Domínio de Bárbaros / The Fugitive

Nota: ½☆☆☆

Anotação em 2010: A Versátil lançou neste ano, 2010, Domínio de Bárbaros/The Fugitive em DVD. O filme, de 1947, é dirigido por John Ford, estrelado por Henry Fonda e baseado em um livro de Graham Greene – três mestres.

Achei o filme um absoluto horror.

Em geral, começo as anotações com minhas impressões sobre o filme, com a descrição da base da história e dos personagens segundo minha visão pessoal – para depois juntar informações objetivas, factuais.

Em respeito aos três grandes nomes, e também aos eventuais leitores que caírem aqui à procura de informações, vou inverter as coisas. Começo com as informações, os fatos, e deixo para desancar com o filme no fim. Assim, quem quiser fica só com o factual.

Nos créditos iniciais, aparece em letras bem pequenas a informação de que o roteiro – de Dudley Nichols – se baseia no livro The Labyrinthine Ways, de Graham Greene. Diacho, nunca soube da existência desse livro do grande autor inglês. Só depois fui ver que The Labyrinthine Ways foi o título que os editores americanos deram a The Power and the Glory, O Poder e a Glória, que muitos têm como a obra-prima de Greene.

Não é uma adaptação fiel do livro. Muito ao contrário.

O livro de Greene, lançado em 1940, se passa no México, no Estado de Tabasco. O governo é violentamente contra a religião católica; a religião foi proibida, diversos padres foram mortos ou obrigados a abandonar o sacerdócio. A obra conta a história de um padre, de quem não se fala o nome.

A situação mostrada no livro aconteceu de fato no México, durante o período em que o país foi governado por Plutarco Elías Calles, entre 1924 e 1935, e a repressão anticlerical foi mais forte exatamente em Tabasco. Ou seja: Graham Greene fez uma história de ficção com base em uma situação real, explicitando o lugar onde se desenrola sua trama.

         Por que não dar nome aos bois?

O filme, ao contrário, foge dessa explicitude. E foge explicitamente: logo depois dos créditos iniciais, enquanto vemos na tela um homem montado numa mula, percorrendo um campo deserto, um locutor, com voz empostada, diz o seguinte,:

– “Esta é uma história atemporal. É uma história real. É também uma história muito antiga, contada pela primeira vez na Bíblia. É atemporal e atual, e continua acontecendo em muitas partes do mundo. Este filme foi inteiramente feito no México, a república que é nossa vizinha, atendendo a amável convite do governo mexicano e da indústria cinematográfica mexicana. O local em que se passa é fictício. É um mero pequeno estado 1.600 km ao norte ou ao sul do Equador. Quem sabe?”

Textinho ruim, esse – mas vamos deixar as opiniões para depois.

Tudo bem: então o governo mexicano do final dos anos 40 convidou John Ford para filmar lá a adaptação do romance de Graham Greene; possivelmente queria se penitenciar do passado anticlerical, do período sombrio de perseguição duríssima aos religiosos. Mas então por que transformar o que era no livro o México em um lugar fictício, qualquer país latino-americano a 1.600 km do Equador?

Sei lá eu.

O protagonista do livro não tem nome, assim como o do filme – no filme, o padre, claro, é interpretado pelo excepcional Henry Fonda, que já havia feito grandes filmes com John Ford, Vinhas da Ira e Paixão de Fortes/My Darling Clementine, entre outros. Mas, no livro, ele é chamado muitas vezes de “padre uísque”: é um beberrão, e mulherengo, pai de uma garotinha, fruto de um caso com uma moça de seu vilarejo.

O roteirista Dudley Nichols e o diretor Ford extirparam os pecados do seu protagonista: o padre do filme não bebe e não come mulher alguma; foge da polícia, sim, assim como o do livro, e se considera um covarde. Mas é um santo homem; tenta cumprir suas obrigações sacerdotais, consolar os aflitos, abençoar os agonizantes, batizar as crianças.

         O que era um homem fraco, pecador, vira uma fortaleza, um herói fordiano

Para Graham Greene, um dos maiores escritores católicos que o mundo já conheceu, a redenção era sempre extremamente dolorosa, só podia ser alcançada depois de intenso sofrimento. Ford transformou o fraco, angustiado personagem do livro em mais um herói fordiano, uma fortaleza, como tantos que John Wayne interpretou.

Mais algumas informações. A direção de fotografia de The Fugitive é de Gabriel Figueroa, tido como o mais importante fotógrafo do cinema mexicano. Todas as resenhas sobre o filme que li fazem elogios rasgados à fotografia do filme.

Em algumas delas, é dito que The Fugitive é uma das obras preferidas do próprio Ford – era um de seus filmes de que o mestre mais gostava. Se isso for verdade, e deve ser, Ford é bem mais doido do que eu imaginava.

Depois de The Fugitive, o livro O Poder e a Glória teve uma adaptação para a TV britânica em 1959, considerada bastante fiel ao romance. Houve uma nova versão, feita para a TV americana, em 1961, com o inglês Laurence Olivier no papel central, com o mesmo título do romance, que foi exibido nos cinemas mundo afora, Brasil inclusive. Em 1956, foi adaptado para o teatro por Denis Cannan, com apresentações em Londres e Nova York.

         Sombras mais esmagadoras, mais imponentes que as pessoas

Pois bem.

Eu achei o filme ridículo, imensa e ofensivamente ridículo. Em tudo por tudo – até mesmo na sua única (na minha opinião) qualidade, a bela, forte, impressionante fotografia do mexicano Gabriel Figueroa – 13 prêmios importantes, entre eles o Globo de Ouro, a associação americana de cinematografia e o Festival de Cannes.

Para fotografar The Fugitive, Figueroa bebeu muito do expressionismo alemão: joga com o muito claro e o muito escuro, com sombras. Há diversas tomadas em que as sombras são mais importantes, maiores, mais esmagadoras que as pessoas. Há diversas tomadas, planos gerais, de campos, montanhas ao fundo, em que uma forte neblina tinge a tela de branco. Há diversas tomadas, close-ups, em contre-plongée, câmara embaixo, objeto focalizado em cima, em que os rostos dos personagens aparecem com o fundo, o céu, inteiramente branco, como retratos em estúdio.

O Fugitivo tem mais plongée e contre-plongée do que Cidadão Kane, o filme que mais soube usar esse recurso da câmara abaixo ou acima do objeto focalizado. Tem isso demais – o que é anormal, já que na imensa maior parte do tempo olhamos as coisas na mesma altura de nossos olhos, nem olhando super para baixo nem super para cima.

Até mesmo essa fotografia forte, impresionante, cheia de talento (a única qualidade do filme, na minha opinião, repito) torna-se defeito. Porque é exagerado. É over do over do over. A fotografia fica berrando no ouvido do pobre espectador: olhem como eu sou genial! Exagero, bobagem.

         Atores exagerando gestos, roteiro ruim

Que me perdoem os fãs de carteirinha do mestre Ford (e eu sou um deles), mas, na minha opinião (tudo aqui é na minha opinião pessoal; não é verdade absoluta, é a minha forma pessoal de ver), todos os atores estão péssimos, estão falsos, estão exagerados, estão grotescos. Fazem caras e bocas e gestos exagerados, como se estivessem numa peça de teatro mal dirigida precisando forçar a barra para serem entendidos pelos espectadores da última fileira.

O roteiro é ruim, muito ruim. Há longas tomadas absolutamente desnecessárias à narrativa, parecendo que precisam encher lingüiça para chegar ao tamanho de um longa-metragem.

Uma das primeiras seqüências já denuncia os muitos erros do filme. O homem que foge na mula, o protagonista, vê uma igreja, no alto de uma colina. A música, ridícula, óbvia, insistente, estridente, berra para o espectador: sinta o clima dramático, espectador! O protagonista aproxima-se da igreja, dirige-se à porta fechada da igreja. Corta, e temos uma tomada em que a câmara está voltada para o chão da igreja. O protagonista abre a porta, a luz que vem de fora da igreja penetra no chão (a luz, a sombra, olha aí o expressionismo alemão, gente!), a luz pega o homem com os dois braços abertos abrindo a porta, e então projeta-se no chão da igreja, que ocupa praticamente toda a tela… uma cruz!

O homem adentra o chão sagrado da igreja. O grande Henry Fonda, incapaz de fazer uma má interpretação, esforça-se para demonstrar angústia. Adentra a igreja imersa no quase escuro, e olha para uma pequena janela redonda, onde há uma grade… em forma de cruz!

Ah, pelamordedeus, né, mestre Ford, grande Gabriel Figueroa? É muita obviedade demais da conta, não?

         Um bando de americanos falando de uma realidade que não compreendem

E aí adentra a igreja uma mulher, uma jovem senhora, uma madona, véu sobre os cabelos, como uma Nossa Senhora. O diálogo que se segue é risível – ela pergunta quem ele é, ele diz que foge da polícia, ela pergunta se ele roubou, se matou, ele diz que é um padre, e dali mesmo, daquele povoado, e aquela é sua igreja.

Dolores Del Rio, uma das grandes atrizes mexicanas da metade do século XX, está péssima, está horrorosa no papel da falsa Maria Madalena. No livro, o personagem de Maria Dolores é a mãe do filho do padre; no filme, é a mãe do filho do tenente que passará toda a narrativa perseguindo o padre. O tenente é interpretado por Pedro Armendáriz, um dos maiores atores mexicanos, está péssimo, está horroroso como o brutal tenente.

Toda a polícia é brutal demais. Escandalosamente brutal.

Todo o filme passou para mim, com muita força, a idéia de que era um grupo de americanos tentando falar sobre uma realidade que desconhecem.

Os mexicanos todos, ou praticamente todos, acabam aparecendo como idiotas, débeis mentais. Quer dizer, os latino-americanos, já que a história se passa em país fictício. Pior ainda.

Vou tentar explicar a sensação que o filme me passou.

O grande Milton Nascimento – tão grande na música popular quanto John Ford na direção, Henry Fonda na atuação, Graham Greene no texto – às vezes pisa no tomate. Às vezes, em especial em apresentações ao vivo, faz um esforço grande para exprimir o que a letra da canção quer dizer. Acentua as palavras, quer mostrar que aquela frase, aquelas palavras, são especialmente belas. Fica falso, fica piegas, fica bobo.

Para mim, é isso. Quando mestre Ford resolveu tratar de questões importantes, fundamentais – a ditadura, o regime de exceção, a falta de liberdade, a distopia, e a religião, a fé –, exagerou. Deu uma de Miltão quando Miltão escorrega. (Os grandes escorregam.) Fez um filme falso, bobo. Ridículo.

E jogou no lixo uma obra-prima da literatura.

Domínio de Bárbaros/The Fugitive

De John Ford, EUA-México, 1947.

Com Henry Fonda, Dolores Del Rio, Pedro Armendáriz, J. Carrol Naish, Leo Carrillo, Robert Armstrong, Ward Bond

Roteiro Dudley Nichols

Baseado no livro O Poder e a Glória, de Graham Greene

Fotografia Gabriel Figueroa

Música Richard Hageman

Montagem Jack Murray

Produção Argosy Pictures, John Ford e Merian C. Cooper

P&B, 99 min

1/2

Um Comentário

  1. Postado em 25 setembro 2010 às 12:59 am | Permalink

    Vou fazer uma coisa que não costumo: evitar um filme. E do maior diretor de todos. Mas eu penso que não aguentaria, teria vergonha por ele. Aqui mesmo concordei que um bom filme se faz com boa história, bom roteiro, bons atores. Acho que esquecemos de acrescentar o necessário bom senso.

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  1. […] mexicano é o mexicano mais tradicional de todos os mexicanos do western, Pedro Armendáriz – a barba sempre por fazer, o aspecto geral dando uma impressão de sujeira, de desleixo, frases […]

  2. […] o espectador também verá trechinhos – de Rastros de Ódio/The Searchers, o grande clássico de John Ford, e um dos filmes da série Dirty […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Entre Dois Mundos / Partition em 27 setembro 2015 às 5:12 pm

    […] John Ford não conseguiu fazer um bom filme ao mostrar uma realidade especificamente mexicana, em Domínio de Bárbaros/The Fugitive (1947). No Tempo das Borboletas/In the Time of the Butterflies (2001), uma co-produção […]

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