas de Hollywood; era o chefão da 20th Century Fox, e escalou a moça que estava comendo na época para um papel na super-hiper-megaprodução O Mais Longo dos Dias/The Longest Day, de 1962, e em outros filmes do estúdio – este aqui inclusive.

A história de que ouvi falar garoto, ainda em Belo Horizonte, não é papo-furado. Está lá no iMDB: “No final dos anos 50, Zanuck abriu mão do controle do dia-a-dia do estúdio, abandonou sua mulher, e se mudou para a Europa onde se concentrou na produção. Muitos de seus últimos filmes foram imaginados em parte para promover as carreiras de suas sucessivas namoradas. Bella Daryi, Juliette Gréco, Irina Demick e Geneviève Gilles – nenhuma das quais caiu no gosto de diretores ou das audiências.”

         Atenção: a partir daqui, estraga-prazer, entrega-história, spoiler

Assim como o tycoon Zanuck, o bandido Roger Sartet era homem de perder a cabeça por causa de um belo rabo. O desenrolar dessa parte da história, já bem para o final da narrativa, segue o estilo do resto do filme: frio, distante, distanciado. Mas é muito interessante. Os sicilianos não gostam de assassinos – mas, quando se trata de crime contra a honra da família, aí eles ficam realmente fulos da vida.

Um último detalhinho: infelizmente, a versão do filme que saiu em DVD no Brasil, pela ClassicLine, é a versão americana, para distribuição no mercado internacional – portanto, dublado para o inglês. É de fato uma dureza ter que ouvir os francesíssimos Gabin e Delon, mais o italiano radicado na França Ventura, falando em inglês. Mas é isso ou não ver o filme. Então, paciência.

Os Sicilianos/Le Clan de Siciliens

De Henri Verneuil, França, 1969

Com Alain Delon (Roger), Jean Gabin (Vittorio Manalese), Lino Ventura (inspetor Le Goff), Danielle Volle (Monique Sartet), Irina Demick (Jeanne), Amedeo Nazzari (Tony Nicosia), Elisa Cegani (Maria), Sydney Chaplin (Jack) 

Rogeiro Henri Verneuil, José Giovanni, Pierre Pelegri

Baseado no livro de Auguste Le Breton

Fotografia Henri Decaë 

Música Ennio Morricone

Produção Fox Europa e Les Films du Siècle

Cor, 120 min.

***

12 Comentários para “Os Sicilianos / Le Clan des Siciliens”

  1. Não perco um filme sequer do diretor Henry Verneuil(1920-2002).Foi um dos maiores cineastas que conheci.Seu:”Vigésima Quinta Hora”,com Anthony Quinn,é Meu Preferido.Este drama policial é excelente,ainda mais reforçada pela magnífica trilha sonora de Ennio Morricone.

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